Amor à moda antiga
7 Capítulo 7
Notas iniciais
No dia seguinte, eu mandei tudo para os ares e resolvi espairecer as minhas ideias. Era muito problema para uma cabeça só. Numa semana eu descubro que estou apaixonado por um cara muito foda de incrível. Na outra eu reato a minha amizade com ele para tentar firmar os meus sentimentos. Depois, num dia eu estupro ele sem que Naruto tenha ciência e sem o mínimo de respeito por ele, com plena consciência do que eu estava fazendo! E agora eu vou me casar obrigado com uma pessoa que eu nem conheço por causa de uma guerra!!!
–Ah vá se ferrar! – resmunguei enquanto dirigia na direção do shopping com Sarada no banco de trás, observando o mundo pela janela – Vamos nos divertir, certo Sarada?
–Sim papai! – ela respondeu sorrindo.
Eu precisava me concentrar no passeio, me concentrar na minha filha amada, que clamava por se divertir comigo no pouco tempo que eu tinha para dedicar a ela dessa vida quase dupla que eu levo. Estacionei o carro, busquei-a e caminhei para dentro do prédio refrigerado. Trouxe-a para os meus braços e fitei a minha lateral direita.
Sakura estava conosco toda faceira e chupava um pirulito sabor morango, com uma das mãos enfiadas em seu moletom masculino azul – que era meu, mas ela roubara então tudo bem – exibindo seu novo corte de cabeço: todo comprido e somente uma pequena área da lateral esquerda completamente raspada. Uma boina rosa estava presa no outro lado, ressaltando ainda mais o lado esquerdo e ela usava sua clássica maquiagem “Morra de inveja dos meus olhos cor de esmeralda, bando de filho da puta”. Suas botas de soldado com salto a deixavam com ares ainda mais arrogantes, enquanto seu vestido rosa, da mesma cor da boina, quebrava todo o clima. Mas era assim que Sakura se via hoje: quebradora de clima.
–Sakura... Acha que um dia a guerra vai começar novamente? – ela me fitou com desdém e deu de ombros – Eu estou falando sério, pata choca. – Sakura riu e direcionou um pouco da sua caríssima atenção para mim – Se um dia a guerra começar, você vai ter que tomar partido.
–Eu vou tomar partido dos que não estão nem aí! – ela riu novamente com desdém.
Segurei seu rosto pelo queixo com dois dedos e franzi o cenho.
–Não existe esse. Ou você é aliado ou inimigo, mesmo que isso seja muito relativo. – eu me referia ao fato de que é muito relativo numa guerra quem tem a culpa de quê. Um pode chamar o outro de culpado por n-razões e assim se segue. Numa guerra, não há vencedores, apenas sobreviventes. – Vai haver uma guerra e você vai ter que ficar em um dos lados que lutarem. – ela suspirou e deu de ombros de novo – Não se importa com isso?
–Claro que não! – ela riu — Acha que eu vou perder meu pouco de tempo de vida pensando nessas coisas idiotas? Isso não tem nada haver comigo.
Suspirei cansadamente e fitei Sarada. Só com aquelas palavras eu percebi que Sakura seria uma vítima da guerra ou um estorvo para alguém. Os Harunos não são guerrilheiros, tem pouco influência política, são uma raça de mestiços, a única coisa boa entre eles é o fato de saberem conviver, de modo que conhecem várias pessoas importantes, mesmo que isso não signifique que eles possam influenciar qualquer cosia. Os Harunos se tornariam aliados, de um lado ou de outro. Dane-se.
–Sabe o que eu queria achar hoje? – ela falou sentando-se no banco da praça do shopping que acabávamos de entrar, enquanto eu dava algumas fichas para Sarada jogar videogame.
–Dinheiro? – eu sugeri.
–Não. – ela tirou o pirulito da boa e me fitou com seriedade. Esperei a resposta de sua própria pergunta – Eu queria achar um homem fodidamente hard para mim.
Eu comecei a rir.
–Olha só. – eu me sentei ao seu lado. Sakura cruzou sugestivamente as pernas e apoiou os cotovelos no joelho mais alto, para só então apoiar o queixo nas mãos – Estamos num dia de criança, então esqueça. Nós vamos encontrar crianças, adolescente pregos, pais e mães, mas não o que você quer. Se conforme. Esse tipo de cara não existe.
