— Solon? O que veio fazer aqui?

— Precisou de um conjunto de desgraças para que eu percebesse que estou mais sozinho do que nunca. – ele se aproxima da cama. – Sei que negligenciei o crescimento de minhas sobrinhas, mas gostaria de fazer-me presente, agora.

Vasco acha graça. Encara o homem, exibindo a fúria de sua alma.

— Eu quase perdi Yasemine e você não se importou...

— Nunca deixei você sozinho, Vasco. Pensa mesmo que o montante cobrado pelo hospital foi apenas aquele? Acredita mesmo que aquilo pagaria o translado, hospedagem e alimentação da doadora? Os remédios, a internação de Yasemine, os profissionais e a dedicação exclusiva do Dr. Victor, ficaram apenas pelo que você conseguiu? – interrompe o homem mais velho. – Eu estive por trás e iria pagar tudo, caso você não tivesse conseguido o dinheiro que conseguiu.

— Sabe como consegui? Sabe o que precisei fazer?

— Não. Mas o que importa é que conseguimos salvar Yasemine, a presença viva de Cosima.

O arquiteto não acredita no que está ouvindo e no cinismo de seu cunhado.

Depois daquele rápido encontro, Solomon passa a acompanhar de perto a vida das garotas e de Vasco, mesmo sem estar tão próximo. E foi na saída da escola, semanas depois do atentado, que Vasco identifica em meio aos pais de alunos, a figura escura o cunhado, olhando de longe e sorrindo para a movimentação das crianças.

— Venha, quero que conheça suas sobrinhas. – Vasco segura o braço do cunhado e o conduz para encontrar as pequenas animadas.

E o convívio começa a partir daquela tarde. A aproximação é inevitável e os ranços são deixados em alguma gaveta em algum velho armário do passado.

Era noite, quando Vasco é comunicado por Regina, sobre um jantar de negócios surgido repentinamente. Segundo a chefe, o jantar trataria dos detalhes do evento que lançaria o edifício Turquesa e elevaria o nome da empresa. Mesmo relutante, ele continuava acompanhando Regina em reuniões fora do expediente, mantendo a distancia formal entre eles. Naquela noite não seria diferente e Vasco atende ao chamado. Passava algumas instruções para sua tia Vida por telefone, quando Killian gesticula avisando que tinha algo a falar.

— Pronto! O que há?

— Leroy me informou que foram homens de Arouka, os envolvidos pelo seu atentado.

Largando-se na cadeira, Vasco não crê no que ouve.

— Arouka?

— Ele não apreciou ter ficado de fora do projeto de paisagismos do edifício Turquesa e quis mostrar que ainda está na ativa. – Killian se mostra consternado. — Precisamos tomar cuidado, porque Leroy e os homens dele, receberam ordens para revidar a agressão. Tenho receio do que poderá acontecer.

Observando o amigo se afastando, Killian ainda se deixa influenciar pela informação dada por Regina, naquela noite de embriaguez. Consegue sentir todo o empenho da empresária em vencer a disputa contra o que Emma sentia pelo mesmo homem. Homem a quem a loira havia pagado por uma noite de prazer.

No restaurante, Regina sobe a escada e é acompanhada por Vasco. Recepcionados pelo gerente do local, são conduzidos para o segundo andar, onde o jantar aconteceria. Tudo parecia tranquilo, embora Vasco tivesse estranhado a ausência de clientes naquele local. Seria algo tão sigiloso, assim? Teria algo a ver com a disputa com Arouka?

Quando chegam ao local indicado pelo gerente, Vasco tem uma imensa surpresa: violinistas saem detrás de cortina e começam a entoar uma linda canção. Somente em uma das mesas, havia velas acesas e estava rodeada de flores brancas. A luz amarelada dava um aspecto aconchegante ao lugar e convidava para momentos românticos.

— O que significa isso? Você mentiu para mim! – ele esboça movimento para sair, porém, Regina o impede. – Não me toque!

— Sim, eu menti! Menti porque você jamais aceitaria um convite para um momento comigo, outra vez! Sempre que desejo estar perto de você, tenho de conviver com Emma ou com seus familiares! Não consigo conversar sobre o que sinto e sobre o que desejo, porque você não me permite!

— O que está querendo? Pagamento pelos dias em que me protegeu em sua casa? Ou quer que eu reembolse os gastos de minha internação? O convênio médico cobriu as despesas!

— Pare de tagarelar um pouco e me ouça, Vasco. Por favor...- ela estende a mão e aponta para a mesa solitária. O som dos violinos torna-se mais baixo.

Sem saber como reagir sem ser deselegante, Vasco aceita o convite e vai para junto da mesa. Mas é Regina quem faz a vez da acomodação e puxa a cadeira para que ele se sente. É atendida.

— Obrigada por aceitar meu pedido.

— Você mentiu para mim. – ele amua.

— Caso eu lhe dissesse a verdade, você viria? – ela sorri achando linda a reação dele.

— Não.

Ela estende a mão e toca o dorso da mão dele. Não é repudiada.

— Não consigo mais viver à margem de sua vida, Vasco. Meu coração pulsa pelo seu nome e meus pulmões respiram o seu aroma. – ela sorri e percebe que seu sorriso produz calma no homem. – Sei que não poderei apagar aquela noite negra, mas poderei remediar o que causei em sua alma.

Negando com um movimento de cabeça, Vasco pisca várias vezes e mantém seus olhos num ponto distante. Aquela cena estava tão nítida em sua mente, como se fosse uma história acontecendo novamente.

— Vasco, a sua beleza invadiu a minha alma e dominou o meu coração. Desde que o vi pela primeira vez, senti que minha vida havia começado ali, naquele momento. Eu o julguei mal e cometi um erro que marcou as nossas vidas.

Ele dá de ombros.

— Você não tinha como saber, porque eu menti sobre a existência de minhas filhas. Eu precisava muito do dinheiro...

Regina toca os lábios dele com as pontas dos dedos e pede que fique quieto.

— Você tocou a minha alma e sinto a sua presença em mim, cada vez que eu respiro. Mesmo que eu ficasse ajoelhada por séculos, diante de você, jamais seria digna de receber seu amor puro. Eu faria de tudo, se pudesse, para apagar aquela noite negra de nossas vidas. Eu gostaria que se casasse comigo, Vasco.

Sem acreditar no que ouvia, Vasco apenas consegue sorrir.

— Não precisa me dar a resposta agora, meu amor. Eu tenho medo de que você não aceite, por isso esperarei mil e uma noite para ouvir um “sim.”

Tentando conter o furacão de emoções dentro do seu peito, Vasco percebe naquele momento, que já amava Regina, mas que ainda não sentia a coragem de assumir esse sentimento. Nem mesmo forças para retribuir o beijo que Regina lhe dá, o homem consegue ter.