Amor à moda antiga
24 Capítulo 22
Notas iniciais
Não sei por que, mas o povo da minha casa estava de extremo bom humor depois da conturbada semana com os problemas que tive com Sakura e com Kiba. Até eu, o rei do mau humor, me pegava sorrindo sozinho e chamando coisas como “raios de sol, flores, vento, paisagem” e outras simplicidades de lindas e encantadoras. O amor faz a gente mudar. Pelo menos em parte, porque mesmo sabendo que um ex-policial estava casado comigo, eu continuava com os meus “trabalhos”. E só para constar, eu não devolvi a carteira de Naruto.
Meu esposo continuava de gesso nos braços, mas sua cauda já estava em perfeito estado, permitindo que ele voltasse a caminhar sozinho e com tranquilidade.
Depois de uma semana sendo o capeta do inferno de Kiba, meu pai me deu uma “folga”, de modo que eu me permiti dar um passeio em companhia de Sarada e de Boruto, no entanto não tive a honra da companhia de Naruto.
Fomos para o shopping e lá procuramos algum lugar para lanchar. Resolvi ler algumas mensagens no meu celular depois de fazer os pedidos na lanchonete, mas antes dei uma espiada em Sarada que lia um livro de histórias infantis que eu comprara na semana anterior para ela. Minha menina aumentou ainda mais o gosto por histórias depois que aprendeu a ler. Sorri e acariciei de leve suas enormes orelhas de coelho. Por causa de a mãe ser uma coelha branca e de eu ser um gato negro, minha Sarada nasceu uma linda coelha de pelo preto.
Assim que os lanches chegaram, eu fui ler as mensagens que acabavam de chegar ao meu celular, mas fui interrompido. Kiba surgiu do inferno, digo, do supermercado em frente à lanchonete com várias sacolas de compras nos braços dos seus empregados com problemas capilares. Sua cara carrancuda era tão engraçada que eu só pude rir contidamente para não chamar atenção.
–Pelo amor de Deus, macho, o que faz aqui? – indaguei sem entender por qual motivo ele se sentara a mesa. Olhei para Boruto e vi que o garoto estava incomodado, mas nada fizera. Pelo menos não dessa vez.
–Eu vim fazer compras, seu idiota! – ele rosnou – Não está vendo?!
–Sim, eu estou, mas por que veio até aqui? Por que não passou direto e foi embora?
–Porque eu quero lhe dizer umas coisas.
–Diga... – suspirei e guardei meu celular.
–Eu não vou me deixar dominar por você! – franzi o cenho, sem entender o que diabo ele estava falando – Eu só obedeço Naruto e a minha família só obedecerá Naruto também! Não pense que porque se casou com ele, você é alguma coisa!
–Como é, meu amigo?! – falei me levantando, extremamente irritado. Assim que meu olhar ficou acima do de Kiba eu vi que um dos seus empregados era Menma e que parecia ressentido com alguma coisa. Era o irmão caçula de Naruto, que Itachi atacara. Serenei e sorri de lado para o garoto. Sim, era só um garoto – Quanto tempo Menma?
–Ah, oi senhor Sasuke. – ele fez uma breve reverência e sorriu de volta. Como ele é parecido com o Naruto. Parecem até irmãos de verdade! Os olhos têm a mesma cor, o tom de pele também, a altura é próxima e com os riscos e o corte de cabelo, Menma parece ainda mais com Naruto. Cruzes! – Olá Boruto!
O garoto subiu por cima da mesa e disparou para os braços do tio.
–Tio Menma!!! Quanto tempo!!! – os dois ficaram abraçados e esfregando os rostos como os cãezinhos que eram. – Que saudades de você, tio!
Sorri com aquela demonstração de carinho e fitei Kiba. Eu pensei em dizer alguma coisa para os dois, mas fui interrompido repentinamente por uma presença familiar. Fitei Sarada e Boruto. Os dois estavam de orelhas em pé e fitavam o lado de fora, ambos impacientes com alguma coisa. Eu conhecia aquele comportamento impaciente, como se quisesse sair correndo, mas precisasse de ordem para fazer isso.
Olhei a entrada da lanchonete e vi que do outro lado, sentado num banco, de pernas cruzadas, observando tranquilamente a cena que estava começando a se montar ali em frente, com um semblante calmo e a cauda se movendo com lentidão numa curva sinuosa perto de seus pés, como se acariciasse amavelmente o chão, estava o meu amado Naruto. Eu o vi acenar calmamente para as duas crianças e elas dispararam por entre as pessoas para o seu colo, disputando por espaço em suas pernas. Todos pararam e fitaram o mesmo ponto que eu: o que estavam vendo era uma mãe com seus dois filhotes, nada mais.
