Amor à moda antiga
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Fiquem a vontade e leia o quanto queiram, mas, vou logo avisando: a realidade da fic é dura e eu sei que não agradarei a todos, mas não desistam ainda! Não sem terem lido o primeiro capítulo e deixado o seu parecer! Enfim...
Boa sorte.
Dizem muitas coisas sobre gatos. Desde que somos representação de divindades até a encarnação do demônio. Desde que somos indicativos de status e riqueza até o sinônimo de vadiagem e pobreza. Dizem que somos excêntricos, egoístas, misteriosos, territorialistas, envolvidos com coisas demoníacas, independentes, que desconhecemos limites, regras e que não se apegam a nada, nem a um único dono, praticamente a absolutamente nada. Ainda dizem que nós temos nove vidas e que somos criaturas solitárias.
É bem verdade a maioria das coisas que dizem, mas eu discordo de não conhecermos as regras: na verdade, nós as fazemos e que for idiota o suficiente vai contra elas.
Sim, nós somos como uma força da natureza que mata e destrói tudo o que vier pela frente. Mas não pensem que somos o que somos porque somos maus, na verdade é o contrário: agimos assim porque o meio exige que sejamos assim. Só que eu, particularmente, gosto de ser mau. Por quê? Porque se eu não o for, não terei o respeito necessário para estar onde estou atualmente, nem para ter o que tive, nem para ser quem eu sou. O medo que eu provoco é uma das minhas mais poderosas armas de ataque e de defesa. E isso me serve muito para o meu trabalho. Faço parte de uma Organização de Guerra Nacional, ou uma OGN, como queiram chamar, criada por meu bisavô, há muito tempo, e agora é chefiada por meu pai e por seu irmão caçula, tal como fora com o pai e com o pai dele, assim retrocivamente.
Tem essa coisa escrota na minha família de que o filho mais velho deve ter unicamente dois filhos: um que será o sucessor da linhagem sanguínea e da organização, e outro que vai ser o cara que é o braço direito do mais velho.
Foi algo decidido há tanto tempo que as pessoas já se esqueceram de como foi que tudo começou ou quem teve a ideia. A OGN que agora está sob os cuidados de meu pai nomeia-se Tsukuyomi e eu não tenho interesse em saber o porquê de ter esse nome, mas se eu não me engano tem algum a coisa haver com o fator de conseguirmos hipnotizar nossos inimigos quando estamos com os olhos vermelhos. Por que isso acontece? Minha mãe uma vez me explicou que é por causa dos fortes sentimentos ou dos momentos de tensão.
Não sei direito, uso raramente esse tipo de habilidade. Praticamente toda a chefia da OGN é composta por meus parentes, principalmente por meu pai, por minha mãe, meu irmão, meu tio, alguns outros parentes e por mim.
Como já devem ter suposto eu sou o caçula da história, mas não sou o braço direito de ninguém, porque meu pai teve a brilhante ideia de ouvir meu tio e me enviar para um Campo de Treinamento Suicida, o CAPS, onde eu fui transformado na máquina de matar que eu sou atualmente. Antes que se desesperem, isso não é algo que eu pense como ruim ou prejudicial para mim, eu prefiro imaginar que graças a isso eu não vivo na sombra de ninguém.
Pelo menos não nas vinte e quatro horas do dia. Em alguns momentos eu sou praticamente invisível, mas em outros eu ganho tanto destaque quanto as estrelas de cinema. Isso tem pouca importância para mim, já que eu vivo sem precisar dessa atenção toda.
Bom, o que importa dessa época, em que estive no CAPS, fora o único fato que ocorrera comigo, em que eu conheci um cara. Aliás, eu conheci muita gente naquele lugar, muitas pessoas das quais eu matei, mas um em particular me atraiu os olhos, coisa raríssima de se acontecer. Na época eu estava no início da minha segunda vida, estava me tornando o assassino hediondo que faria uma fama macabra no futuro, e o cara era casado com uma moça quase cega muito bonita de origem japonesa.
