Amor Submerso

34 Capítulo 34: Traição


Notas iniciais
Então gente... Nem sei o que comentar desse capítulo, é um pouco tenso. Sei que seria melhor na visão da Dianna, mas preferi manter ele na linha geral que são os povs de Fernanda.

É realmente o inicio de uma nova parte da fic, talvez a mais importante e que no fim (depois de muitos capítulos) vai responder muitas coisas que ficaram no ar. Espero que gostem.

Ah, acabei de escrever agorinha e já estou postando, to morrendo de sono para revisar e amanhã vou trabalhar, perdão pelos erros que eu sei que existem.

A rotina havia retornado. Acordar cedo, ir até a Ilha Prometida treinar até a última gota de minha energia e voltar extremamente cansada para Fernando de Noronha. Não havia como negar que isso aumentou a minha resistência, Nathan e Lynn sempre me colocavam no meu limite a ponto de transpassa-lo e aumenta-lo. Mas o lado negativo disso tudo era que quase não me restava esforços para poder ficar com a Dianna, que também acabava extremamente cansada.

Os dias se passaram e falar de Scarlet e Lynn acorrentadas era o mesmo que pedi o pior dos castigos. Elas não se falavam direito além para brigar uma com a outra, não existia mais um dialogo civilizado por mais de dois minutos. Ainda era estranho ter em minha mente que minha mãe caiu na tentação de uma pirata tão abusada e ainda ter sido acorrentada. Era nesses momentos que eu desistia de entender onde estava a lógica desse mundo.

Era um domingo em que Dianna viria a minha casa para que jantássemos em família e depois pudéssemos ficar sozinhas, ao menos um pouco. A sensação era de que nós estávamos perto, mas ao mesmo tempo distantes e isso me incomodava mais do que qualquer cansaço do treinamento. Minha mãe tinha cozinhado lasanha e uma moqueca de camarão para ela e Nathan já que ela lembrou que sua nora não gostava de frutos do mar. Saia de meu quase interminável banho vestindo roupas confortáveis, um shortinho vermelho e regata branca que em meu corpo ficava levemente folgada. Andava descalça até a sala onde encontrei Nathan assistindo televisão, joguei-me em seu lado sem pestanejar.

-Você é muito folgada – Nathan comentou revirando os olhos, ele havia se soltado com o passar do tempo, eu realmente o via como a um irmão agora.

-Vantagens de ser uma jovem humana – sorri travessa e me espreguicei – Hoje eu pensei que você fosse acabar comigo.

-Era essa a intenção, mas você está em meu nível já, foi difícil derrubá-la – Nathan falou com um tom orgulhoso.

-Acho que nós dois deveríamos unir forças e no próximo treino derrubar a tirana – disse em um tom baixo como se contasse um segredo, obviamente me referindo a minha mãe.

-Daria um pouco de trabalho – Nathan ficou pensativo e sorriu de lado – Mas não é impossível, se for eu e você.

-Isso ae! – gritei animada e o abracei por impulso, o deixando vermelho, era tão fofo quando ele ficava assim – Mas me diga uma coisa... Você não sente falta do fundo do mar? De sua vida lá?

Nathan olhou-me um pouco sério e eu afastei meu corpo para poder encará-lo melhor. Eu já não achava mais que ele era quieto, apenas na dele e vendo o mundo do seu próprio jeito. Possuía um coração genuinamente bom, porém não era inocente ou facilmente enganado. O admirava, por aceitar-me tão facilmente, por amar nossa mãe e ser capaz de enfrentar o próprio povo. O amava por ser meu irmão, sem me importar de termos pais diferentes. Foi impossível não compará-lo com Eric, da época em que éramos unidos como se fossemos até gêmeos. Ainda assim, não era a mesma sensação que eu tinha com Nathan. Acreditava nele cegamente, confiaria minha vida ao meu irmão se fosse necessário sem ao menos hesitar. Mas ainda assim... Sabia, ou melhor, sentia que ele ainda se sentia deslocado aqui, no mundo humano.

-Penso se realmente fiz a escolha certa – Nathan revelou depois de um suspiro, mas então pousou a mão sobre minha cabeça e deu um de seus sorrisos mais lindos – Mas não importa o lugar em que eu esteja, estou com minha família, então é onde eu estou mais forte e vivo.

