Notas iniciais
Esse capítulo é dedicado a uma leitora que gosta de tretas. DiAngelo, saúde! Vou deixar que leiam, vou dizer mais nada. Só quero deixar meus agradecimentos as seis pessoas que recomendaram a fic, a todas que favoritaram e as tantas que acompanham! Agradeço também pelos elogios que eu recebo por MP! Sem vcs, eu acho que já teria desistido dessa fic a muito tempo. Obrigada pelo apoio, mas esse não é o capítulo final Ainda tá longe!

Sweet Dreams — Interpretação de Marilyn Manson

Eu estava chegando a uma casa vazia, completamente isolada do resto do mundo no alto daquelas colinas verdes escuras. Entrei devagar, inundado pela escuridão dos cômodos procurando alguma coisa que meus olhos não conseguiam captar. Ela estava quase silenciosa, apenas interrompida pelos rangeres das madeiras e os pingos fortes da chuva contra o telhado. Não havia cheiros, nem sons conhecidos, nem móveis, só vãos feitos de madeira envernizada e impermeabilizada, sem um mínimo de claridade.

De repente um trovão me fez estremecer com a visão de uma silhueta sombria que tive ao fim do corredor me fitando de modo sério. Havia uma pessoa ali, mas quando o segundo trovão que encadeou o céu, eu me vi sozinho de novo. Decidi segui pelo corredor e me vi de frente a uma escada que ia ao subterrâneo. Eu desci-a lentamente, com alguma hesitação, eu me senti numa missão de altíssimo grau de dificuldade e suicida.

Cheguei ao que me pareceu ser o mais largo de todos os cômodos, um porão de pedra maciça, que era apenas iluminado por uma lâmpada central que eu acendi depois de encontrar o interruptor na frieza da parede. No centro, abaixo da lâmpada, sentado numa larga poltrona, enorme demais para a proporção do corpo que estava sentado nela.

Seu rosto estava escondido por um chapéu Fedora masculino, seu corpo estava apenas coberto por um cachecol laranja grosso feito a mão e um pesado casaco negro completamente aberto, deixando bem a minha vista o peitoral e o abdômen de homem normal, exceto pela tatuagem em espiral que ficava somente metade a mostra, pois a outra parte estava escondida pela calça negra social longa demais para si. Estava descalço, seus dedos da mão direita tamborilavam no braço da poltrona, enquanto a outra tocava levemente seu queixo macio e recente barbeado, acariciando-o com a ponta dos dedos.

Eu não sentia cheiro algum, não captava nenhum som, mas meus instintos me disseram que eu deveria trancar a porta e assim o fiz. O som alto do ferrolho me impediu de ouvir aquele corpo se movendo, pois ao me virar, eu me deparei com a visão daquele corpo caminhando lentamente para perto da parede. Caminhei até a poltrona e me sentei ali.

Que expectativa, que ansiedade, eu não sabia o que pensar sobre a situação que eu viveria durante aquela semana. Não havia nenhum relato sobre os cios das raposas, nem mesmo nenhuma palavra fora dita por Mito. Eu estava completamente desorientado.

–Gatos gostam se sexo selvagem, gostam de lutar e brigar, machucar os outros pelo mero desejo de se ver no comando. – sua voz era baixa e perigosa, mas ainda havia aquele tom animado ao qual eu me costumara ao longo dos meses – Felinos não sabem o limite, desconhecem o comando de parar... Eu não sei o motivo dessa tara. Pode me explicar, Sasuke?

Engoli em seco, sem saber o que dizer. Ouvi sua risada. Nenhum cheiro. Sempre vivi cios de fêmeas em que elas emitiam cheiros fortes de suas lubrificações e seus feromônios implorando pela ação do macho, mas eu não sentia nada. Absolutamente nada.

–Está procurando por algo, Sasuke? – ouvi seus passos caminhando devagar. Ouvi um barulho surdo, de tecido caindo secamente no piso frio e em seguida um trovão. Eu quis me mexer para saber o que estava acontecendo, mas um rosnado feroz, um como eu nunca tinha ouvido antes, me impediu – Não ouse, Uchiha, não ouse se quer parar de olhar para a janela.

A janela que me avisava que uma chuva horrível caía lá fora.

