Notas iniciais
Leiam, comentem, recomendem e um bom dia a todos.

A casa dos Haddock era grande, antiga e feita de madeira, mas permanecia firme e forte, tinham um quintal verde e pequeno e as grades do portão eram feitos de metal com pontas voltadas para o céu.

Quando Soluço chegou em casa já era noite, a lua e as estrelas brilhavam no céu, e ele sabia que seu irmão mais velho estava em casa. Entrou pela porta da frente que dava direto para a grande sala, com janelas enormes nas paredes, mas estava escuro, e ele apertou o interruptor perto da porta, acendendo a luz branca.

Demorou menos de um segundo para seus olhos se adaptarem a luminosidade, e viu as paredes verdes, o chão também de madeira, a televisão de tela plana e várias polegadas, o sofá grande e a mesinha de vidro em frente ao sofá. Viu também o que costumava ver com mais frequência do que gostaria: Nolan, seu irmão mais velho estava aos beijos com a namorada, Astrid.

Ele era alto, forte e de ombros largos, tinha uma estatura máscula pois fazia parte dos atletas da escola, e era o garoto mais popular do Colégio de Berk. Muitos diziam que Soluço era muito parecido com o irmão, já que tinham cabelos, olhos e pele de mesma cor, a maior diferença entre eles eram as feições mais maduras de Nolan. Tinha 20 anos. Estava usando uma camisa preta, calça jeans clara e tênis preto. Estava sentado no sofá, com a coluna relaxada para trás, e em cima dele sentada em seu colo com as pernas voltadas para a esquerda dele estava sua namorada, Astrid.

Ela era uma moça linda, loira de cabelos cumpridos e olhos azuis, alta, branca, esbelta e corpulenta, seus volumes se ressaltavam por debaixo de suas roupas, era a líder de torcida mais linda de sua equipe. Tinha 20 anos. Ela ainda usava o uniforme de líder de torcida, era curto, sua camisa pequena e desapertada mostrava o umbigo e a saia leve e esvoaçante terminava acima de seus joelhos, o uniforme era vermelho e tinha listras brancas.

Nolan não percebeu que Soluço havia chegado, pois estava beijando a namorada e isso o levava para outro mundo, apenas quando abriu os olhos para revirá-los foi quando se deu conta de que a luz estava acesa e voltou o olhar para o irmão mais novo parado na porta.

Se assustou e empurrou Astrid para fora de seu colo, jogando-a para sua esquerda, seus lábios fizeram o som molhado da separação.

—Soluço! – reclamou com as mãos para os lados.

O Haddock mais novo tinha 15 anos, era baixo e bem magricela, mas tinha ombros largos, no entanto, não era tão másculo fisicamente quanto o irmão. Estava usando óculos, sua jaqueta verde favorita, calça preta e botinas marrons. Carregava uma bolsa nas costas e livros na mão esquerda. Olhou o mais velho com uma expressão que demonstrava o quão insignificante era para ele sua reclamação, os músculos de seu rosto estavam relaxados por trás dos óculos e no fundo julgava o irmão, pois havia notado que as mãos dele tocavam a namorada aonde não deviam.

—Oi Nolan – disse virando-se para porta, fechando-a e trancando-a, sua voz também fazia questão de demonstrar que não se incomodava nem um pouco com a reclamação anterior, "afinal, que culpa tinha se ele entrou na hora em que se beijavam?", pensava ele toda vez que os flagrava.

Jogou o chaveiro na tigela de vidro que estava cheia de chaves, e estava na estante a direta da porta. Deu a volta no sofá grande que ficava no centro da sala e disse: “Oi Astrid.”.

—Oi Soluço – disse ela com um sorriso pequeno nos lábios rosados e carnudos, um olhar sereno em seu rosto, a coluna curvada para frente e olhava para o chão. Por mais que não gostasse dos momentos em que Soluço os flagrassem aos beijos e forçasse Nolan a se separar dela, sempre fora simpática com Soluço, e as brigas entre os irmãos que aconteciam depois desses momentos sempre foram motivo de deleite para ela.

Nolan ainda olhava o irmão incomodado com a presença dele, e insultado com a atitude de Soluço, que agora ia para a cozinha.

Voltou-se para a namorada e disse: “Relaxa gata, eu já volto!”.

Pulou por cima do sofá, deixando-a sozinha na sala.

O senhor e a senhora Haddock trabalhavam até tarde, por isso a mãe dos irmãos sempre deixava a comida pronta para que quando os filhos chegassem tivessem o que comer, precisando apenas esquentar a comida.

A cozinha tinha a mesa no centro, com as cadeiras, e ao redor estavam os armários, geladeira, freezer, fogão, micro-ondas e cestos de comida.

Soluço pegou as panelas dentro da geladeira e as colocou sobre o fogão, acendeu o fogo e começou a esquentar a comida, mexia na comida com conchas. O mais velho chegou um segundo depois e se apoiou na cadeira mais próxima do fogão ao lado do consanguíneo, cruzando os braços.

—E aí irmão, aonde estava?

—Na casa do Jack fazendo algumas tarefas – respondeu simplesmente olhando para a comida, já não demonstrava qualquer frivolidade para com ele.

— “Fazendo tarefas” Sei... Aposto que estavam lendo seus livros de nerd no clubinho do livro só de dois de vocês.

—Não mete nossos livros na história! – exaltou a voz, apontando a concha para o irmão.

—Tudo bem, não importa. Preciso de um favor seu.

—O que é? – perguntou, novamente olhando para a comida, dessa vez com um pouquinho de frieza. Normalmente Nolan sempre pedia por favores que Soluço não podia realizar devido a sua lei moral.

—Eu tenho umas tarefas atrasadas, quero que você resolva elas pra mim, o que quer em troca?

O mais novo levantou o rosto fazendo uma expressão de mente exausta, suspirou e lançou um olhar de cruel desaprovação para o mais velho, que já era acostumado e por isso não reagiu, permaneceu com o mesmo olhar, desconsiderando a reprovação do irmão.

—Não! – respondeu balançando a cabeça – Se quer ajuda eu te ajudo, mas está louco se acha que eu vou fazer suas tarefas por você.

—Ah, qual é Soluço, somos irmãos! – apelou o mais velho.

—Somos irmãos, mas nem por isso você esquenta a comida antes de eu chegar! Ao invés disso fica aos beijos com a Astrid! – a loira, ainda sentada no sofá com as pernas juntas, ouvia o diálogo dos irmãos e deu um risinho tapando a boca com as duas mãos – Você espera eu chegar pra cozinhar pra você e pra Astrid!

—E daí? – retrucou o mais velho.

—Tá de brincadeira?! Vocês nem notam o mundo ao redor de vocês! Muito menos que escurece e que precisam da luz acesa pra se enxergar! Quantas vezes eu já cheguei e estavam se beijando na sala no escuro quando haviam começado a se beijar de dia? Se um caminhão entrasse pela parede da casa o cara fugiria e vocês nem perceberiam!

—Dá um tempo! – gritou o mais velho diante das acusações – Você não sabe o que é ter namorada! Você nunca namorou! Até o Jack tem namorada e você não!

Soluço voltou o olhar para o mais velho, incrédulo diante das palavras de Nolan, que retratavam algo real e desconfortável a respeito do mais novo. Os olhos dele estavam um debochados, sua boca um tanto aberta e a mandíbula para o lado, olhando o mais velho pelo canto do olho e para cima, seu rosto misturava a reação diante de uma ofensa e uma surpresa desagradável, pois foi um golpe baixo.

Desligou o fogo sem olhar para o mesmo, e empurrou um prato no peito do irmão, oferecendo-o aonde comer.