Os dois estavam no CAPS por falta de recursos para se sustentar na cidade. Por respeito à moça, e por ela está grávida, ele treinava dobrado. Treinava o dele e o dela.
Era o único, além de mim, que ficava até meia-noite em exaustivos exercícios mortais para cumprir a carga horária exigida pelos carcereiros. Curiosamente o casal ficara alojado no mesmo quarto que eu, então eu os conheci. Eram jovens os dois, principalmente a moça, e quando digo jovens, imaginem vinte e poucos anos comparados comigo. Numa noite o cara retornou da enfermaria, pois passara o dia num exercício de sobrevivência de quase morte, fora baleado no rosto, na perna direita e no braço esquerdo.
A moça cuidava de seus ferimentos, limpando os recentes pontos feitos onde as balas haviam se alojado. Ele estava desmaiado, vencido pelo sono e pelo cansaço, não se movia ou esboçava qualquer reação que pudesse indicar que estava consciente. O tiro no rosto quase lhe arrancara o olho, mas não parecia tão grave quanto eu supunha.
Naquela noite eu sentira uma estranha vontade de saber mais daquele rapaz.
-Qual o seu nome? – eu perguntei afinal realmente não sabia o nome dela.
-Hinata. – ela sussurrou com uma voz tão suave que parecia ter saído de um conto de fadas.
-Vocês dois são amigos? – falei apontando com o queixo para o rapaz deitado.
Ela sorriu com timidez e afagou carinhosamente a enorme barriga de sete meses. Ela o fitou novamente abaixando lentamente o rosto, pois o cara jazia deitado sobre seu colo com o semblante sereno, mas cansado, e quase escondido pela enorme barriga. Aquele olhar que ela mostrava a ele, mesmo que o cara não visse, era de uma doçura tão palpável que eu achei que ele se curaria só com aquele olhar. Mesmo que eu nunca tivesse sentido isso antes, eu sabia que aquele olhar transmitia o mais sincero amor.
-Ele é o meu marido. – ela revelou com emoção.
-E vocês se conhecem há muito tempo?
Hinata assentiu ainda sorrindo.
-Uma vez, há muitos anos, ele roubou a minha casa... – ela ergueu o olhar – Minha família não tinha tanto assim e ele só queria um pouco de pão, mesmo assim meu pai o denunciou e ele veio para cá pela primeira vez. Depois de um tempo ele saiu e veio até minha casa, pedir desculpas ao meu pai pelo crime. Algum tempo depois nos tornamos amigos e então... – suas bochechas coraram.
-Você descobriu que gostava dele e que ele gostava de você? – ela confirmou – Imagino que namoraram, mas que ele ainda cometeu alguns erros para ter vindo para cá?
Hinata suspirou tristemente.
-Ele cresceu e arrumou um emprego na mesma empresa que eu trabalhava. Pagava-se pouco, mas era digno, era melhor do que roubar. O patrão dele era um porco. – ela sorriu apesar das lágrimas – Literalmente. Por três vezes tentou me estuprar e na quarta vez quase conseguiu, se ele não tivesse chegado de repente e esmurrado uma única vez o rosto dele, tudo em minha defesa. Os policiais não acreditaram na versão dele... Prenderam meu marido por agressão e tentativa de assalto. Está aqui desde então.
-Quanto tempo faz? – abaixei meu olhar para fitá-lo com mais respeito. Era um home honrado, no fim das contas. Fora preso injustamente, apenas por defender sua esposa.
Ela fez algumas contas mentais com os dedos e fechou os olhos.
-Trinta anos.
Arregalei inconscientemente meus olhos. Trinta anos preso pelo crime de agressão? Se eu não estivesse enganado a pena máxima para esse crime era de cinco anos de trabalho comunitário ou três anos de reclusão. Trinta anos? Que tipo de cara era esse que dormia? Não ousei perguntar mais sobre sua pena. Talvez magoasse Hinata mais do que ela já se encontrava.
-E como você veio parar aqui?
Ela sorriu.
