Amor Submerso
8 Capítulo 8: A sereia
Notas iniciais
PS: O que estiver entre aspas é porque é uma fala em forma de pensamento, ou se alguns preferirem chamar, é telepatia.
Descobrir que eu não havia morrido e que estava respirando debaixo da água, além de ter a minha frente uma sereia fez minha mente entrar em curto circuito. Talvez estivesse mesmo morta e aquilo fosse apenas um pós-morte bem estranho. Entrei em choque, arregalando os olhos e nadando para longe da sereia. Ela apenas sorriu divertida e me observou curiosa enquanto eu entrava em surto.
“Não isso não é possível! Talvez ainda esteja em um pesadelo, sim é isso, apenas um pesadelo”. — Pensei tentando me convencer de alguma forma lógica.
“Isso é real, Fernanda” — Uma voz feminina ressoou em minha mente, novamente entrei em choque e quase afundei ao me debater e levar a mão à cabeça — “Por favor, não tenha medo, não vou machucar você.”
“O que está acontecendo? Deus, eu estou louca!”
“Porque os humanos são tão difíceis de acreditar no que não compreende? Fernanda, por favor, deixe-me explicar as coisas...” — A sereia olhou para os lados e franziu o cenho como se ficasse alarmada e preocupada — “Mas não aqui, venha comigo”.
Antes que eu respondesse ela balançou seu rabo de sereia e de repente estava ao meu lado, segurando o meu braço e me puxando para um nado incrivelmente rápido. O que eu poderia fazer? Aquilo tudo era uma tremenda loucura! Minha mente se recusava a encontrar uma explicação racional, principalmente pelo fato de não está sentindo medo do que estava acontecendo. Não, de alguma forma eu sabia que deveria ter temor, mas eu não o tinha. E por isso estava deixando-me ser guiada por aquele ser místico enquanto notava que além de respirar bem debaixo da água eu estava enxergando a tudo como se estivesse em um lugar normal, não com aquela visão embaçada de quando se abria os olhos debaixo da água. Mais que isso, eu podia sentir o mar como se estivesse vivo, não demorei a compreender que para ela nadar tão rapidamente a sereia simplesmente saltava de uma correnteza para outra.
Ela me levou até uma caverna debaixo do mar, em um lugar não muito profundo, mas que guardava um lugar bastante amplo e até mesmo com alguma decoração. Eu podia jurar que aquela rocha no meio parecia uma mesa e ao seu lado havia até mesmo cadeiras em forma de corais amontoados.
“Ótimo, estou em um filme da pequena sereia” — Pensei de forma irônica.
“Se a realidade fosse igual a da Disney o mundo seria muito mais louco do que já é” — a sereia comentou em minha mente.
“Você pode ler todos os meus pensamentos?!”
A mulher peixe apenas sorriu divertida e fez que sim com a cabeça. Ela nadou até a entrada da caverna, juntou as mãos à frente do corpo, falou palavras incompreensíveis e uma barreira quase transparente tomou o lugar. Ok, primeiro quase morri, depois conheci uma sereia e agora estava trancada por uma barreira mística em uma caverna! Definitivamente eu só podia estar sonhando.
“É apenas para proteção” — Ela explicou em minha cabeça, só então notei como a voz dela era agradável, bem feminina e suave — “Eu esperei tanto por esse momento Fernanda, você não imagina o quanto.”
“Como você me conhece? O que está acontecendo? Tudo bem, mesmo que seja um sonho eu gostaria de um pouco de lógica!” — Exclamei por pensamento, fitando aquela meio-mulher completamente confusa.
“Espero que você tenha uma mente aberta, pois o que vou explicar é um pouco complicado e confuso, entenderei se não quiser acreditar de inicio, mas é a pura verdade” — a sereia nadou até a mesa e ‘sentou’ nela, notei que ela tinha uma linda cauda, as escamas eram verdes e às vezes azuis, a barbatana era quase como um véu em tons dégradé que começava um lindo verde e finalizava em um azul claro. Ela também estava nua. Não exatamente nua, mas nada cobria os seios além de uma misteriosa pintura ou tatuagem azul-esverdeada, os traços eram cursivos e cheio de curvas como um belo efeito de imagem que cobriam a lateral da cintura e tomava a parte do seio que por acaso eram fartos e perfeitos. “Gostou do que viu?”
Senti que estava corando, mesmo debaixo da água. De um jeito um tanto acuado fui sentar a frente dela em um daqueles bancos feitos de corais. Olhei para mim mesma e suspirei desistindo de tentar compreender o que estava acontecendo.