—Para de ficar ao beijos com a Astrid desse jeito! Eu vi aonde suas mãos estavam! Se fizer isso e a mãe te flagrar de novo já sabe!

Colocou a comida rápido e com uma pressa que derrubava farelos na mesa. Pegou o prato e os talheres e subiu pela escada do outro lado da cozinha, que dava para o quarto dos dois irmãos.

—Vou estar no quarto estudando! Quando você subir eu te ajudo!

Nolan colocou sua comida e voltou para a sala, aonde permaneceu aos beijos com a namorada, comiam no espaço entre os beijos e Astrid colocava a comida na boca do namorado.

Horas depois, Stoico e Valka chegaram, e depois de mais algumas horas, a loira voltou para casa, a pé e na escuridão noturna.

Quando Nolan subiu para o quarto já era tarde da noite.

O quarto dos irmãos Haddock era relativamente grande, as paredes de lá também eram de um verde escuro, o chão de madeira, e era dividido entre o lado de Soluço e o de Nolan. O lado de Soluço era cheio de livros, escolares, de ficção, e de algumas matérias que ele lia por puro prazer, também haviam revistas em quadrinhos de heróis, na parede pôsteres de personagens fictícios e bugigangas espalhadas pelo chão e pela estante, que tinham também algumas fotos em molduras. O lado do mais velho era mais bagunçado, tinha pôsteres de carros caros e de última geração, revistas masculinas, entre elas, eróticas, seus materiais escolares viviam espalhados e perdidos, e sempre havia restos de comida em suas coisas. No meio, aonde se dividia o quarto entre o lado de Soluço e o de Nolan, havia um crucifixo na parede, perto de uma imagem de São Olavo e abaixo de ambas, uma estante com uma Bíblia em cima, mais voltada para voltada para o lado de Soluço que o de Nolan, o caçula costumava usar mais aquelas coisas.

Quando entrou, a luz estava apagada, Soluço estava sentado na escrivaninha de seu lado do quarto e a luz de seu abajur iluminava seus materiais, seus livros escolares estavam todos espalhados e haviam papeis e canetas jogadas para todos os lados. Estudava cansado, quase se deitava sobre a mesa.

—Ah, finalmente chegou! Anda, vamos ver essas tarefas! – disse quando notou o irmão entrando.

Nolan pegou uma cadeira de seu lado do quarto e a arrastou até o lado esquerdo de Soluço, e começaram a ver as tarefas.

Soluço podia ter 15 anos, e Nolan e Astrid 20 anos, mas o Colégio de Berk tinha uma grade de ensino que acabava acolhendo alunos de várias idades, dependendo do intelecto deles, e o mais novo era bem inteligente, e era ele quem ajudava o irmão em suas matérias, ao invés do contrário.

Tentou ensinar o mais velho a respeito das matérias, mas este nunca teve interesse em aprendê-las antes, não se interessaria em aprendê-las depois, mas o mais novo era paciente e já estava acostumado com as atitudes do irmão. Repetidas vezes Nolan reclamou de que seria mais rápido se o caçula respondesse de uma vez para ele, mas o mais novo não faria nada do tipo para outra pessoa. Levou quase a madrugada toda, mas terminaram. Soluço adormeceu sobre a mesa, com a cabeça deitada em cima de seus braços dobrados, e o outro dormiu de costas no chão, cobrindo os olhos com o antebraço direito. Mas não tinham com o que se preocupar, afinal, não teriam aula no dia seguinte, era fim de semana.

Astrid chegou cedo na dos Haddock, invadiu o quarto dos dois e sequestrou Nolan para voltar a beijá-lo, mas Stoico e Valka não trabalhavam, por isso podiam ficar de olho no jovem casal. Soluço acordou brevemente quando a loira invadiu o quarto e levou o namorado, e o mais novo teve apenas força para se jogar de costas sobre a cama e balançar sobre as molas do colchão.

Dormiu de novo e fora acordado pela mãe para almoçar, tomou um banho e foi totalmente acordado para a mesa.

A mesa da cozinha era grande, de madeira e retangular, Stoico se sentava a cabeceira e a sua direita a esposa, à esquerda Soluço e mais no final, Nolan e sua namorada, que estava ridiculamente perto do namorado.

A loira não usava o uniforme de líder de torcida, mas usava roupas curtas e apertadas que mostravam seu umbigo e terminavam acima de seus joelhos, o que sempre incomodou Valka, pois violava a santidade de seu lar.

Stoico sempre se incomodou com o desconforto de Valka, mas nunca se incomodou de verdade com as roupas da namorada do filho, afinal, diferente de Soluço, Nolan era a personificação do filho perfeito para muitos pais, inclusive para Stoico: alto, mulherengo, atlético e que gostava das mesmas coisas que ele, e o senhor Haddock sempre reagiu da mesma maneira que qualquer pai agiria ao notar que filho tem uma namorada bonita. Nunca teve olhos para os defeitos do casal, talvez para as mãos bobas de Nolan.

Todos comiam em silêncio, exceto pelo casal jovem, que namorava à mesa, trocavam carícias e sussurravam um para o outro, para o incômodo de Valka. Nolan e Astrid jamais se deram conta de que a senhora Haddock não gostava daquilo, mesmo que a tensão estivesse palpável no ar. Apenas Stoico e Soluço observavam o olhar mortal, sombrio e sangrento que emanava da mãe da família.

—Nolan... – chamou a mulher, mas o filho não ouviu – Nolan!

O filho mais velho pulou sobre a cadeira e voltou-se para a mãe, já a namorada se afastou alguns centímetros do rosto dele abaixando a cabeça, não querendo atrapalhar o diálogo entre mãe e filho.

—Vocês não terão aula nessa semana não é? – ela perguntou com olhar voltado para a comida.

—O que?... Não... É aniversário da escola e por isso vão dar um tempo pra ela – respondeu já voltando-se para a loira à direita dele.

—Ótimo, vocês vão visitar o avô de vocês...

—Espera, o que?! – respondeu o filho voltando-se para a mãe, com um rosto de desprazer – o vô Arú?

—Exato – respondeu equilibrada, já esperava tal reação do filho.

—Peraí, tá de brincadeira? Isso é sério?! Vamos ter a semana inteira de férias e teremos que passar ela numa cabana congelada?

—Ele quer ver os netos! – falou com firmeza e endireitando a postura.

—Não podia mandar só o Soluço?

Valka bateu na mesa, fazendo um barulho que foi alto na cozinha e assustador para os presentes, o suco dos copos dançou dentro do vidro, derramando algumas gotas na madeira, os pratos pularam balançando os talheres, os temperos caíram, e a mulher silenciosa fazia um olhar irritado que desvirilizava o filho. E o garoto atlético, másculo e mulherengo virou uma menininha assustada diante da mãe.

Stoico apenas olhou em silêncio a esposa e o filho mais velho pelos cantos dos olhos, chegando a se deleitar com aquilo.

E Soluço também olhou Nolan pelo canto do olho, seu tronco saltou quando segurou uma risada, achando aquilo tão merecido quanto engraçado.

Não houveram mais reclamações, a dona da casa já decidiu, e o queixoso foi ridiculamente consolado pela namorada.

Valka, notando que não havia dado tanta atenção ao filho mais novo e aquele que mais se assemelhava a ela, falou: “Então filho?! Finalmente vai poder caçar e montar de novo!”.

O tom da voz dela estava diferente, muito mais amigável e materno, o caçula nunca deu trabalho à ela e sempre amou ir à casa do avô.

Soluço abriu um sorriso e disse: “É... Vai ser legal.”.