-Você é tão estupidamente bonzinho – reclamei fazendo bico – Mas não deixou nenhuma sereia para trás não?

-Faz um tempo que eu não me relaciono com alguém, nunca criei vínculos com uma fêmea – Nathan respondeu e deu de ombros – Sempre fui muito ocupado com as pesquisas do papai e em dar apoio a mamãe quando ela pedisse.

-Sabe o que eu acho? Que quando seu par chegar vai ser tão arrebatador que você vai cair de quatro.

-Isso pareceu quase uma praga nesse tom.

Acabamos por rir e logo depois Dianna chegou. Magnifica como sempre, mesmo que usando um simples vestido branco com detalhes em verde. Ela sempre seria a coisa mais linda que meus olhos iriam encontrar. A abracei e escutei gemer reclamando de algum machucado na cintura.

-Um dia vou bater naquela pirata por te deixar assim – reclamei prontamente me afastando.

-Eu irei te apoiar com prazer – Lynn comentou atrás de mim e abriu um sorriso estonteante para Dianna – Entre, o jantar já está na mesa, acabei de colocar.

-Boa noite Lynn, Nate! – Dianna os cumprimentou.

Fomos até a mesa de jantar e minha barriga quase roncou, denunciando o quanto estava faminta. Desde que os treinos começaram a minha quantidade de comida havia aumentado ainda mais do que a de Dianna. Talvez fosse pelo gasto de energia a mais, porém não importava, quase sempre eu estava com fome agora. O jantar se seguiu tranquilo, Nathan estava se vangloriando de como eu tive de implorar para ser solta depois que me prendeu com tentáculos feitos de água e ter começado a fazer cócegas em mim. Foi assim que ele tinha conseguido me vencer.

-Lynn, posso perguntar algo? – Dianna pediu olhando para minha mãe a nossa frente.

-Claro querida, sabe que sim – Lynn consentiu com aquele seu tom tão suave.

-Como são os jovens submersos? Digo, eles vão a escola, namoram ou coisas assim?

Dianna sempre foi mais curiosa do que eu com o mundo místico ao nosso redor. Sempre que acontecia algum encontro assim ela não perdia tempo em descobrir coisas novas. Provavelmente deveria já saber mais do que eu, já que sua treinadora era uma caçadora e minha mãe ficara presa em uma caverna por anos.

-Nossos costumes diferem bastante dos humanos – Lynn explicou com um sorriso brincando em seus lábios – Somos especificamente treinados com os dons que recebemos, os guerreiros e os que possuem magia.

-Para socializar, acho que é esse o termo humano correto, há eventos e os esportes, além das grandes festas nas datas importantes – Nathan completou e franziu o cenho – Acho que daqui a pouco tempo deve ser a comemoração do Fim do Ciclo Lunar.

-Fim do Ciclo Lunar? – perguntei também curiosa.

-É como contamos o tempo. A lua sempre influencia no poder da maré, então é um elemento quase divino para nós. Quando dizemos Fim do Ciclo Lunar não é o equivalente a um mês, mas sim o inicio de um novo tempo, como o Ano Novo para os humanos – Lynn explicou bebericando um pouco de seu suco.

-As festas são incríveis, cheios de luzes, comida e tradição – Nathan completou e sorriu – Lembro de uma vez quando sem querer entrei em um pequeno redemoinho e fui arremessado contra a estátua do antigo rei. Quase quebrei a cabeça do velho.

-Não acredito, você também fez isso?! – Lynn começou a rir.

Então o resto do jantar foi cheio de lembranças daqueles dois seres submersos. Era gostoso escutá-los, mesmo que parecesse que estavam falando de algum filme interessante ao invés de algo que poderia ser real. No fim Dianna tentou se oferecer para lavar os pratos, mas eu logo a sequestrei para o meu quarto. Precisava ficar a sós com minha garota, respirar o seu perfume e sentir a sua pele. Parece exagero, sempre achei que era quando lia isso nos livros, mas aquela conexão que eu tinha com aquela morena não era normal, era mágica. A levei para a varanda de meu quarto onde estiquei uma rede e logo sentei, Dianna não tardou a sentar ao meu lado e passar um braço por trás de minhas costas para que ficássemos juntinhas.

