Notas iniciais
Cara... Sei nem o que dizer pra vocês. Não existem palavras no mundo que descrevam o quanto eu morri escrevendo esse capítulo. Enfim, boa leitura e blá blá blá...

Comecei a voltar para casa assim que anoiteceu. Não tenho certeza se quero ir pra lá, olhar pra cara de todo mundo e ter que explicar o que aconteceu. Tenho medo que Holly e Mary também parem de falar comigo, como aconteceu da última vez. Não sei se aguentaria passar por isso de novo.

Parei em frente a sorveteria. Estou a algumas quadras de distância da minha casa. Pego o meu celular e mando uma mensagem para David, pedindo que ele me encontrasse aqui. Em menos de 5 minutos, um carro preto estacionou ao meu lado.

– Entra ai. – Ele disse e eu obedeci. – Falou com ele? – Assenti. – E?

– E que ele é um babaca, estúpido, idiota, mimado. E que ele falou coisas horríveis sobre mim. E que ele nem me deixou falar e começou a tirar conclusões precipitadas. E que começou a jogar um bando de mentiras na minha cara, como se deixá-lo fosse o crime mais grave do mundo!

– Foi tão ruim assim?

– Foi. Mais poderia ser pior. Eu não soquei a cara dele, nem nada. Não foi por falta de vontade, mas eu sou uma pessoa de paz. – Disse fazendo o símbolo “paz e amor” pra ele.

– Hum... – Ele murmurou. – Sua cara não tá inchada. Não chorou?

– Não choro por babacas.

– Ah, ok. – Disse e riu. – Vamos pra casa agora?

– Tem muita gente lá?

– Na verdade, não. A maioria já foi embora. Na hora que você me ligou, eu estava saindo.

– Desculpa.

– Não, tudo bem.

– Minha mãe já está em casa?

– Sim. E o Chris também.

– Ok. Hum... Acho que vou pra casa mesmo. – Dito isto, ele deu partida e me deixou na porta de casa. – Obrigada.

– Disponha. Fica bem, tá. – Sorri e desci do carro. Ele se foi, me deixando sozinha novamente.

Entrei em casa. Apenas Holly, Gustavo e Mary estavam na sala. Quando eles me viram, mandei um olhar significativo para as meninas, que devem ter entendido, porque me seguiram até o quarto. Tranquei a porta e contei tudo nos mínimos detalhes para elas.

– Desculpa, Jennifer. Mas eu não acredito que meu irmão tenha dito isso. – Mary disse, assim que eu terminei de falar.

– Acredite no que quiser, Marienne, mas essa é a verdade. – Rebati.

– Eu conheço o Will melhor que qualquer um. Eu sei que ele nunca diria nem metade do que você acabou de me contar.

– Já disse e repito, Mary. Acredite no que quiser. Eu não me importo se você acredita ou não na minha palavra. Eu já disse o que aconteceu, agora se vocês acreditam ou não, não é problema meu. – Ela se virou e saiu do quarto, me deixando sozinha com Holly. – Esse hormônio de grávida já tá me estressando.

– Só mais 4 meses, relaxa. – Disse Holly com um sorriso. – Não culpe a Mary. Ela só está tentando proteger o irmão dela. – Suspirei.

– Tudo bem. – Me joguei na cama.

– Agora, mudando de assunto. Você e o David...

– Aff... Não começa. Não tem nada de “você e David”.

– Jura? Torcia tanto por vocês dois. – Disse me fazendo rir.

– Você não torcia por mim e Will?

– Mas vocês terminaram, certo? Do pior jeito possível, por sinal.

– Cara, vou nem comentar.

...

Dezembro. Eu odeio o mês de dezembro. Não gosto de clima de fim de ano, datas comemorativas e “hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou...”. Ninguém merece. O tempo está passando mais rápido que o normal. O que é bom, e ao mesmo tempo ruim. Mary está com uma barrigão. Só mais 2 meses e a gente vai ver a cara dessa criança.

