Amor Submerso

7 Capítulo 7: Naufrágio


Notas iniciais
Então gente, eu preciso de MUITA sinceridade de vocês já que esse é o primeiro capítulo que é mais tenso e com mais coisas acontecendo. Como disse é a primeira vez que estou ousando postar uma aventura, estou fora de minha zona de conforto e eu preciso de ajuda para melhorar as coisas, principalmente em saber o que precisa ser melhorado.

Fora isso... Espero que gostem, apesar dos pesares u.u

Naquela noite eu atuei mais do que nunca em minha vida. Não gostava de mentir, mas era necessário e importante para que Dianna se apoiasse em mim para também fingir que nada aconteceu. No jantar brinquei mais do que nunca, provoquei tio Saulo e tia Rita, contei como estavam as coisas em Natal. Ninguém, nem mesmo Dianna, iria desconfiar que dentro de mim acontecia um vendaval de sentimentos que iam sendo arduamente reprimidos. Um sorriso meu escondia toda a dor de descobri estar gostando de alguém e ver ali, bem a minha frente, a mão de meu primo entrelaçado a dela, além dos beijinhos que ele dava para chamar a atenção de sua garota. Por um momento preferi os meus pesadelos.


Depois daquela verdadeira tortura... Eu mal sabia o que a noite tinha me reservado como um grande final. Estava em meu quarto, desabada na cama com a mesma roupa ainda, sem coragem de fazer qualquer coisa. Até que Eric entra no quarto usando a sua chave mestra provavelmente. Sentei na cama sem jeito de olhá-lo, mas forjei novamente aquele sorriso que dei em todo o jantar.


–Ao que devo a honra? – perguntei suavemente.


–Como já está tarde vou tentar ser direto, eu acordo cedo amanhã e sabe como eu sou com esse lance de acordar nos primeiros raios de sol – Eric sempre era direto e um verdadeiro dorminhoco, ele sentou ao meu lado na cama, passou a mão no cabelo e respirou fundo antes de começar – Preciso de sua ajuda com a Dih.


–O que?!


Eu não consegui esconder a minha surpresa e nem minha reação incomoda, sentei mais virada para ele e o encarando de forma incrédula. Eric não sabia, literalmente, o que estava me pedindo!


–Ela está diferente comigo e... Sinto que não é de uma boa forma, passou a semana inteira mais distraída que o normal e se dedicando ao trabalho. E de alguma forma vocês duas ficaram amigas – Eric se explicou e me encarou com aqueles olhos azuis escuros brilhando como um cachorro abandonado – Fer, eu preciso de algo para tentar melhorar essa relação, eu não posso perdê-la, eu a amo!


Se eu tinha um coração ele acabou de se fragmentar em vários pedaços pequenos depois dessa declaração. Meu primo nunca disse que amava outra garota com todas as letras e seu olhar sincero era como mil facadas em meu espírito culpado. Ele a viu primeiro e estavam felizes, o que eu estava fazendo ao perder o controle e estragar aquilo? Eu nem sabia se Dianna era bi ou homo! Como poderia ser tão cruel ao ponto de magoar alguém que sempre esteve ao meu lado como um verdadeiro irmão? Naquele momento eu me senti o pior ser do mundo. Mais do que isso, senti tudo dentro de mim se desfalecer em uma tristeza tão grande pela decisão que estava tomando.


–Vou dizer o que tem de fazer – murmurei com um fio de voz.


–Você está bem? – Eric estranhou.


–Apenas escute ok? Estou cansada e com sono, então não exija muito de mim – inventei de ultima hora e ele pareceu acreditar – Você vai tirar um dia inteiro para ela. Dianna é do tipo romântica, boba, mas uma mulher simples. Ela gosta dos detalhes e não da extravagancia. Então você irá dar lírios para ela e convidá-la para sair, leve-a para um desses lugares mais isolados e bonitos da ilha. E toda vez que ela conversar com você, sustente o olhar, sorria com as coisas que ela disser, mas principalmente, respeite o silêncio dela. Isso que dizer que ela está curtindo o momento. Provavelmente ela vai ficar sem graça e sem jeito, até mesmo evitar, mas seja romântico, diga coisas legais e que ela goste. Depois a leve para jantar, a beira de uma praia vazia e com uma mesa a luz de velas, apenas você, ela e um bom jantar. Ela não gosta muito de mariscos, então providencie massa. Não fique tocando ela direto, apenas quando ela se aproximar de você, isso quer dizer que ela quer estar perto.