-Isso me lembra a nossa fuga – ela comentou olhando para as estrelas.

-Foi uma loucura que deu certo no fim – sorri e deitei a cabeça em seu ombro, relaxando completamente o meu corpo – Na verdade, acho que foi lá que a verdadeira loucura começou a acontecer.

-Não é? Parecia um enredo muito mal escrito termos encontrado tudo e no fim nos depararmos com piratas usando roupas de milênios atrás.

Acabei rindo, já tínhamos passado por tanta coisa que não parecia que ainda iriamos completar dois meses de namoro. Sentia como se tivesse vivido uma vida inteira ao lado daquela morena. A mão de Dianna que estava em minhas costas foi subindo lentamente até encontrar a minha nuca e segurar os fios de cabelo dali. Senti um arrepio passar por todo o meu corpo quando ela ergueu minha cabeça e eu pude vê-la sobre a luz do luar. Minha pulsação acelerou como se essa fosse a primeira vez em que via o ser mais belo e encontrava-me hipnotizada.

-Você me deixa sem jeito quando me olha assim – Dianna murmurou ficando corada mesmo com sua pele bronzeada.

-Que jeito? – perguntei com um sorriso bobo.

-Assim – ela parecia não encontrar palavras – Como se...

-Fosse a única coisa mais linda que eu já vi? Como se fosse a mulher de minha vida e eu a estivesse adorando? – completei ao mesmo tempo em que esticava o tecido da rede para trás e deitava enquanto minhas pernas ainda ficavam do lado de fora.

-Sua boba.

-Boba apaixonada, por favor.

Ela riu e inclinou o corpo sobre o meu, não demorando a tomar meus lábios em um beijo longo e gostoso. Não havia pressa enquanto nossas línguas dançavam aquela valsa apaixonada, não havia tempo ou preocupações que nos impedisse de sentir nossos corações batendo como um só. Desde aquele dia no carnaval nossos beijos estavam assim, sincronizados e cada vez mais intensos nas sensações que causavam, mesmo que fosse um simples roçar de lábios em um selinho. Mas depois de um tempo que eu nunca seria capaz de mensurar, Dianna afastou os lábios um tanto bruscamente e fez uma careta fechando os olhos com força.

-Dih? Está tudo bem? – perguntei preocupada.

-Sim... Não – Dianna suspirou e deitou ao meu lado – Estou com enxaqueca. Vem acontecendo às vezes, acho que é por causa do treino.

-Amanhã vou falar com a Scarlet – decidi e pousei um dedo sobre os lábios dela quando a vi tentar argumentar – Deixe-me cuidar de minha mulher um pouco, sei que você é forte e não é nenhuma donzela. Mas você dificilmente iria fazer isso por ser orgulhosa, então eu faço.

Dianna suspirou e apenas acenou com a cabeça confirmando. Ainda estava preocupada, algo não ia bem e Dianna parecia não notar. Eu sentia, como também sentia dentro de mim, sabia que algo não estava correto. Mas ao mesmo tempo não queria estragar aquele momento, não queria preocupar a minha musa com mais problemas. Naquela noite deveria ser só eu e ela, como foi no carnaval. Então deitei melhor na rede e a puxei para ficar pertinho de mim a aconchegando em meus braços.

-Não fique preocupada – Dianna pediu deitando a cabeça perto da minha, me fitando de pertinho. Eu podia sentir facilmente a sua respiração beijando meu rosto – Eu estou bem, se piorar eu prometo que procuro a minha linda sogra e peço a devida ajuda.

-Linda sogra é? – provoquei tentando fazer uma cara emburrada.

-Que teve uma filha mais linda e ciumenta – Dianna riu baixinho, causando um arrepio em meu corpo – Meu amor, logo estaremos em Natal novamente para o inicio de um semestre.

-Aposto que aquela cidade nunca mais será a mesma, já que não duvido nada que nossos encostos vão querer ir junto – falei me referindo a todos menos nós duas, e isso incluía minha mãe e irmão.

