Amor absoluto e perfeito

1 Reencontros sempre emocionam


Notas iniciais
Para entender a história, será preciso conhecer a trajetória do romance de Regina Mills e Vasco Agilulfo.
A personagem Cesar foi retirada do filme Planeta dos Macacos. Já o reverendo Solomon Kent foi retirado do seriado Sleepy Hollow.

(...) “Ao chegar, Isolda fica sabendo do ocorrido e vai até ele, deita-se junto a ele, beija-o na boca e no rosto, abraça-o forte e morre. Quando o rei Marc sabe da morte dos dois, vai até a Bretanha buscar seus corpos. Sepulta-os separados por uma capela. Mas durante a noite, da tumba de Tristão brota um espinheiro verde, com flores perfumadas e elevou-se por cima da capela até o túmulo de Isolda, três vezes o cortaram, três vezes ele voltou. E, sendo assim, resolveram deixá-los em paz.”

Trecho da lenda de Tristão e Isolda.

REENCONTROS SEMPRE EMOCIONAM

— Cesar! – Yasemine corre na direção do amigo e por longos momentos, os dois se abraçam. Quando se separa, ficam olhando-se nos olhos e sorrindo. – Como é lindo! Não precisa mudar, é tão lindo! E eu adoro, adoro!

O chimpanzé a liberta e vai cumprimentar Regina, inclinando-se respeitosamente.

— Majestade! Permita-me saudá-la e reverenciá-la!

Regina sorri e permite que o amigo beije o dorso de sua mão.

— A que devemos a sua visita, meu amigo?

— Cesar! – a voz de um menino é ouvida e chama a atenção de todos os adultos. Vasco surge correndo e salta nos braços do amigo. – Você veio para ficar conosco?

Alda se aproxima encantada e sem hesitar, toca as costas peludas do chimpanzé. Como ele era lindo! Que fofura! Dava vontade de apertá-lo!

— Você vai brincar conosco? Regina mandou construir alguns brinquedos de madeira lá no quintal do fundo! Você já consegue mergulhar? Quer nadar comigo?

— Tudo ao seu tempo, Majestade.

— Por que você me chamou de Majestade? – Vasco segura as orelhas do chimpanzé. – Eu consigo ficar muito tempo embaixo da água, sabia?

Cesar olha por cima do ombro do menino e levanta as sobrancelhas. Pela sua expressão, queria conversar com os adultos, sem a presença de Vasco. Mas como fazer?

— Vasco, precisamos ter uma reunião entre os adultos. Você poderia acompanhar Alda até a lanchonete da Vovó? – Regina pergunta carinhosamente.

— Não.

— Faça isso e prometo que irei competir com você para saber quem fica mais tempo sob a água.

— Não. – Vasco fala e enche as bochechas de ar.

Yasemine se aproxima do garoto e estende as mãos. Apanha-o nos braços e beija seu rosto rechonchudo e rosado.

— Vamos conversar sobre aquele reino de onde viemos. Lembra-se de Cosima e dos outros? Eles precisam de nossa ajuda de novo e temos de conversar. Mas o assunto é cheio de coisas assustadoras que podem criar pesadelos em você durante a noite. Quer mesmo ouvir?

O menino fecha um dos olhos e faz uma careta de descontentamento. Ele sabia que era tudo mentira e que os adultos iriam falar sobre ele. Ergue os bracinhos e desliza da proteção de Yasemine, indo para o chão. Estende a mão para Alda e os dois saem da sala.

— Estamos de posse da Vela da Permuta. – Cesar fala de supetão.

— Vocês conseguiram a vela?

— Sim Alteza. – ele se refere à jovem Yasemine. – Depois que conversamos e pedi ao Capitão Jones o prazo de dez dias para ajudá-los na passagem do portal, saí em busca da vela. Convidei Cosima como segurança do grupo e partimos em excursão com Solomon e Zelena.

Os adultos se entreolham.