Ela sorriu amorosamente para o filho e depois reforçou para Nolan: “Vocês vão e ponto final!”.

Passaram mais um tempo em silêncio e quando terminou o almoço Stoico falou: “Podem ir na minha caminhonete vermelha.”.

Nolan abriu um sorriso e falou: “Aí sim papai!”.

Era de manhã, havia neblina pairando sobre o asfalto e as casas. Nolan e Soluço esperavam perto da caminhonete, esperando Astrid chegar. O mais velho estava diante do retrovisor direito do carro, limpando o dente e com o corpo deitado sobre o veículo, de costas para o irmão, já Soluço estava com o livro de ficção na mão e o pé direito encostado na caminhonete. Usavam roupas de frio.

—Por que não buscamos Astrid na casa dela? – perguntou o mais novo depois de um longo tempo em silêncio, um tanto queixoso pela demora do começo da viagem.

—Primeiro porque ela tem duas pernas, segundo porque temos que economizar gasolina, e terceiro porque ela não quer que eu vá na casa dela – respondeu ainda se olhando no espelho.

—Primeiro, o carro tem quatro rodas, segundo, o pai te deu dinheiro para pagar pela gasolina na ida, na estadia e na volta, e por último, por que ela não iria querer o próprio namorado na casa dela?

O mais velho parou de limpar o dente e se virou caminhando na direção do irmão com uma postura ameaçadora.

—Eu não sei o porquê, ela nunca me disse, quem se importa?! E vem cá, não está defendendo muito a Astrid não? Ela é minha namorada, esqueceu?!

—Relaxa – disse Soluço sem se importar com a postura do irmão, ainda lia o livro e se deitava na caminhonete apoiando o pé – eu não tenho interesse na Astrid, gosto mais de garotas que se respeitam.

—O que quer dizer?! – o mais velho exalta um pouco a voz.

—Não vem com essa! Até parece que eu já não perdi as contas de quantas vezes peguei você e a Astrid aos beijos e suas mãos indo para onde não deviam e a Astrid pouco se lixando pra isso! – disse voltando o olhar para Nolan, que ficou sem resposta diante da acusação, apenas abriu a boca procurando palavras, mas sem encontrar – Vai dizer que eu estou errado?

O mais velho não respondeu, deu meia volta fazendo careta e fungando, se recusando a aceitar a derrota, mas sem qualquer razão ou dignidade, sempre odiou a capacidade de argumentação de Soluço, por isso normalmente recusava discutir com ele.

—Acho que passa muito tempo com nossos pais... – Nolan falou de costas.

—Acho que passa muito pouco tempo com eles.

Depois de alguns instantes em silêncio, Nolan, ainda incomodado, voltou-se ao irmão e falou: “E quer saber? É besteira minha me preocupar com isso, a Astrid não me trocaria pra ficar com alguém igual a você. Nenhuma mulher no mundo me trocaria pra ficar com você. E só pra constar, se aqui tivéssemos uma competição para ver quem é o nerd mais metido, você ganharia!”.

—E se houvesse uma competição para ver quem é o pior namorado, os juízes diriam: “Profissional não vale!” – retrucou o mais novo.

Passaram mais um tempo esperando na mesma, Soluço lendo seu livro e Nolan se olhando no espelho, quando de repente surgiu Astrid. Ela usava uma jaqueta vermelha que terminava em suas cochas, uma calça jeans e botinas marrons, seu cabelo estava preso para trás sobre o capuz abaixado, carregava uma mala de rodinhas atrás dela e sorriu quando viu seu namorado.

Já Nolan não a notou a princípio, viu apenas um ponto no horizonte, surgindo sobre o asfalto da estrada e que aos poucos tomou forma. Quando finalmente percebeu quem era, correram um na direção do outro, surpreendendo Soluço que lia seu livro pacificamente.

Se abraçaram no meio da estrada a uns dez metros da caminhonete, e o mais novo olhava o casal de longe.

As mãos de Nolan desceram pelas costas de Astrid e lhe apalparam as nádegas, e a loira riu enquanto o rosto do namorado se aproximava do dela tentando beijá-la. Soluço virou o rosto desconfortável.

—Ah gata, é tão bom ter você aqui, pena que esteja com tanta roupa...

Ela riu de novo quando ele beijou seu pescoço.

—Aí, vocês dois! – gritou o mais novo de longe, já incomodado com as carícias do casal – Sério?! Aqui a céu aberto?! Não acham melhor esperar a lua de mel?

O mais velho se virou para ele incomodado novamente, a reclamação exposta em seu rosto, pois o mais novo o atrapalhava novamente a namorar. Mas Astrid reconheceu a razão de Soluço, e passou pelo namorado, acariciando seu rosto com a mão direita que deslizou do mesmo enquanto ela caminhava e puxava sua mala.

O mais velho caminhou com desgosto atrás da loira, e Soluço pegou a mala dela e colocou no bagageiro quando a mesma se aproximou. Depois todos entraram no veículo e partiram em direção a casa do avô de Nolan e Soluço.

O caminho era longo, tanto que precisaram comer num restaurante no meio do caminho, mas chegaram ao destino no fim da tarde, ouviam músicas que Nolan gostava no meio do caminho, mas Soluço e Astrid gostavam de uma ou de outra que passava.

Chegaram a uma cidade relativamente pequena, mas até que desenvolvida para o tamanho, depois passaram por várias casas de madeira que tinha cercas de mesmo material, celeiros e animais de fazenda como cavalos, porcos, e gado. Os cães corriam latindo dentro das propriedades dos moradores quando viam a caminhonete. O céu era pálido, cheio de nuvens e o ar era frio e ventava, o chão era de terra e os lados eram de grama seca.

Foram para um lado mais afastado da vizinhança com casas de madeira, subiram numa colina íngreme aonde a floresta, verde, cheia de neblina, escura, fria e pouco convidativa ficava próxima.

Chegaram numa propriedade, a única casa que havia naquela área e que era afastada das outras, tinha um terreno grande e com grama alta e morta, haviam bugigangas espalhadas pelo quintal da casa, e um estábulo bem ao lado dela. Tanto a casa quanto o estábulo eram feitas de madeira e em frente a porta de vidro da casa, em cima da escadaria, estava um homem, era alto e robusto, tinha pele clara e cabelo e barba longos e grisalhos, usava uma jaqueta preta que ficava justa em seu corpo, calça jeans largas e botas pretas, além de usar um boné vermelho. Em sua mão estava uma caneca de metal velha, com café dentro, e o vapor da bebida subia em frente ao rosto dele. Pai de Valka, sogro de Stoico, vô Arú, um velho caçador. Ele sorria com a presença dos netos e fora avisado a respeito de Astrid.

Quando Soluço viu o avô pela janela, sorriu, a caminhonete entrou na propriedade do velho e ia em direção da garagem sem porta, que ficava do outro da casa, de um lado o estábulo, do outro a garagem.

Soluço pulou do veículo antes mesmo do carro parar, e correu sorrindo como um menino em direção ao avô, que se abaixou para recebe-lo estendendo os braços e sorridente. Levantou o mais novo num abraço de urso e ria junto dele pelo reencontro. Arú sempre amou ver os netos.

—Soluço! – disse o velho logo após colocar o neto no chão – Está mais alto desde a última vez que o vi.

—E o senhor continua o mesmo vovô – respondeu o mais novo sorridente.

Riram juntos. Logo depois apareceram Nolan e Astrid, a loira segurava a mão do namorado e o carro estava estacionado atrás dele.

—E aí vô Arú! – disse Nolan, não gostava muito de ir na casa do avô, mas sempre disfarçava diante dele.

