Na manhã seguinte, Luís já preparava sua melhor roupa para o espetáculo.

A rainha foi então fazer seu melhor teatro:

_Luís, eu estou com medo-disse em tom aflito.

_Do que tem medo?

_A nossa filha, ela esta há três dias sem comer, ela vive fazendo ameaças dizendo que vai sei matar. Estou com medo que ela realmente cumpra!

_E o que posso fazer? Nossa filha é uma tola, não vai cumprir essas ameaças.

_Eu havia pensado-Lorena mantinha o tom desesperado-em um acordo.

_Que tipo de acordo?

_Nós podemos dizer a Liz que vamos rever essa situação, que não vamos matar o ladrão agora, vamos deixa-la com esperança e então, quando ela realmente esquecer, nós o matamos!

Luís apenas encarava a janela.

_Eu sei que pode parecer estranho adiar está execução, mas estou com muito medo do que nossa filha pode fazer. Nossa única filha!

_Isto é culpa sua. Que só me deu uma filha. Se você tivesse tido um menino nada disso estaria acontecendo!-Luís respondeu num tom frio.

_Eu sinto muito, mas não temos outro filho ou filha. Se por ventura a perdemos...

_Vou mandar que adiem a execução. E você, convença sua filha a parar com essa idiotice.

Lorena assentiu e saiu do quarto aliviada. Pelo menos por enquanto.

Então foi falar com Liz, que estava suspirando no quarto.

_Querida filha, vim lhe propor um acordo.

_Eu não quero acordos.

_Pois irá querer. Bem, se você voltar a comer e parar de ameaçar um suicídio, eu posso adiar a morte do ladrão.

_Adiar!? Do que adianta adiar, no final ele ainda vai morrer...

_É o melhor que tenho para oferecer agora. Ou você aceita ou ele vai morrer daqui a algumas horas.

Liz manteve-se em silêncio.

_Querida, você precisa sempre se lembrar que a esperança existe para todos e para tudo.

_Esperança.

_Sim. Então, aceita o acordo?

Liz se manteve firme por um instante, mas logo desatou a falar:

_Aceito, eu vou comer agora mesmo e não vou me matar.

Terminou com um pequeno sorriso e correu em busca de comida.

***

Pedro foi avisado logo depois que sua execução seria remarcada.

***

Aquela noite, o pobre ladrão não pensou em dormir. Ele sabia que ela viria. Em algum momento, ela estaria ali, para talvez lhe dizer que estava tudo bem e que sua vida estava salva. Ou então, viria somente para sorrir um pouco e tornar a noite dele um pouco menos solitária.

Pedro andava de um lado para o outro, inquieto, até que o barulho do cadeado abrindo lhe chamou a atenção.

Lorena tinha os cabelos soltos e vestia um longo casaco preto. Ela se aproximou dele com os olhos inchados e disse:

_Não vou demorar. Eu preciso voltar logo e... Só precisava falar com você.

"Uma última vez" quis completar, mas não conseguiu.

_Tudo bem... Obrigada, por hoje, eu sei que foi por sua causa.

_Sim, eu pedi que adiassem... -ela voltou a chorar-Mas você não tem o que agradecer. Isso não vai mudar seu destino.

_Então, quer que eu viva um pouco mais para...?-disse pausadamente.

_Foi pela Liz. Até ela se conformar.

Ele se afastou dela, até explodir:

_Você é uma falsa! Achou o quê? Que eu não teria nem um pingo de esperança? Que eu fosse duvidar das suas lágrimas!?

_Eu não quero que você morra! Ainda mais dessa forma... Mas eu não tenho o que fazer! Existe uma guarda montada ao redor de todo o castelo, você não conseguiria fugir mesmo que eu ajudasse e não tenho poder para impedir sua morte!-disse com as palavras entrecortadas e um tom contido.

_Tudo bem... Eu posso aceitar esse destino e não preciso que alguém me dê falsas esperanças.