Outro som, de outro tecido caindo, porém mais pesado, duro, como um colchão. Ele deveria ter derrubado seu cachecol e seu casaco.

–O que está procurando, Sasuke? Ainda não me respondeu. – sua voz parecia cada vez mais perto e mais tenebrosa. Um arrepio percorreu meu corpo e eu vi meu pêlo mudar. Se arrepiar, mas ainda não havia cheiro, não havia mudança alguma, exceto em mim. – Você está mudando, está perdendo o controle, ficando louco... Isso é bom, muito bom... Não há sanidade aqui e em lugar algum onde estivermos.

Olhei para baixo, me contorcendo na poltrona por causa do calor que estava começando a percorrer o meu corpo. Eu estava me excitando, era evidente, meus sentidos estavam absurdamente aguçados e eu finalmente fui atacado pelos feromônios dele.

–Naruto... – gemi – Eu...

–Quieto! – ele ordenou alto e eu me encolhi no estofado. – Gatos são péssimos para seguir ordens, são arrogantes, imperiosos, autoritários, egoístas, só pensam em si e não entendem quando outra pessoa está no controle.

Eu estava me sentindo sufocado pelos feromônios de Naruto, deliciosamente sufocado. E acordei. Sério. Eu acordei. Olhei atarantado para os quatro cantos do quarto. Sonhos.

Malditos sejam esses sonhos eróticos. Suspirei e me mexi na cama. Meu corpo estava pesado, terrivelmente pesado, como se eu estivessem sendo puxado para baixo.

Você sabe que coisas ruins vão acontecer quando o dia já começa estranho. Eu acordei com pressa, depois daquele sonho tenebroso de bom, sentindo-me atrasado em relação ao dia por não ver Naruto deitado ao meu lado. Saltei da cama e corri para o banheiro, mas Naruto não estava lá penteando sua cauda, então tomei um banho frio, muito frio, pois eu sentia meu corpo arder, como se fosse o início da febre. Talvez eu ainda estivesse quente por causa do sonho. Do maldito sonho.

Depois de vestido, eu fui para a cozinha e Naruto também não estava lá, mas o meu café, vulgo maná dos deuses, fumegava sobre a mesa ao lado de pães feitos na hora e frutas frescas. Aquela refeição emanava a imagem e o cheiro do meu Kyuu-chan. Mesmo de luto, ele ainda era carinhoso comigo. Acho que ele só precisava ser carinhoso com alguém, e eu, por conveniência e convivência, fui o escolhido.

Sentei-me e comi com alguma pressa, mas a aproveitando o sabor, olhando para a hora de vez em quando. Eu tinha uma reunião importante e me via atrasado constantemente, mas minha mente se negava a correr mais rápido, como se ao fazer isso eu perdesse minutos preciosos da companhia do meu esposo. Enfim acabara de comer e eu corri para terminar de preparar, pois aquela reunião seria apenas de Uchihas e seria na minha casa.

Demorei-me mais do que devia no meu quarto, esperando o remédio fazer efeito contra o estranho surto de febre que me acometera. Meu corpo tremia e eu sentia uma absurda necessidade ver Naruto, sentir seu cheiro, tocá-lo, mas ele não estava na casa. Droga, onde ele poderia estar, pelo amor de Deus?

Arfei sorrindo, pois finalmente o remédio estava fazendo efeito.

–Que loucura foi essa de eu adoecer do nada? – retruquei.

Ajeitei meu blazer e abri a porta do quarto para sair, mas fui impedido pelo corpo suado e a respiração ofegante de Suigetsu. O que ele fazia na minha casa? Não tive tempo de pensar, a febre retornou ao meu corpo, fervilhando como um efervescente ácido. Um cheiro doce invadiu minhas narinas e eu tive certeza que Suigetsu estava no cio, mas por ser uma espécie “inferior a minha”, ele estava se contorcendo diante de mim, me mostrando uma cara suplicante por sexo imediato.

Por muitos anos, antes de eu ser preso, Suigetsu esteve na lista curta dos meus parceiros fixos, juntamente com outras pessoas que eu conheci, no entanto eu me afastara dele depois que fui para o CTS e perdera completamente o desejo por ele.