-Mas eu quero morar sozinha contigo.

-Sério isso? E aquela história de que estava muito cedo para esse tipo de coisa? Ou melhor, não responda, não quero que mude de ideia. Quero acordar todos os dias abraçada a essa gostosura de mulher.

-Gostosura? – Dianna riu e eu me arrepiei novamente, maldito fosse esse riso tão gostoso de escutar – Mas veja, eu sinto como se tivéssemos muito mais tempo juntas. E estamos tão envolvidas uma com a outra que já não tem o que evoluímos na relação, somos uma da outra e pronto.

-Gosto desse seu jeito de pensar... Se bem que a Lorena vai surtar e ninguém vai acreditar que eu estou morando com minha namorada.

-Ninguém mandou ter sido tão mulherenga no passado – Dianna ficou emburrada ao franzir o cenho e torcer o bico para o lado.

-Meu passado não é nada comparado ao meu presente, eu vou ter é de cuidar para nenhum daqueles animais cogitarem em tocar no que é meu. Vai ser uma ótima forma de treinar algumas magias sinistras que aprendi.

-Tão perigosa essa sereia.

Acabamos rindo e conversando o restante da noite naquele jeitinho divertido e tranquilo. Era gostoso até quando não estávamos nos agarrando, afinal no meu mundo bastava que ela existisse e tudo estaria bem. No fim dormimos ali mesmo, Dianna foi a primeira a cair em um sono profundo e eu não tive coragem ou vontade de me mover daquele lugar quente por causa de seu corpo colado no meu. Porém a sensação que eu tinha enquanto pegava no sono era de que o futuro era mais longo e complexo do que eu estava esperando.

{...}

Acordei em um sobressalto. Meu corpo inteiro tremia e eu podia sentir a minha blusa colada nas costas por causa do suor que escorria. O modo como acordei me fez cair de chão bruscamente, meu quadril chocou-se contra o piso, porém o meu estado não me permitia sentir dor. Apenas medo. Um medo irracional que me fez acordar daquele jeito tão subitamente. Eu não entendia, mas parecia dominar meu corpo completamente. Não precisava de compreensão para sentir por todo o meu ser uma sensação ruim, era como se o gosto de morte estivesse preso em minha garganta impedindo respirar.

-Dianna – o nome saiu de meus lábios sem controle, como se não fosse eu falando.

Meus olhos se abriram e meu coração bateu tão forte contra meu peito que chegou a doer. Levantei desengonçada pela falta de equilíbrio, porém quando me pus de pé percebi que não havia sinal da morena em nenhum canto de meu quarto. Não, não podia ter acontecido algo com ela, não era lógico! Ela deve ter adormecido em meus braços, acordou mais cedo para poder voltar para casa e se preparar para o treinamento. Era isso, nada mais que isso! Ao menos era o que minha mente lutava bravamente para acreditar.

Sai correndo de meu quarto, esbarrando-me nas paredes e quase tropeçando em meus próprios pés. A sensação não passava e estava começando a me sufocar, a dominar meus pensamentos. Era tão ruim, tão pesado! Cheguei na cozinha e encontrei Nathan conversando com minha mãe enquanto um preparava café e o outro mexia os ovos no fogão.

-Bom dia minha....

-Vocês viram a Dianna? – perguntei ofegante, apressada, meu tom urgente denunciava completamente o meu estado.

-Vi a porta entreaberta antes de acordar – Nathan contou me olhando preocupado – Ela deve ter ido para o treino.

-Filha, o que aconteceu? – Lynn abandonou o café e se aproximou de mim abraçando-me prontamente.

-Eu... Eu... – eu podia sentir meus olhos lacrimejarem, eu não estava suportando mais aquela força negra tomando conta de meu ser, como se me partisse ao meio com aquela sensação de que algo estava acontecendo – Eu não sei! Eu preciso ver a Dianna, eu preciso mãe!

Minhas pernas vacilaram e eu ia cair se não fosse o abraço e a força de minha mãe. Ela me apertou contra si e me deixou chorar. Estava entrando em desespero sem ter uma lógica plausível! Até poucas horas atrás eu estava bem, falando de um futuro lindo com minha musa em Natal, brincando de como seria a reação dos outros ao nos verem juntas. E agora ela não estava ali. Ela não estava ali!