–Agora entendo porque você é uma boa conquistadora – Eric me olhava surpreso – Você disse coisas que eu demorei semanas pra descobrir sobre ela.


–Apenas observo melhor as coisas – dei de ombros e sorri – Boa sorte e quero que me prometa uma coisa, de verdade. Faça dela uma mulher muito feliz Eric, ela é um tipo raro e que merece ser amado com seus defeitos e qualidades. Se você a magoar eu juro que mato você, entendido?


–Eu prometo, palavra de escoteiro – Eric deu um belo sorriso, beijou meu rosto e levantou – Obrigado pelas dicas, boa noite mana.


O observei sair. Aquele era o homem que a faria feliz. Eu conhecia cada defeito do Eric e sabia que seria um pouco difícil, ainda assim fariam dar certo. Assim que a porta fechou deixei meu corpo cair na cama e chorei. Chorei toda a dor que prendi em meu peito durante o jantar, deixei que as lágrimas finalmente rolassem por meu rosto exibindo junto com meus soluços a dor que sentia e não conseguia explicar. Tinha sido apenas um beijo e algumas conversas... Porque estava me deixando daquele jeito? Porque sentia que uma parte de mim era quebrada e levada para o mais profundo do mar? Era como se estivesse me afogando em meu próprio sentimento. Culpa. Medo. Solidão... Queimava meu pulmão assim como fazia a água em meus sonhos, me destruindo pouco a pouco, roubando meu fôlego e vida.


Naquela noite o pesadelo foi mais real do que todos os outros. Eu havia acordado antes do sol nascer sentido o sabor de água salgada em minha garganta. Acordei no chão, suada e em desespero como em todas as outras as noites, mas dessa vez meu estado de espírito estava ainda pior. Eu estava cansada, caída em um poço profundo que eu não sabia como escalar. O resultado disso foi mal ter saído do quarto, fiquei na varanda fingindo ler um livro na rede. Pensei até em ligar para Lorena, mas não queria preocupa-la e estragar o seu momento com a família do Rodrigo. Então sofri em silêncio, com medo de adormecer e ficando acordada pensando naquela morena.


Tia Rita trouxe o meu jantar e tentou conversar, mas eu enrolei dizendo que era TPM e saudades de meus amigos. Ela até chegou a oferecer que eu fosse para Natal e depois voltasse, por um tempo cogitei essa hipótese, ficar longe daquele casal que me atormentava. Mas seria injusto com meus tios que também eram importantes para mim. Prometi que iria pensar no caso e tentei deixa-la mais tranquila.


–Tente relaxar, amanhã é seu aniversário e terá de está linda para a festa que vamos fazer na piscina – tia Rita falou antes de sair.


Sorri sem graça, por um tempo havia esquecido que no dia seguinte, justamente o dia que iria ver Dianna no mirante era o dia de meu aniversário. Iria completar 20 anos e ali estava eu com uma crise de um romance que não poderia acontecer. Naquele dia eu teria de dizer a ela que não daríamos certo, que ela tinha de ficar com o Eric porque simplesmente tinha de ser assim. Minha lealdade de irmã estava falando mais alto do que a dor em meu coração que me mandava seguir minha sina de assaltante. Roubaria Dianna para mim e nunca mais devolveria o amor dela. Mas eu nem sabia se ela me amava! Deus, que confusão eu estava.


{...}


Era manhã de meu aniversário. Ou melhor, quase tarde. Tinha acordado ao meio dia depois de vários cochilos. Não quis dormir o suficiente para que eu não tivesse aquele pesadelo, ao menos não nesse dia. Levantei da cama e em um modo automático fui tomar meu banho e me vestir para sair um pouco, não queria que tia Rita se preocupasse mais ainda. Então coloquei um shortinho branco, uma camisa cheia de flores coloridas, arrumei meu cabelo com pontas azuladas e sai do quarto fingindo que estava feliz da vida com meus 20 anos de idade.