Como hoje acabam as aulas, marcamos de sair para comemorar. Sim, todos nós passamos de ano e sim, nossas aulas terminaram em dezembro. Vamos para praia hoje. Na verdade, já estamos entrando nos carros para ir.

Mary continua sem falar comigo. 2 meses sem trocar uma palavra com a minha pessoa, 2 meses fingindo que eu não existo. É, ela é boa nisso.

Vamos o caminho todo fazendo aquela bagunça de sempre. Alguns deles vão viajar durante as férias. Nós outros vamos fazer acampamento na casa de alguém que ainda vamos decidir quem, já que minha mãe não aguenta mais sustentar um bando de adolescente esfomeado. A gente tem que dar uma folga pra ela, pelo menos nas férias.

O carro em que eu estava foi o último a chegar. A maioria das coisas já estavam fora dos carros. Arrumamos tudo e nos separamos: alguns foram nadar, outros jogar vôlei, algumas meninas tomar sol e o Elliot ficou lendo num canto. Eu tinha ido nadar junto com Holly, Lauren, Derek e Katie, mas acabei parando onde a água bate na minha canela e fiquei olhando pro mar. Não sei porquê. Não, não é momento nostalgia, deve ser só preguiça de nadar.

– Ei! Tudo bem? – Perguntou Gustavo se aproximando.

– Uhum... – Murmurei.

– Não vai entrar?

– Daqui a pouco.

– Você ainda tá bem chateada com o que aconteceu com o Will, não é? – Ele quis saber.

– Tento não pensar nisso. Foi bem... marcante, digamos assim. – Respondi.

– É, vocês quase não se falam.

– Não é pra menos.

– E você e a Mary, como estão?

– Mesma coisa de sempre. – Respondi. – Ela fingi que eu não existo e eu finjo que não me importo com isso.

–Vocês tem que parar de agir como se fossem crianças.

– Vocês? – Perguntei indignada. – Acho que foi a sua noiva quem ficou de infantilidade, só porque não acredita que o irmãozinho querido dela disse aquelas coisas.

– As coisas que ele disse nem foram tão ruins assim. – Gustavo comentou.

– Eu sei. Mas parece que ainda assim, o irmão perfeitinho dela nunca diria uma coisa dessas. – Disse num tom carregado de sarcasmo.

– Ok. Só... se acalma, tá bem?! – Ele disse. – Hoje é dia de comemoração! Sem mais escola, sem mais estudo, sem mais professores chatos, sem mais ensino fundamental, e olá primeiro ano do ensino médio! – Gritou a última parte.

– Olá último ano do ensino médio! – Holly gritou de dentro do mar.

– Olá faculdade! – Alguns dos meninos que jogavam vôlei gritaram.

– Resolveram fazer alguma coisa que presta da vida? – Gritei pra eles de volta, fazendo-os rirem.

– Relaxa, ok? – Gustavo disse depositando um beijo na minha testa e correndo até Mary. Comecei a observá-los.

Gustavo sentou-se ao lado de Mary na areia. Ela lhe deu um selinho. Gustavo acariciou o cosplay de mundo, também conhecido como barriga de grávida. Mesmo de longe, é perceptível o brilho nos olhos dele. Eu lembro do dia em que descobrimos que ela estava grávida. Ele ficou apavorado! Claro, quem não ficaria. Mas agora ele parece, não só acostumado, mas gostando da ideia. Acho que ser pai vai fazer bem pra ele. Eu já posso ver a mudança nele só de ver a barriga redonda de Mary, só de imaginar que ali dentro tem alguém que irá chamá-lo de “papai”. Essa gravidez pode até ter atrapalhado a vida deles, de certa forma, mas serviu para os unir, e é possível ver o amor que nasceu dessa união. Só olhando, dá pra perceber a felicidade que eles tem de estar ao lado um do outro.

