Amor absoluto e perfeito
16 Mudanças Vertiginosas
Duas semanas depois...
A juíza entra na sala e cumprimenta todos os presentes. Não era o início de algum processo judicial, apenas um encontro de conciliação e organização daquela situação inusitada. De um lado da mesa estavam Regina, Vasco e a advogada do casal. Do outro lado estavam Sartorelli, Cosima e o advogado deles.
— Quero deixar claro que não estou aqui para julgar nenhuma das partes. Gostaria apenas de conversar com vocês e entender a situação atual, lembrando que tudo o que me importa é o bem estar das crianças envolvidas.
A juíza passa seus olhos em todos os rostos das pessoas ali presentes, mas sua atenção é fixada nos belos traços de Vasco. Olha-o indiscretamente, admirando-o e encantando-se com sua graciosidade singular.
— Gostaria de saber o que houve em sua vida nos últimos três anos, Sra. Cosima Agilulfo. Por que se manteve incógnita?
— Eu estava aterrorizada com a realidade de ser mãe, esposa e mulher. Quis fugir de tudo e apagar de minha memória aquela situação. Para viver com Vasco, tive de abrir mão da convivência com meu irmão e com meus valores. Isso mexeu demais com a minha alma.
— O seu marido é um homem abusivo?
— Não! Não, Meritíssima! Vasco é um homem feminino e doce demais...porém, o envolvimento dele com o casamento, o fato dele assumir todos os papéis dentro de casa, deixou-me aterrorizada. Eu fiquei assustada com a responsabilidade de ser mãe, amamentar, trocar fraldas...a dor que senti nos partos deixou-me traumatizada e não conseguia me esquecer delas.
— Por que não procurou ajuda médica?
— Não quis compartilhar meus problemas com desconhecidos. Vasco me compreendeu e deixou de trabalhar para cuidar das meninas, enquanto eu provia a família. Mas numa noite, eu surtei e atirei meu carro no rio. Quando acordei, estava entre mendigos e ali fiquei por semanas, até decidir sair em busca do que eu não sabia o que era. Nesse ínterim, fui atropelada por Sartorelli, que me socorreu, acolheu e ajudou-me num tratamento psiquiátrico.
— A senhora pretende retomar seu casamento com Vasco Agilulfo?
— Sim!
A juíza se volta para Vasco. Suaviza seu rosto e sorri.
— Como era seu casamento com Cosima?
— Nós nos conhecemos na faculdade e passamos a viver juntos desde então. Depois, nos casamos e provocamos a fúria do irmão dela, que rompeu o relacionamento com Cosima. Isso abalou nosso relacionamento, e em muitas discussões, Cosima me acusava disso. No nascimento da primeira filha, ela sofreu muito após o parto e rejeitou a menina. Fiquei cuidando da criança e da casa, como já foi relatado. No nascimento da caçula, Cosima surtou e um dia escondeu a menina debaixo da pia da cozinha. Seis meses depois, recebi a notícia do acidente.
— Como o senhor lidou com a situação?
— Fui ajudado por amigos e por minha tia Vida, enquanto eu retornei ao mercado de trabalho. Depois de um ano, a justiça decretou a morte presumida de Cosima e as buscas foram interrompidas. Eu soube que o meu cunhado havia contratado uma equipe profissional para continuidade das buscas. Segui o meu caminho e dizia para minhas filhas, que a mamãe estava no Céu. Não sei o que vou dizer, agora.
— O senhor não pretende retomar seu casamento, não é?
— Não, Meritíssima. Eu conheci Regina Mills e ficamos apaixonados um pelo outro. Decidimos nos casar, então, já que nada me impedia. Minhas filhas e eu temos verdadeira adoração por Regina. Ela é nosso amor!
A juíza sorri e por alguns segundos, fica observando os traços daquele rosto quase angelical. Lindo demais para ser verdadeiro! Talvez tenha saído de algum conto de fadas ou de algum poema erótico árabe, mas não era real. Saindo de seu devaneio ao perceber o constrangimento do homem, a juíza se volta para Cosima.
— Para que tudo fique normalizado, oriento que a senhora Cosima seja submetida à exames com profissionais forenses e que nos apresente laudos de seu tratamento. A senhora não será processada por falso comunicado de morte, porque simplesmente não fez o comunicado. Foi a justiça quem presumiu a sua morte. – ela sorri. – Pelo fato da senhora ter rejeitado suas filhas, abandonado o lar e ter recebido tratamento psiquiátrico, além de tentar o suicídio, não autorizarei sua aproximação das crianças, até que consiga provar que está estabilizada emocional.
— Isso não é justo! – explode Cosima. – Eu sou a vítima!