Arfei e me afastei dele, sentindo-me sufocado. Eu queria ver Naruto, não Suigetsu, mas o cheiro daquele albino era inebriante. Eu estava fraco assim de controle por casa da doença ou por que fazia um mês desde a última transa com Naruto?

Suigetsu veio a mim e se lançou ao meu pescoço, num beijo de extrema necessidade e eu não pude controlar, por mais que minha mente gritasse que aquele não era o meu Naruto, era uma boca estranha, apesar de conhecida, que reagia ao meu corpo, ao meu cheiro, aos meus toques. A febre estava mais intensa e tudo o que eu fazia era reagir aos estímulos que o outro mandava para mim. Quando dei por mim, nós dois já estávamos na minha cama, na cama onde eu dormia todas as noites com Naruto, arrancando nossas roupas.

Suigetsu me empurrou sobre o colchão, chupou-me com uma pressa inexplicável, durou segundos aquele ato repentino. Em seguida me montou, deixando-se ser penetrado devagar, me fazendo rosnar. Ele cavalgou no meu colo com pressa e muito tesão, mas aquilo não estava fazendo o ardor do meu corpo passar.

Eu queria Naruto, eu queria que a febre passasse e eu queria que meu corpo se acalmasse, mas não estava dando certo, eu estava fora de mim, selvagem e fora de controle. Meu pelo se arrepiou completamente, eu senti meus músculos incharem, a secura arranhar minha garganta e um rosnado rouco borbulhar em meu peito.

–Sasuke, meu amor, como é bom! Nós dois, juntos, de novo! – gritou Suigetsu acelerando o galopar – Você vai tão fundo!!! É o melhor!!!

Eu só rosnava e cravava minhas unhas nos quadris dele.

Minha mente estava nublando e foi nesse segundo que eu entendi que eu não estava doente, na verdade meu cio foi acelerado pelo sonho e agravado pelo cio de Suigetsu.

–Na... Naruto!!! – gemi roucamente. Eu já não via aquele albino de dentes afiados, eu via o meu loiro rebolando para mim, me fitando e me implorando que eu fosse mais fundo. Eu ia, eu o obedecia, era o meu Naruto afinal – Só você...! Assim Naruto!

Continuamos assim por alguns segundos quando um cheiro forte impregnou o ar do quarto, fazendo a febre diminuir e meus sentidos começarem a se estabilizar. Um cheiro entorpecente, quente e que fez Suigetsu mover-se mais devagar, como se mãos afagassem seu corpo enquanto eu o fodia. Inspirei mais aquele odor e a lucidez retornou a mim como um tremor de terra poderoso. Ergui meu rosto e fitei a porta.

Naruto, que eu tanto chamara e desejara, acabava de entrar no quarto. Naruto. Naruto? Merda, Naruto!!!

Suas roupas reativaram a minha memória e eu me recordei que ele saíra para correr durante as primeiras horas do dia para afastar as mágoas do luto recente. Seu braço direito já estava recuperado, mas seu esquerdo ainda estava em bandagens. Ele me fitou e depois assistiu alguns segundos de Suigetsu se movendo contra meu pênis. Não, isso não podia estar acontecendo, não comigo, não com ele, não depois do tudo o que acontecera naquela semana. Eu estava me controlando para ficar com Naruto, mas Suigetsu me pegou desprevenido e débil de controle, e agora eu estava passando o meu cio com o homem errado.

–Naruto... – eu sussurrei, só um fio de voz embargado por causa da pressão que o albino estava aplicando em mim – Não... Naruto...

Ele me olhou com desinteresse e seguiu para o banheiro sem dizer uma palavra.

Eu tinha que tirar Suigetsu de cima de mim e, no meu último lapso de sanidade, explicar tudo a ele, antes que Naruto pensasse que eu estava o traindo, mas a febre do cio não me deixava fazer nada, exceto foder aquele cara.

Alguns minutos depois, meu loiro saiu do banheiro, com a cintura enrolada numa toalha e foi até o closet. Ele demorou-se me olhando, notara que nós havíamos mudado de posição e que ainda não havíamos parado. Agora eu metia por trás, com Suigetsu nu de quatro e eu de joelhos, as calças abaixadas até as canelas e a camisa completamente aberta. Voltou de lá apenas de calça, uma jeans com rasgões nas pernas, e portando algo brilhante. Arregalei meus olhos com temor, pois aquilo podia ser qualquer coisa: uma arma, uma faca, qualquer coisa.