Algo curioso me passou pela cabeça. Todos os Uzumakis mais famosos da terra estavam naquele shopping? Eu pensara isso porque minutos antes eu vira Mito, Karin e Nagato vasculhando uma joalheria perto da lanchonete onde eu estava. Agora eu via Naruto e Boruto juntos. O mundo podia não ter muitos Uzumakis, mas o shopping tinha. Que coisa curiosa o acaso reunir todas essas pessoas num mesmo lugar.
Deixei aquele grupo de cães, inclusive o próprio Menma, e fui até Naruto. Ele me recebeu com um beijo discreto e me deu uma mão, para que pudéssemos sair dali. Senti cheiros diferentes em Naruto, cheiros que eu conhecia e outros não. Curiosamente, aqueles cheiros não me provocaram ciúmes, não me faziam me sentir mal.
–Naruto... – chamei. Ele me fitou de lado – Onde estava?
–Resolvendo umas coisas. – falou sumariamente. Não perguntei mais nada, não poderia, não com as crianças entre nós, rindo de felicidade.
Então de repente, assim do nada mesmo, uma sequencia assustadora de disparos fez um estouro de pessoas correrem ensandecidamente pelo shopping, procurando escadas, elevadores, saídas de emergências e lojas para se proteger. Em minha cabeça, depois de passar tantos dias vivendo do amor maternal de Naruto, eu pensei em correr em disparada para fora com as crianças, mas ao invés disso Naruto sacou uma arma do cós da sua calça e correu para onde supostamente foram dados os tiros.
Havia um grupo de homens encapuzados, completamente cobertos, correndo em todas as direções e todos eles estavam armados. Eu notei que Naruto não sabia para onde atirar, e ele acabou desistindo da ideia ao ver o contingente de inocentes correndo com medo. Olhei para as duas crianças agarradas ao meu corpo.
–Boruto. – ele me fitou e o eu segurei-o pelos braços – Fique naquele banco e não saia de lá, tente acalmar Sarada e ligue para Yamato. Ele está do lado de fora e virá aqui. Eu vou ajudar seu pai. – o menino assentiu e com cuidado levou a irmã para lá. Infelizmente, naquela manhã, eu estava desarmado, então fui pronto para descer a porrada em qualquer um.
Eu vi Naruto parado diante de algumas pessoas caídas no chão. Ele estava quieto. As pessoas esbarravam nele, mas não conseguiam derrubá-lo. Eu me aproximei devagar e guiei o meu olhar para o mesmo ponto que ele fitava.
Havia corpos, muitos corpos. Havia mortos, muitos mortos. Mas, havia um morto. Dentre tantos que ali estavam apenas um era digno da atenção do meu esposo. Menma. Estava caído com furos na altura do tórax e da testa. Pela quantidade de mortos e dos tiros, com certeza foram assassinados por alguém que portava uma submetralhadora.
–Na... – eu pensei em falar, mas minha fala foi interrompida por outra saraiva de tiros loucos que fez toda a população que ainda restava dentro do shopping correr na direção oposta. – Mas o que está...?
Minha fala foi interrompida pelo som de tiros mesclados com o estouro de alguma coisa de vidro e de mais gritos de uma galera ensandecida. Fitei Naruto e ele correra na direção que eu viera, correra como se fugisse do próprio diabo. Correra como... Se o filho estivesse em perigo! Eu disparei atrás dele depois que meu cérebro chegara à conclusão. Por causa da confusão e de eu ter me preparado psicologicamente para um dia sem problemas, eu estava lento em entender o que estava se passando.
Mais um amontoado de corpos mortos e Sarada correndo até mim. Joguei-me de joelhos e a aparei antes que a menina desmaiasse de tanto desespero. Naruto continuou correndo, mas eu não o segui, algo dentro de mim me impedia de ir adiante. Deixei-o, pela primeira vez em toda a minha vida, não persegui Naruto.
Fui para fora do lugar com Sarada em meus braços e com alguma calma vistoriei seu corpo: ela estava bem, não tinha uma escoriação se quer. Suspirei de alívio e fitei a multidão sair do shopping aos atropelos, como loucos ensandecidos. Nenhum sinal dele. Mais disparos, mais gente correndo louca, e nenhum sinal dele.
Enfim a polícia chegou e o shopping se esvaziou. O que acontecera? O que ninguém, exceto o próprio Naruto, esperava. A notícia veio rapidamente até mim: naquele exato momento em que os tiros foram disparados, outros assassinatos aconteceram em outras partes do mundo e o que havia em comum entre as vítimas? Uzumakis.