-Vamos procura-la – Nathan aproximou-se e passou a mão em meu cabelo em um ato extremamente gentil – Você vai ver que ela só está treinando, ela vai te chamar de boba por se preocupar a toa.

Balancei a cabeça aceitando essa proposta. Eu poderia até imaginar a Scarlet fazendo escarnio de meu estado enquanto Dianna me abraçava ao mesmo tempo em que brigava. Mas não me importava, eu queria que isso acontecesse! Ao menos saberia que ela estava bem. Minha mãe foi comigo para o meu quarto e me ajudou a fazer a higiene matinal, eu estava realmente sem muitas forças, como se algo invisível tivesse me drenado. Minha atenção estava focada apenas na minha preocupação, eu não tinha notado o quanto minha mãe estava séria e um pouco distante.

Seguimos em um carro pelas estradas, eu repetia como um mantra em minha mente que iria encontrar Dianna e logo veria que estava tudo bem. O local de treino dela sempre foi um pouco de mistério para mim, afinal fazia parte do trato. Porém não parecia surpreendente que minha mãe soubesse onde ficava, afinal em emergências as treinadoras iriam saber exatamente onde estava a outra. Nathan que dirigia o carro com um pouco de dificuldade entrou em uma orla perto da praia prestando o máximo de atenção possível na estrada. Lynn estava quieta e eu ignorava todo o resto, meu olhar estava desfocado, observando a praia sem realmente estar ali. Até que eu vi um ponto vermelho andando furiosamente pelas areias.

-PARA! – gritei para eles.

Nathan pisou no frio bruscamente e um carro atrás desviou por pura sorte, passando ao nosso lado buzinando forte. Saltei do carro e entrei em uma corrida desenfreada sem me importar com a areia que adentrava em minha sandália. Apenas corri atrás daquele cabelo vermelho até me aproximar o suficiente para segurar seu braço e pará-la de uma maneira rude.

-Mas o que?! – Scarlet virou com um olhar zangado.

-Onde está Dianna?! – perguntei ofegante, meu corpo inteiro parecia tremer – Onde ela está?!

-Calminha ai filhote de peixe – Scarlet puxou o braço e afastou-se, porém me olhou com o cenho franzido – Eu pensei que ela estaria com você, por isso estava indo em sua casa busca-la.

Eu senti que iria desabar ali mesmo. Algo havia acontecido! Eu sabia! Levei minhas mãos até o cabelo e o puxei levemente, em um sinal claro de desespero. Mas ao mesmo tempo a pequena dor me deixava acordada, presente e não entrando em um colapso interno.

-Dianna não está com você? – Lynn questionou ao se aproximar, em seu tom nem ao menos havia o costumeiro jeito de superioridade quando falava com Scarlet.

-Como eu disse, não. Acordei pela manhã esperando encontra-la já pronta para sairmos, mas nem ela e nem o Dante estavam na casa. Pensei que estariam no treino adiantando alguma coisa, mas também nada – Scarlet explicou ficando um pouco mais séria – Aconteceu algo que eu deva me preocupar.

-Ela sumiu – murmurei começando a entrar em um estado catatônico.

-Eles podem ter apenas ido fazer alguma coisa – a pirata tentou argumentar.

-Eu sei disso! – gritei com ela – Eu sinto!

-É algo do vinculo – Lynn respirou fundo – Sentimos quando o outro está em uma situação de risco. Lembro perfeitamente bem o desespero que senti quando senti... Quando senti Pedro sendo levado pelo Povo das Sombras.

-Não! Ela não pode ter sido levada! – o simples pensamento foi como um choque, eu estava entrando em um redemoinho de medo.

-Vamos procura-la – Scarlet decidiu prontamente – Controle-se Fernanda, não poderá encontrar sua mulher nesse estado.

Pisquei várias vezes. Ela estava certa. Eu estava afundando em um poço sem fim, se me deixasse seguir esse fluxo não teria forças para acha-la. Passei a mão em meu rosto, fechei os olhos, respirei fundo tentando me controlar... E por um momento eu havia conseguido para no seguinte meus olhos se arregalarem ao ser tomada por um devastador tremor. Virei meu corpo em direção mar e corri para ele ao mesmo tempo em que a calamidade acontecia.