“Mesmo que isso seja um sonho eu quero explicações”. — Exigi finalmente fitando aqueles olhos azuis surreais.
A sereia inclinou em minha direção e seus cabelos se movimentaram prendendo um pouco de minha atenção. Deus, aquela era a figura de Afrodite, não haveria algo melhor que pudesse descrevê-la. Aqueles olhos eram hipnóticos, o tom azul chegava a brilhar como em um efeito especial do photoshop em uma imagem.
“Primeiro eu me chamo Lynn. Os humanos nos chamam de sereias e tritões. Moramos em uma área com proteção mágica que impede de que os humanos nos alcancem. Eu quero te contar uma história e quero que preste bem atenção, pois o fim dela é você quem irá decidir”.
Fiquei mais tensa. Por mais que quisesse acreditar que aquilo era um sonho uma parte de mim gritava que tudo aquilo estava acontecendo de verdade.
“O contato entre humanos e o Povo Submerso, as sereias e tritões, é extremamente controlado. Às vezes entramos em contato apenas para saber o que se passa no mundo do Povo da Terra, como são conhecidos os humanos ou resolver alguns problemas referentes ao nosso povo e o seu. Assim, uma sereia foi ordenada a resolver um problema, um acordo estava sendo desrespeitado e ela acabou por conhecer a um humano. Um homem curioso, inteligente, atrevido e divertido.”
“Eles se apaixonaram?” Deduzi completamente envolvida pela história.
“Um amor proibido que foi sendo alimentado e cada vez mais ficando mais forte. Eles se apaixonaram e entregaram-se um ao outro” a sereia continuou e seu olhar por um momento assumiu um aspecto triste “O Povo Submerso pode assumir por um tempo a aparência humana, criamos pernas e podemos andar sobre a terra. Mas um tabu foi quebrado por esse casal que deixou a relação mais proibida ainda. A sereia engravidou. Haviam poucos registros sobre isso e na maioria resultava em morte pois o tempo em terra varia em no máximo um mês. O sistema reprodutor do Povo Submerso é completamente diferente do Povo da Terra”.
“Bom... Vocês não tem... Como posso dizer, órgãos reprodutores. Quero dizer, você não aparenta ter nenhuma... Ahn... Lugar para que se possa fazer a reprodução a la humanos” Tentei explicar o que havia deduzido, mas fiquei completamente corada.
“Exatamente” A sereia sorriu e suspirou “O processo de procriação do Povo Submerso é por ovulação e magia, não há necessidade de nenhuma penetração, apenas um vínculo emocional muito forte. Portanto também não temos a cultura de distinguir casais por gênero como os humanos costumavam fazer”.
“Então é tudo liberado? Digo, sereias com sereias, tritões com tritões”.
“De certa forma, os tritões dependem das sereias para terem os óvulos no período de desova, mas a fecundação só acontece com um vinculo muito forte e isso é independente de gênero.”
“Então a criança... Ela morreu?” – voltei a história.
“Não. Nós temos uma magia poderosa que nos permitiu continuar como um povo poderoso e sobrevivente apesar de todos os séculos que se passaram e da supremacia humana. Essa sereia tinha um dom mágico muito forte, ela conseguiu manter-se como humana por oito meses, o que é um milagre. Mas quando o rei e a rainha descobriram isso tudo pareceu desmoronar. A informação que uma criança meio humana e meio mística é outro tabu que muitos querem possuir. Perseguidos pelo Povo Submerso o casal teve de se esconder em áreas desconhecidas e isso atraiu o Povo da Sombra. O bebê nasceu de forma precoce e a sereia teve de retornar ao mar para que não morresse. Nesse meio tempo o pai conseguiu por a criança especial em segurança com familiares... E então desapareceu deixando uma única pista, um colar ensanguentado que os guerreiros da Sombra usam. A sereia tentou ir atrás de sua filha, mas o Povo da Sombra e o Submerso estavam em seu encalço, se ela se aproximasse da criança ela seria tomada e levada para um destino que ela temia de todas as formas.”
“E o que aconteceu?”
“A sereia escondeu-se em um lugar isolado e usou de sua magia para poder proteger a criança, tentando impedir que algumas características do Povo Submerso surgissem nela e então fosse descoberta.”
“Então a garota é normal?” — Acabei me inclinando em direção à sereia ficando cada vez mais envolvida na história.