–Deixa de ser pessimista! – ela se ergueu irritada – Claro que existe e eu vou encontrá-lo! Vai ver ele é um pai de família, que nem precisar ser casad... – ela ia falar, mas alguma coisa atraiu o olhar de Sakura ao ponto de seu queixo ficou aberto e o pirulito quase caiu.
Ela fechou a boca, mantendo o doce dentro dela, continuou acompanhando a “alguma coisa” até que ele entrou numa sala de portas escuras e cortinas brancas, impedindo que os de fora vissem os de dentro. Eu tentei saber o que era, mas na hora que olhei a “alguma coisa” já havia entrado na sala.
Sakura, que jamais soube ser discreta na vida, correu desesperadamente para aquela sala e eu tive que praticamente arrancar Sarada de um jogo de tiro para não perder a tia da menina de vista. Quando chegamos diante da porta, eu vi que se tratava de um bar. Olhei instintivamente para Sarada e fiquei me perguntando se eu poderia entrar. Dane-se, já entrei. Empurrei a porta e num rápido puxão coloquei Sarada em meu colo, sustentando-a com firmeza. Um enorme corredor se abriu para mim, com as paredes revestidas de material a prova de som preto e o piso coberto por carpete vermelho.
–E lá vamos nós, querida. – a menina assentiu, extasiada por querer saber o que havia no fim do corredor. Agucei meus ouvidos e meu olfato e comecei minha caminhada para frente. Não havia portas ou outras entradas, apenas o longo corredor isolado do resto do shopping.
Quando finalmente me deparei com uma porta, que estava semiaberta eu senti o cheiro do perfume extravagante de Sakura e soube no momento que ela estava logo atrás dela. Além do perfume eu ouvi música tocando, alta, animada, eletrônica e feroz. Isso era um bar mesmo? É agora que eu descubro. Empurrei a porta e me deparei com uma boate, mas não havia muitas pessoas dançando como é típico das boates. Todos estavam em um aglomerado circular, gritando, assobiando e de braços para o alto dançando loucamente.
Havia plataformas em alguns pontos do bar – ou seria boate? – onde pessoas dançavam, exibindo suas qualidades animalescas exóticas e diferenciadas. Variavam entre machos e fêmeas e cada um dançava ao seu estilo, de acordo com sua espécie. Mas havia uma plataforma mais larga, onde a maioria das pessoas estava se remexendo em torno, no ritmo animado das músicas mixadas pelo D.J.
Party People — Nelly feat Fergie(ouçam para melhorar o capítulo)
Desci as escadas, caminhando lentamente por entre as armações de ferro, até chegar à pista e constatar que eu não conseguia ver mais nada, exceto uma massa animal de seres pululantes e ritmados. Aquela plataforma maior ficava bem no meio da pista e o dançarino que estava nela era um macho, provavelmente um lobo vermelho. Seria parente de Mito?
As pessoas me olhavam com estranheza por ter uma criança ali naquele meio “adulto”.
Fitei minha filha em meus braços.
Ela estava encantada com o cara dançando na plataforma.
–Está vendo a tia Sakura, Sarada? – a menina negou mal piscando.
Onde ela poderia estar? Um grito estridente me deu a resposta. Olhei para o lado como se eu fosse ver a própria medusa, mas nada verdade eu vi Sakura saltitando loucamente de braços erguidos e bradando de quando em quando para um dos dançarinos. Era justamente o cara do centro. Esse cara está ganhando todas. Senti uma mão em meu ombro, que me fez fitar as minhas costas. Pela cara de cafetão deveria ser o dono daquele lugar.
–São proibidas crianças aqui. – ele falou suando frio.
–E daí? – falei rispidamente. Assim que ele viu meu rosto, tomou um susto e esbarrou em alguns adolescentes que pulavam loucamente. Ser fisicamente um Uchiha tem suas vantagens quando se é bastante temido e respeitado.
–De-Desculpe senhor! Venha por aqui! – ele me levou para uma sala mais tranquila, e lá vi alguém que me fez sorrir, apesar da sua cara emburrada – Não acredito que alguém tão ilustre como o senhor precise ficar num lugar caótico como esse! Aqui sua menina pode descansar e brincar se quiser! – coloquei Sarada sentada no sofá e fitei-o – A que devo a honra de sua visita a esse humilde lugar de entretenimento?
