Amor absoluto e perfeito
2 Voltando ao normal?
— Regina, é melhor cobrir Vasco para que não fique exposto depois da troca. – Cesar permanece parado com os braços cruzados diante do peito e com uma expressão sisuda.
Vasco passa seus olhinhos por todos os rostos, mas não consegue fixá-los no rosto forte de Solomon, que insistia em manter um sorriso maldoso em sua boca grande.
— Meu amor, fique tranquilo, porque você não vai sentir dor. – Regina se ajoelha diante dele e toca seu rostinho com cuidado. Ela se levanta e vai dar um último beijo nas filhas adultas, porque daquele momento em diante, as crianças retornariam. – E vocês, fiquem calmas, porque a mamãe está aqui.
— Oh! Isso é tão tranquilizador! – ironiza Yasemine. Ela se volta para o reverendo. – Sabe se nossas memórias serão infantis de novo?
Ele maneia afirmativamente com a cabeça e sorri sem exibir os dentes.
— Por favor, Cesar, poderia ficar ao lado de Vasco? Vou ter de ficar com minhas meninas?
O chimpanzé concorda e vai sentar-se ao lado do homem a quem aprendera a respeitar como o guerreiro valoroso que era. O menino sorri e bate palmas ao ver o amigo aproximar-se.
— Vamos começar? – Solomon caminha para o centro do grupo e desembrulha a vela com duas cores e com pavios em suas extremidades. Antes que iniciasse a cerimônia, observa a chegada imponente do pirata de olhos furiosos, acompanhado por Henry. – Salve, salve, Capitão Gancho!
Killian sorri cinicamente e toca a cabeça de Vasco arrepiando-lhe os cabelos. O menino sorri.
— Vou acender os pavios e será preciso que as meninas fiquem de um lado, enquanto Vasco fique do outro. Elas deverão dizer que querem retornar ao estado infantil, enquanto Vasco deverá dizer que quer voltar a ser adulto. Pode fazer isso, Vasco?
— É claro que sim! Eu não sou ignorante!
O reverendo sorri ainda mais encantado. Iria perder aquela gracinha de criança malcriada para ter de volta o belo homem de olhos celestes. As lembranças daquele único encontro acontecido em tempo passado, ainda estavam nítidas diante dos olhos de Solomon. E como desejava que acontecesse de novo!
— Vamos iniciar o processo?
Momentos depois, a tensão é dissipada e a troca é realizada com sucesso. Amparadas por Regina, as meninas lutavam contra as roupas que haviam ficado grandes demais para seus corpos. Correndo no auxílio à mãe, Henry protege as irmãs e sua presença consegue acalmar os ânimos de Yasemine, a mais furiosa.
Vasco tem sua nudez protegida por um cobertor e é conduzido por Killian e Cesar para deitar-se em um dos sofás. Estava zonzo pela mudança repentina e havia retornado ainda mais belo.
— Como é perfeito...- sussurra Solomon, sem esconder sua paixão.
— Eu...quero água...- Vasco segura o braço de Killian, mas faz o pedido para Cesar. Pisca várias vezes, como se quisesse espantar o sono.
Depois de atender o amigo, Cesar vai tomar conta das meninas, enquanto Regina retorna para encher seus braços com o corpo do marido. Beija-o diversas vezes, lábios, bochechas, cílios e mantendo seu rosto entre as mãos, encara-o. Olha aqueles olhos lindos e percebe que havia muita tristeza dentro deles.
— Você está de volta, meu amado.
— Você também está de volta, Regina. – ele estende a mão e toca delicadamente seu rosto. – Viajei tantos espaços para poder caber dentro de seu abraço.
— Eu amo você, minha primeira flor. – ela acaricia os cabelos despenteados do marido. Olha na mesma direção que ele estava olhando. – Foi Solon quem fez a troca, usando...
— Sim, foi ele quem me fez isso. Por culpa dele tivemos de atravessar o portal, lutar guerras que não eram nossas, sentir medo e dor, chorar tantas lágrimas, para resgatar alguém já estava morto para nós.
Regina o obriga a encará-la.
— Você me resgatou, Vasco! Olhe para mim! Eu estou de volta e vocês conseguiram deter a Rainha Má!
Os olhos grandes de Vasco se fixam no rosto bonito de Regina. Ele a olha sem acreditar no que estava vendo. Sua rainha, sua amada, sua esposa estava de fato viva e sorria para ele. Sem hesitar ou perder tempo, Vasco a abraça de volta. Estava tomado pela emoção, mas ainda incrédulo e confuso.
Era madrugada, quando Regina se encontra num espaço discreto e escuro, dentro de sua casa. gesticula e some dali em meio a uma fumaça cinza.
Surgindo no centro do quarto onde Solomon estava, a rainha se depara com o homem sentado em um canto do quarto, absorto na leitura de um livro. O maldito livro pelo qual ele tinha atravessado portais e provocado celeuma na vida de várias pessoas, inclusive na dele mesmo.
— Deveria ligar avisando que viria. Eu poderia estar sem roupas.
— Você nos disse que as minhas filhas ficariam sem recordações da mudança. Yasemine ainda está com lembranças.
Ele acha graça na informação. Levanta o rosto e olha desafiadoramente para Regina.
— Regina, minha amada e eterna noiva, estamos falando de Yasemine. Quando você escolheu o nome, deveria saber o que ele significava. Pensa mesmo que terá paz na convivência com essa garota? Criança ou adulta, Yasemine é a mistura de Vasco e sua! Nunca parou para pensar nisso?
— O que quer dizer com isso?
Ele se levanta tranquilamente e abre a porta do quarto.
— Yasemine tem o sangue de Cora, Zelena, o seu e de Vasco. Quando você criou Vasco, misturou tudo o que admirava nos homens que conhecia. Pelo fato de admirar essas características, não significava que eram boas. Pense nisso! Agora use a porta quando sair.
Caminhando até a saída, Regina fecha a porta e encara o reverendo. Ainda o achava incrivelmente belo em seus traços maduros.
— Fale o que sabe sobre o nome dela!
— Sua filha carrega o estigma do nome dentro da personalidade louca que tem. É uma pessoa responsável e tem um talento nato para comandar. É forte e gosta de fazer as coisas do jeito que acha melhor, e não se importa com o que digam ou pensem. É inteligente e intuitiva, e é centrada no controle da própria vida preferindo a solidão para pensar muito. Ela é o que você pôs no sangue dela, Regina.
Estreitando os olhos, Regina se impressiona com a precisão do reverendo.
— Deveria ter pensado bem, antes de ter filhos com um homem que nunca existiu realmente. Vasco foi fruto de seus delírios, mas por ter ficado sozinho após a criação, ele desenvolveu mecanismos de defesa em sua personalidade e em seu corpo. Assuma o resultado de sua experiência com sua criatura.
— Meu amor irá protegê-los e conduzi-los, Solon.
— Não duvido. Apenas questiono se eles querem ser protegidos ou conduzidos. – ele abre novamente a porta. – Boa sorte em sua lida com o futuro que a espera. O que você aprender aqui, irá usar no universo alternativo que virá em alguns dias para a sua vida.
Sem acreditar no que estava ouvindo, Regina sai do quarto do reverendo e retorna para sua casa e para a sua família.
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