– Jennifer, cuidado! – ouvi alguém gritar e, logo em seguida, algo bateu em minha cabeça com força, me fazendo cair na areia molhada.

– Ai! – Gemi me levantando.

– Você tá bem? – Will perguntou me ajudando a levantar.

– Anh... Sim, sim, obrigada. – disse e dei um sorriso sem graça, o qual ele retribuiu.

– Ei! – Gustavo gritou, fazendo todas as atenções se voltarem para ele. – Me ajudem aqui! – Todos corremos até onde ele e Mary estavam. – Ela está sentindo dor. Eu não sei... Eu...

– A bolsa estourou! – Holly anunciou.

– O que? – Will perguntou.

– A criança vai nascer! – Eu gritei.

Colocamos Mary dentro de um carro, arrumamos as coisas rapidamente, entramos nos outros carros e corremos para o hospital. O intervalo das contrações estava cada vez menor. Não demoramos a chegar, já que o hospital não é tão longe da praia.

Assim que chegamos, falamos com uma mulher morena e baixinha na recepção. Em questão de segundos Mary estava numa maca.

– Eu te amo! – Ela disse para Gustavo. Ele sorriu e disse:

– Eu te amo! – Deram um beijo rápido, porém, o mais apaixonado que eu já presenciei. E a levaram para dentro.

Ficamos na sala de espera. Todos estão muito agitados e preocupados. Mary só tem 7 meses de gravidez. O bebê não está completamente formado.

Minutos, horas, séculos, éons... Não sei quanto tempo se passa e nós continuamos sem notícias. Gustavo não consegue ficar parado. Anda de um lado para o outro. Ninguém tenta acalmá-lo, pois todos estão nervosos. Lembrei que minha mãe existe e liguei para ela. Will fez o mesmo com seus pais, os quais não demoraram nem um pouco a chegar. Parece que estavam aqui perto, fazendo não sei o que...

Minha mãe fez um escândalo quando eu disse onde estava, e disse que já estava vindo.

– Gustavo! – Ela gritou entrando na sala de espera. Gustavo correu e a abraçou. – Ei, calma. Vai ficar tudo bem!

– E se der algo errado? – Ele perguntou.

– Eles são profissionais, meu filho. – Ela respondeu. – E se tiver algum problema na gravidez, ou na saúde, eles com certeza ficaram sabendo por causa do pré-natal. – Gustavo levantou a cabeça de súbito.

– Pré-natal? – Perguntou.

– É. As consultas de acompanhamento da gravidez. – A mãe da Mary respondeu. Gustavo não disse nada.

– Vai dizer que ela não fez? – Disse Lauren. Gustavo negou. Minha mãe lhe deu um tapa na parte de trás da cabeça.

– Como assim ela não fez pré-natal, Gustavo? – Ela gritou.

– Ela disse que não gostava de hospital! – Foi tudo o que ele disse.

Voltamos ao silêncio mortal e a espera sem fim. Depois de Gustavo quase fazer um buraco no chão, de tanto andar pra lá e pra cá, o médico finalmente veio falar com a gente.

– A família de Marienne Davis?

– Aqui! – Will respondeu.

– É uma menina. – Ele anunciou. Todos nós sorrimos e suspiramos aliviados. – Ela terá que ficar na UTI neonatal por um tempo, pois é pré-matura.

– E a Mary? – Will perguntou. O médico não disse nada. – Doutor? Onde está minha irmã?

– Eu sinto muito muito. – Ele disse.

– Como assim “sinto muito”? – Perguntei.

– Tivemos complicações. Sua pressão subiu e não conseguimos estabilizá-la. Ela teve eclampsia. Ela, certamente, não fazia pré-natal, pois teria descoberto seu quadro de hipertensão.

– O QUE? – Gustavo gritou.