Uma explosão tomou conta do horizonte. Uma bola de fogo que se alargava e causava um estrondo que foi escutado até mesmo ali, na praia. A fumaça começou a levantar-se como um vulto gigantesco e negro, a explosão fora forte o suficiente e parecia continuar a queimar.

-Não! – Scarlet gritou ao meu lado – Meu navio! Lynn, me leve para lá agora!

-Scarlet...

-AGORA – a pirata interrompeu minha mãe e a segurou com força pelo braço – É meu navio, minha casa! Leve-me para lá!

Lynn pareceu hesitar por alguns segundos.

-Dianna pode... Pode ter estado lá – falei com minha mente funcionando como um turbilhão – Se for rápido podemos encontra-los.

Nathan foi o primeiro a se manifestar, aproximou-se de mim, segurou meu ombro e o apertou dando um apoio incondicional. Começamos a correr na frente e eu pude escutar os passos de Scarlet e Lynn logo atrás. Entramos na água e rapidamente estávamos mergulhando. Nossas caudas logo apareceram e em um rápido vislumbre vi minha mãe se aproximar de Scarlet, encostar sua testa na dela e permitir que aquela humana respirasse temporariamente debaixo da água. Nathan assoviou chamando o Flash, o hipocampo demorou apenas alguns segundo para aparecer, glorioso em sua forma metade cavalo e metade peixe. Felizmente ele era grande o suficiente, não precisamos montar nele, apenas nos segurar com força.

“O que está fazendo?” – escutei o pensamento de Scarlet.

Olhei para trás e vi minha mãe lançando um olhar emburrado ao compasso que seu braço envolvia a cintura fina da pirata.

“Segurando você, quer ser deixada para trás? Hipocampos são um dos seres mais rápidos existentes” – Lynn explicou sem paciência.

Flash não esperou por mais, Nathan o incitou e logo o ser místico estava empinando as patas, lançando-se em uma corrida sinistramente veloz. Se não fosse pelo apoio do braço de minha mãe, Scarlet teria ficado no meio de caminho. Ela não estava acostumada com essa velocidade e não saberia como se segurar direito, até mesmo para mim era complicado. Porém nada disso pareceu importar quando nos aproximamos do lugar onde deveria estar ancorado o poderoso navio pirata. No lugar dele estavam pedaços de madeira chamuscado, quebrados e ocupando quase todo o lugar. Havia armas, roupas, barris e até mesmo canhões flutuando dentro do mar. Porém isso não era o pior.

Havia corpos.

Eu não fiquei muito tempo no navio para decorar todos os rostos e saber todos os nomes. Mas eu reconheci a tripulação de Scarlet, morta com feridas feias, sem pedaços do corpo ou com cortes tão profundos que parte dos órgãos saiam de dentro de seu corpo. Havia acontecido uma batalha, uma explosão que deu fim e vitória ao inimigo. Olhei para o lado e vi Scarlet parada, seus olhos seguindo sombriamente cada um dos corpos mortos e destroçados ali debaixo da água. Então veio a fúria.

“Vamos à busca de sobreviventes” – Nathan pensou sendo o primeiro a esboçar uma reação prática.

“Dianna não pode estar aqui” – Roguei sem me importar que eles escutassem.

Com o coração apertado, nadei pelos destroços e marinheiros mortos sentindo uma vontade quase incontrolável de chorar. Apesar de serem piratas, eram pessoas boas, ou seres bons. Nada disso importava, eles se divertiam, viviam protegendo uns aos outros. Scarlet não perdeu apenas a sua casa, mas parecia ter perdido também a sua família. Mesclado a tudo isso havia o medo descomunal de que Dianna estivesse ali, ferida ou... Não! Ela não estava morta!

“Encontrei um sobrevivente!” – Lynn gritou em nossas mentes – “Mas está muito ferido e... Envenenado, a magia de cura não quer funcionar, tenho de leva-lo a terra firme para que possa respirar oxigênio”.

