Amor Submerso
9 Capítulo 9: Despertando
Notas iniciais
Minha consciência retornou aos poucos. O tato e a audição foram os primeiros sentidos a voltarem, a dor e os barulhos intensos fizeram com que eu acordasse mais rápido. Minha garganta estava tão seca que eu não estaria brincando ao dizer que parecia que havia um deserto de areia ao invés de meu aparelho respiratório. Meu corpo emitia sinais de dores constantes, mas toleráveis, porém quando acordei meu coração disparou tão forte que um som alto e desregular ressoou ao meu lado. Ao abrir os olhos às luzes brancas machucaram minha retina, fechei com força os olhos novamente e gemi em desconforto. Escutei passos vindos rapidamente para dentro do quarto e mãos começaram a me tocar, principalmente a pressionar um ponto de meu pescoço para sentir o pulso. Quando tornei a abrir os olhos deparei com Maria, uma antiga enfermeira do hospital que sempre me tratava quando acabava machucada quando criança.
-Maria – falei com a voz rouca e seca – Á... Água... Por favor, água!
Eu a segurei no braço com força, eu precisava de água! Ela deve ter notado o meu olhar desesperado, pois aquela mulher de cabelos grisalhos e no máximo 1,60m de altura saiu do meu quarto. O som do aparelho ao meu lado media as minhas batidas cardíacas ia ficando cada vez mais controlado em seu som, denunciando que meu ritmo estava voltando ao normal. Provavelmente o surto foi apenas o susto de ter acordado. Maria retornou com um copo de água, peguei e quase o traguei em um único gole sem me engasgar.
-Mais – implorei oferecendo o copo de volta.
-Calma Nandinha, você precisa descansar e...
-Mais! – a cortei insistindo.
Maria me olhou como se me analisasse, mas pegou o copo e foi enchê-lo. Surpreendentemente eu bebi cinco copos cheios de água até começar a me sentir bem novamente. Nesse meio tempo, a cada golada de água eu ficava cada vez melhor, no último copo era como se eu estivesse nova em folha como nunca estive antes. Ainda não me lembrava do porque estar no hospital, mas apenas aquela sensação de estar inteira, viva e bem estava me deixando em um nível perto do nirvana.
-FERNANDA! – tia Rita apareceu na porta do quarto do hospital – Minha pequena, nunca mais me assuste assim novamente!
Ela veio com certo desespero me abraçar. Tudo bem, não sabia como tinha vindo parar no hospital, mas para ter pedido um pouco minha memória e estar daquele estado algo muito sério deve ter acontecido. Tentei acalmar tia Rita enquanto ela me agarrava como para se certificar que eu estava viva e ali.
-Espera tia – pedi a afastando um pouco – O que aconteceu?
-Você não lembra? – Rita me olhou um pouco surpresa – Você saiu com a lancha no meio de uma tempestade. Passou horas desaparecida e só foi encontrada por pescadores na Praia do Leão. Estava tão mal que eu tive tanto medo de... de...
-Estou bem – a interrompi com carinho e a abracei novamente.
Eu peguei uma lancha? Mas por... Dianna. O nome da morena atravessou minha mente trazendo coisas que eu preferia ter esquecido. A ligação no meu aniversário, o Eric todo feliz falando que meu plano deu certo. Ela escolhendo ele e não a mim. O aperto em meu peito começou a me sufocar, balancei a cabeça de um lado para o outro e o movimento fez algo em meu pescoço sacudir suavemente. Levei a mão ao colar estranho em meu pescoço e vi a concha... Saltei da cama quase caindo de bunda no chão ao me enrolar no lençol da cama do hospital. Tinha acabado de me lembrar de tudo e aquela concha apenas significava que tudo era real. Minha mãe estava viva... E era uma sereia.
-Fernanda, tudo bem? – Tia Rita correu para meu lado para me apoiar – Querida, por favor, se acalme, você está tão assustada!
-Estou bem, estou bem – murmurei mais para mim mesma, sentei na cama do hospital e passei a mão em meu cabelo – Eu só lembrei-me da tempestade e...
-Descanse, você ficou três dias em um estado de febre alta – Maria aconselhou – O médico chegará mais tarde, já chequei os aparelhos e você está muito bem... Impressionante até.
Fiz que sim a cabeça e voltei a deitar, surpreendentemente não demorei a adormecer. Minha mente havia se sobrecarregado novamente depois de um segundo surto com as informações que eu tinha feito o favor de esquecer. Porém, dessa vez, eu não tive pesadelos. Tudo estava sucedendo de uma forma tão estranha que era difícil acreditar que tinha realmente acontecido. Mas então o peso da concha em meu pescoço me fazia lembrar aquela mulher de cabelos loiros e cauda de peixe azul e verde. Quando acordei estava relaxada e estranhamente convencida de que apesar de estar louca poderia ser que aquilo tudo era a mais pura verdade.