—Nolan! Está mais alto desde a última vez que eu o vi! – falou apertando a mão do neto, sabia que ele não gostava de abraços – E você deve ser a Astrid! – disse o velho pegando a mão direita dela com a mão esquerda e a cobrindo com a mão direita dele; Astrid sentiu a mão grossa e áspera do idoso – É mais linda do que ouvi falarem! – afirmou sorridente.

A loira ruborizou e riu lisonjeada.

—E o senhor é mais carismático do que me disseram – falou depois de rir.

—Por favor! Vamos! Entrem! – disse e ela entrou, no entanto, quando os netos iam atrás dela, mandou darem meia volta e pegarem as malas, e assim fizeram.

A casa de Arú tinha móveis de madeira, mas também tinha coisas eletrônicas e de última geração, uma televisão de tela plana, tomadas para celulares e carregadores, também tinha enfeites que foram deixados pela falecida esposa de Arú.

Arú deu dois quartos para os viajantes, um para os meninos e outro para a menina. O neto até protestou até protestou dizendo que queria ficar com a namorada, mas o senhor de idade disse que havia falado com a filha e o genro, e que sabia que não era boa ideia deixá-los juntos e sozinhos num quarto, ainda mais um quarto aonde vão dormir. Astrid também não gostou da separação, mas não protestou, não houve muitas brigas.

Depois os três dormiram, Soluço dormiu de costas para o irmão e Nolan com o corpo virado para cima, Astrid dormiu de lado sobre a cama, e todos estavam descalços, seus calçados aos pés da cama com as meias brancas dentro. Arú ficou do lado de fora enquanto os jovens dormiam, fumava seu cachimbo preto e médio enquanto balançava na cadeira de balanço.

Depois preparou um jantar com as próprias habilidade culinárias, e quando os jovens acordaram a comida já estava pronta.

Comeram na mesa redonda de Arú, o velho fez questão de criar um cardápio com comidas que os convidados gostassem de comer, e deu certo. Arú, Nolan e Astrid bebiam taças de vinho, e Soluço uma lata de refrigerante.

Conversavam e riam ao mesmo tempo e Arú contava histórias engraçadas e constrangedoras sobre os netos para a garota. Ela ria de verdade diante delas, adorava saber coisas sobre o namorado.

—Astrid! Minha querida, vamos caçar amanhã, você gostaria de ir junto?

—Os meninos vão com o senhor?

—Mas é claro! Fique à vontade para ir conosco!

—Eu adoraria! – respondeu.

Arú terminou de comer, limpou a boca com um guardanapo e depois o amassou e jogou sobre o prato, depois jogou o lixo no cesto sobre a pia e lavou a louça e falou para os jovens fazerem o mesmo quando terminassem de comer. Deu permissão para ficarem assistindo, mas ordenou que Nolan e Astrid dormissem em quartos separados e que não fizessem nada que o Stoico e Valka não deixassem que fizessem. E assim aconteceu, mais por Soluço ser o último a dormir do que pelo casal realmente ter consciência de seus atos.

No dia seguinte, Soluço acordou antes de todos e foi ao estábulo, tendo já tomado o café da manhã e usando novamente suas roupas de frio. No estábulo haviam muitos cavalos, o chão era feito de terra e palha seca, era frio e tinha cheiro ruim, e haviam selas e aparelhos de montaria e cuidado da animas para todos os lados.

Ele fechou os olhos ao notar que estava de volta ao lugar que mais amava, a casa de seu avô e o estábulo, longe de todo o movimento da cidade, e de todas as obrigações que tinha, apenas ele e o avô; seria mais perfeito se Nolan e Astrid não estivessem por perto, mas sabia que toda rosa tem espinhos.

Caminhou em direção a um cavalo negro, musculoso e alto, sua crina era longa e preta e Arú o havia dado a Soluço quando o neto era mais novo.

O cavalo relinchou ao ver seu cavaleiro, e ficou sobre as patas traseiras, feliz por ver o garoto.

Ele abriu a porta enquanto olhava o cavalo.

—Oi amigo! Também é bom rever você! – disse enquanto fechava a porta, entrando no espaço do cavalo e começou a acariciar sua crina – Desculpe não ter vindo aqui antes para ver você! Mas sabe... Mundo moderno, mil e um problemas e preocupações. Desculpe também por não ter vindo aqui ontem, eu estava cansado, e depois tive que ficar cuidando de duas crianças de vinte anos. Você conhece uma delas, é o meu irmão, a outra é a Astrid, você em breve vai conhecer.

Passou mais um tempo com o cavalo, falou sobre muitas coisas enquanto o acariciava. E depois saiu, trancou a porta do estábulo e entrou na casa pela porta da frente. Aonde Nolan e Astrid comiam sobre a mesa, os dois sonolentos e Arú falava no celular.

—O que? Tem certeza? Tá bom – falou e guardou o aparelho no bolso; depois chamou o neto agitando os dedos – Soluço venha cá.

Caminharam juntos para um quarto isolado com a porta aberta, longe dos outros.

—Soluço, vou receber uma encomenda hoje, e preciso que você e a Astrid fiquem aqui para recebe-lo.

—Sim senh... O que?! Eu e a Astrid?! Por quê?!

—Eu preciso sair para caçar, então eu ficar aqui e vocês irem sozinhos não é opção; se eu deixar vocês três aqui, você pode se afastar enquanto eles dois namoram e o pior pode acontecer, além de perderem a encomenda; deixar Astrid sozinha numa casa de alguém que não conhece direito e durante horas também não seria muito educado; levar ela e deixar você sozinho com ele é como sair deixando uma vela acesa e o gás vazando, podem brigar e não perceber que encomenda veio; se deixarmos apenas Nolan... Você sabe como ele é, pode se distrair e não perceber que a encomenda veio; se eu deixar você e levar os dois eles vão ficar de namorico no meio da caçada; se eu deixar os dois sozinhos... Já sabe; então, levar Nolan e deixar você e Astrid aqui é a melhor opção para que a encomenda seja recebida e a caçada seja um sucesso.

—Mas... Mas... – disse Soluço, incomodado com a ideia de ficar sozinho com uma garota – Vovô...

Ia falar, mas um inspirar alto o interrompe, veio do quarto de hóspedes aonde Astrid estava hospedada.

Correram para lá e quando chegaram no quarto, a loira estava de costas para a porta, voltada para a cama, com a mão na boca e olhando a colcha, que havia um copo derramado sobre ela, o café da manhã de Astrid.

Quando notou a presença dos homens, voltou-se para eles assustada e falou: “Senhor Arú, me perdoe! Foi um acidente! Eu nem sei o que dizer!”.

Mas o velho apenas fechou os olhos compreensivo e fez gestos com as mãos dizendo: “Está tudo bem querida, isso já aconteceu muitas vezes, não há com o que se preocupar, eu não estou bravo. Quando chegarmos da caçada eu mesmo lavo, não se preocupe, vai ter uma cama limpa para dormir essa noite.”.

Depois falou que ela e Soluço iriam ficar juntos na casa para receber a encomenda, e a loira olhou o mais novo, que desviou o olhar um tanto desconfortável, e Nolan protestou reclamando que talvez ele devesse ficar com a namorada, mas foi infrutífero.

Depois Arú pegou o neto e duas espingardas junto de caixinhas de munição de seu quarto, e saíram na caminhonete cinza do idoso.