Sentando no canto do sofá, jogando concentradamente videogame pelo celular, estava Boruto. Se Boruto estava ali, significava que Naruto estava em algum lugar por ali. A enorme blusa azul do moleque trazia os dizeres “I’m the B.E.S.T! Fuck yeah!”, o que me fez rir, pois ele nem parecia essas coisas todas que a camiseta dizia. Ele nem me viu, mas assim que colocou os olhos sobre Sarada, alargou seu sorriso e corou, oferecendo a ela o celular para jogar.
–Só estou procurando minha cunhada. – levantei-me até o vidro a prova de som e vi-a enlouquecida, querendo subir na plataforma, mas sem poder por ser muito alta – Já a achei... Bem ali... – apontei com o nariz. – Qual é a desse dançarino?
Ele veio rapidamente para ver quem eu indicava.
–Aquele? – o homem enxugou seu suor da testa – É o nosso melhor dançarino. Trabalha para nossa empresa a quase dez anos.
–Sério? – falei sem interesse.
–Antes da gente ele estava preso e não sabemos mais nada sobre ele.
–Sei... – ele continuava rebolando com as mãos apoiadas nos joelhos, exibindo sorrisos para todos os que o assistiam. Aquele rebolar me pareceu familiar – Ele parece bem cobiçado.
–Na verdade, pessoas muito ricas pagam para vê-lo dançar de modo particular, mas ele nunca fez programa. Aquele garoto ali brincando com sua filha é filho dele.
–Como é?! – agucei minha vista e vi que realmente era Naruto. Eu reconheceria aquele rebolado do demônio de tão sensual que era até no escuro. O cara dançava melhor que as mulheres dali. Não havia uma só música que ele não encantava quem o assistia. Eu não sou entendido de dança, mas eu sei que a cada movimento que ele fazia com seu corpo, um ou duas pessoas eram hipnotizadas e gritavam, e aplaudiam, e pulavam, e se jogavam loucamente umas por cima das outras.
Ele sorria sedutoramente e se remexia provocativamente no ritmo. Tenho que admitir, é praticamente impossível eu descrever o espetáculo que eu vi naquela tarde porque simplesmente não tem como eu tratar de um assunto que eu desconheço.
Uma expressão: de cair o queixo.
Olhei para Sakura e vi o tamanho do desespero de ela por ele. Sério isso?
Quero dizer, precisa realmente disso por causa de um cara que sabe dançar?
–Isso! Rebola para mim! – gritava Sakura. – Seu gostoso! Gostoso! GOS-TO-SO! – ela continuava gritando. Eu não sei se acho graça ou se saio correndo envergonhado por esse comportamento desesperado por causa de um homem.
–Quando posso falar com ele? – perguntei sorrindo.
–Assim que o show acabar.
–E quando acaba? – perguntei nervoso.
–Em meia hora, senhor. – assenti – Posso lhe servir algo?
–Suco para minha filha e um duplo para mim.
–Sim senhor! Por conta da casa!
Exatamente meia hora depois todas as luzes se apagaram, provocando gritinhos esganados no público e barulhos estranhos de engrenagens. Cinco minutos depois as luzes acenderam e não havia mais dançarinos, nem plataformas e nem mais nada. Só o D.J. colocando todo mundo para pular e cantar. Olhei instintivamente para a porta e vi Naruto entrar com uma toalha cobrindo parcialmente a cabeça e o rosto. Ele esfregava o pescoço e ofegava cansadamente.
Assim que me viu sorriu, eu notei os band-aids em seu rosto, além de dois grandes curativos: um em seu nariz e outro na lateral esquerda do seu rosto. Eram as marcas do meu crime. Eu gelei porque eu me recordara daquela noite. Aquela noite. Que vocês estão pensando. Eu nunca me sentira culpado antes por um crime meu e agora eu estava. Consciência pesada é foda, viu, muito foda. Naruto se olhou numa superfície espelhada, percebendo que eu estava encarando seus ferimentos, e deu de ombros ao ver que nenhum curativo saíra do lugar.
Se Naruto continuava sorrindo, como se nada tivesse acontecido, significa que ele ou estaria disfarçando por causa das crianças ou realmente não sabia que fora eu que o estuprara e o drogara. Seu olhar nada me dizia, apenas “´Que bom te ver!”. A segunda opção seria o mais provável por causa daquele olhar. Virei o rosto rapidamente, sentindo um sentimento muito perigoso para um assassino. Vergonha.