— Solomon e Zelena? Não tinha companhia melhor? – Yasemine é a primeira a falar.

Cesar não espera convite e senta-se em um dos sofás.

— Tudo aconteceu porque Solomon se intrometeu na vida da família de vocês. Então, decidi que era responsabilidade dele e do filho de Zelena, recuperarem a vida de Vasco. Mas Zelena discordou e quis seguir no lugar do filho.

Sentando-se também, Regina observa Henry e Yasemine fazerem o mesmo.

— Como conseguiu a vela?

— Segui as coordenadas, Majestade. Informações diversas nos apontaram para a Cidade da Tristeza, assombrada pelos espíritos da desolação. Mas não tínhamos o mapa para chegar até lá, porque a cada primavera, a cidade se muda de lugar.

— Como fizeram em tão pouco tempo?

— Consegui informações com os piratas, jovem príncipe. – Cesar leva seus olhos estranhamente esverdeados na direção de Henry. – Os piratas sabem de tudo e embarcamos no navio do Capitão Barba Negra, em troca de uma pérola colorida, ofertada por Cosima.

Yasemine sorri e relembra de ter visto o poderoso pirata e sua cabeleira negra, naquela época em que viveu na floresta com o chimpanzé. Ele era lindo e tinha belos olhos claros!

— Desembarcamos numa cidade litorânea e de lá seguimos para o bosque de Frenjalote. Atravessamos a ponte vigiada pelos Trolls e a mera presença de Solomon amedrontou aquelas coisas. De lá, seguimos para uma região protegida por uma ave com penas de metal. Zelena usou suas habilidades para proteger o grupo, contra os ataques da ave.

— Tipo as Aves do Lago Estínfalo? – pergunta Henry.

— Desconheço isso, Alteza. Mas a presença de Zelena foi útil para todos.

— Pelo menos algo de bom. – Yasemine interrompe.

— Ela foi de grande ajuda. Quando chegamos ao Recanto dos Ogros, tivemos de passar camuflados para atingir a Colina das Greias. Somente elas tinham a nova localização da Cidade da Tristeza. – Cesar desvia o olhar a observa Vasco surgir correndo novamente, seguido por Alda.

O menino salta nas pernas do amigo e agarra seu pescoço. Poderia ser retirado dali, mas levaria metade do chimpanzé junto com ele. Alda desiste e vai sentar-se junto da mãe.

— As Greias nos recusaram ajuda porque viram Solomon. Então, Cosima roubou o olho delas e as chantageou como fazem todos os viajantes que conseguem escapar do canibalismo delas. – Cesar tem as orelhas presas novamente e não demonstra incômodo. – Com o mapa nas mãos, caminhamos por três dias e três noites em uma região muito fria, até atingirmos a tal cidade.

Todos permanecem atentos à narrativa do visitante.

— Começamos a sentir os efeitos da desolação, nos dois quilômetros próximos à cidade, mas não podíamos desistir. Tudo abandonado e nem o vento sopra ali dentro dos muros da cidade. Nenhuma vida consegue se manter ali.

— Como no Mar Morto. – comenta Henry, recebendo os olhares.

Cesar ignora a fala do rapaz e continua. Faz uma careta quando sua orelha é torcida.

— Cosima e eu quase morremos e tivemos de retornar para fora da cidade. Então, Zelena e Solomon entraram sob uma pequena redoma feita com as habilidades da Rainha Verde. Mas as forças eram tão poderosas que Zelena sucumbiu à tristeza e permitiu que a redoma fosse rompida. O medo de Solomon foi tão grande e tão intenso que naquele momento, suas habilidades retornaram ao seu corpo. Ele voltou a ser o mago perigoso que conhecemos.

— Isso não é bom.

— Não, Yasemine, não mesmo. Com domínio dos poderes, ele conseguiu apanhar a vela e não sabemos o que mais ele tirou de lá. Todos os artefatos considerados proibidos são escondidos ali, para que não caiam em mãos erradas. Tenho certeza de que ele se apossou de algo mais que a Vela da Permuta.