Ele vai nos matar. Aquilo era um sim, uma faca.

Naruto subiu na cama e ficou nos observando, aliás, ficou assistindo Suigetsu rebolar seu traseiro contra minha pélvis. Seus olhos estavam de um dourado fosco, sem vida, as pupilas afiladas, quase como um traço preto no meio daquele ouro escuro, mas ainda sim selvagem, perigoso. Tive a sensação de que o seu costumeiro brilho fora engolido pelo fio da faca pendurada em sua praticamente adormecida mão direita, ao lado do seu corpo.

Uma faca. Um golpe no pescoço e já era. Naruto fitou o objeto e desceu da cama. Caminhou de volta do closet e retornou e lá com um facão ainda maior. Droga, eram os presentes que ele recebera dos ex-colegas da polícia. Ele posicionou-se bem em frente à cabeça de Suigetsu e deixou o fio da lâmina exatamente do lado do pescoço dele, alguns centímetros afastado, como se Naruto fosse jogar golfe. Ele ficou ali, quieto, ouvindo-me rosnar enquanto fodia apressadamente, querendo logo dar um fim aquela tortura.

–Sa...Sasuke!!! – ele gritou e eu soube que ele estava em pleno orgasmo. Foi uma questão de míseros segundos: num instante, Suigetsu erguera sua cabeça para o alto, apertando-me, no outro, aquela mesma cabeça rolava pelo chão do quarto até parar na lareira acesa.

O corpo quente e morto dele caiu sobre a cama esguichando sangue, sujando-me e aos lençóis brancos. Naruto já estava na lareira atiçando o fogo. O cheiro de carne queimada inundou o lugar e meu cio fora completamente superado por causa daquele odor forte de morte. Arfei, retomando o controle, sentei-me na cama e organizei minhas roupas como pude. Eu quis dizer algo em minha defesa, mas assistir Naruto comer a cabeça queimada de Suigetsu me fez voltar completamente atrás. Só o crânio restara minutos depois.

Ele fitou a lâmina e lambeu-a, limpando-a do sangue dele. O que deu em Naruto? Num movimento rápido, ele lançou o facão contra o corpo decapitado, cravando-o na cama, e eu fugi num salto veloz para trás. O que deu nele?

Ele abriu um pequeno baú que havia acima da lareira e retirou dali dois objetos. Uma injeção que continha um líquido azul e um envelope. Naruto virou o envelope para mim, ainda inexpressivo como uma estátua, e eu vi que se tratava do contrato, do nosso contrato de casamento. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele jogou o envelope no fogo, por trás das madeiras, impossível de se alcançar, em seguida aplicou aquela injeção em si.

–Não me diga que... – eu balbuciei e ele apenas fez uma breve cara de dor ao sentir o líquido entrar em sua veia, depois jogou o vidro no fogo e se afastou. – Não... Não. Não! – gritei ao vê-lo sair do quarto. Eu soube no momento que vi o que era aquele líquido.

Era um inibidor poderoso. Aquilo era como um concepcional para mulheres férteis, só que ao invés de impedir que a pessoa engravide, ela impede que o cio ocorra em quem o recebe. Foi o que ele fizera. Ele retardara seu cio que começaria amanhã em dois meses. Castigo.

Corri para fora do quarto e fui seguindo o rastro do seu cheiro. Encontrei-o do lado de fora, observando a rua. Perto dele estavam os outros Uchihas, inclusive meu pai e Itachi, que iriam se reunir ali, olhavam para Naruto com tanto desejo que babavam. Ele se virou lentamente e me fitou, não esboçou nada para mim, apenas estalou os dedos e eu vi todos caírem num efeito dominó no jardim. O que ele fizera?

Dei um passo para fora, mas não segui em frente, fiquei parado ao ver todos se levantarem devagar e se fitarem. Olhei apressadamente para Naruto e este encarava a cada um dos Uchihas dali, com um olhar tão feroz e severo que eu temi pela vida da minha família, mas ele não atacou, não se moveu, apenas me fitou.