É uma merda você se encontrar quem você estuprou, mas o que aliviava as minhas tensões era o fato de que Naruto continuava sem saber inteiramente do acontecido. Um dos meus infiltrados nos departamento que trabalha com sequestros me informou que fizeram uma investigação depois da denúncia que o cara fizera e descobriu que Naruto deu um depoimento a polícia. Para minha sorte, ele se recordava muito pouco do que ocorrera naquela noite. As drogas em seu corpo prejudicaram a sua memória e os seus sentidos. Seu relato fora muito vago e cheio de lacunas memoriais.
Por ser quem é, Naruto foi praticamente torturado para contar a verdade, não que ele precisasse mentir sobre o que acontecera consigo. Por que ele mentiria? Quero dizer, policial mentiria para a própria polícia? Por que? Oh merda de homem para distorcer tudo o que eu penso ter certeza. Continuei com os olhos para o vidro.
–Hei! E aí Sasuke?!
–E aí? – comentei fingindo olhar para a pista com algum interesse.
–Tranquilo. Trouxe a pequena para dançar? – ele sugeriu. Vi pelo reflexo do vidro que ele cumprimentou alegremente a minha filha e afagou em seguida os cabelos do filho. Será que Boruto sabia que seu pai fora sequestrado, drogado a força e estuprado? É claro que não! Repreendi-me instantaneamente.
É claro que Naruto não permitiria que seu filho se corrompesse de tal forma com situações tão negativas. Eu ri e neguei. Respirei fundo e tentei me acalmar. As memórias daquela noite queriam retornar, mas elas não podiam, não agora.
–Que garotinha tão linda! – virei-me e sorri da voz estranha que ele estava usando para conversar com minha filha. – Você é uma linda garota! É sim! Muito linda!
Sarada agarrou na altura do pescoço e se deixou levar aos pulos para os braços dele. Naruto começou a dar breves saltos, fazendo Sarada rir ainda mais. Franzi o cenho e cruzei meus braços. É que apesar de ser uma coelha, Sarada tem algumas raras características de gato e uma delas é de ser desconfiada e não gostar de estranhos. Mas ela parecia conhecer Naruto de muito tempo, apesar de ser a primeira vez que os dois se encontravam.
– Você é a coelha mais linda que eu já vi na minha vida! E não deixe ninguém dizer o contrário! Qual é o seu nome, coelhinha linda? – ele perguntou sentando ela no sofá novamente e se acocorando perto dela.
–Sarada Haruno. – ela falou sorrindo. – E aquele é o meu papai! – ela apontou para mim com um sorriso enorme no rosto. Naruto e eu trocamos sorrisos e acenos.
–Você parece com ele, mas eu tenho certeza que puxou a sua beleza da sua mãe. – ela corou e sorriu como a princesa que é — Que óculos lindos! Ficam lindos em você!
–Sério?! Obrigada! – depois desses elogios, nunca mais Sarada odiou o fato de usar óculos.
Naruto olhou para Boruto e este apenas deu de ombros, escondendo seu rosto enrubescido, provocando um sorriso cheio de conhecimento no pai. Esse galego tem o sexto sentido de uma mãe, com certeza. Aqueles dois pareciam não estar mais brigados, ou era impressão? O cara foi para uma porta e por lá deixou-nos. Eu quis ir atrás dele, mas uma batida assustadora de forte na porta me fez retroceder na ideia. Boruto se levantou e se colocou em pose de proteção diante de Sarada.
O dono da boate abriu a porta com medo e por ela passou o furacão Sakura, quase derrubando o pobre porco. Sim, o cara era um porco. Literalmente.
–Onde ele está?! – ela falou ferozmente, praticamente babando pelos olhos – Eu o vi entrar aqui, então me diga homenzinho! Onde está aquele dançarino enviado pelos deuses?! – Sakura ergueu o homem do chão pela gola da camisa e sacudiu-o violentamente.
Eu ri indo sentar-me com Sarada e Boruto.
Ela ouviu o meu riso, de modo que largou o homem no chão e veio até mim, com os olhos chorosos de cachorro pidão – ou seria coelho pidão? – com as mãos postas em prece diante dos seios. Sakura se sentou ao meu lado, sem perceber que Boruto estava ali, obrigando o menino a rolar para o lado e praticamente cair do sofá. Notei a face de preocupação que minha filha fizera ao ver o garoto cair. Sorri.
