Amor absoluto e perfeito
4 Os raios de sol no quarto...
Notas iniciais
Regina abre os olhos e espreguiça-se. Olha o celular e percebe que são seis horas da manhã. Teria de fazer uma caminhada e alguns exercícios, antes de sair para o trabalho. Percebe-se nua sob o lençol e sente a presença de alguém em sua cama. Olha para o lado e vê as costas fortes do homem grande e negro.
— Acorde, Lancelot! – ela toca as costas dele e o ouve gemer. – Está na hora de ir embora, querido. Preciso começar meu dia.
Momentos depois, Regina desce para o café da manhã e encontra a mãe lendo o jornal do dia. A mulher mais velha olha a filha por cima da armação dos óculos.
— Bom dia, menina! Quem é aquele colosso de Rodes que saiu de seu quarto?
— Um amigo do clube. – Regina beija o rosto da mãe e senta-se à mesa. Começa a servir-se. – É Lancelot e tenho um gosto pelo desempenho dele.
Cora acha graça nas palavras da filha.
— Sua tia Mary e eu estamos finalizando a papelada para abertura da Associação de Apoio à Criança com Leucemia. Então, iremos almoçar com algumas esposas de políticos para conseguirmos verbas. Não poderei almoçar com você, como combinamos.
— Desejo sorte.
Horas mais tarde, o carro de Regina para em frente à entrada do prédio da empresa da família, deixada como herança pelo seu pai e pelo irmão dele. O manobrista abre a porta e a ajuda a sair do veículo. Recebe um sorriso largo e a observa subir os poucos degraus, saindo de seu campo de visão. Como era linda!
Chegando ao seu escritório, Regina encontra Emma sentada próxima à sua mesa, lendo algum contrato.
— Como foi a noite?
— Lancelot é um homem carinhoso...
— Eu perguntei como foi a noite?
— Agradável. Mas ele ainda não é o homem que quero. – Regina se senta e coloca os documentos sobre a mesa. – Acho que terei de pagar um amante que me ofereça a melhor noite de minha vida.
— Você não pode descer tanto. – Emma estreita os olhos e encara a prima. – Não precisa se submeter a isso, basta dizer aos seus amantes, o que mais a agrada.
Regina acha graça. Ri desdenhosa.
— Caso eu diga a eles, o trabalho ficará muito fácil, não acha?
— Cínica. – Emma para de falar e de respirar, quando o novo arquiteto pede licença e entra na sala. – Vasco! Entre!
Timidamente, o homem entra na sala e cumprimenta suas chefes. Esboça um movimento no canto da boca, que remotamente poderia ser identificado com muita boa vontade, como um sorriso. Ele entrega um cilindro longo para Emma, que apanha e não se dá ao trabalho de olhar o invólucro.
— O que é isso?
— É o projeto no qual estamos trabalhando, Srta. Swan. Gostaria que vissem os detalhes para que possamos continuar.
— Killian e você estão fazendo uma ótima equipe. – a loira sorri apaixonada. – Quero que saiba que estamos lisonjeadas por ter o arquiteto revelação do ano, em nossa equipe.
— Você já disse isso a ele, Emma. Aliás, diz isso quase todos os dias.
Vasco abaixa a cabeça e pede licença para sair do cômodo.
— Gentileza não faz parte de seus modos, né?
— Não sei porque você se derrete quando ele se aproxima. O que o homem tem de especial?
— Ahhhh! Ele é a coisa mais linda que já vi! É tímido e tem olhos maravilhosos! E aquela boca? Aquele sorriso...até as costeletas dele são espetaculares! Fico fantasiando com aquele homem em minha cama!
Regina leva seus olhos na direção da porta e fica pensativa. Havia três meses que o arquiteto viera trabalhar em sua empresa, trazido pelo arquiteto Killian. Ambos eram conhecidos desde a faculdade e com a demissão de uma arquiteta, a vaga tinha surgido, assim a vinda de Vasco fora providenciada para ocupar o espaço. Ele era certinho demais, educado demais, bonito demais e irritante demais! Além disso, apaixonantes demais! Porém, Regina jamais admitiria que também apreciava o moreno, como também buscava aqueles lábios e aquele corpo, em todos os corpos de seus amantes.