Só isso. Olhou-me e no ato de erguer seus olhos para mim, sorriu. Não com alegria ou com sarcasmo como sempre fazia, nem era desdém. Era um sorriso demoníaco. Naruto piscou um olho para mim e eu li em seus olhos brilho da maldade.

Ouvi gemidos. Fitei os homens no chão. Eu deveria estar no inferno.

–O que você fez com eles?! – eu gritei. Naruto deu de ombros e retirou o celular do bolso, mirou nos Uchihas e eu senti que ele estava filmando.

Foi a coisa mais doente que eu já vi em toda minha vida. Um bacanal, uma orgia, uma suruba, homem fodendo homem, sem a plena noção de pudor, a luz do dia, como cães no cio, fora de controle. Um, dois, três, quatro homens engatilhados um atrás do outro. Fodiam-se como se estivessem nos prazeres do inferno. Meu pai metia no meu irmão, meu tio fodia a boca do meu pai e assim vai. Eu não conseguia acreditar nos meus olhos.

Fechei-os apressadamente e corri para dentro de casa, mas fui derrubado por alguém. Abri com pressa os meus olhos para atacar quem me derrubara e me deparei com o teto do meu quarto. Pisquei algumas vezes e esfreguei meu rosto. Eu estava dormindo? Puta que pariu, esfreguei meu rosto e vi o quanto eu estava suado, o que diabo fora isso? Um pesadelo?

Graças a Deus. Aquela merda toda fora um sonho vindo do inferno mandado de brinde por Freddy Krueger. Suspirei aliviado e me movi com dificuldade na cama, sentindo meu corpo ainda pesado, porém na temperatura normal. Eu estava na minha cama, mas não estava sozinho. Eu podia sentir um peso a minha frente.

–Hei, Kyuu-chan, você não sabe do pesadelo que eu acabei de ter... – sentei-me na cama e vi que não era Naruto que estava nu e deitado sobre minhas pernas.

Suigetsu estava ali.

Sem a cabeça. Puta que pariu! Ele está sem a porra da cabeça!

Apesar de que eu sabia que estava acordado, minha vista estava embaçada e minha cabeça latejava terrivelmente. Era como se tivessem enfiado um cano nela. Fitei minhas mãos e por alguma razão elas estavam manchadas de sangue. Minhas garras estavam compridas e eu senti meus cabelos mais longos.

Eu me sentia estranho, com a respiração um pouco ofegante. Deveria ser efeito do pesadelo e do sonho maluco. A aliança estava completamente ofuscada pelo sangue e eu sentia um gosto amargo em minha boca, gosto de fel.

Movi-me devagar observando o corpo degolado de Suigetsu e percebi que havia alguém. Eu não conseguia enxergar, estava tudo embaçado. Forcei a vista e consegui enxergar. Era Naruto. Ele parecia estar sentado sobre o corpo de Suigetsu e me encarava. Suas mãos estavam apoiadas no facão e sua expressão era digna de um policial em ação.

Pisquei mais algumas vezes, tentando enxergar melhor, e vi que ele estava diferente. Parecia maior, ele estava mais parecido com um personagem saído de um filme de ação. Seus olhos azuis me fitavam com alguma preocupação, porém suas pupilas estavam finas como as de um gato. Havia algo de diferente nele, não era daquela forma que ele me fitava todos os dias. Sacudi com força a minha cabeça, tentando recobrar os meus sentidos. Aquele pesadelo do inferno mexera mesmo comigo.

Naruto estava vestido com as roupas negras pesadas parecidas com a SWAT e o facão não era um facão, era uma Espingarda calibre 12, também preta.

Ele não estava bem sentado sobre Suigetsu, estava em genuflexão mal feita e me fitava com alguma preocupação, coisa que eu nunca vira antes, não para mim. Esse não era o cara com quem eu me casara, apesar de se parecer absurdamente com ele.

–O que está havendo Kyuu-chan? – perguntei me sentando com as pernas para fora da cama.

–Quem é Kyuu-chan? – ele perguntou com calma. Pisquei abrindo os olhos e franzi o cenho. Ele me perguntara quem é Kyuu-chan?