_Esperança... Existe para todos e para tudo-disse isto mais para ela do que para ele.

_Obrigada pelas belas palavras. -disse encarando-a.

_Já fiz estragos demais. Eu preciso ir.

Ela se virou em direção ao portão e num rápido movimento Pedro a puxou pelo braço e a beijou.

Aquele momento durou tão pouco, mas deveria ser infinito. Ela o correspondeu com todo o amor que poderia existir em si. Ele simplesmente a sentiu.

_Você chora demais-disse enquanto beijava os olhos de Lorena.

_Tenho motivos para isso.

Pararam por um instante, próximos, suas respirações quase que sincronizadas. Até que ele se afastou.

_Adeus.

Ela saiu da cela e disse em tom quase inaudível:

_Adeus.

Os céus não permitiriam que aquilo fosse realmente o fim. Pedro ainda estava com raiva, Lorena quase que arrependida, porém os dois completamente apaixonados um pelo outro.

***

O céu mal havia clareado e toda a vila já estava a trabalhar, cada qual camponês com seu ofício suado, cada qual ladrão com seu roubo arriscado.

O rei estava com a mesma expressão de poucos amigos. Estava prestes a receber a visita do príncipe John, que iria casar-se com Liz. Acertariam os últimos detalhes financeiros deste acordo e em menos de meio mês, sua filha estaria casada e ele teria alguém para deixar o trono.

O príncipe devia ter uns trinta e poucos anos, mas aparentava algo próximo de cinquenta, possuía um olhar cruel e cabelos ralos.

Ao fim de toda a conversa chata, John disse:

_Rei Luís, será um prazer casar com sua filha e um dia, espero que distante, assumir o império grandioso que você construiu.

O rei sorriu com a falsidade do homem, nem mesmo havia colocado no contrato que ele deveria bajular o rei.

Lorena apareceu somente para a despedida e imaginou o quanto sua filha sofreria após esse casamento (assim como ela sofreu), porém Liz não era exatamente igual à mãe e por mais que até então ela ainda chorasse por Pedro, isto não duraria tanto tempo assim.

Tudo corria lentamente... Lorena vivia a mesma rotina de forma mais monótona ainda. Suas criadas não entendiam a mudança abrupta da rainha, que estava sempre quieta em algum canto qualquer.

Pedro passava as horas tentando não imagina-la voltando, porém não teve muito sucesso.

Liz estava se recuperando aos poucos, comia aos montes tentando recuperar os três dias perdidos e ainda ficava dizendo que o amava (agora sem gritar tanto).

Então, uma inesperada visita chega ao castelo. Era Margô, uma mulher que fora criada de Lorena enquanto esta ainda era uma princesa, há muito tempo não se viam e não puderam alimentar uma grande amizade que existia entre as duas.

_Margô! Não posso acreditar que está aqui!-disse Lorena enquanto corria para um abraço.

_Querida, precisava ver você antes que o meu tempo acabe.

Margô realmente era dona de uma serenidade incrível e sempre soube como ajudar alguém.

Lorena a levou para uma das varandas e sentaram-se a uma mesa.

_Você não parece bem. O que houve?-Margô perguntou.

E então a Rainha lhe contou toda aquela história triste e por fim disse:

_Não consigo imaginar um final feliz. Já não consigo ter esperança.

_Parece que tudo está se repetindo-respondeu Margô-lembro-me do quanto aquele romance com o jardineiro lhe traumatizou... Meu bem, você tem um belo coração. Não permita que o mundo o estrague. Nada é vão, o amor que você tem fará a diferença, seja lá qual for o jeito.

Lorena sorriu um pouco, mas não suportava mais ser tão fraca, tão inútil, tão chorona.

Ela agradeceu imensamente à Margô pela visita e então se despediram pela última vez.

***

Lorena não saiu do quarto aquela noite.

Notas finais
Obrigadaaa! Abraços de urso!