“Vamos para a Ilha Prometida, é mais próximo” – Nathan respondeu começando a nadar para o alto. Mas parou e olhou para mim oferecendo a sua mão – “Venha, ela não está aqui, se salvarmos ele poderemos descobrir o que aconteceu”.

Nadei até o meu irmão e segurei a sua mão. Ele praticamente me puxou já que eu estava com uma enxurrada de pensamentos me impedindo de ter coerência com qualquer coisa. Eu sabia que algo tinha acontecido, sabia que Dianna ainda estava em perigo. Mas havia também mais uma certeza. Ela estava viva. Nadamos rapidamente até a ilha, Nathan tendo de carregar o homem com cuidado já que este estava prestes a beijar a morte. Lynn segurava firmemente o braço de Scarlet para mantê-la na nossa velocidade. Eu seguia um pouco atrás, observando a tudo em busca de pistas, atenta aos perigos. Afinal aquilo havia sido claramente um ataque covarde.

Quando chegamos trocamos nossas caudas por pernas, aquilo para mim já nem era estranho. As ondas fortes quase fizeram Nathan cair com o corpo, mas ele era forte tanto em músculos quanto em força interna, manteve-se em pé até poder depositar o homem na areia. Só quando me aproximei um pouco, caindo de joelhos um pouco longe do corpo, que eu percebi quem era. O homem que havia lutado com Dianna no Rio de Janeiro e nos cumprimentou no navio, o que havia sido cortes e nos recebido tão bem naquele meio tão estranho.

-Salve-o! – ordenou Scarlet caindo ao lado do homem, segurando a sua mão com força – Não ouse me deixar Taurus, eu vou no inferno chutar seu traseiro se fizer isso!

Nathan caiu sentado ao meu lado, ofegava e tinha os olhos cravados na cena assim como eu. Lynn estava ajoelhada do outro lado do homem, suas tatuagens apareciam e brilhavam intensamente enquanto ela tentava conter o forte sangramento no peito ao lado direito. As palavras que ela murmurava eram quase inaudíveis, mas ainda assim era possível ver o local ferido começar a brilhar e as tatuagens se concentrarem em seus braços e mãos. Depois de quase um minuto completo o homem arfou e abriu os seus olhos.

-Taurus! – gritou Scarlet quase chorando.

-Ca-capitã – o homem gaguejou arfando e gemendo de dor.

-Fique quieto! – a pirata ordenou segurando mais ainda a mão dele – Você precisa sobreviver, é uma ordem!

-Desculpe capitã – Taurus murmurou e tossiu – Princesa Sereia... Pare.

-Não! – Scarlet quase gritou e fitou minha mãe furiosamente – Não se atreva a deixa-lo!

-Não irei – Lynn garantiu com seu tom firme.

-Por favor – o homem novamente implorou – Gabriel está morto, eu quero me juntar ao meu filho, morrer com honra depois de ter feito o meu papel aqui. Não me pode tirar esse direito.

-Você não tem o direito de me deixar! – Scarlet não controlava as lágrimas, apesar de estar evidentemente desesperada e brava – Não tem! Está me ouvindo?!

-Desculpe capitã, mas dessa vez... Dessa vez... Eu não posso obedecê-la – Taurus falava com dificuldade, buscando ar cada vez mais – É um direito meu, não acha? Quero morrer com meus irmãos e encontrar meu filho.

-Você deve viver por cada um deles! Você tem de vinga-los, você tem de ficar comigo! Eu não quero ficar sozinha! – a pirata tentava argumentar desmoronando cada vez mais.

-Você não está sozinha, capitã – Taurus sorriu mais e seu olhar encontrou o de Lynn – Tome conta dela, ela é teimosa demais e encrenqueira, mas no fundo é uma boa menina.

-Eu sei disso – Lynn falou antes mesmo que Scarlet pudesse protestar, pareceu respirar fundo e olhou para a mulher a sua frente – Não pode tirar o direito dele de escolher morrer naturalmente, é um guerreiro que decidiu como ter a sua última batalha.

-Não, não – Scarlet balançava a cabeça parecendo ser partida ao meio por dentro – Taurus... Todos estão mortos! Meu... Meu navio, o navio de meu pai...