Naruto saiu da cama e mandou alguns comandos pelo rádio preso ao seu colete. Alguns homens de máscara entraram assim que ele desligou. Posicionaram nas janelas, na porta e começaram a remover o corpo de Suigetsu. Só naquele momento eu percebi que a máscara de Naruto estava dobrada até a testa para que eu pudesse ver seu rosto.

–Desculpe-me, senhor Uchiha, o criminoso que matou seu finado esposo já foi pego. – ele falou com a voz metálica. Não era o meu Naruto. Quem era aquele homem? – Foi uma fatalidade, mas preciso que me acompanhe agora para a sede para sua proteção.

Algumas pessoas vieram e removeram cuidadosamente o corpo do albino da cama, levando-o para o chão. Naruto se abaixou perto do corpo de Suigetsu, daquele saco preto enorme, como se procurasse por algo. Ele levantou cuidadosamente a mão do defunto, observando com cuidado aquela parte. Estreitei meu olhar curioso em saber o que ele procurava.

Arregalei quilometricamente os meus olhos ao ver nos dedos dele os anéis que eu dera a Naruto no ato do casamento – o preto e a aliança – e uma equipe de legistas forenses prontos para analisarem o meu quarto. O loiro se levantou depois de ter retirado as alianças e me fitou, com a mão esticada me entregando as joias e esperando que eu o acompanhasse. A mão esquerda nua, não havia anéis ali. Sutilmente fitei a mão direita: sem anéis também. Peguei os objetos e ele me levou com cuidado para fora do quarto. A última visão que tive dali fora a da cabeça de Suigetsu ardendo na lareira de meu quarto.

Eu desci as escadas devagar, com Naruto sempre ao meu lado, e vi Itachi sendo amparado por uma mulher de longos cabelos negros, tão negros que chegavam a ser azuis. Eu já vira aquela tonalidade de cabelo antes.

–Otouto! – ele bradou quando me viu – Está bem?! – assenti, mesmo sem ter certeza. A mulher se virou e tropecei na escada quando vi seu rosto. Era Hinata!

Mas ela deveria estar morta! Eu a vi sendo enterrada por Naruto. Como isso era possível?

Não caí, fui amparado pelos braços de Naruto, que largara a arma e essa sim escorregara até... A frente? Não descíamos escadas? Não, eu tinha a sensação que estava descendo, mas ao ser segurado, vendo o chão de mais perto, eu vi apenas o piso, sem degraus. Eu percebi que aquele não era o chão da minha casa, mas da mansão de meus pais.

–Calma, Itachi querido, Sasuke está bem. Naruto vai cuidar dele, como sempre fez. Não se preocupe, querido. – querido? Querido?! Hinata e Itachi se relacionando?

De relance, eu pude ver alianças nos dedos deles. Casados? Mas como... Minha cabeça doeu como se um milhão de agulhas perfurassem o meu cérebro. Olhei em volta e vi a realidade se distorcendo, contorcendo, mudando. Meu estômago embrulhou e eu vomitei por cima do carpete. Naruto me deixou ficar de joelhos, sustentando-me com os braços. Ele falava comigo, mas sua voz estava distante, muito longe, apesar de seu rosto estar ao lado do meu.

Eu vi minha casa ganhar cores diferentes e formas mudadas. Minha vista embaçou de novo e eu senti minha cabeça doer ainda mais. O ar me faltou. Estiquei minha mão tentando me apoiar no nada, mas o que agarrei foi o braço de Naruto. Ele me sentou no sofá, onde Itachi estava, com cuidado e de novo me senti puxado.

Ele ficou se joelhos na minha frente, colocou a arma de lado e tomou o meu braço, dobrando com cuidado a manga da minha camisa até a altura do cotovelo. Era como se eu tivesse acabado de fumar vários backs de maconha. O mundo girava.

–Fica comigo, senhor Uchiha! – era a voz de Naruto indo e voltando na minha cabeça a cada palavra – Rápido, Yamato! – olhei de lado e vi meu mordomo vir correndo com algo que parecia ser uma caixa preta, ele a entregou a Naruto e este a abriu rapidamente. Tirou de lá uma injeção contendo um líquido translúcido. – Já vai acabar Sasuke, aguenta cara, aguenta!