– Doutor, – Falei o mais calmamente possível. – o senhor tem certeza de que estamos falando da Marienne Davis? – Ele olhou novamente a papelada que tinha em mãos e respondeu:

– Sim, senhora. Eu sinto muito.

Os pais de Mary já estavam aos prantos, assim como as meninas, mas principalmente Holly. Me virei para abraçar Gustavo, mas não o encontrei.

– Gustavo? Cadê o Gustavo? – Gritei. Todos olharam em volta, mas ninguém parecia saber onde ele estava.

Procuramos por todo o hospital, mas ele não estava aqui. Nos dividimos e fomos procurá-lo pela rua. Ele não deve ter ido muito longe. Eu fiquei com David procurando na praia. Andamos por toda a extensão de areia para a esquerda. Nada de Gustavo. Voltamos todo o caminho e seguimos para a direita. Chegando no fim da extensão, avistei algumas pedras.

– Ele pode estar lá. – Eu disse para David.

– Eu duvido. – Ele comentou.

– Mas é uma possibilidade.

– Mas não é uma certeza.

– Toda possibilidade pode ser uma certeza.

– Você pode se machucar se for. Essas pedras são escorregadias.

– Mais um motivo pra eu ver se ele veio por aqui. – Disse já indo em direção às pedras. Consegui ouvir David bufar atrás de mim e começar a me seguir.

Subi nas pedras com um pouco de dificuldade. Quase caí umas dez vezes. Mas ultrapassar a maior pedra foi a maior dificuldade (lógico!). Continuamos andando entre as pedras, até que eu vi uma silhueta logo abaixo de nós. Já estava escuro, então não consegui ver direito se era o Gustavo ou não.

– Ali embaixo. – Disse para David. Ele assentiu.

David desceu na frente, e me ajudou a descer em seguida. Passei na frente dele. Gustavo ainda não percebeu nossa presença, pois estamos um pouco distantes dele. Fiz sinal para que David subisse novamente e ligasse para os outros. Ele o fez.

– Gustavo? – Chamei. Ele levantou a cabeça e me olhou. Seu rosto inchado, seus olhos vermelhos e cansados, cabelos desarrumados... Acho que nunca o vi tão acabado. – Ah, Gus... – Foi tudo o que consegui dizer. Me sentei ao seu lado na areia molhada e o abracei.

– Eu a amava, Jenni. – Ele disse. – De verdade. Eu a amava muito. – E recomeçou a chorar. Não tinha nada que eu pudesse dizer. – Eu não a pedi em casamento só por causa do bebê, eu pedi, porque eu queria passar o resto da minha vida com ela, eu queria vê-la entrar na igreja de branco, queria ouvi-la dizer sim, queria ver o sorriso dela todas as manhãs, queria ver o brilho nos olhos dela toda vez que olhasse para a nossa filha, queria vê-la amamentar a nossa Eve. – A essa altura eu já estava chorando também. – Sabe, eu já conheci tantas garotas como a Mary, mas ela foi a única de quem eu quis mais que uma noite de prazer. Eu a amo! – Não havia nada que eu pudesse dizer que faria essa dor passar, e isso me enlouquece. Vê-lo desse jeito me dói de uma forma que eu não posso explicar. – E agora, eu não tenho nada. Só lembranças. É como se uma parte de mim tivesse sido arrancada. Não só o braço, nem a perna, mas 90% do meu corpo partiu junto com ela.

Notas finais
Não vou nem perguntar se vocês gostaram. Só digo que não precisam me matar, eu já fiz isso várias vezes enquanto escrevia e relia e revisava... Só não me mato mais, porque acho que não tem mais o que matar. Enfim, comentem. Diga o quão horrível ficou esse capítulo, e quão dramático eu fiz isso ficar. Digam que eu sou um monstro, assim como a minha querida amiga 1mp3rfe1ta fez (de novo, obrigada pelo apoio). Enfim (de novo), tchau.