Amor absoluto e perfeito
19 Assumindo decisões
Notas iniciais
No jantar daquela noite, Vasco surge acompanhado por sua amada. Regina é recepcionada com muito carinho e entusiasmo pela família de seu homem. Yasemine e Alda quase sofrem um surto de felicidade, quando são surpreendidas com a chegada da mãe escolhida.
— Vocês reataram o romance? – pergunta Vida muito animada e sorridente.
— Nunca foi interrompido, tia. Eu a amo demais e ela a mim. Não há lógica em ficarmos separados. – ele sorri.
— Então, trate de cancelar o casamento com a juíza. Ela precisa saber que perdeu o trono.
Vasco não responde de imediato. Apenas mantém seus olhos grandes fixados na beleza daquela mulher impetuosa e corajosa. Sua Regina. Sua rainha.
— Regina queria me acompanhar para conversarmos com Patrícia, mas ela poderia encarar como forma de humilhação e desafio.
— Faça isso com rapidez e sozinho. É um assunto entre sua noiva e você. Não permita que Patrícia alimente uma esperança que não existe.
Naquela mesma noite, Vasco deixa Regina em sua casa e os dois se despedem com a típica fome dos amantes que se reencontram. Trocam juras de amor e fidelidade, criando piadas sobre a velhice deles.
Na manhã seguinte, antes de ir para o escritório, Vasco faz uma visita para sua noiva. É recebido por um abraço caloroso e um beijo. Um beijo que desperta em Patrícia, a dúvida sobre os sentimentos do noivo.
— O que aconteceu?
— Precisamos conversar, Patrícia. O assunto é sério.
— Recebi autorização para voltar ao trabalho e voltarei amanhã. Já revisei alguns processos e fui posta a par de tudo o que aconteceu em minha ausência. Inclusive conversei com um juiz amigo meu e consegui convencê-lo a presidir a cerimônia civil. Você precisa conhecê-lo...
— Não quero me casar com você, Patrícia. – Vasco a interrompe.
Ela o encara como se nunca o tivesse visto antes. Havia um brilho novo no rosto bonito dele e naqueles olhos que atrevidamente tinham roubado pedacinhos do céu em dia de sol.
— O que me disse?
— Não posso firmar um compromisso com você, porque meus sentimentos não são fortes o suficiente.
— E o que os seus sentimentos têm a ver com casamento? – ela sorri.
— Para mim, tem tudo relacionado. Por amor, conseguimos superar obstáculos...
— Isso é conversa de romantismo. O amor vence tudo, o amor é a base do casamento, o amor supera as dores e blá, blá, bla! Isso é conversa fiada! Somos práticos, Vasco! Eu sou apaixonada pelo homem mais bonito e doce que conheci e por isso quero dividir a cama com ele! Já passamos da fase de adolescentes para ficarmos apenas deitados juntos, vendo TV. E nem somos um casal de velhinhos amigos para...
— Regina retornou e eu devolvi meu coração para ela. – mais uma vez, Vasco a interrompe.
Patrícia olha-o furiosa, desta vez.
— Ela estalou o dedo e você correu para saudá-la, abanando o rabo?
— Não seja rude...
— Não ser rude, Vasco? – Patrícia grita. – Não ser rude? Você e eu estamos de casamento marcado para o final do ano! Estou mudando minha rotina para aceitar você e suas filhas em minha vida! Sabia que não quero ter filhos? Não sou mulher para ter filhos! Mas mesmo assim, aceitei conviver com suas meninas, mas por você! Agora, quer me dizer que não ficaremos juntos?
Vasco abre e fecha a boca, mas é impedido de falar.
— Por que tenho de concorrer com seu leque de amantes? Um momento é Cosima, em outro é Emma, depois Regina ou Solon! O que há com você? Um colecionador de amantes?
— Não seja grosseira. Eu fui casado com Cosima e tivemos duas filhas. Mas ela se foi e agora eu amo Regina!
Patrícia gargalha de forma sonora.