“Apenas teve sua natureza aquática suprimida. Dessa forma ela pode crescer como uma criança humana normal e feliz na medida do possível. Mas a sereia sabia que ela iria retornar de alguma forma, que as duas iriam se encontrar quando o destino assim quisesse. Foi isso que a manteve viva durante todo esse tempo”.
“Você disse que eu tenho algo nessa história...?” — Arqueei ambas as sobrancelhas ainda tentando encontrar um sentido para que eu me tornasse um personagem daquele drama.
“Sim, Fernanda... Porque você é minha filha”. A sereia falou pausadamente com calma para que eu entendesse todas as letras e sílabas dessa frase tão complexa.
Aquilo foi tão absurdo que eu ri. Debaixo da água minha risada se transformou em pequenas bolhas de ar. Mas a sereia, ou melhor, Lynn continuou a fitar-me seriamente. Eu levantei abruptamente fazendo com que a água ao meu redor se movesse agitada. Isso era impossível.
“Eu não posso ser sua filha!” — Exclamei incrédula — “Isso é impossível, eu já quero acordar desse sonho, ok?”.
De uma maneira calma Lynn flutuou em minha direção e segurou meu rosto entre as mãos. Eu estava respirando ofegante, mesmo que debaixo da água. A sereia pousou a testa na minha como havia feito antes e seus olhos começaram a ter um brilho quase mágico. Então de repente, assim como a voz que vinha em minha mente, imagens começaram a surgir como a um filme. Fechei meus olhos por puro instinto e me vi assistindo a algo como se acontecesse a minha frente. Vi a uma humana loira discutindo arduamente com a um humano que eu soube que era meu pai. Tio Saulo ainda tinha fotos de seu irmão desaparecido e fez questão de que eu o conhecesse pelo menos por imagens. Minha mãe sempre foi um verdadeiro mistério, ninguém sabia sequer seu nome. A situação mudou, eles estavam em pé no mirante da Baía dos Golfinhos abraçados e com sorrisos tolos de apaixonado, ele acariciando a barriga dela já saliente. Depois se seguiu uma verdadeira correria, ela carregava nos braços um bebê que chorava a plenos pulmões, o homem a puxava já fraco pelo braço até chegarem à praia. Ela entregou a criança ao homem, deu-lhe um último beijo e praticamente se arrastou para as águas do mar. A cena mudou completamente novamente. A sereia agora observava ao longe uma criança loira brincando na praia com um garoto que eu sabia ser o Eric quando criança, então aquela menina seria eu. Depois me vi nadando pela primeira vez na praia do Cachorro assim como surfando pela primeira vez. Eu podia sentir tudo o que ela sentia. A saudade, a perda do seu grande amor, a prisão em que ficou submetida... A solidão que às vezes a sufocava.
Lynn afastou-se e só então notei que chorava, mesmo que minhas lágrimas se mesclassem as águas eu as sentia esvair de mim com sinceridade. Eu acreditava, todo o meu ser e coração sabia que aquilo era verdade. Quem se importava que aquilo fosse a maior loucura já contada até mesmo em histórias fictícias? Eu finalmente... Finalmente estava conhecendo a minha mãe.
“Esperei 20 anos por você filha, por favor, acredite em mim, eu... eu preciso que acredite” Lynn pedia em minha mente com um olhar suplicante e desesperado.
Eu nada disse, apenas saltei para seus braços e a abracei com força, sem me importar que ela fosse uma sereia e que estivéssemos em uma caverna submersa no mar. Eu estava abraçando a minha mãe! Permitir chorar tudo o que podia, minha mente parecia entrar em colapso. A dor que senti por causa de Dianna, o medo da morte e a descoberta surreal. Estava prestes a desmaiar quando senti os braços dela me envolverem com delicadeza e carinho, a voz dela ressoou em minha mente novamente, mas dessa vez ela cantarolava uma música em uma língua completamente estranha, porém linda. O canto dela era relaxante e calmo, aos poucos minha respiração foi se normalizando e meu ânimo sendo acalmado. Aquele era o canto da sereia. Acabei rindo de meu pensamento e a vi sorrir.
“Você irá precisar voltar para terra por um tempo. Eu não sei como irá acontecer a sua mudança agora que eu retirei a magia que reprimia seus genes de sereia” — Lynn, minha mãe, falou e sorriu animada — “Mas poderemos nos ver novamente, basta mergulhar a alto mar que algum ser marinho irá trazer você até aqui, quando aprender o caminho e a se mover melhor poderá vim sozinha”.
“Eu não quero ir, eu quero ficar com você, eu tenho tantas perguntas!” reclamei dengosa, fazendo um beicinho chateado.