— Sim, a senhora é vítima de si mesma. Não recebemos informações de abusos ou violência doméstica, então, deduzo que a causa de sua fuga não é seu relacionamento com Vasco. – a juíza sorri. – O seu advogado deverá providenciar os trâmites para anular seu atestado de óbito, bem como iniciar o processo de separação, uma vez que seu marido encontrou outra pessoa e não pretende retomar o casamento com a senhora.
— Eu quero continuar casada com ele!
— Mas ele não a quer mais. Além disso, o processo de reaproximação com as suas filhas, será analisado e mediado por profissionais da saúde. Não vou expor as crianças a um trauma como este, sobretudo, sabendo que sua filha mais velha sofreu uma violência no organismo quando esteve com leucemia.
A juíza se volta para Vasco e Regina. Sorri apaixonada, olhando fixamente para o homem.
— Sugiro que sua advogada inicie o processo para a anulação do seu novo casamento. Em seguida, providencie o divórcio do casamento de Cosima, para que vocês dois possam efetuar a união de forma correta e legal. Outra sugestão pessoal é a separação de corpos, até que tudo esteja resolvida.
— Não vou poder ver minhas filhas? – grita Cosima furiosa e descompensada.
— Não, até que nos prove que a senhora tem condições mentais saudáveis, para isso. O seu comportamento atual diz o contrário.
Naquela mesma tarde, Vasco recebe a visita de Solomon em seu escritório. O homem surge tranquilo e sorridente.
— Cosima me contou sobre a parcialidade da juíza conciliadora.
— Ela foi sensata e entendeu a situação. Cosima não tem condições para conviver com minhas filhas.
— Regina já saiu de sua casa? – ele apanha um objeto de decoração e fica observando os detalhes.
— Estamos providenciando tudo para a mudança. Mas será por pouco tempo.
Recolocando o objeto em seu lugar, Solomon leva os olhos maldosos para Vasco.
— Regina pretendia fazer a aproximação de suas filhas com o filho dela?
Filho dela? Regina tinha um filho? Era obvia a provocação de Solomon, e Vasco luta contra sua total surpresa para responder.
— Não sei.
— Não sabia sobre o filho dela? Um garoto com quinze anos e que mora com o pai dele na Irlanda? – Solomon sorri.
— Não sei se ela iria propor a aproximação. Talvez com o tempo. Mas por que o interesse?
— É que não penso ser saudável, um efebo com quinze anos, em pleno furor hormonal, conviver com duas meninas que não são irmãs, sob o mesmo teto.
— Você conhece o garoto?
— Não. Mas Emma me contou sobre esse pequeno...não tão pequeno segredo.
Peçonhento! O que Solomon estava pretendendo? Afastar Regina para que Cosima tivesse espaço de novo? Ou afastar Regina e Cosima, para que o espaço fosse somente dele?
— Não sabia que Emma confidenciava segredos alheios a você.
— Emma e eu trocamos alguns favores de interesse mútuo. Ambos queríamos a mesma coisa. – Solomon apanha uma caneta sobre a mesa e observa o objeto. – Vai permitir que Cosima veja as filhas de vez em quando?
— Não. A juíza mandou emitir uma ação protetiva para que Cosima fique afastada 300 metros das meninas, até que prove estar em pleno domínio de sua sanidade. – Vasco observa os movimentos do cunhado. – Posso ajudá-lo e mais alguma coisa, Solon?
Solomon sorri amplamente.
— Sabe, Vasco, eu não tenho nenhum interesse em Regina ou Cosima dentro de sua vida. Isso não é segredo para você, meu querido. Você sabe que eu o amo e amo ainda mais as minhas sobrinhas. O que quero é a felicidade irrestrita de vocês três.
— Por isso me contou um segredo que não era seu?
— Isso mesmo! Quero que você conheça a mulher com quem está dormindo. Sua vida foi aberta para ela, enquanto que ela insiste em manter escondida a existência de um filho com quinze anos. O que mais ela esconde de você?
Naquela mesma noite, Vasco deixa as filhas aos cuidados de Ruby e de Vida e vai até a casa de Regina. É recebido por Cora e ficam conversando por algum tempo, até a chegada de Regina.
— Por que não me disse que você viria? Eu teria saído mais cedo da empresa. – Regina beija os lábios do marido e recebe um sorriso amistoso como resposta.
— Eu queria conversar e não pensei que precisasse avisar sobre minha chegada. – ele ironiza.
— Hummm! Há algo de podre no reino da Dinamarca! O que há com você, Vasco?
— Solon me visitou no escritório e fez uma revelação que deveria ter sido feita por você.