Eu vi homens de branco ao meu lado, estavam aflitos com alguma coisa. Eu sentia cada vez meu corpo pesado e dormente. Eu queria dormir, mas os olhos azuis de Naruto imploravam para que eu não o fizesse. Mas ele não era o meu Naruto, porém eu senti que devia fazer o que seus olhos tão lindos me pediam. As forças estavam me deixando e estava ficando cada vez mais difícil manter-me de olhos abertos.

–Olha para mim, Sasuke, aqui, bem aqui. – ele apontou para os dois olhos dele e eu os fitei com alguma dificuldade. Senti uma picada no meu braço e algo entrando em minhas veias – Fica comigo, Sasuke, não me deixa, de novo não...

Um calor foi subindo do meu braço e se espalhando pelo meu corpo, eu senti minhas forças retornarem como mágica e enfim aquela tontura sumiu.

–E para onde eu iria, idiota...? – resmunguei afastando os médicos de cima de mim. Naruto soltou o ar sorrindo e num ímpeto que eu nunca tinha visto na minha vida, ele me abraçou com força, encaixando-se como podia entre minhas pernas.

Ouvi pessoas baterem palmas emocionadas.

Meus sentidos retornaram a mim e eu inspirei o ar. Aquele cara parecia com Naruto, mas tinha o mesmo cheiro que ele, era exatamente igual. O mesmo calor, os batimentos cardíacos acelerados, a respiração suave em minha nuca, até seus toques em minhas orelhas eram os mesmos. Mas aquele cara me chamara de senhor Uchiha. Naruto, o meu Naruto, nunca me chamou assim antes.

Soltamo-nos lentamente e eu vi seus dedos tremerem ao tocar os meus braços. Ele estava nervoso e muito preocupado com alguma coisa. Comigo, talvez. Havia uma saudade estranha em seu olhar, como se fizesse anos que ele não me via.

–Bem vindo de volta, senhor Uchiha. – seus lábios tremiam. Algo me dizia que ele queria me chamar pelo nome, mas não podia dada a quantidade de soldados emocionados perto de nós. Como eu posso conhecer tanto essa pessoa, que se parece tanto ao meu Naruto? – Eu sei que isso não deveria ter acontecido com o senhor, eu deveria ter percebido... – ele curvou-se sobre as minhas coxas, escondendo o rosto choroso de mim – Me perdoe, Sasuke, me perdoe por ter sido tão idiota! Não há um só dia que eu não me arrependa de ter...

Interrompi sua fala puxando seus cabelos para cima. Analisei o seu rosto com o pouco dos sentidos que haviam retornado para mim. Realmente, ele se parece muito com o meu Kyuu-chan, mas não é o meu Kyuu-chan. Olhei friamente em volta.

As pessoas foram saindo da sala onde estávamos, me deixando a sós com ele. Ele pode não ser o meu Naruto, mas provoca em mim o mesmo ímpeto louco de beijá-lo. Puxei sua cabeça para perto de mim e capturei sua boca com uma fome que até eu estranhei. Roubei totalmente seu fôlego e nos soltamos. Aqueles olhos azuis. Eram os mesmos. Aqueles lábios macios. Eram os mesmos. Aquela boca quente. Era a mesma. Beijei-o de novo, lentamente, saboreando cada pedacinho que minha língua podia captar.

Seu cheiro era de raposa. O cheiro forte e quente, que seduz os desavisados, mas não fazia efeito em mim. Por quê? Suguei seus lábios por mais alguns instantes e soltei-o.

Ele foi se levantando devagar, meio preocupado, meio feliz, as bochechas coradas e os olhos com um azul intenso. Não podia ser a mesma pessoa, minha racionalidade me dizia que não era, mas algo bem lá no fundo me disse que era e aqueles beijos só confirmavam. Ele se curvou completamente, com as mãos de cada lado do corpo.

–É bom vê-lo bem, senhor Uchiha. – de novo esse tratamento.

Mas que porra é que está acontecendo?

Notas finais
Notícias: Vou voltar a postar semanalmente nos fins de semana, trágico eu sei, mas faculdade é isso. O que acharam do capítulo? Quem teve o cérebro explodido? O que aconteceu com Sasuke? Valendo um filler, quem adivinha?