Naquele momento eu descobri que Menma era um Uzumaki, mas não puro como Mito e Naruto, era um mestiço, um cão que nascera com as características necessárias para lhe dar o direito de usar aquele sobrenome.
Durante o enterro de Menma, Mito, Karin e Nagato, eu revi aquela cena assustadora de Naruto cavando a cova da própria esposa. Ele próprio cavou a cova do filho, preparou o caixão e o enterrou sem derramar nenhuma lágrima.
Fez tudo sozinho e em silêncio.
Eu o observava de longe, preocupado que ele cometesse algum ato de loucura, como se matar ou se enterrar vivo, mas ao deitar a última pá de terra e erguer a lápide, Naruto ajoelhou-se e curvou-se lentamente na direção do sol poente, fazendo preces silenciosas. Mito me contara sobre aquilo: sempre que um Uzumaki morria, o parente mais próximo dele deveria arcar com todo o processo fúnebre e ao fim do enterro, orar ao sol que guie a alma do morto ao lugar iluminado onde todas as almas boas iriam. Tudo isso deveria ser feito ao por do sol, porque assim o astro de luz própria ouviria as preces e as levaria para outras sois, então a noite seria o momento para a alma desperdice do mundo e com o nascer-do-sol, partiria para sempre.
Naruto demorou-se curvado, orando e chorando, até o momento que o céu ficou negro e as estrelas apareceram. Ele se ergueu, sem se limpar, buscou seu casaco e com um olhar longo, dando alguns passos para trás, Naruto disse até breve ao seu filho. Suspirei e continuei nas sombras, vigiando-o, para só então segui-lo de perto pelas ruas que ele tomara para ir embora.
Ele fora a pé para casa e parecia que uma redoma de repulsão estava em volta dele, porque ninguém ousava se aproximar dele. Desolado, perdido, sozinho. Pior do nunca estivera.
O que houve com Naruto depois daquilo? Ele estava descalço no telhado da casa de meu pai, abraçando os próprios joelhos com força e chorando sem ter forças para gritar. O que acontecera? Naruto perdera seu único filho de sangue. Quem matara Boruto, poupara Sarada por ela ser uma Haruno. Infelizmente, em meu mundo, pertencer a uma raça pode ser sua salvação ou sua condenação, e no caso dos Uzumakis, aniquilação.
Fora um genocídio em massa e simultâneo. Não restara ninguém, exceto Naruto. Eu continuei fitando-o do jardim, eu não tinha coragem de ir até e lhe abraçar, dizer algumas palavras de consolo, porque internamente eu estava aliviado por não ter sido Sarada a assassinada. Meu pai reunira-se com os anciões e no fim daquele dia negro eles decidiram não fazer nada.
Não leu errado. É exatamente isso. Os Gatos da Noite decidiram que não iriam se envolver e que deixariam o caso arquivado, lamentaram pelas perdas, mas não iriam fazer nada, pois não era um assunto para os Uchihas resolverem. A palavra final.
Quem fosse contra isso, seria morto.
Naruto foi avisado da decisão e ouviu que aquilo se aplicava a ele porque agora ele era um Uchiha, pois me pertencia. Exatamente com essas palavras. Nada fizera, nada dissera.
Depois de ouvir essas palavras, ele se reclusou-se no alto do telhado e ficou por lá durante três dias, e só saíra para fazer alguns exames médicos por ordem de minha mãe. No quinto dia, depois dos exames, ele retornou ao telhado e a sua posição de dor, mas não chorou, ficou quieto fitando uma foto dele e de Boruto. E eu continuava no jardim fitando-o.
–Sasuke. – minha mãe chamou e eu fitei-a sem descruzar as mãos ante o meu rosto – Eu sei que essa não é a melhor hora para isso, mas você precisa pensar no cio.
Assenti brevemente e me levantei do balanço onde eu estava sentado.
–Eu sei e já preparei tudo. Vai ser horrível, eu sei, mas eu preciso levar isso adiante ou entraremos em guerra contra os Inuzukas e seus aliados. Não quero isso. Naruto que me perdoe, mas nós precisamos transar em três dias.
Minha mãe fitou o alto da casa e suspirou.
–Acha que ele vai permitir?
–Ele não vai saber o que lhe aconteceu.
–Como assim? – nos fitamos – Vai forçá-lo?
Neguei calmamente.
–Ele está tão absorto da vida que não vai ter consciência do que se passou. Ele está inerte, alheio ao mundo, sua mente foi enterrada na cova de Boruto, então o que vemos é uma casca oca, mãe, de modo que... – suspirei – Vai acontecer, simplesmente.
Fale com o autor