Era noite quando despertei, a televisão estava ligada passando a novela das nove da Rede Globo que eu nunca havia parado para assistir. Ajeitei o travesseiro e me espreguicei um pouco, estava realmente bem e com um pouco de sede. Pensei em apertar o botão que chamava a enfermeira, mas antes que fizesse qualquer coisa à porta a minha frente abriu lentamente como para não fazer barulho e então ela apareceu. Dianna entrava distraída, mas em total silêncio. Usava um vestido branco casual que apenas destacava a sua pele morena, o cabelo cacheado cor de chocolate estava solto e molhado. Quando ela ergueu o olhar e finalmente me viu pareceu travar no lugar e até mesmo esquecer como respirar, pois era evidente o seu choque ao descobrir que eu estava acordada.
-Hum... Oi – a cumprimentei meio sem jeito.
Dianna respirou fundo lentamente e aproximou-se hesitante. Ela ficou ao lado direito da cama, perto de minhas pernas, seus olhos verdes me analisavam por completo até encontrar os meus olhos castanho âmbar. A morena mordeu o lábio, mexeu em sua mão, respirou fundo novamente e finalmente disse com culpa:
-Eu não sei nem como pedir perdão pelo que aconteceu.
-Não teve culpa, eu não conferi o tempo antes de sair de lancha – falei calma, mas em um tom distante e até mesmo frio – Dianna, eu estou bem, já pode ir.
-Não! – ela finalmente se aproximou e segurou minha mão – Eu deveria ter ido e dito aquelas palavras na sua frente, eu fui covarde e magoei você. Eu não queria, eu juro que não queria. Você... Você poderia ter morrido Nanda, eu fiquei tão preocupada, tive tanto medo e...
-Dianna – a interrompi tirando a mão do aperto dela – Você está certa, meu coração se quebrou sem que eu percebesse. Estava voltando para Natal porque não conseguia mais ficar aqui. Mas já passou, eu sei que era errado esse sentimento e vai continuar sendo, então por favor, me respeite e me dê uma chance de superar isso e saia.
Cada palavra que eu dizia meu coração batia contra meu peito mandando que eu dissesse o contrário. Eu teria lutado por aquela mulher... Se não acreditasse na concha em meu pescoço. Não podia envolvê-la naquela trama, isso não era um romance juvenil em que o ser sobrenatural pode defender a donzela em perigo. Eu nem ao menos sabia o que iria acontecer comigo. Não queria machuca-la e deixa-la em uma situação tão surreal quanto essa. Ela era feliz com Eric, poderia ser novamente. Dianna me olhava como se eu estive fincando uma faca afiada em seu ser, a vontade de abraça-la era absurda, mas eu resisti com todas as minhas forças. Estava sofrendo tanto quanto antes quando ela me ligou, mas dessa vez a estava protegendo de mim mesma, do que poderia acontecer a mim. Precisava passar por isso sozinha, se o Povo da Sombra aparecesse até mesmo meus familiares estariam em perigo. Não era uma dessas garotas bobas que sonha que o sobrenatural era algo bom e romântico, não, minha visão seria mais similar ao do seriado antigo e tão famoso em que dois irmãos combatiam o sobrenatural que não era nada bom ou bonito.
-Fernanda, as coisas mudaram, quando eu pensei que você poderia morrer eu... – Dianna tentou mais uma vez, estava tão tímida e sem jeito que minha vontade de tê-la apenas aumentava.
-Não Dianna. Não vou trair Eric, não quero isso. Esqueça-me, foi sua escolha e agora é a minha. Apenas vá embora e faça de meu primo um homem feliz. Peço apenas isso – a cortei o mais fria que eu podia – Não vou morrer por causa disso, vamos superar e viver nossas vidas como era antes. Fim, Dianna.
Os olhos verdes lacrimejaram enquanto eu reforçava o meu ser com uma barreira invisível que logo iria rachar. Dianna deu as costas e praticamente correu para fora do quarto, só então afundei na cama e permiti que a dor transbordasse. Eu estava fazendo o certo, tinha de acreditar nisso, estava protegendo a garota que eu gostava, que era especial e linda. A quem eu queria enganar? Estava apaixonada e sacrificando algo que me rasgava por dentro. Estava com medo de que ela acabasse em perigo, mas ao mesmo tempo o frio que tomou conta de mim avisava que em troca disso eu tinha tirado uma parte de mim. Depois de um tempo pensando em todas as possibilidades que existiam para que eu desistisse dessa ideia eu finalmente lembrei-me do que Lynn havia dito sobre a concha. Eu a peguei e segundos depois ela começou a mudar de cor de uma forma encantadora. Fechei minha mão ao redor e logo minha mente foi invadida por um riso gostoso. Suspirei e fechei também os olhos e cenas de minha infância traquina e divertida começaram a surgir em meus pensamentos. Concentrei-me naquilo para não entrar em uma depressão profunda e novamente acabar em uma situação de risco por fazer uma besteira.
Porém mesmo que minha mente fosse invadida por lembranças boas, o sentimento continuava tênue a ponto de me fazer chorar enquanto adormecia.
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