Vasco entra na sala e caminha lentamente até a mesa onde Emma estava sentada. Ela gesticula e pede para que ele se sente.

— Por que não nos disse que tinha filhas? E por que não nos disse que sua filha estava doente?

Um sorriso debochado é a primeira reação.

— A senhora me contrataria caso soubesse que eu tinha uma filha em estado grave? O plano de saúde aceitaria uma doença pré-existente? Eu diria: Srta, Swan, minha filha Yasemine tem leucemia e quando houver reuniões extraordinárias, não poderei participar porque tenho de estar no hospital. Você me contrataria?

— Creio que não. – Emma abaixa os olhos. – Mas mesmo não o contratando, poderíamos tê-los ajudado economicamente, sem constar nas retiradas da empresa. Poderíamos ter contribuído com um financiamento.

— Depois que tudo está resolvido surgem inúmeras alternativas. Mas quando eu bati, ninguém abriu. Nem mesmo o irmão de minha esposa, quis me ajudar. Ele me disse que se tivesse dez vidas, não daria nenhuma para minha filha. – Vasco brinca com os próprios dedos e mantém a cabeça baixa. – Vai demitir-me?

Emma nega com a cabeça.

— Não demitirei. E também vou rever este requisito de contratação. – a loira estende a mão e toca o braço do funcionário. – Tem alguma fotografia de suas meninas?

Depois do expediente, muito mais tarde, Vasco apaga a luz de sua sala. Dirige-se para a saída e ouve apenas o som de seus sapatos contra o soalho. Estava sozinho naquele andar. Quando chega à saída, encontra-se com o porteiro. Cumprimentam-se, despedindo-se. Vasco ajeita a gola do casaco e começa a afastar-se dali. É retirado de seus pensamentos com um toque em seu braço, fazendo-o parar.

Era Regina Mills, linda em seu casaco escuro com golas felpudas. Que espetáculo!

— Por que não me disse que o dinheiro era para salvar a sua filha?

— Eu estava há três meses em sua empresa, e a senhora não se preocupou em perguntar-me para que eu queria quinhentos mil.

Na manhã seguinte, o assunto vigente era a existência das filhas de Vasco e a mentira que ele havia escrito na ficha para o emprego. Muitos questionavam a concessão feita ao homem, já considerado predileto da presidência. O que ele havia feito para conseguir tamanha predileção? Killian também se questionava no fundo de seu coração. Queria saber se aquela informação dada por Regina era real ou seria apenas efeito das dezenas de doses da bebida.

Na quarta feira daquela semana, o lançamento de um filme atraia a atenção de pessoas de várias idades. Seria um evento divertido e Vasco iria levar todas as mulheres de sua família. Suas meninas estavam animadas, e mesmo usando a máscara diante da boca e o nariz, Yasemine arriscava alguns passos de corrida pelo corredor iluminado e arejado. Alda e ela se encantavam com os cartazes de anúncio dos filmes em cartaz ou próximos lançamentos.

As duas meninas correm e zelam protetoramente as caixas com pipocas, cuidando daquilo como se fosse um tesouro. De repente param de correr e encaram duas mulheres que estavam na direção oposta. Vasco se apressa em proteção às filhas e ajoelha-se atrás delas, quase se esquecendo de olhar para cima e ver as duas mulheres.

— Vasco?

Ele levanta aqueles olhos intensos e sorri ao ver suas chefes. Lindas e altivas como sempre.

— Quem são essas princesas? – Emma se agacha e sorri para as meninas.

— Eu sou Alda. Ela é minha irmã Yasemine! A tia Ruby deu a moeda para ela!

Os adultos acham graça na fala da criança.

— Ruby é a doadora da medula. – Vasco indica a moça e depois aponta para a mulher mais velha. – Aquela é minha tia Vida!

— Sou Emma e esta é minha prima Regina. – a loira se levanta e as cumprimenta, depois retorna sua atenção para as meninas. – Vocês vão ver o filme também? Sabiam que é muito divertido? Iremos nos encontrar ao final da sessão, Vasco?

Um sorriso tímido ilumina os lábios do homem e ele nega com a cabeça. Aquela simples reação enche o coração de Regina e não somente o remorso domina seus pensamentos, mas a paixão que se atreve a crescer dentro de seu corpo. Ele a olha com tanto carinho que até poderia exalar cheiro.

O tempo continua caminhando lento e paciente, deixando vidas para trás, sentimentos, palavras, sensações e desejos. O amor também cresce dentro dos corações e das almas. Vasco e Regina mantém um relacionamento cordial, e muito distante, mas os olhares carregados de sentimentos bons, sempre se cruzavam para reforçar o que poderia ser significativo.

Mas era Emma quem estava mais presente na vida dele e de sua família, a ponto de ser carinhosamente chamada de Tia Emma. Participava sempre se eventos e passeios, exibindo como certa a aproximação dela e de Vasco. Todos apostavam numa história de amor.

E foi naquela manhã, depois de deixar suas filhas na escola, Vasco retorna sozinho para o estacionamento, e é surpreendido com um estampido e uma súbita queimação em sua perna. Grita, olha para baixo e vê o sangue escorrer pelo pano de sua calça.

Quando Regina chega ao hospital, encontra Killian na recepção, conversando com uma jovem atendente. Ele sorri ao ouvir seu nome e reconhece a presença da morena, que se agarra a ele e questiona diversas vezes sobre a saúde de Vasco.

— Eu estou bem! – Vasco diz várias vezes, quando seu amigo e Regina estão junto à sua cama em seu quarto no hospital.

— Você viu quem o atingiu?

— Ele me atacou pelas costas. Disparou em mim, quando eu ia abrir a porta do carro, então não consegui ver o rosto dele.

— Eu vou descobrir quem fez isso com você. É uma promessa! – ela se vira para Killian e toca seu braço. – Gostaria que você levasse as filhas dele, Vida e Ruby para a minha casa! Darei ordem para que aumentem a segurança por lá!

Vasco nega com um movimento de cabeça. Estava irritado com aquela proteção.

— Estamos bem e não seremos alvo novamente. Caso quisessem me matar, teriam feito! É obvio que isso foi apenas um aviso ou uma resposta para algo ruim que eu fiz.

Na mente de Killian, a informação de que Vasco era um michê, retorna imediatamente. Alguma mulher iludida e depois abandonada, havia respondido à falta de atenção de Vasco. Nenhuma outra teoria vinha ao seu coração. Vasco estava colhendo o que havia semeado.

Alguns quilômetros dali, a notícia do atentado sofrido pelo arquiteto da empresa Diamanti, chega ao conhecimento de Solomon. Ele sorri e sente em seu coração alegrar-se por saber que Vasco estava bem. Era o momento de entrar em cena e mostrar-se preocupado, presente e sedento pelo convívio com a lembrança viva de sua “irmã” Cosima.

Vasco estava sendo sentado na cadeira de rodas para tomar um banho, quando Solomon entra lentamente no quarto do paciente e recebe aquele par de olhos assustados e espantados em sua direção.