Ficaram sozinhos na casa. Astrid nunca teve nada contra Soluço, afinal, apesar dele enxerga-la apenas como a namorada de seu irmão, ele sempre a tratou com respeito e sempre foi simpático com ela, e a loira por sua vez, sempre foi simpática com ele, mesmo que o enxergasse apenas como o irmão de seu namorado. Mas Soluço com certeza ficou desconfortável por ficar sozinho numa cabana com uma garota tão bonita, e que era namorada de seu irmão.

Astrid estava no sofá da sala, usava as mesmas roupas que vestia no dia anterior, a jaqueta vermelha e a calça jeans, assistia televisão com as pernas cruzadas e os pés descalços em cima da mesa de vidro, e os seus sapatos estavam aos pés do sofá com as meias brancas emboloradas dentro deles. Soluço estava na mesa de jantar, de costas para ela, e lia seu livro de ficção, não se incomodava com o som da televisão porque a loira respeitava a privacidade do mais novo e diminuiu o volume, de maneira que ele pudesse ler seu livro e ela pudesse assistir à vontade.

O mais novo lia o livro com prazer, sem qualquer problema, no entanto, vez ou outra parava e se dava conta de que a alguns metros atrás dele e a sua direita estava uma garota bela e simpática; pensava a respeito das roupas de Astrid a mesma coisa que Valka, afinal, ele passava muito tempo com a mãe quando pequeno, tanto que se assemelhou bastante a maneira que ambos pensam, mas agora, a loira cobria o corpo e Nolan não estava por perto para fazê-la de fantasia, por isso ele a olhava com outros olhos naquele momento. E assim como a água tenta pessoas sedentas, a beleza de Astrid tentava Soluço, e quando deu por si, olhava ela.

Quando se deu conta de que era olhada, ela sorriu para ele, que na hora voltou o rosto para o livro disfarçando e a loira sorriu com aquilo, a timidez de Soluço fazia parece-lo mais adorável do que maduro, como ela o olhava na maioria das vezes.

Passaram-se mais alguns minutos, ele ainda lia o livro e Astrid assistia televisão, até que ela desligou o aparelho e disse: “Soluço, vou tomar banho.”.

Falou se levantando.

—Tem alguma coisa que eu deva saber a respeito do chuveiro? – ela perguntou.

—Nada, é como o chuveiro da cidade, para ativar a água quente requer os mesmos procedimentos.

—Obrigada.

Ela foi tomar banho, e Soluço continuava a ler enquanto ouvia o som da água caindo no chão. Estava tudo normal quando de repente ouviu-se um som de carro entrando rápido na propriedade de Arú.

Soluço se sobressaltou sobre a cadeira com o som dos pneus e olhou o velho entrar desesperado com as armas na mão. Estava suado, pálido, ofegante com os olhos arregalados.

—Vovô, tudo bem? – perguntou se levantando da cadeira e indo em direção ao avô.

—Nolan se feriu na caçada! – falou com a mesma expressão.

O mais novo sentiu um gelo subir pelas costas, e Astrid, que de dentro do banheiro ouviu o velho, saiu no mesmo instante, ensaboada, com xampu e enrolada numa toalha branca, segurando-a acima dos seios.

—O que? – perguntou ela com desespero nos olhos azuis.

—Estávamos na floresta, encontramos um javali e Nolan errou o tiro, o javali atacou ele... Se eu não estivesse lá, ele já estaria morto.

—Aonde ele está? – perguntou Soluço.

—No carro! Tenho que leva-lo para um hospital! Soluço pegue a mala dele agora!

O mais novo disparou para o quarto de hospedes chegando a quase tropeçar e a loira correu até a caminhonete de Arú do lado de fora da cabana.

Soluço trouxe a mala fechando o zíper e deixando algumas coisas caírem no meio do caminho, o avô entregou as armas para o neto e arrancou a mala da mão dele, e ambos desceram a escadaria da casa em direção ao carro.

A porta esquerda da traseira do carro estava aberta e as pernas de Nolan estavam esticadas para fora dela, Astrid estava de joelhos em frente às pernas dele, e chorava por ver o namorado em tal situação.

Quando se aproximou, Soluço viu o irmão e lágrimas encheram seus olhos sem escorrer. Nolan estava atordoado, sua cabeça se mexia de um lado a outro enquanto ele gemia com os olhos revirados, suas mãos estavam em seu tronco, sobre a barriga e havia sangue em suas roupas e mãos.

—Nolan! – gritou Soluço.

Arú correu entrando no carro e Astrid disse chorosa e desesperada: “Eu vou com vocês! Só esperem eu me arrumar e...”.

—Não dá tempo! Eu tenho que leva-lo agora! – gritou desesperado.

—Então eu vou com vocês! – disse Soluço, já correndo para entrar na caminhonete, mas Arú não deixou.

—Soluço! – gritou desesperado, foi a primeira vez que levantou a voz para o neto – Seja homem e fique com ela! – gesticulou para a loira de pé atrás dele, cujos olhos azuis estavam úmidos e sombrios, seu olhar estava perdido e sua boca estava aberta em aflição.

O velho deu a partida no carro e saiu rapidamente, o mais novo se afastou quando percebeu, e Astrid, segurando a toalha, foi para o lado de Soluço, olhando a caminhonete se afastar cada vez mais e rapidamente.

Ficaram juntos, em silêncio, quando o choque aos poucos passou foi quando Soluço percebeu que havia uma bela moça só de toalha estava perto dele. Ele se afastou assustado dando um gemido de susto, mas Astrid sequer percebeu, apenas olhava o horizonte vazio, preocupada com o namorado, e a visão dela ali, parada, chorando, num mundo de tristeza em sua mente, foi quando ele percebeu que aquele não era o contexto ideal para ficar com vergonha.

Olhou do horizonte à loira perto dele, e sentiu vergonha, tanto por ficar assustado com Astrid de toalha perto dele, quanto pelas vezes que pensou mal do irmão e das raras vezes que pensou mal de Astrid. Ainda estava preocupado com Nolan, mas ele estava indo para o hospital, já Astrid era um monumento de tristeza e desolação perto dele, e ninguém podia fazer nada com isso no momento, exceto ele.

Procurou com os olhos alguma parte do corpo dela que não houvesse espuma e que um homem pudesse tocar numa mulher comprometida, e tocou-lhe o ombro.

Ela se sobressaltou, piscando e arregalando os olhos num segundo, e olhou o mais novo, que a olhava com compaixão. Diante disso, seu rosto mudou e ela aceitou o consolo de Soluço, o abraçou com força, enquanto chorava, desconsiderando totalmente o fato de estar só de toalha.

Ela era mais alta do que ele, por isso, curvava o corpo, e Soluço, aos poucos pôs as mãos nas costas dela e abandonou a vergonha, mesmo que os seios dela estivessem apertados contra o peito dele.

—Astrid... Está frio aqui fora, e você está toda molhada e de toalha, é melhor você terminar de tomar banho e vestir uma roupa limpa, senão vai ficar doente.

Ela fez que sim com lágrimas nos olhos e olhando para baixo, havia tristeza em seu rosto.

Entraram juntos e ela fez o que Soluço disse, terminou seu banho e colocou uma roupa limpa.

E o dia continuou sombriamente, estava escuro dentro da casa e ninguém falava nada, a preocupação sobre a saúde de Nolan roubava a voz dos dois. Soluço fez a comida usando o livro de receitas da avó, junto de seus dotes culinários que aprendeu com os avós.

Depois permaneceram em silêncio, e Soluço abandonou o livro para ficar com Astrid, mesmo que a certa distância e sem dizer nada, fez pipoca e assistiram a vários filmes juntos até o anoitecer, quando finalmente, Arú ligou.

Soluço pegou o celular desesperado e Astrid abriu os ouvidos para entender a conversa.