-Há oito meses, ele recebeu o direito de sair para comemorar o aniversário da minha mãe... Então nós nos vimos e... – ela corou novamente – Consegue imaginar o que aconteceu entre nós, não é? – assenti sorrindo. Deve ser terrível passar tanto tempo longe de quem se ama – O que motivou a vir aqui fora o fato que eu engravidara... Eu imaginei que poderia reduzir a pena por ele ser pai dessa criança. – ela afagou a barriga.
-Mas não foi bem assim...
-Não, não foi. – ela ficou ligeiramente séria – Eles disseram que se eu quisesse reduzir a pena dele, eu teria que pagar alguns anos que ainda faltavam e sem direito a resposta, eu fui encarcerada aqui... Mas por estar grávida eu não podia cumprir com a pena... Então... – ela respirou fundo, como se tentasse impedir as lágrimas.
-Dobrou a pena dele, certo? – ela assentiu enxugando as lágrimas com a barra da manga. Será que haveria algo que eu poderia fazer por aqueles dois? Aliás, por aqueles três? Talvez com toda a minha “influência” e com o naipe de meu pai ao meu lado eu pudesse retirá-los dali na mesma época em que eu sairia.
Foi assim que eu pensei, mas nada disso aconteceu realmente.
Dois meses depois Hinata deu a luz ao seu primeiro e único filho. Por não haver a assistência médica necessária no CAPS, os próprios “detentos” fizeram o parto da criança e o marido dela fora o médico. Nunca eu vira uma frieza tão segura e uma precisão tão perfeita com instrumentos de corte como naquela manhã chuvosa de março. Aquele cara era absurdamente habilidoso e se dependesse só disso, Hinata estaria viva até hoje.
Exato. Não leu errado. Estaria.
Ela ainda aguentou algum tempo, graças a alguns conhecimentos de ervas que o cara possuía, pois ele conseguia fazer chás e remédios caseiros para ela. Hinata não era só mãe daquela adorável criança tranquila e que fazia poucos ruídos, ela também era mãe de todos os detentos e nenhum deles ousava fazer qualquer coisa contra ela, mesmo Hinata sendo a única mulher presa no CAPS. Mas algo sempre me avisara que a causa daquele receio geral em tocá-la fora provocado pelo marido dela, porém nunca pude confirmar tal situação, porque eu era o novato no quarto, não eles.

Por três anos Hinata sobreviveu em meu quarto e numa manhã fria, com pouco sol e muito vento, de dezembro ela veio a óbito com seu filho adormecido nos braços.
Acordei sem ouvir sua suave voz cantarolando algo para embalar o bebê. Preocupado eu a vi mais pálida que o normal e de olhos abertos, com algumas lágrimas correndo pelos cantos dos olhos. Seus longos cabelos negros, quase azulados pendiam sobre o travesseiro e, em sua mão apoiada sobre o ventre, um frasco de veneno para ratos derramava sua última gota. Eu entendi na hora que Hinata desistira da vida por não suportar ver seu filho ser criado dentro de uma prisão. Pelo menos fora o que eu supus.
Em sua mão ela riscara os dizeres “Cuide de Boruto e estará cuidando de mim”. Boruto. Um pequeno menino loiro que fora brutalmente marcado nas bochechas por duas cicatrizes, em cada uma, pelos médicos tal como acontecera ao pai ao chegar ali, porém ele possuía três em cada bochecha. Aquele recado era para seu marido, disso eu tive plena certeza ao ler.
Ela aguentara até que a criança conseguisse ter certa autonomia e não precisasse mais de seu leite para viver, ela aguentara mais do que qualquer um suportaria. Mais do que qualquer alma inocente suportaria viver.
Os presos choraram como se realmente tivessem perdido uma mãe. Exceto um, silencioso e contemplativo, não derramou uma só lágrima ao vê-la ali, Bella Donna, sem brilho em seus olhos pálidos. Rumou lentamente para o terreno ao lado do alojamento e pegou a pá encostada no latão de lixo. Ali todos os presos condenados à morte eram enterrados ali.