Eu estava vendo um sentimento surgindo? Talvez sim, talvez não. Concentrei-me no estado caótico que Sakura se encontrava, parece que realmente ela achara alguém que a deixaria de quatro no chão, para estar tão abalada. Eu ia beber meu drink, mas do nada ela o tomou de minha mão e começou a engolir tudo de vez, sem nem respirar.
–Sakura! – reclamei.
–Quem é Sakura? – ouvi a voz tranquila de Naruto e sorri. Sakura cuspiu todo o líquido de sua boca para frente na hora que Naruto passou de calça e camisa pretas, moletom, tênis e boné laranja carregando dois copos de bebidas nas mãos. O cara pode ser simples, mas é lindo.

Ele acabara de sair de, talvez, seu camarote e veio até mim me trazendo um daqueles drinks enquanto o outro ele próprio tragava. Era exatamente o que eu queria e ele simplesmente acertara. Só pode estar de sacanagem comigo. Ele sabe do que eu gosto? Como assim?
–Eu sou Sakura!!! – a própria gritou saltando no pescoço dele, derrubando tudo o que estava pela frente, assustando Naruto e me fazendo rir. – Você é simplesmente perfeito!
–Que é isso, garota? – ele falou se soltando dela – Vai com calma com o andor que o santo é de barro! – os dois se afastaram e nós dois, eu e Naruto, rimos da bagunça que ela fizera – Olha só para isso... Boruto, pegue uma vassoura para mim, por favor.
O menino assentiu e foi buscar o tal objeto pela mesma porta por onde Naruto saíra. Voltou alguns instantes depois com uma pá e uma vassoura. O cara começou rapidamente a limpeza da sala, tomando cuidado com os cacos de vidro e nos ameaçando com a vassoura se não ficássemos em cima do sofá enquanto ele varria.
–Ei Sasuke. – ele me chamou enxugando o tapete das bebidas derrubadas.
–Diz. – respondi admirando seu corpo, mais especificamente o seu traseiro e a sua cauda, sem que ele percebesse. – Que foi?
–Eu prometi levar Boruto para tomar sorvete quando saísse do trabalho. Está a fim de ir? Aposto que Sarada adoraria tomar um gostoso sorvete.
–Claro! – Sakura gritou antes que eu pudesse responder.
Naruto e eu fitamo-la com o semblante de “Quem te convidou?” e suspirámos em uníssono. Ele tomou Sarada nos braços e tomou a dianteira por entre as pessoas do lado de fora da sala do dono da boate. Sakura se espremeu como pode para ir atrás dele, Boruto veio logo em seguida com as mãos nos bolsos e eu fui último da fila. Finalmente saímos para o interior do shopping e rumamos para uma sorveteria perto dali.
–Quer tomar sorvete, Sara-hime? – ele falou sorrindo de frente a loja da sorveteria.
–Quero sim! – ela piscou — O que significa Sara-hime?
–Sara é o diminutivo de Sarada e hime significa princesa em japonês. – ela arregalou imensamente os olhos por trás das lentes – Quer dizer “Princesa Sarada”. – tanto ela, como eu ficamos boquiabertos. Claro, eu mais discreto que ela. É dessa forma que Sarada gosta de ser apelidada, de princesa, que foi um costume que eu coloquei.
Como é que ele sabe dessas coisas? O drink que eu gosto, o apelido de Sarada, a forma como tratá-la, ele acertou até o tipo de sorvete que Sarada mais gosta e soube só de olhar para mim, que eu não gosto de coisas doces. Como é que ele sabe tanto sobre nós? Ou seria apenas coincidência? Maluco, tem que ser coincidência.
–E aí? – tentei puxar assunto, enquanto esperávamos os pedidos, curioso com o fato de ele perceber tanto sobre nós – Como sabe dessas coisas?
–Que coisas? – ele me fitou, sem dar o mínimo de atenção para os flertes de Sakura.
–O apelido da Sarada, o tipo de sorvete que ela gosta... – olhei para o lado, disfarçando a minha curiosidade – O fato de eu não gostar de doces... Como sabe dessas coisas?
Ele riu alto e folgadamente, batendo palmas breves e descontraídas. Fiquei sem entender a razão daquele comportamento, mas até Boruto acabou por rir também juntamente com o pai, de modo que eu já não entendia mais nada. Naruto me fitou e encostou o rosto numa mão.