—Como ele está? – perguntou com o celular no ouvido, seus olhos estavam arregalados e o coração batia rápido.

Conversaram, e Soluço ouviu mais do que falou e Arú desligou o telefone primeiro.

—Então? Como ele está? – perguntou a loira desesperada.

—O vovô disse que ele está fora de perigo – Astrid soltou o ar dos pulmões pondo a mão no peito, enquanto agradecia ao Pai Celestial – ele disse que os médicos falaram que quando o javali perfurou ele, acertou um órgão e que o Nolan perdeu muito sangue e tiveram que fazer uma transfusão.

—Então? – ela perguntou.

—Ele está fora de perigo, mas vai demorar a se recuperar por completo, vai ter que passar o mês inteiro lá e o vovô vai ficar com ele em todo esse tempo.

—Então vamos juntos – ela disse se levantando – você sabe onde fica o hospital?

Ela olhou Soluço, cuja expressão do rosto respondia a pergunta de Astrid, que sentou-se de novo no sofá, um tanto desolada, mas muito mais confortada pelo fato do namorado estar vivo e bem.

—Bom... O importante é que Nolan está bem. Acho melhor dormirmos agora.

—Astrid, tem mais uma coisa!

—O que?

—Vô Arú me mandou dividir o quarto com você.

Astrid estava sentada sobre a cama, usava uma camisola branca e suas pernas estavam esticadas por debaixo da coberta e segurava a mesma cobrindo os seios. Seus cabelos belos e loiros estavam soltos e sua aparência estava bem diferente da de costume, poucas pessoas já viram Astrid de cabelo solto, chegava a parecer uma princesa.

Soluço estava no banheiro do quarto escovando os dentes e quando saiu apagou a lâmpada, ele usava uma camisa verde e uma calça azul própria para dormir. Havia uma almofada e uma coberta embolorada do lado esquerdo da cama, e se guiou até elas pela luz da lua, que entrava no quarto azul acinzentada, fazendo a sombra da arquitetura da janela no tapete vermelho do quarto.

Ele deitou dizendo: “Boa noite Astrid.”.

—Boa noite Soluço.

A mais velha queria dormir, mas sua mente estava agitada demais, e por isso se mexia sobre a cama, e uma expressão de preocupação estava em seu rosto. Passou muito tempo assim.

—Soluço... – chamou ela.

O mais novo estava deitado de costas para ela.

—Estou acordado Astrid – respondeu de olhos fechados – pode falar.

—Você acha o Nolan vai ficar bem? – perguntou como se fosse uma criança.

—O vovô disse que os médicos falaram que ele vai ficar bem, então, tenho certeza de que vai.

—Mas você não está preocupado?

—Claro que estou, ele é meu irmão, podemos até brigar às vezes, mas ainda somos irmãos.

Astrid sorriu, e disse: “Vocês brigam bastante não é?”.

—Sim...

—Soluço, já ouvi vocês brigando por minha causa... – ele abriu os olhos quando ouviu – Na verdade a maioria das vezes que vejo vocês brigando é por minha causa... Posso saber por que?

O mais novo ficou em silêncio, pensativo, não era segredo para ele que a loira sabia das brigas dele com o irmão por causa dela, mas não imaginou que falaria sobre elas com Astrid. Se perguntava se devia falar sobre elas ou não.

—Soluço?

—Meu irmão, é o preferido do meu pai – começou – e eu sou o preferido da minha mãe, é um lance tipo Esaú e Jacó... Sabe? Da Bíblia. Conhece a história?

—Sim – ela respondeu – sei que não tenho cara, mas conheço essas histórias bíblicas, pelo menos a maioria delas. Mas o que isso tem haver?

—Mais tarde você vai entender. Meu pai sempre quis um filho atlético e másculo, e tem o Nolan, já minha mãe queria um filho que fosse mais criativo e inteligente, e acho que esse sou eu. No fim os dois conseguiram o que queriam, mas em consequência, conseguiram também coisas que não queriam muito. Não sou tão atlético quanto meu irmão, também não tenho namorada e não sou tão bom em esportes, por isso, meu pai de vez em quando se incomoda com isso. E a minha mãe se incomoda um pouco com a personalidade de Nolan, eu não sei se você já percebeu, mas Nolan é bem arrogante de vez em quando.

—Eu já percebi sim – respondeu ela – mas ele ainda é meu namorado, e acho que posso muda-lo...

—Imagino – respondeu o mais novo – acho que meu pai gosta de quando venho aqui e atiro e cavalgo, creio que é quando ele tem certeza da minha masculinidade, deve ser quando eu tenho mais certeza dela também. E... Respondendo sua pergunta, uma coisa que a minha mãe não gosta é da relação de Nolan com suas namoradas.

—Ele teve muitas namoradas antes de mim? – pergunta intrigada.

—Não, só teve umas duas na verdade, mas não é disso que eu estou falando.

—Do que então? – ela perguntou franzindo o cenho.

—Nolan pode até ter tido poucas mulheres na vida, mas longe de tratar elas de forma diferente umas das outras.

—O que quer dizer?

—Astrid. Nolan apalpava aquelas garotas assim como ele apalpa você.

Ela ficou em silêncio, e Soluço esperou alguma resposta.

—E o que tem isso?

—Mamãe sempre se incomodou ao ver a forma que Nolan tocava nas partes intimas daquelas garotas, ela já brigou com ele muitas vezes, mas ele nunca se incomodou com isso. Ela acredita que um homem só deve tocar uma mulher do jeito que meu irmão toca você depois de casados, ela tem uma mentalidade um tanto arcaica, e creio que herdei isso dela.

—Diria que ela tem uma mentalidade medieval. E você também se incomoda?! É isso?

—Acho que estaria mentindo se dissesse que não.

Ela ficou em silêncio, se mexeu sobre a cama ficando de costas para Soluço, julgando a opinião do mais novo.

Ele não notou o que Astrid fazia em silêncio, mas imaginava o que ela pensava, agora estava deitado de costas, olhando para o teto e brincava com os dedos sobre o peito, pensativo e relutante em prosseguir com o diálogo.

—Astrid... Não me leve a mal... Mas você é uma garota muito, muito, muito, muito, muito...

A loira cerrava mais o punho à medida que Soluço continuava, e fechava o rosto rangendo os dentes, esperando uma crítica.

—Linda – concluiu.

Ela arregalou os olhos e a expressão em seu rosto mudou no mesmo instante, relaxou o punho e os músculos do rosto, e corou logo depois.

—Mas concordo com minha mãe a respeito dessas coisas, não só por me parecer mais com ela, mas também por enxergar certa lógica nisso. Sabe, é como aquelas histórias de garotas lindas que ficaram com caras desprezíveis que não davam valor à elas e depois as abandonavam deixando elas chorarem. Sempre que vejo meu irmão com você, não penso outra coisa senão isso, um cara com uma garota linda, mas que não enxerga que ele não é o cara certo pra ela. Não quero falar mal do meu irmão, ou melhor, do seu namorado, só que... Eu só digo isso porque o conheço bem. E porque noto uma grande bondade em você e porque você merece mais.

Ela ficou em silêncio diante do discurso de Soluço, e o mais novo novamente esperou uma resposta. De repente ouviu-a gemer, ela estava chorando e lágrimas de diamante escorriam pelo seu rosto enquanto ela mordia o dedão feminino com unhas claras.

—Astrid?

Ela inspirou alto e disse: “Soluço... Obrigada... É a primeira vez que alguém me diz algo tão legal e bonito.”.

O mais novo sorriu e disse: “Não precisa agradecer.”.

