Amor absoluto e perfeito
5 Novo amanhecer
Ao chegar à empresa, Regina percebe que Vasco parecia consternado. Segurava uma caneca de café e não bebia, apenas mantinha os olhos perdidos na parede. Ela se aproxima, o cumprimenta e o retira de seus pensamentos.
— Minha secretária me disse que você queria conversar comigo. O que há?
— É urgente!
Regina abaixa os cantos da boca e gesticula para que o homem a siga. Ele caminha nervosamente logo atrás, entrando na sala da presidência, quando ordenado.
— O que o aflige? – ela fecha a porta e não deixa de admirar a beleza estonteante daquele rapaz. Como ele conseguia estar cada dia mais bonito?
— Srta. Mills, preciso de quinhentos mil, como empréstimo. – ele fala de supetão.
— Quinhentos mil? E acha mesmo que trabalhando há três meses numa empresa, mesmo que seja outra, conseguirá este montante? Por que eu confiaria uma quantidade dessas, a um funcionário que mal conheço? Apenas baseada no prêmio que você recebeu?
Vasco já começa a imaginar outras maneiras de conseguir o dinheiro. Agiotas? Traficantes? Alguma igreja? Algum programa de televisão? Redes sociais? Alguém haveria de emprestar aquele dinheiro! Mas quem?
— Obrigado pela atenção. – ele se vira para sair da sala, quando ouve Regina chamar seu nome. Volta-se esperançoso e até arrisca um sorriso.
— Pode ter esse dinheiro, sim. Eu poderei conseguir esse montante, mas em troca de uma noite de sexo. Você ficará comigo uma noite inteira e no dia seguinte, terá seu dinheiro.
Vasco arregala os olhos, abre e fecha a boca e sente sua bile subir à sua boca. Cobre os lábios com a mão em concha e não consegue ter outra reação a não ser, sair daquele cômodo que começa a sufocá-lo.
Silenciosa, Regina não se move. Sorri por alguns minutos, convicta de que havia encontrado um homem diferente dos seus vários amantes, até que seu sorriso desaparece de seu rosto quando Vasco retorna para a sala. Ele estava ofegante e esfregava as mãos contra o tecido da calça.
— Eu terei a certeza de que conseguirei o dinheiro?
— Tem a minha palavra. Quando o dia nascer, o envelope com o dinheiro estará em suas mãos.
Vasco se retira novamente da sala, deixando Regina desbarrancada coma a decepção. Havia construído uma imagem e tinha cometido o mais inocente dos erros. Todos se aproximavam dela em busca de fama, dinheiro e portas abertas. E Vasco não era diferente.
Naquela mesma noite, ao abrir a porta do quarto de hotel luxuoso, Regina se encanta com sua mais nova aquisição. O homem cheirava ao frescor de um banho e vinha cuidadosamente barbeado, com cabelos penteados impecavelmente para o alto da cabeça. Mesmo simples dentro de um terno escuro, era a visão mais rica e deslumbrante que já havia tido. Nem mesmo os homens mais elegantes, refinados de seu círculo social, conseguiam irradiar tanta formosura, beleza e sensualidade como aquele homem de olhos celestes e grandes, protegidos em cílios que não deveriam pertencer a um homem.
Ele recura a bebida oferecida e Regina percebe que as mãos dele tremiam. Tendo recebido a ordem de despir-se, ele se atrapalha nervosamente com os botões das roupas. Era uma escultura renascentista e naquele exato momento, Regina tem a mesma sensação surgida em seu peito, quando deitara os olhos na estátua de Davi de Michelangelo, na Galleria dell’Accademia, em Florença em uma de suas visitas à Itália. O homem era o Davi em vida.
Ela sorri e sente o sangue começar a ficar aquecido. Aquela noite valeria todos os centavos dos quinhentos mil e certamente outras noites poderiam ser repetidas pelo mesmo valor. O homem tinha estabelecido seu preço.
Na manha seguinte, Regina acorda com o som do chuveiro. Vai até a porta e atrevidamente invade a intimidade do amante. Olha sua silhueta escultural pelo vidro embaçado do box e sente uma pontada de raiva e remorso, ao perceber que ele estava com a testa encostada na parede e soluçava pelo choro. O homem estava chorando!