“É necessário, espere só mais um pouco. Eu também preciso saber muita coisa de minha filha, inclusive porque uma sombra de tristeza está tomando seu coração. Posso apostar que há um romance atrás disso”. — Minha mãe tocou a ponta de meu nariz e me deu um olhar compreensivo.
“Um que é impossível e proibido... Acho que é mal de família”. — Disse revirando os olhos tentando disfarçar o aperto no peito ao escutar novamente as palavras de Dianna dizendo que escolhia a Eric.
“Eu não sei o que irá acontecer a você, eu tenho medo, mas é algo que você terá de passar sozinha. Lembre-se, qualquer coisa, jogue-se na água. Ela irá te curar ou acalentar qualquer dor” — Lynn aconselhou fazendo carinho em meu cabelo, sorrindo logo depois — “Irei chamar um velho amigo para te levar até uma praia de Noronha, assim que chegar a terra provavelmente irá desmaiar por causa da mudança de ambiente.”
“Como vou saber que isso tudo foi verdade? Uma parte de mim ainda diz que é um sonho muito louco”.
A sereia se afastou e nadou até o topo da caverna onde parecia ter compartimentos encrustado na rocha. De lá ela pegou algo e voltou, sem falar nada pós em meu pescoço um colar feito com um cordão delicado e que parecia ser prata, mas o pingente era uma concha do mar que ficava mudando de cor.
“Quando ficar em terra a concha ficará em tom normal, a não ser que queria que ela mude. É mágica, então quando a segurar firme ela fará sua mente ver imagens de lembranças boas para que se acalme. Considere como um pequeno presente de aniversário”.
Sorri com um contento sincero, eu estava exultando por dentro afinal aquele era o primeiro presente que minha mãe estava me dando. Ela segurou em meu braço e balançou sua cauda nos fazendo nadar para fora da caverna, transpassando a barreira tênue e quase transparente que ela criou. Lynn colocou a mão sobre os lábios e produziu um som estranho, franzi o cenho para minutos depois arregala-los em total surpresa. Em uma velocidade absurda um ser metade peixe e metade cavalo se aproximava. Era lindo e com um ar poderoso. Quando parou a nossa frente eu nadei para trás por puro instinto. Lynn nadou até o seu lado e acariciou o pescoço daquele animal estranho e belo.
“Isso é um hipocampo, um animal mitológico que se move em uma velocidade adorável debaixo do mar, até mesmo o Povo Submerso o usa como montaria” ela me olhou e fez um sinal com a cabeça para que eu me aproximasse “Ele não possui um nome na língua humana, porque você não lhe dar um?”
“Sério? Bem... Se ele é rápido porque não Flash? Eu sou terrível com nomes” — Disse ainda incerta, ainda admirando o animal sem compreender realmente como tudo aquilo era possível.
“Então que ele se chame Flash, agora o monte, ele já sabe para onde te levar”.
Nadei de forma hesitante até aquele cavalo metade peixe. O seu pelo e cauda eram completamente negros e seus olhos azuis mais escuros que o da sereia. O montei como faria em um cavalo normal e segurei em seu pescoço. Suas patas de cavalo se mexeram na água e sua cauda balançou rapidamente. Em um súbito avanço estávamos nos movendo em uma velocidade alucinante debaixo da água. Segurei-me com mais firmeza em seu pescoço e gritei produzindo várias bolhas que saiam de minha boca. Estava começando a escorregar por não conseguir me equilibrar sobre o animal mitológico, tive de prender ainda mais minhas pernas ao redor do corpo dele e segurar com força em seu pescoço para me manter ali enquanto ele cortava o mar com uma velocidade assustadora.
Não demoramos a alcançar a praia. Flash parou quando começou a ficar raso demais para ele. Por causa da tempestade não havia ninguém na praia que eu reconheci como a Praia do Leão. Saltei dele e mesmo com um pouco de receio o acaricie murmurando um obrigado. No momento seguinte ele se jogava em um mergulho e desaparecia. Também mergulhei, estava difícil respirar fora da água e quase me arrastei para a areia, ficando tonta e quase sem forças. Como Lynn havia dito a mudança começou a fazer efeito e não era nada agradável, eu sentia cada parte de meu corpo fervendo por dentro e se modificando, mesmo que eu não pudesse identificar exatamente a onde. Gritei com a confusão que se tornou minha mente e com a dor prolongada que estava sentindo. Minha mente girou e girou até que eu desabasse na areia tendo meus sentidos apagados.
Eu havia finalmente desmaiado.
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