Se sentou e a cabeça dele ficou a altura do colchão, deitou os braços sobre a cama e apoiou o queixo nas costas das mãos, seus braços estavam dobrados e os cotovelos para os lados.

—Astrid – ele chamou e na hora ela se voltou para ele, um tanto assustada. Quando o olhou, ele sorriu humano e humildemente. A primeira vez que sorriu para ela com tanta simpatia.

—Astrid... Você poderia me responder uma pergunta?

—Claro – respondeu enxugando as lágrimas.

—Por que você é assim?

—Assim como?

—Você deixa meu irmão fazer o que quer com você, e nem por um segundo reclama. Duvido que você tenha nascido assim. Mas não precisa responder se não quiser.

—Não... Tudo bem... Você me falou dos seus problemas familiares, então acho justo responder sua pergunta. Vamos lá – respirou fundo, não parecia uma história fácil de ser contada – Eu não nasci do fruto do amor entre minha mãe e meu pai, como você e o Nolan, a história de amor da minha mãe e do meu pai é a de um cara, que estava num bar qualquer e viu uma mulher bonita sozinha, foi lá, embebedou ela, que era uma mulher jovem e ingênua e levou ela pra cama, e no dia seguinte desapareceu. A mulher não usou métodos contraceptivos e descobriu que estava grávida, e foi aí que eu apareci na história, eu nasci – fez uma pausa, pensativa, e ele prestava atenção em sua história, seus olhos reluziam a luz da lua, um tanto arregalados, depois a loira continuou – Minha mãe odeia meu pai, seja lá quem ele seja, ela não sabia sequer o seu nome dele, apenas que ele era loiro, branco e de olhos azuis, e sempre que ela olha pra mim, ela se lembra dele, e desde pequena ela desconta em mim a raiva que sente dele. As pessoas dizem que eu não me pareço nem um pouco com a minha mãe. É como aquela piada de que a mãe carrega por nove meses para o bebê se parecer com o pai... – ela riu em meio à tristeza – E a minha mãe não se importa comigo, longe disso, ela paga a comida, a bebida, a escola, mas pra ela tanto faz se vivo ou se eu morro. Houve uma vez que eu saí para uma festa e voltei na manhã do dia seguinte, ela não quis saber aonde eu estava, e nem brigou comigo, apenas me mandou me preparar para ir para a escola. E com o passar do tempo eu conheci as meninas do time de líderes de torcida e me juntei a elas, passei a me vestir igual a elas e agir igual a elas, e foi assim que conheci Nolan.

Ficou em silêncio por um tempo, e Soluço também, empático com a história da vida da loira, seus olhos limpos ainda estavam arregalados e ainda prestava atenção nela, sentiu tristeza ao se dar conta de que Astrid não era amada, também percebeu que ela estava abrindo o coração de maneira que Nolan desconhecia, afinal, não é todo dia que se conhece uma pessoa que esteja disposta a contar a história da vida dela de maneira tão aberta e repentina.

—Sabe Soluço, eu sei dos boatos que existem a meu respeito na escola, sei ainda que são boatos que minhas próprias companheiras líderes de torcida inventaram a meu respeito – disse enquanto enxugava as lágrimas – É verdade que eu pago para fazerem minhas tarefas, mas de onde tiro o dinheiro se todos sabem que minha mãe não me dá? A resposta que eles encontraram foi que dou o meu corpo no fim da rua. Mas surpresa! Sou virgem. E eu trabalho como garçonete numa lanchonete perto da minha casa, e que fica a quilômetros da escola.

—Então, quando você demorou para chegar em casa ontem de manhã...

—Exato! Eu estava trabalhando.

—Por que não quer que saibam que trabalha numa lanchonete?

—Porque eu conheço as pessoas da minha vida. Sei que vão me ridicularizar se descobrirem, e o que Nolan vai pensar...

—Astrid... Eu garanto que não vou contar pra ninguém isso que você está me dizendo, e que também não vou pensar mal de você pelo que aconteceu no seu passado, afinal ninguém é culpado pelos próprios defeitos... Pelos erros sim, mas não pelos defeitos.

Ela ficou um tempo em silêncio.

—Eu sei Soluço, por isso estou dizendo à você;

—V-Você confia em mim?!

—Claro! – ela se calou de novo por um tempo – Somos amigos não somos?

O mais novo ficou em silêncio de novo e a loira esperava uma resposta um tanto amedrontada, com medo de não ser correspondida, afinal, nunca teve qualquer intimidade com ele até aquela noite.

Soluço se levantou e sentou na cama, e Astrid se afastou ficando no canto superior e ficaram sentados de frente um para o outro, e se olharam por um tempo, ele inexpressivo e o rosto dela demonstrando um pouco do desespero e do medo de não ser correspondida. O mais novo sorriu e esticou os braços para abraça-la, e a mais velha se jogou sobre ele.

Ela chorou enquanto o abraçava, primeiro escondia o rosto no ombro dele, como uma criança assustada, depois chorou sobre o peito dele, derramando todas as mágoas e tristezas que havia acumulado no decorrer dos anos, e Soluço acariciava seus cabelos lisos e macios, respondeu: “Sim, nós somos amigos.”.

Demoraram a dormir naquela noite, conversaram bastante, e Soluço disse que Arú havia deixado que o neto levasse Astrid para caçar.

No dia seguinte acordaram um pouco tarde, mas Soluço havia acordado mais cedo do que e preparado o café da manhã, ela parecia mais bonita depois que acordou, trocou de roupa e penteou o cabelo. Saiu com um sorriso rosado no rosto e conversou bastante com o mais novo enquanto comia. Falaram dessa vez de Soluço, as questões familiares que Soluço podia e era capaz de falar e também sobre o livro que o mais novo tanto lia.

Depois saíram para caçar, Soluço ensinou a ela a como segurar a espingarda, recarrega-la e atirar com ela; falou sobre algumas coisas que deveria prevenir e de todos os cuidados com a arma, e Astrid escutou atentamente e aprendeu com facilidade e rapidez.

Foram para a floresta na caminhonete vermelha e ela dirigia, estacionaram na frente da floresta e depois começaram a caminhar por ela com as armas nas mãos voltadas para o chão, os óculos de caça e tampões de ouvido.

A floresta era fria, escura e cheia de arvores altas, podiam sentir a umidade no ar, e o chão era de terra cinza e escura e folhas mortas.

—Não é perigoso? – perguntou Astrid – E se a gente encontrar o mesmo javali que feriu o Nolan?

—Bom... Estamos nós dois aqui, Nolan não morreu porque tinha alguém mais experiente com ele e que pôde leva-lo para o hospital. Além do fato de que o vovô disse no telefone que meu irmão se precipitou e se aproximou demais do javali, e por isso não teve tempo de mirar direito e atirar. Precisamos ficar distantes dele... E se encontrarmos o mesmo javali, podemos vingar Nolan – disse sorrindo, e Astrid riu.

—Como vamos saber se é o mesmo? – ela perguntou ainda sorrindo depois da risada.

—O vovô disse que o javali que atacou Nolan era grande, peludo, preto e feio, disse também que tinha uma cicatriz na cara de alguma armadilha que ele deve ter caído e escapado.

—O que você vai fazer com ele depois de atirar?

—Tirar a pele dele e vender sua carne, na verdade vou só tirar a pele dele e colocar sua carne no congelador para o vovô vender quando voltar para a cabana. Tem gente aqui que gosta muito de carne de javali.

—Como faremos para caçar?

—Normalmente atraímos a presa e levamos cachorros, mas dessa vez faremos algo mais simples.

—O que?