Regina faz uma careta cínica e troca um sorriso com sua mãe.
— Que medo! Ele disse que na verdade sou um homem peludo e viril?
Vasco não acha graça na brincadeira.
— Ele me disse que você tem um filho com quinze anos e que vive com o pai dele na Irlanda.
Sem responder, Cora e Regina se entreolham.
— Você pretendia me contar algum dia? Afinal, ele é seu filho.
— Não lhe disse porque isso não lhe diz respeito. O meu passado deve ficar no lugar dele, que é no passado.
— Mas o passado a trouxe até aqui e faz parte de sua história. Quando nos casamos, eu expus tudo sobre minha vida, mesmo que tenha acontecido antes de nos conhecermos...
— Ora, Vasco! – Regina o interrompe gritando. – Isso não lhe diz respeito! Eu tive um filho sim e ele foi entregue para que meus sogros o criassem! E daí? O que isso muda em nosso relacionamento?
Vasco se encosta no espaldar do sofá e cruza os braços e pernas.
— Não posso revelar tudo o que aconteceu em meu passado e tampouco o motivo que levou meus sogros a afastarem o menino de mim! Será que pode respeitar?
— Sempre respeitei você, meu amor. Não entendo o que a leva para tanta irritação.
— Meu passado está retornando e ainda não sei como lidar com ele. Por favor, vá embora!
Vasco se levanta calado e caminha para fora da casa. Não olha para trás e não nutre esperanças que a esposa o impeça de sair.
— O que faço, mãe?
— O jeito é demonstrar o que você é. O que nós duas somos. Conte a ele que esse foi o motivo para que Robin levasse o menino embora. Seja franca, antes que Solon e Cosima se façam mais presentes na vida dele.
Durante uma semana, o casal permanece separado. E foi numa noite fria, que Regina chega à casa de Vasco e é recebida de maneira formal e distante por ele.
— Dei o espaço que você queria. – ela diz sem sorrir.
— Como sabia que era isso que eu queria, se não lhe pedi nada?
— Pela maneira como saiu da casa de minha mãe, pensei que...
— Não deveria ter pensado. Deveria ter perguntado. Ou deveria ter tomado meu corpo como sempre fazia quando me desejava.
Regina abaixa a cabeça e brinca com os próprios dedos. Depois, encara o homem e o encontra impávido com antes. Uma linda estátua com cabelos humanos.
— Henry foi levado pelo pai, porque eu sou uma pessoa especial. Possuo um dom ou uma maldição, não sei.
Cruzando os braços diante do peito, Vasco ergue o queixo e controla suas emoções para não tomar aquela mulher nos braços e pilhar aqueles lábios suculentos, com os mais vorazes beijos. Como ele a amava!
— Minha mãe e eu temos esse dom...ou maldição... Emma e Mary sabem disso e convivem bem com isso. Saiba que Solon também desenvolveu isso, esse dom...essa coisa...mas o usa para conseguir vantagens pessoais.
— Do que você está falando?
— Magia.
— Ora, Regina, economize o meu bom senso! Estamos sem nos ver a uma semana e agora que estamos juntos, você quer me insultar! Já que não pode ser adulta, quero que...- ele é interrompido por um objeto que passa voando próximo ao seu rosto.
Regina gesticula e outro objeto é movido de seu lugar. O homem fica estático observando o ocorrido. Gesticulando novamente, Regina transforma seu rosto e exibe o rosto bonito de Killian aos olhos de Vasco. Quando retoma seu próprio rosto, ela sorri serena ao ter revelado seu maior segredo.
Momentos depois, Regina está sentada no bar do clube, quando observa a chegada de Cora.
— O que houve, filha? Vim assim que pude!
— Revelei a Vasco, a minha verdadeira natureza.
— E?
— E ele surtou. Quando pensei que havia encarado com naturalidade, ele surtou. Ficou aterrorizado, histérico e me esconjurou. Gritou para que eu saísse dali e não me deu chances para explicar a minha história. Planejei cuidadosamente todos os passos que eu daria, mas não pensei que ele não saberia lidar com o sobrenatural.
— E agora?
— Não sei, mãe. Mas me consola saber, que nem Solon sairá vitorioso nesta disputa, porque Vasco sabe que ele é como nós duas. Sem querer, eu truquei sem ter cartas!
— Mas e quanto ao Vasco? Vai querer perdê-lo como perdeu Henry?
Regina encara a mãe e reconhece que a mulher tinha razão. Havia perdido quinze anos da vida do garoto, por apenas se conformar com sua condição e aceitar que os outros tinham razão por rejeitá-la.
— Você está certa, mãe. Por que eu tenho de perder os dois, se sinto que os dois me amam?
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