Regina inspira profundamente e começa a preparar a sua alma para mais uma batalha para manter sua família segura contra algum novo ataque.

— Ele conseguiu combater os espíritos da desolação, que se afastaram ao seu comando, segundo Zelena, e abriram caminho para que ele se apossasse da vela. Conclusão, quando entrei pelo portal para trazer a vela, tive de trazê-lo comigo.

— Solon está aqui? – todos perguntam ao mesmo tempo, causando espanto em Vasco que estreita seus olhinhos e identifica a presença de algo incomum.

— Ele está no bosque junto ao poço que usamos para abrir o portal. Deu-me o prazo de cinco horas para encontrá-los, comunicar a posse da vela e informá-los sobre a presença dele. Caso eu não cumpra o prazo, ele virá estragar nossa reunião.

Regina se levanta imediatamente, sendo imitada por Yasemine e Alda.

— Vamos proteger nossa casa. Yasemine, vá pelos fundos! Alda, proteja as laterais e eu irei... – Regina se cala repentinamente quando o som de saltos de botas enche a sala, vindo de um ponto do cômodo. – Solon?

— Eu não pude resistir e quis ouvir toda a conversa, além de ver como meu pequeno lindo rei está.

Num gesto rápido, Regina tenta enviar uma onda para afastar o reverendo, porém, ele é mais veloz e devolve a mesma onda, atingindo a mulher que voa sobre um dos sofás. Quando Yasemine esboça reação, ele apenas ergue o dedo indicador em advertência. A garota para.

— Eu vim em paz e quero que esta paz continue. – ele se senta num dos sofás. Estende as mãos na direção de Vasco. – Venha dar um abraço em seu velho amigo, meu amor.

— Não quero. – o menino fecha o cenho e observa Regina se recompor. Abraça Cesar para proteger-se. – Não falo com estranhos e você é um estranho!

— Oh! Faz muito bem, meu lindo reizinho! – ele mantém o sorriso ferino em sua bocarra. – Você continua maravilhosa, Regina. Mas não me obrigue a usar meus poderes novamente, porque estou ainda mais feroz e cruel. Agora, sentem-se todos!

A ordem tinha sido dada e quem fosse inteligente deveria obedecer. E é o que acontece.

— Estamos todos felizes e em família. Agora poderemos conversar. – Solomon encara Henry e provoca arrepio no rapaz. – Você deve ser o Henry, filho da loira Emma, enteado do maldito Capitão Gancho. Certo?

Um sorriso tímido ilumina os lábios de Henry.

— Bom, isso não me interessa. Atravessei o portal apenas para ver os lindos olhos de Vasco. Mesmo sendo um garotinho, continua lindo como era quando um adulto.

O menino estreita as sobrancelhas e inclina a cabeça para o lado. Olha o homem como se estivesse querendo recordar-se de quem ele era. Já o havia visto em algum lugar, mas não se recordava. Por quê?

— Durante todas essas luas passadas, o que me manteve vivo, foram as lembranças do nosso único encontro sob a supervisão de Regina. Teria sido perfeito, caso ela não tivesse sido tão egoísta em querer compartilhar você e seu amor. – ele estende novamente os braços. – Você virá dar-me um abraço ou terei de roubá-lo de você, Vasco?

— Deixe o menino em paz, Solon, em nome do que você sente por ele. – a voz grave de Cesar atrai a atenção do reverendo. Não conseguia assumir um embate com o chimpanzé. Algo nele o impedia de confrontá-lo.

— Tudo bem! Vamos ao que nos interessa. Vim apenas para livrar Vasco desta condição e fazer a mais vil das propostas para Regina.

O coração de Regina tamborila dentro de seu peito. Seus instintos gritam e avisam que algo grandioso estava avizinhando-se daquela família.

— Alguém está disposto a ouvir o que tenho a dizer?