—Vamos num lago que tem aqui perto, é aonde os animais vão para beber água, e quando um animal aparecer... Já sabe...

Continuaram a caminhar com as armas em mãos, e Soluço guiou ela até um tronco de arvore caído, era grosso e amarronzado, e não tinha folhas nem galhos finos, ele ficava em frente ao lago mencionado por Soluço, que era um pouco menor do que muitas grandes poças de água, mas era um grande espelho natural daquela área escura e verde da floresta.

—Agora esperamos – falou o mais novo se sentando.

O tronco era grosso e por isso estavam de joelhos e deitavam as armas sobre a madeira.

Astrid esperava um tanto impaciente, duvidava se seria capaz de matar um animal, mas a espera a torturava e vez ou outra esfregava o dedão na arma. Olhava Soluço para se certificar de que estava certa, — mesmo que o mais novo a avisasse quando fazia algo de errado – verificava se suas mãos seguravam a arma nos lugares certos, se a bochecha estava deitada sobre a coronha e lembrava de manter sempre os dois olhos abertos para ter uma mira melhor.

No entanto, em certo momento olhou Soluço e teve uma surpresa. Ele usava um terço de pulso no braço direito e o crucifixo caía e ia longe para fora da manga, usava também os óculos de caçada com os tampões de ouvido e sorria enquanto mirava, sua respiração estava estável e parecia seguro e confiante enquanto sorria suavemente. Todas essas coisas juntas do vento em seus cabelos e o cenário verde e sombrio atrás dele formavam o enquadramento perfeito para uma cena de um filme ou para uma pintura, e Astrid ruborizou, foi a primeira que viu Soluço e ele parecia tão bonito e viril, na maioria das vezes enxergava um garoto sério e estudioso, nunca um jovem confiante e tranquilamente alegre.

Passado algum tempo com os dois em silêncio, apareceu uma presa do outro do lago.

—Olha! – disse Soluço.

A presa era um javali, grande, feio, preto, peludo e com uma cicatriz perfeitamente visível em seu focinho, além de parecer ameaçador e mal humorado. E bebia água sem suspeitar de caçadores.

—É o mesmo javali que atacou Nolan?

—A aparência dele bate perfeitamente com as descrições que meu avô disse...

—Isso seria muito azar da parte dele ou muita sorte para vingar o Nolan? – ela perguntou curiosa.

—Eu não estava sendo sincero quando falei de matar o javali para vingar o Nolan, mas... Quer atirar?

A loira olhou Soluço, incrédula a princípio, mas depois mirou no animal que continuava a beber água, vulnerável. Mas depois falou:

—É melhor nós dois atirarmos juntos... Assim, se eu errar, você que é mais experiente o acerta e ele não vai tentar vir atrás da gente, não corremos o mesmo risco que Nolan...

—Tudo bem então – respondeu Soluço, voltando a mirar no animal – pronta?

Astrid respirou fundo, de olhos fechados, e depois abriu os olhos mirando no animal.

—Pronta!

—No três. Um... Dois... Três!

Dispararam ao mesmo tempo, um som alto de tiro se espalhou pela floresta, uma fumacinha surgiu do cano da arma de ambos no momento do tiro, Astrid fechou os olhos quando a arma deu o coice, e acabou levantando sua mira no último instante devido ao mesmo. Os pássaros que haviam por perto fugiram de seus ninhos e das copas das arvores.

Quando tiraram os óculos e os protetores de ouvidos e olharam na direção do animal, havia fumaça branca cobrindo a imagem da presa longe deles, mas ela logo se dissipou e os dois ouviram o javali grunhindo alto do outro lado do lago, enquanto se debatia.

Soluço sorriu quando viu o animal ferido e Astrid se sentiu gelada por dentro por ver um animal que estava ferido a alguns metros dela. Correram até o outro lado do lago e Soluço parou, impedindo a garota de se aproximar, e ficaram pouco mais de um metro longe do animal, que continuava a se debater e grunhir alto.

—Fica aqui... – disse Soluço sinalizando para ela e olhando para a criatura, se aproximando lentamente com a arma recarregada na mão.

Procurou as feridas e notou que haviam duas no lado esquerdo do animal, dois buracos vermelhos e úmidos de onde o sangue escorria friamente.

—Astrid! Você também acertou! – falou virando-se e sorrindo para ela.

Ela se sentiu mais fria ainda por ser ela uma dos responsáveis pelo animal estar ferido daquela maneira. Mas quando viu a animação e o orgulho de Soluço estampado no rosto, se deu conta de aquela foi a coisa mais emocionante que já fez na vida e que era uma história interessante para contar, ela sorriu para o mais novo, também se sentindo orgulhosa de si.

—Seria crueldade deixa-lo assim – disse ele colocando novamente os óculos e os protetores de ouvido, se aproximando do rosto do animal, apontando a arma para o focinho dele.

—Espera! – ela falou, e o mais novo parou olhando-a, apontando a arma para o animal.

—Eu posso? – perguntou gesticulando para o javali com a cabeça;

Soluço pensou que Astrid queria se vingar com as próprias mãos do animal, e deixou, dando a ela o lugar onde estava de frente para o animal. Mas ela só queria concluir o que começou, mesmo que não houvesse começado sozinha.

A loira colocou a ponta do cano da arma a centímetros do focinho do animal, que olhava ela fixamente e grunhiu antes dela atirar de novo, ele ouviu o som do tiro antes de morrer.

Saíram do lago e puxavam o animal com uma corda juntos, arrastando-o sobre o chão frio da floresta. Colocaram o animal sobre o bagageiro da caminhonete e guardaram as armas e a munição no banco de trás do carro.

Astrid queria comemorar, por isso perguntou a Soluço onde ficava o supermercado mais próximo, e ele sabia, pois ia lá bastante com o avô, desde pequeno. Compraram cerveja, carne, refrigerantes e doces, a loira pagou com o próprio dinheiro. Comeram e beberam tudo juntos naquela noite, mas só ela bebeu a cerveja, enquanto Soluço bebeu os refrigerantes com ela e ele ficou responsável por assar a carne na churrasqueira do avô. A mais velha colocou música alta, e cantava quando já estava embriagada, e o mais novo se divertia ao vê-la daquela maneira tão natural e que ele ainda não conhecia bem. Dormiram tarde de novo naquela noite.

Os dias daquela semana passaram devagar e rapidamente. Fizeram muitas coisas juntos, caçaram outras vezes, Soluço apresentou a égua Tempestade a Astrid e a ensinou a cavalgar, e fizeram isso juntos muitas vezes, a ponto de irem para a cidade a cavalo. Ela também o ajudou a tirar a pele do javali e cortar e guardar a carne. Falaram muito sobre suas próprias vidas e das coisas que gostavam, e acabaram descobrindo que possuíam muitas coisas em comum. A loira até começou a gostar dos livros que Soluço lia.

Não falaram com Nolan durante toda a semana, até porque ele também não se importou em ligar, mesmo depois de acordado, ficando apenas com Arú, que ficava feliz a cada nova experiência que Astrid vivia, e pelo neto, por estar gozando de sua estadia, mesmo sem o avô estar por lá. Dormiram no mesmo quarto a semana inteira, e conversavam até dormir.

Foram embora na caminhonete de Stoico, Astrid dirigia e Soluço estava do lado dela. Agradeceram Arú pelo telefone e foram embora bem mais próximos do que eram quando chegaram.

Notas finais
Agradeço a todos que leram, espero que tenham gostado, ressaltando para alguém que não tenha notado, não é uma one-shot, então podem esperar por mais. Leiam, comentem, recomendem, enfim...