— Ama? Você é um oportunista! Eu sei que você se vendeu para ela, antes de serem casados! Você se prostituiu com ela! Agora, quer me convencer de que é um celibatário, fiel aos sentimentos dela? – a mulher continua gritando. – Eu sei que ela é muito rica, mas eu poderei bancar seus caprichos e os seus gastos! Pode se prostituir tranquilamente comigo!
Sorrindo e negando com a cabeça, Vasco não acredita que seu segredo não era mais segredo e que estava sendo atacado por ele.
— Quem lhe disse isso?
— O que importa, Vasco? Eu sei o quanto você vale e estou disposta a pagar todos os centavos! Mas não vou admitir que tente me convencer que ama Regina! Por que não me diz logo o quanto você quer para se casar comigo? Ela cobriu alguma oferta?
Vasco tranca o rosto e sem esboçar reação, retira a aliança do dedo e a deposita sobre uma mesa. Dirige-se para a saída e não olha para trás, mesmo quando ouve o seu nome.
— O casamento continuará marcado, Vasco. Não se atrase e não use terno branco. Caso você não compareça, irei buscá-lo, mesmo que seja no inferno! Ou poderei mandá-lo para lá!
Desde aquela manhã, Vasco não se encontra mais com Patrícia, embora a juíza continue a enviar-lhe flores a cada dois dias. Era pura provocação escrita nos cartões. Regina e Vasco reatam publicamente o namoro e o rompimento do noivado com a juíza, que ignora qualquer comentário ou indagações sobre o relacionamento de Vasco com a ex-esposa.
Fingindo conformismo, Solomon trata Regina de maneira cortês e em momento algum questiona sua volta, seu romance com Vasco ou qualquer assunto sobre o novo casamento. Tudo parecia estar aceito e organizado dentro de sua alma.
Mesmo no dia em que Regina questionara sobre seus sentimentos em relação a Vasco, o homem não demonstra alteração alguma. Vendia aceitação ao futuro casamento e à formação da família com o aval das meninas. Elas amavam Regina e demonstravam em todos os encontros, a satisfação pelo reencontro dos adultos. Às vezes, Yasemine tinha arroubos de ciúmes do pai, mas logo se acalmava e aceitava os carinhos e proteção nos braços de Regina.
O novo casamento de Vasco e Regina é anunciado. Iriam realizar a cerimônia no jardim da casa de Solomon e depois partiriam em nova lua de mel para Belize, juntamente com as filhas. Não haveria separação desta vez.
Robin chega ao país e traz um vestido exclusivo de sua coleção para ser usado por Regina na cerimônia. Além disso, seria o padrinho ao lado de Emma, ambos intimados para a função. Mesmo a contragosto, a loira havia aceitado, percebendo que não deveria ter mais esperanças. Pelo lado de Vasco, o amigo Killian e sua namorada turca seriam os padrinhos, juntamente com Solomon e a tia Vida. Convite aceito prontamente pelo empresário.
Vida iria conduzir o sobrinho até o altar montado no imenso jardim, enquanto que Cora conduziria a filha para mais um casamento com o mesmo homem. Estava radiante ao ter de entregar Regina novamente, para os braços de quem a amava e a quem ela amava. Vasco era um bom genro, apenas pelo fato de amar Regina com todos os seus poros.
A felicidade nutria a respiração de Vasco. E a felicidade tinha o nome de Regina. Sua vida estava tomando um rumo agradável e desejado durante muitos anos, com a realização de seu casamento e com a total estabilidade da saúde de sua pequena Yasemine. Os percalços tinham sido muitos, mas todos superados. O tempo havia se incumbido de convencer os falsos amantes, de que seus amores eram falsos.
Naquela tarde, todos os convidados já estavam acomodados em suas mesas, prontamente atendidos pela equipe contratada. Aguardavam somente a chegada dos noivos para que a cerimônia fosse iniciada.
