Amor absoluto e perfeito

12 Atrapalhando e atrapalhando


Solomon se ajoelha e abre os braços, recebendo as sobrinhas para começarem as brincadeiras de luta no carpete da sala principal. Todos riem e divertem-se com se tivessem a mesma idade. Correm pela sala, saltam sobre os móveis, caem e rolam no chão, deixando claro que aquele espaço e aquele momento era somente deles.

— Ele está mesmo arrependido por ter repudiado as sobrinhas. – Vida toca as costas do sobrinho e entrega um copo com chá para ele.

— Meu coração me diz que é algo maior que arrependimento e que não é tão nobre, assim. Solon esteve o tempo todo monitorando nossas vidas e arcou com as despesas da doença de Yasemine. Ele fez um conluio com os diretores do hospital e eles me disseram um valor bem abaixo do que eu paguei.

— Solon não deixaria Yasemine morrer. Caso você não conseguisse o dinheiro, ele inventaria uma doação anônima. – Vida sorri ainda mais.

— Você tem muita fé nele, tia. Mas algo na maneira como ele me olha, ainda me transmite a informação de que ele tem raiva de mim. Às vezes, penso que ele quer me tirar as filhas, como vingança pela morte de Cosima.

A mulher começa a rir e acaricia as costas do sobrinho.

— Cosima jogou o carro no rio. Eu ainda afirmo que ela está viva em algum lugar, com outro nome, outra aparência e livre do compromisso com você e as meninas. E posso apostar que Solon ficará muito furioso quando descobrir.

Vasco se senta e apoia o cotovelo sobre a mesa, usando a mão para cobrir os olhos.

— Toda a tensão que vivi nos últimos anos, está fazendo meu corpo gritar, agora. Estou tão cansado, fragilizado e preciso tanto de amparo. Sinto vontade de gritar!

— Eu ouvi isso. – Solomon entra na cozinha e traz um sorriso largo em sua bocarra. Bebe água e senta-se ao lado do cunhado. – A babá levou as meninas para um banho. Mas me diga, por que se sente fragilizado, se estamos todos juntos numa família só?

Inspirando profundamente, Vasco tenta sorrir.

— Cosima sempre rejeitou as filhas e tive de assumir o papel de mãe e pai desde que nasceram. Depois, ela morreu e deixou-me sozinho, apaixonado e com dois bebês para cuidar. Você não nos deu apoio e nos rejeitou. Minha saúde ficou debilitada e negligenciei minhas meninas ao ponto de Yasemine ser acometida pela leucemia. Foi um período de tortura para conseguir o dinheiro e depois de conseguir o transplante, tenho de conviver com a acusação de ser um prostituto aproveitador.

Solomon estende a mão e toca o ombro de Vasco. Olha para Vida e ela lhe dá forças para falar.

— Eu me arrependi e mesmo que leve muitos anos, conseguirei provar o quanto preciso de todos vocês. Estamos vivendo um momento feliz e não quero que nenhum de vocês saia de minha vida e isso inclui Ruby.

O silêncio é a resposta de Vasco. Solomon estreita as sobrancelhas grossas, olha para Vida e sorri. Aponta para o cunhado.

— Ele está cochilando!

Os dois começam a rir baixinho para não atrapalhar o descanso do rapaz.

Ao despertar, Vasco sente a maciez da cama sob seu corpo. Sentado no colchão, Solomon lia um livro e velava seu sono.

— Como cheguei aqui?

— Veio caminhando e amparado por mim. Está sentindo-se melhor?

— Preciso retornar para o serviço...

— Como investidor, quero que você contrate mais dois arquitetos. Faça a seleção e diga-me depois. – Solomon solta o livro e inclina-se na direção de Vasco, tocando seu rosto e segurando seu queixo. – Quero que se cuide, rapaz, porque amo você acima do que amo a mim mesmo. Caso você morra, eu morrerei junto, porque o meu coração está batendo dentro do seu peito. Caso fosse possível, eu dividiria meu coração para colocar a metade dentro de você e ficar com a outra metade dentro de mim. Seríamos um só!

Vasco salta da cama com rapidez e corre para fora do quarto. O que tinha sido aquilo? O que Solomon havia dito e por que? O que ele pretendia com aquela declaração? Enquanto pensava em suas pergunta, não percebe a aproximação de Solomon, que o detém pelo braço.

— Não torne a fazer isso, Vasco! Quando falo de meus sentimentos, exijo ser ouvido e respeitado! Não banque o inocente comigo, porque sei que seu relacionamento com seu amigo Killian, não é puramente fraternal! Então, você me entendeu quando lhe disse sobre nossos corações!

Cobrindo a boca com a mão em concha, Vasco encara o cunhado com o mais absoluto espanto. Estava entendendo a raiva que ele sentia quando Cosima tinha comunicado o casamento. Os sentimentos de repúdio não surgiram pela saída de Cosima da família, mas por ter sido a escolhida para um relacionamento. Ele se desvencilha do toque e ainda encara o homem mais velho, desta vez com seus olhos ainda maiores.

— Você me ama!

— Amo. E amo tudo o que está relacionado ao seu nome. – Solomon abaixa o tom de voz e expira fortemente. – Cosima foi forte demais e tirou-me a possibilidade de ser feliz. Isso me deixou enfurecido e irracional. Em vez de aproximar-me de você em sua viuvez, o expulsei de minha vida. Mas eu o amo, sim.

Os dois ficam em silêncio, até que Vasco quebra a ausência de som.

— Será melhor para todos nós, que eu saia de sua casa...

— Eu morrerei caso leve as meninas para longe de mim. – Solomon abaixa a cabeça e brinca com seus dedos. – Não saberei viver sem elas e...não saberei perder você de novo, mesmo que jamais venha a amar-me da mesma forma que o amo.