Na hora do almoço, Regina passa pela sala e encontra somente Killian trabalhando em um dos computadores. Procura por Vasco e não o encontra ali.
— Olá, Killian! Onde está Vasco?
— Ola, Srta. Mills! Fizemos uma troca: eu almocei por meia hora e ele ficará com a minha outra meia hora. Amanhã, ele me dará a meia hora que curtiu hoje.
Regina sorri sem graça. Esperava encontrar o arquiteto para convidá-lo para almoçar.
— Posso ajudá-la?
— Eu queria conversar algo sobre o projeto, mas sem importância. Na verdade, eu estou tentando uma aproximação com o empregado novo.
— Claro que sim. – Killian, como todos os empregados da Diamanti Arquitetura e Engenharia, conhecia a fama de meneater de Regina.
Nos dias que se passam, Regina não disfarça o prazer que sente em intimidar o novo funcionário. Exigia que seus serviços fossem refeitos, mesmo estando corretos, apenas para demonstrar sua posição superior em relação a ele. Por outro lado, Emma sempre conseguia contornar a situação e ludibriar as ordens absurdas dadas por sua prima.
— Com está Yasemine? – Killian fala e mantém os olhos na estrada noturna. Tinham saído mais tarde que o costumeiro da empresa.
— Está fraca, mas hoje é aniversário dela e quero levar um bolinho. Preciso comprar algo para Alda também, porque irá querer.
— Quanto já conseguimos para o transplante?
— Apenas cem e dez mil, mas tive de pagar a viagem da doadora, e então, não tenho todo esse montante.
— Já pensou em pedir ao seu cunhado?
Vasco olha para fora do carro e acha graça.
— Ele me detesta. Nunca quis conhecer as meninas e nem se deu ao trabalho de saber de nós, depois da morte de Cosima.
Quando chegam ao hospital, na ala infantil, os dois amigos são surpreendidos com a notícia de que a saúde de Yasemine tinha piorado. A garota teria apenas mais uma semana de vida, caso não fosse feito o transplante, então, Vasco decide ir conversar com Solomon, seu cunhado. Seria tudo ou nada.
Na imensa casa do empresário do ramo de roupas, Vasco é conduzido para a sala principal, onde é recebido pelo sisudo Solomon. O homem olha-o com o mais nítido desprezo e permanece em pé e com as mãos escondidas às costas. Ergue o queixo para intimidar Vasco.
— O que veio buscar aqui?
— Vou ser direto, Solomon, porque quero que saiba que não tenho prazer em estar aqui.
— Não tem? O prazer que teve foi o de roubar minha irmã, de fazê-la renegar a família para casar-se com alguém que não estava dentro dos nossos padrões. Por sua causa, Cosima abriu mão de nossa fortuna, nosso nome, nossa família e foi viver com você naquele gueto. E como se isso não fosse o bastante, ainda teve duas filhas com você. O que quer?
Vasco esfrega as mãos e mostra-se impaciente.
— Preciso de quinhentos mil para pagar todas as despesas do hospital, para o transplante de medula óssea de Yasemine, minha filha mais velha. Estou pedindo que me ajude.
Solomon ri irônico.
— E por que eu ajudaria aquela fedelha? Eu não a conheço, não quero conhecer e nem faço questão de saber da existência dela. Não sei de quem está falando?
— Falo de sua sobrinha, minha filha e de sua irmã!
— Não tenho mais irmã. Ela morreu no exato momento em que saiu por aquela porta e casou-se com você, Vasco. Não tenho obrigações com vocês. – ele aponta para a saída da casa.
— Yasemine poderá morrer em uma semana, caso eu não consiga o dinheiro! Ela é apenas uma criança para pagar pelo seu orgulho! Por favor, ajude-me!
— Não reconheço a existência de uma criança com o sangue de minha irmã. Quando ela me abdicou, abdicou o meu dinheiro e o meu amor.
— Por favor, não deixe minha filha morrer!
Solomon sorri e caminha para a porta da casa. Abre-a e aponta para a rua.
— Não terá nada de meu dinheiro, Vasco. E mesmo que eu tivesse dez vidas, não daria nenhuma para salvar aquela criança. Não a reconheço com minha sobrinha. Agora saia!
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