— O que você quer de nossa família, Solomon? Não ficou satisfeito com o que fez aos meus pais? – Yasemine se inclina para frente e recebe um olhar de advertência. Era nítido o incômodo que ela causava no espírito do reverendo. – O que mais falta fazer? Quer a nossa morte?

— De forma alguma. Eu quero apenas fazer uma proposta imoral para sua linda mãe.

Todos voltam seus olhos para Regina e esperam alguma reação. A mulher ergue o queixo de forma desafiadora e aguarda a fala do reverendo.

— Vamos realizar a troca: Vasco retornará a ser o belo adulto e suas filhas serão meninas outra vez. – Solomon sorri. – Mas como fui eu quem conseguiu a vela, serei o coordenador da troca. Porém...

— Porém...

— Preciso criar um pacto com você, Regina. Um pacto que me dê a certeza de que devo deixar tudo como era antes. Caso não cumpra a sua parte, farei o retrocesso e desta vez, será para sempre.

Regina e Cesar se entreolham. A Rainha sabe que não era momento de enfrentar aquele homem. Decide escutar o que ele queria imoralmente propor.

— O que quer, Solon?

— Primeiramente, quero o livro Grande Grimório. Não me interessa que ele esteja de posse do seu Dark One ou seja lá o que for. Depois que o livro estiver em minha posse e eu o proteger, poderei fazer a troca.

— Só isso? – Regina se sente aliviada. – Considere feita a entrega.

Solomon acha graça nas palavras da mulher.

— Antes de confirmar o processo da troca, quero ter certeza se valerá a pena fazer isso.

— E como pretende saber?

— Regina, meu grande amor, eu vim para esta cidade com o objetivo de levar um dos dois para ser companheiro pelo restante de vida. Desejo levar Vasco ou você. Meu coração grita por você, minha querida noiva. – ele se volta para as filhas de Regina. — Eu tenho um coração repleto de amor, que foi despertado quando sua mãe me propôs passar uma noite de amor com seu pai, sob a supervisão dela.

As expressões de espanto voltam-se para Regina. Todos a olham de forma incrédula.

— Depois daquela noite, meu coração se fartou de amor. Quero ter Regina ou Vasco ao meu lado em meu leito. Por isso, quero que os dois me deem uma prova e me convençam de que não devo fazer isso.

— E como os dois poderão fazer isso? – Cesar não altera a voz.

Olhando para o chimpanzé que vestia roupas, o reverendo se sente encantado pela força daquele dali. Sorri.

— Eu peguei muito mais do que a Vela da Permuta, quando estava na Cidade da Tristeza. Aprendi algo que mudará a realidade em que estamos. – ele olha para Regina e a encontra ansiosa. – Vasco e você terão de provar-me que se merecem e que o amor é mútuo. Somente assim, eu os deixarei em paz. Caso eu perceba que o amor não é recíproco, levarei um dos dois comigo e não seremos encontrados jamais.

Regina se inclina para frente e fica olhando o reverendo, sem dizer absolutamente nada. Não conseguia sentir nada negativo em relação a ele. Seu coração ainda guardava resquícios do que havia vivido como noiva dele, quando tivera a alma dividida. Em sua alma ainda existia a luta entre Regina Mills e a Rainha Má.

— Vou criar um universo alternativo, no qual vocês não se conhecem. O início da história será feito por mim, o desfecho será feito por vocês e obviamente que farei interferências. Quero saber se são merecedores de viver um grande amor. – cinicamente, Solomon se levanta e dirige-se para a porta de saída. – Estarei hospedado numa pensão que conheci. Pensem no que falei e em dois dias, levem-me a resposta.

— E se recusarmos tudo? E se não entregarmos o livro? E se não aceitarmos a mudança de universo?

— Vocês farão tudo o que pedi. Depois da troca, a família terá um tempo para harmonizarem-se, e então acontecerá a mudança de universo. – ele caminha elegantemente para a porta, abre-a e sai sem olhar para trás.

O silêncio que surge no local é sepulcral e aterrorizante.