Sem emitir um único som, começou a abrir a cova da esposa. Além de ser o mais condenado de todos, ele era o coveiro do Centro e o bode expiatório. Aquele garoto me parecia não ter nascido para viver ou para ser feliz. Comparado a mim, com a minha idade, ele realmente era um garoto, um pobre coitado garoto condenado à infelicidade. Quase senti pena dele, mas eu senti que o viúvo não merecia pena ou piedade. Merecia um tempo sozinho com seu filho.
Eu passei toda aquela tarde assistindo-o sofrer com seu luto interior, sem exprimir nada, silencioso como a própria defunta, com todo o respeito a ela, descarregando seus sentimentos a cada monte de terra lançado para fora do buraco. Era como se com a terra, ele jogasse para fora todo aquele sentimento ruim ou clareasse alguma coisa em sua mente, retirando as impurezas de sua cabeça. Algumas horas depois ele saiu da cova e foi ao quarto buscá-la. O cara banhou Hinata como se ela fosse uma deusa adormecida e vestiu-a com o único vestido limpo que ela tinha. Enrolou-a com os poucos lençóis que possuía e assim, com esse caixão suave para a mais delicada das damas, o marido enterrou sua esposa na terra fria e escura do CAPS. Demorou-se mais alguns minutos, como se conversasse mentalmente com alguém.
Fora o choro de seu filho que o fizera retornar a realidade, dando algumas piscadas fortes e se virando com pesar. Pelo menos eu acho que era isso que eu via, ou o que eu achava que via, ou o que ele queria transparecer. Ele caminhara com passos velozes para a enfermaria.
A única questão que eu levanto é: como ele ouviu o choro de seu bebê? Que tipo de animal era aquele, com uma audição tão apurada? Eu soube quase que na hora que eu a vi que ela era da raça Pequinês e por algum motivo machucara os olhos.
Naquela semana ele fez uma lápide de pedra polida com o nome dela, com o ano em que nascera e com o ano em que morrera, e com um epíteto mórbido.
“Se um dia conheci o amor, aqui eu o enterrei”.
Não tinha como não se arrepiar ao ler aquelas palavras dolorosas.
Eu fora acusado de matar Hinata envenenada, porém o seu marido carregou mais esse fardo, assumindo toda a culpa, dizendo ter sido negligência dele a ela. Não sei quanto tempo ele tinha que ficar no Centro, mas ele ganhara mais 50 anos na cota. Eu ainda fiquei mais um tempo ao seu lado, estudando-o e tentando entendê-lo. Dura tarefa.
Dois anos depois da morte de Hinata eu saí do CAPS e consegui que libertassem o cara e seu filho, depois de muito lutar para convencer meu pai que era uma libertar alguém cuja condenação nós não sabíamos quando começara ou quando terminaria. Nos portões da “liberdade”, ele apenas apertou com força a minha mão e, pela primeira vez em dias, ele sorriu como só fazia quando Hinata estava viva e ele treinava como o condenado que fora. O menino me abraçou com carinho como um ato de gratidão e tomou a mão do pai para ir embora.
Dentro do carro, que meu pai mandara, eu o vi tomar a criança nos braços, pegar sua mala com a outra mão e começar a caminhar lentamente pela calçada deserta. Eu o vi desaparecer na nuvem de poeira que o carro levantava ao rodar pela rua de areia. Era como se ele saísse de uma vez da minha vida. Nunca mais eu o veria. Suspirei e no ato eu percebi algo quente escorrer pelo meu rosto. Toquei a minha face. Uma lágrima caía em sinal de que eu estava perdendo algo. Eu estava perdendo aquele homem que atraíra a minha atenção. Deveria ter lhe oferecido minha casa, ter lhe dado um emprego, dito que pagaria os estudos e os cuidados de Boruto, para mantê-lo por mais tempo perto de mim, mas simplesmente eu o deixara ir.
Eu sempre soube que nossos caminhos jamais se cruzariam.
-O que tanto observa, senhor? – chamou o meu mordomo, sentado ao meu lado.
-Naruto... – sussurrei praticamente para mim. Eu o veria de novo? Só o tempo me dirá.
O que eu não imaginava era que ele me daria uma resposta muitos anos depois.
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