Já vestido e penteado, Vasco se apresenta para Regina e não diz nada. Apenas aguarda o pagamento pela noite de sexo. Recebe dela o envelope e sem hesitar o apanha, retirando-se daquela prisão humilhante.
— Faça bom proveito, meu belo arquiteto gigolô. – Regina decide que iria para casa, antes de ir trabalhar. Vai até o banheiro e olha-se no espelho. Depois, vai sentar-se na privada e apanha uma revista para sua leitura, mas algo chama sua atenção ao lado do cestinho do lixo. Era uma embalagem prateada que havia sido jogada às pressas e não acertara seu destino. Olhando com mais atenção, ela percebe que era uma embalagem de comprimidos estimulantes sexuais. Sem acreditar no que vê, olha para a porta como se conseguisse ver Vasco. – Filho da puta! Usou estimulante sexual para transar comigo! Quem ele pensa que é? Acha que me fez um favor, aquele morto de fome? Ah, desgraçado! Vou transformar a sua vida num inferno, maldito! Usar estimulante com uma mulher apaixonada?
Naquela mesma noite, um jantar é feito entre família e Regina recebe a prima e a sua tia Mary, que logo percebe o véu de fúria sobre os olhos escuros da sobrinha.
— O que houve com Regina?
— Certamente brigou com algum amante. Ela vive encontrando e desencontrando homens que são “os homens da vida dela”! – Cora ironiza, observando a filha conversando com Emma, na varanda da casa. – Venha, antes do jantar, precisamos acertar os detalhes da inauguração da Associação!
Na varanda, Emma entrega um copo com bebida para a prima, largada numa cadeira.
— O que aconteceu?
— Estou furiosa, Emma. Fui enganada e humilhada por um homem!
— Eu o conheço?
Regina encara a prima e pensa no que responder. Como contar que havia pagado por sexo? E como contar que o gigolô era Vasco? Como contar para a prima que sua paixão, nada mais era que um vendido barato? Barato, não! O homem era caro!
— O desgraçado cobrou por uma noite de sexo e tomou estimulante sexual!
Sem conter a gargalhada, Emma cobre a boca e ri até ficar sem ar.
— Você pagou um garoto de programa e o cara usou drogas?
— O desgraçado tomou o famoso comprimido, porque eu não fui bela o suficiente para excitá-lo. Ele teve de usar drogas, porque não fui estimulante.
— Talvez ele não goste de mulher.
— Estou torcendo por isso, senão, vou ficar muito brava! Imagine se isso cai no ouvido de meus “amigos com benefícios”? Como ficará minha reputação? – Regina bebe um gole do uísque. O que doía mais era o ego de mulher apaixonada. Queria usar aquela oportunidade para marcar Vasco, mostrar que eles poderiam ficar juntos, mas ele havia provado de que era apenas um profissional. Um lindo lobo com a mais macia pele de cordeiro. Ele era como todos os outros homens, sem mais e nem menos. – Fiquei magoada com isso, porque confirmei a minha teoria de que todos os homens não merecem o meu respeito. Caso eu pudesse, faria a mesma coisa que o Rei Shariar dos Contos das Mil e Uma Noites: mataria todo homem com quem eu passasse a noite. Nenhum dele merece a minha atenção.
— Você está apaixonada por ele!
— Paguei a ele, pela noite de sexo, Emma!
O rosto de Emma se torna sombrio e ele olha a prima como se nunca a tivesse visto.
— Pagou por sexo, Regina? E desde quando você precisa disso?
“Desde quando eu vivi a ingenuidade de acreditar que Vasco era diferente. Fiz a proposta, porque acreditei que ele refutaria. Eu iria emprestar o dinheiro a ele, caso percebesse que o havia ofendido de fato. Mas ele aceitou e usou subterfúgios para conseguir tocar meu corpo.”
— Estou falando com você, Regina! Por que pagou esse cara?
— Porque pensei que ele refutaria. Mas ele aceitou sem hesitar e sem fingir-se ofendido.
— Que palhaçada! – Emma leva a mão à testa. – Testar fidelidade?
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