A porta estava trancada por fora e Mariana não tinha a cópia da chave, escalar o prédio também estava fora de cogitação, seria mais fácil cair daquela altura e ter uma morte instantânea a escapar ilesa, mas não queria ser invadida por ele, nem o gosto da saliva alcoolizada na pele, quanto mais trocar uma dúzia de palavras. Nunca mais já estava de excelente tamanho.

A maçaneta girou violentamente, fazendo com que Mariana tivesse um sobressalto. Olhou as horas na tela do celular, já passavam das duas da madrugada. Duas mochilas e uma bolsa de viagem estavam prontas, escondidas dentro do closet, um lugar em que Luís, àquela altura da noite e no estado em que estava, jamais pisaria.

Por mais que não estivesse sóbrio o suficiente para se equilibrar com as duas pernas, Luís olhou para as mãos de Mariana e questionou-a acerca da ausência da aliança, levantando a voz e sendo repreendido.

— Eu não paguei caro naquela aliança para você fazer desfeita. E, anda, me dá o celular.

Mariana recusou-se e Luís, que até então nunca havia a machucado, puxou o braço dela com força e tomou o aparelho.

— Vou descobrir o que você anda aprontando na minha ausência... ou será que eu vou ter que tirar de você também o computador e o celular?

Luís não conseguiu desbloquear a tela do aparelho porque Mariana modificou o código, não porque escondesse algum segredo grave e sim porque o tratamento do noivo já excedia todos os limites. Ela não tinha acesso ao dispositivo dele, desconhecia as senhas e nem mesmo visitar os próprios pais podia sem supervisão.

— O que você pensa que está fazendo?

— Você vai me contar o que anda fazendo por aí, sua galinha.

E desandou a proferir todos os impropérios que as outras moças ouviram no passado. A mesma entonação odiosa, o olhar de desprezo, a completa ausência de empatia. Mariana não perdoaria nada na parte da manhã em troca de algum “presente” que renderia uma foto no perfil do casal, muitas curtidas e comentários. O conto de farsas teria continuidade sem mais delongas.

— Quero que você escute uma coisa, Luís, eu estou indo embora! Cansei, tá? Cansei-me de você, dos seus desmandes, cansei-me dessa farsa. Eu não aguento mais viver dessa forma...

— Tá, mas você vai para onde?

— Não te interessa! — Mariana ficou profundamente os olhos ébrios de Luís e desvencilhou-se dos toques agressivos dele.

— Vai para onde?

— Eu já disse que não é da sua conta!

— É, sim. — Reiterou Luís, alterado. — Eu sou seu homem, você me deve satisfações de casa passo que dá.

— Eu estou dizendo que acabou.

— Acabou quando? — Quis saber ele, inconformado, arrastando Mariana para o quarto do casal.

— Agora! Acabou agora! — Insistiu Mariana, assustada, mas certa de que não voltaria atrás em sua decisão.

— Não acabou coisa nenhuma!

— Me solta, Luís. Você está me machucando!

Luís a arremedou.

— Eu estou falando sério, Luís. Me solta!

— Sem mim você não é ninguém. Antes de mim você era aquela garotinha invisível chorando pelos cantos porque nenhum cara queria nem te estuprar, eu fiz um favor ficando com você e agora você se volta contra mim sem motivo. Você só pode ser louca.

— Suas noivas também eram loucas? — Provocou Mariana, curiosa.