–Você acha que eu sou algum tipo de stalker, que perco meu tempo de vida vigiando você e a sua filha? – engoli em seco com a resposta – O nome disso é “tato”, sabe? Toda mãe tem isso, essa percepção das sutilezas da vida. Minha mãe me ensinou a ser assim, pois parece que ela adivinhou que eu criaria um filho só. Ela parece uma princesa, por isso o apelido. O sorvete foi um chute que eu dei e acabei acertando. E quanto a você... – ele se recostou na cadeira e deu de ombros – Eu me lembro do tempo de cadeia e do quanto você repudiava qualquer coisa que fosse doce. Tenho boa memória.
Respirei fundo e tentei retomar a minha postura de gato sério. Olhei para Sakura e vi o quanto ela se sentia desconfortável com aquela conversa. Como se ela estivesse sendo deixada de escanteio. O caso é que estava mesmo, porque até onde eu conheço Naruto, aqueles dois não tem nada em comum, não tem aquela estranha sintonia entre pessoas que acabaram de se conhecer. A meu ver, eles continuavam como completos estranhos.
–Não sabia que trabalha como dançarino. – me referia à posse de seu distintivo – Aliás, nem sabia que você dançava. – comentei.
Ele deu de ombros e tirou o boné, deixando seu cabelo livre para pegar um pouco dos ventos dos ventiladores acima de nós. Naruto fitou de canto Boruto e o garoto retirou seu boné a contragosto, colocando-o perto do de seu pai. Ele cruzou os braços e ficou observando emburradamente Sarada brincar com canudos dentro dos plásticos. Acabou por sorrir e participar da brincadeira, o que fez o semblante de Naruto serenar.
–De vez eu em quando a gente tem que divertir, não é? – seus olhos não me evitavam, então ele tinha plena confiança em mim, sentia-se confortável comigo.
–Mas pela sua cara, não era só diversão. – falei sorrindo.
Ele deu de ombros de novo num suspiro.
–Tenho meus próprios métodos de conseguir as coisas. Trabalho é trabalho. É complicado.
–Só não devia me arrastar para todo canto que você tem que ir! – resmungou de lá Boruto, tentando montar algo parecido com uma casa com os canudos.
Naruto deixou sua cara pender de lado, sorrindo que nem um palhaço do mal, assustando o menino quando ele se deparou com a cara do pai. Pareceu-me que ele ia falar algo óbvio demais, mas nada disse, só continuou exibindo aquele sorriso caricaturado de terror. Depois ele me fitou sorrindo normalmente.
Tomou um breve gole de refrigerante e sorriu.
–Você sabe que só veio porque insistiu em vir. Parecia até que estava adivinhando que ia encontrar alguém lá na boate. – o garoto corou sutilmente e deu de ombros, cruzando os braços. Alguns segundos de silêncio aconteceram entre os dois e então Naruto afagou lentamente as orelhas de Boruto – Hei, Bolt...
Ele tentou não sorrir e nem se entregar aos carinhos, mas não conseguiu.
–Sim, pai... – ele sussurrou.
–Tranquilo entre nós? Tipo, ainda me odeia por causa do que faço e do que sou? – ele penteou lentamente os cabelos de Boruto, arrumando um a um os fios desorganizados anteriormente com tanto carinho que quase me provocou ciúmes – Me entende não é?
O garoto baixou o olhar e assentiu com timidez. Naruto sorriu e puxou a cabeça de Boruto para perto de seu peito, depositando no alto dela um rápido afago com os dedos e um beijo, para depois o afastar como só os pais fazem. Os dois riram em sinal de conciliação e quando os sorvetes chegaram eles bateram palmas juntos, fazendo Sarada entrar no embalo da comemoração e Sakura foi junto.
–Melhor coisa que já inventaram! – Naruto falou pegando sua colher e arregalando os olhos em admiração para a taça que chegara – Sorvete!
–Mas ramen? Desistiu do seu prato favorito, pai? – o filho falou com desdém.
–Não, claro que não... Ramen não foi uma invenção. – o pai falou em tom solene – Foi enviado dos céus pelos deuses da culinária para os mortais. Só os deuses podem ter criado algo tão perfeito e precioso como o ramen! Nada supera!
Boruto riu longamente e eu tive certeza de que aqueles dois tinham resolvido seus problemas. A questão é: eu resolveria os meus?
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