Trazido pela tia, Vasco surge elegante em sua vestimenta escura e com caimento perfeito ao seu porte atlético. Lindo e altivo, arrancava elogios e olhares desejosos em sua direção. Era um belo noivo que poderia estampar as mais renomadas revistas do gênero. Não continha seu sorriso e tornava-se ainda mais bonito com a felicidade estampada em seus traços esculpidos com zelo, pela natureza.
Momentos depois, Robin surge trazendo a preciosidade de Vasco. À frente da noiva, vinham Alda e Yasemine jogando pétalas de rosas para criarem um caminho a ser seguido pela mãe que elas haviam escolhido.
Regina estava deslumbrante em um vestido perolado e discreto véu sobre os cabelos escuros, presos num elegante coque. O sorriso era trêmulo e emocionado por ser privilegiada ao viver outra vez aquela cerimônia e com o mesmo homem. O seu homem amado, a sua metade, a outra batida de seu coração.
— Cuide bem dela. É um bem precioso que estou entregando a você, Vasco. – Robin sorri e cumprimenta o noivo.
— Sim, ela é um dos meus bens mais preciosos! – ele se inclina e beija suavemente os lábios de Regina. Encosta os lábios ao ouvido dela e inala seu aroma. Cochicha. – Aposto que seu corpo está tão quente quanto o meu!
Regina não esconde o riso e franze o nariz, demonstrando a todos que havia acabado de ouvir alguma obscenidade.
O juiz inicia a cerimônia e a emoção toma conta de todos os presentes, testemunhando a coroação do amor daqueles dois jovens, tão distintos, mas tão iguais ao mesmo tempo. O sorriso e a agitação das filhas de Vasco, mostravam claramente a aceitação de Regina naquela pequena família.
Ao lado do casal, Solomon observa impassível aquela cerimônia e não permitia exteriorizar o sentimento de repulsa que estava sentindo. Mas ele sabia que ainda poderia colocar seu dedo podre sobre o destino daqueles dois. Não havia sido agraciado com a felicidade, porém, não a veria estampada naqueles olhos.
E quando os dois trocam a aliança e são declarados casados, os convidados se levantam e começam a aplaudir a vitória conquistada pelos dois amantes eternos. Regina levanta o braço e balança o buque, enquanto Vasco exibe um sorriso nunca visto em seus lábios. Enfim, estavam verdadeiramente casados!
Mas um estampido característico é ouvido e causa terror entre todos os presentes, que ao identificarem uma mulher empunhando uma arma, atiram-se no chão buscando proteção. A juíza Patrícia, estava lá e havia atirado para cima, mas o segundo disparo iria ser feito para frente, na direção nos recém-casados.
Sem hesitar, Vasco se vira, abraça Regina e a protege usando seu próprio corpo. Os dois caem abraçados no altar e a confusão se arma entre as pessoas que correm para todos os lados.
Quando Killian se ajoelha para socorrer o casal, depara-se com o vestido de noiva de Regina sujo de sangue, assim como o terno de Vasco. Era uma visão assustadora! Ele havia usado seu corpo como escudo para evitar que Regina fosse atingida, porém, o grosso calibre da arma não se intimidara com o obstáculo. Os noivos haviam sido atingidos pelo poderoso disparo e os dois estavam caídos, ferido diante do altar.
Solomon se ajoelha também e toca o rosto de Vasco, percebendo que ele ainda estava com vida. Ofegante, o noivo ainda consegue olhar para a noiva e os dois trocam um sorriso triste e apaixonado.
— Eu...amarei...você, Gigia...sempre...
— Eu amarei...você, Vasco...eternamente...
E juntos expiram o último sopro de vida de seus corpos.
Tomado pelo ódio e pela agonia da derrota, Solomon grita com toda a força de sua alma, repudiando o amor daquele casal. Eles se amariam em qualquer universo e em qualquer época em que estivessem. Não! Não havia dado certo a sua interferência! Os amantes iriam consumar seu amor nas nuvens da eternidade! Não era justo!
Era o amor de Regina e Vasco.
“Os amantes não podiam vivem nem morrer um sem o outro. Separados, não era a vida, nem a morte, mas vida e a morte ao mesmo tempo”
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