Encontrei meus tios no saguão e eles logo vieram me desejar os parabéns e avisaram que pela noite iriam me dar o presente. Depois disso fui almoçar sozinha, ou melhor, fingi que estava comendo algo para enganar meus tios. Se fosse um dia normal eu estaria indo para a praia ou qualquer outro lugar onde pudesse encontrar os conhecidos da ilha, estaria me divertindo ou arranjando alguma forma disso acontecer. Mas ao invés disso eu estava indo para a área verde do hotel ficar um pouco sozinha... Até que meu celular tocou, era o número do Eric.


–Hey primo! – o cumprimentei fingindo animação.


–Fernanda, sou eu – Dianna respondeu do outro lado sem jeito, pigarreou e pareceu respirar fundo – Eu não posso te encontrar hoje no mirante.


–Por que não? – questionei sem fingir a minha decepção e raiva.


–Porque... O Eric foi incrível ontem, ele fez coisas... Eu não posso magoá-lo e você me deixa confusa! Se eu te encontrar toda essa certeza que eu criei irá se desfazer, me desculpe eu...


–Eu entendo, sempre soube que escolheria ele, se é que houve uma opção desde o inicio – a cortei com um gosto amargo em minha boca – Espero que vocês sejam felizes. Não se preocupe, estava errado desde o princípio.


–Fernanda espere eu...


–É a Fer? – escutei a voz de Eric ao fundo e ao que parecia ele roubou o celular dela – Prima, eu vou te amar pelo resto da sua vida!


–Parece que a noite foi boa – respondi com um ar triste.


–Foi incrível! Feliz aniversário, de noite eu vou te dar um belo presente! – Eric estava tão animado que não notou o meu estado.


–É aniversário dela?! – Dianna quase gritou do outro lado – Ah meu Deus...


Desliguei o celular. Eu não queria escutar pedidos de desculpas. Eu queria mais nada! Segurei com força o aparelho e o joguei contra a parede do hotel o despedaçando assim como estava o meu coração. Eu queria gritar de raiva, perder o controle e surtar. Que belo presente de aniversário estava recebendo da garota que eu gostava. Eric não havia perdido tempo em seguir meus conselhos e ao que parece tinha dado tudo muito certo. Iria surtar pensando que para eles estarem juntos até agora deveriam ter passado a noite juntos.


–Eu preciso sair daqui – murmurei ofegante para mim mesma.


Não fui nem ao menos buscar minhas coisas. Corri deixando o desespero e a desesperança tomarem conta de meus passos. Fui direto para a banca de registro, peguei facilmente uma das chaves das lanchas do hotel e segui com um carro para o porto. Eu precisava me afastar, sabia ir até Natal pilotando uma pequena lancha. Mas o que eu queria era simplesmente fugir. Então não demorou para que eu saísse com aquele tipo de embarcação para o alto mar, ignorando qualquer sintonia que me deixava feliz com o balanço ou visão das ondas.


Porém nada disso me fez notar que o céu estava nublado e que o mar começava a ficar revoltado. Apenas seguia o curso, perdida em pensamentos conflitantes, querendo estar longe, mas bem longe daquele lugar que estava me fazendo sofrer. Se estava sendo covarde? Nunca saberia dizer, mas o meu impulso iria mudar a minha vida. Alguns quilômetros depois o mar estava completamente agitado, finalmente me dando noção do perigo que eu estava correndo. As ondas ficavam cada vez maiores e começou a chover forte de repente. Eu estava entrando em uma tempestade no meio do mar. Dentro da cabine tentei fazer o rádio funcionar, mas se bem me lembrava, tio Saulo havia dito que as lanchas precisavam de uma revisão por apresentar defeitos de comunicação. Qual a minha sorte de ter pegado justamente uma dessas?!


Olhei para o céu e o painel a minha frente. O que seria melhor? Continuar avançando para Natal ou recuar? Mas as ondas balançavam a lancha tão forte agora que eu não conseguia focar ao certo o mapa do GPS... Que minutos depois apagou pelo curto de energia. O barco inteiro parou de funcionar. Com um aperto no peito e um mau pressentimento, sai da cabine sendo recebida por grossas gotas de chuva que caiam violentamente das nuvens negras. Em instantes eu estava molhada e sendo empurrada por fortes correntes de ar. Tropecei em minha tentativa de chegar até o motor, caindo de costas de um jeito em que a dor distraiu todos os meus pensamentos. Então o barco começou a virar para o lado esquerdo e uma onda enorme sobrepôs a lancha quebrando bem sobre mim. Meu corpo escorregou e bateu por todo o tipo de coisa do convés deixando evidentes hematomas e uma falta de ar pela água que me envolveu em um abraço violento.


Então me lembrei de meu sonho e entrei em desespero. Tentei levantar e correr para a cabine para pegar um colete salva-vidas, apenas para ver que em alguns segundos seria o meu fim. Uma onda gigante se formava ao meu lado, tão grande que atingia uma altura maior que dez metros. Meus olhos se abriram e meu coração parou de bater. Não havia para onde fugir ou como reagir, tudo o que eu pensei naquele momento era que iria morrer. A onda veio engolindo a lancha, meu corpo foi jogado com força para fora da embarcação, caindo no mar e sendo submergido pelo impacto. Naquele momento lembrei-me mais uma vez de meu sonho e com todas as minhas forças nadei para cima. A correnteza me levava cada vez mais para um lado e para o outro, afastando-me da embarcação que eu mal vi virar e desaparecer naquela fúria do oceano. As ondas se tornavam constantes, maiores ou fortes, manter-me na superfície se provou um esforço frustrante e inútil.


Meu corpo começava a ficar gelado e o som de trovões estava tão alto que me deixava atordoada. Novamente fui engolida pela água do mar e em igual desespero eu tentava subir e não me afogar... Se estivesse raciocinando minimamente iria entender que quanto mais me debatia mais energia gastava e menos oxigênio entrava. Eu estava em um profundo desespero e trêmula pelo terror de estar em um naufrágio. A lancha havia sumido de minha vista, eu começava a ficar cansada pelas braçadas e tentativas de me manter emergida. Mas depois de alguns minutos... Todo o meu espírito parecia ter simplesmente desistido.


Quando uma onda me afundou novamente, deixei que meu corpo fosse levado para o fundo do mar. As correntes pareciam me impulsionar mais ainda para dentro da escuridão oceânica. Eu estava cansada, estava com medo e desesperada. Mas aquilo já me era conhecido, aquela sensação de que tudo ao seu redor se silenciava para que seu coração alucinado em tentativas para sobreviver fosse escutado pelas batidas fortes contra seu peito. Meus pulmões ardiam pela água salgada e pela falta de oxigênio. Minha visão começava a embaçar e apesar de toda a dor eu sabia que estava morrendo...


Foi então que igual ao meu sonho aquele ser estranho se aproximou. Eu vi a forma de seu corpo, o rabo de peixe e o corpo humano. O cabelo longo sendo movimentado de acordo com a corrente do mar. Se aproximava rapidamente de mim, com os braços esticados. E igual ao sonho eu ergui minha mão para que encontrasse a dela. Mas nesse momento eu geralmente acordava, então morreria tendo a alucinação. Estava desistindo, entregando-me aos braços de Tânatos quando a mão daquele ser encontrou a minha. O choque de energia me fez abrir bem os olhos. Meu corpo inteiro pareceu vibrar, cada célula se mostrou presente. De repente minha visão clareava e se tornava muito nítida.


Assim descobri que a minha frente estava uma mulher com pernas de peixe. Uma linda, preocupada e uma... Sereia! Sim, era exatamente isso o que aquele ser era, uma sereia! Metade humana, metade peixe. Ela era linda, de olhos azuis muito claros que deixava claro que aquele tom era místico. O cabelo era loiro escuro e liso, seu rosto o mais perfeito de todos. A sereia se aproximou e encostou a testa na minha, fazendo-me ficar hipnotizada pelos olhos dela de tão próximos que estavam. Meu corpo parecia querer entrar em combustão, estava ficando quente mesmo que a água do mar fosse gélida. O medo de morrer havia passado completamente, eu estava me sentindo estranhamente bem. Quando ela se afastou abriu um sorriso perfeito.


E então eu pude respirar debaixo do mar.

Notas finais
Ê que finalmente começa a entrar a parte sobrenatural da coisa *-*