-Dante fez isso – Taurus revelou e tossiu novamente.

-Eu vou mantê-lo vivo até que possa nos contar o que aconteceu – Lynn disse rapidamente, voltando a murmurar as palavras mágicas.

Dante?! Aquele ser da floresta... Era o traidor?! Minha surpresa não parecia maior do que a da própria Scarlet, ela tinha os olhos arregalados e parecia não mais respirar.

-Ele chegou no navio junto com aquela humana morena – o homem começou a contar.

-Dianna?! – prontamente me exaltei.

-Sim – Taurus concordou e buscou por ar por alguns segundos.

-Ela estava bem? Porque ela estava com ele? Estava amarrada? Presa? – disparei as perguntas quase esquecendo que o homem estava morrendo.

-Não... Ela parecia sobre o efeito de Dante, quase hipnotizada. Não havia brilho em seus olhos e quase não fazia nada sem que ele ordenasse. Eles chegaram de surpresa e Dante declarou-se o novo capitão do navio. Pediu... Aquele desgraçado!... Ele pediu para que nos ajoelhássemos.

-Porém isso não lhe dar poderes para conseguir derrotar a todos e explodir meu navio – Scarlet argumentou, a fitei surpresa, sua voz estava cortante e fria, seu olhar quase sem expressão.

-Também achamos. Rimos e só percebemos que ele estava falando sério quando esfaqueou o Pequeno Coelho. Fomos ataca-lo, mas um monstro apareceu, um grifo negro sendo montado por um Exilado.

O Povo das Sombras. Minha mente começou a trabalhar fortemente tentando lembrar-me dos estudos obrigatórios que minha mãe me fez passar. Os Exilados eram seres bons que foram envenenados pela maldade e se tornaram membros do Povo das Sombras, ganhando poderes adicionais aos que já possuía. E por isso eram os mais perigosos e mais fortes. Senti meu corpo todo rígido ao pensar que Dianna estava perto dessa coisa!

-Foi um massacre – Taurus continuou e tossiu fraco – Dante nos traiu e nos destruiu. Eu só estou vivo... Só estou vivo por causa da humana Dianna. De alguma forma ela acordou da hipnose, eu acho que foi quando Dante a ordenou matar. A pequena não conseguiu e fugiu para o convés superior onde me encontrou. Ela me ajudou a proteger e armar o bote, eu entrei e ela estava prestes a entrar também, mas aquele maldito a golpeou forte na cabeça e a capturou.

-Ela estava viva?! – perguntei com desespero.

-Sim, Dante parece querê-la – Taurus respondeu e eu senti meu corpo tremer de raiva – Mas depois disso... Eles partiram e o Exilado explodiu o navio. Só sobrevivi porque estava dentro do bote.

Taurus teve uma crise de tosse e segurou a mão de minha mãe com a sua mão livre. Lynn parou de recitar as palavras e encarou o pobre homem com carinho. Ele não precisava de mais desespero antes de morrer.

-O Exilado usava uma capa com o símbolo de Draccon. É a única pista que posso deixar para vocês – Taurus começou a respirar com mais dificuldade – Scarlet... Nos vingue, mas não se perca no sentimento, eu... Eu tenho muito orgulho de ter servido a alguém tão nobre quanto você, capitã. Todos nós tivemos.

Scarlet recomeçou a chorar em silencio, mas dessa vez ela parecia conformada. Inclinou seu corpo e beijou o topo da cabeça do homem com extrema delicadeza. Depois olhou para minha mãe com o rosto já molhado pelo pranto.

-Faça-o dormir, não quero que morra em agonia. É o mínimo que podemos fazer – Scarlet implorou com a voz falha.

Minha mãe apenas balançou a cabeça e murmurou apenas algumas palavras. Taurus suspirou em alívio e fechou os olhos. Deixei minha cabeça cair e também chorei, como não? Aquilo era como uma tragédia que eu podia tocar e sentir em minha pele, penetrando a minha derme e atingindo a alma dentro de meu corpo. Dianna havia sido capturada, pessoas haviam morrido e uma traição tão grande nos deu uma rasteira. Senti os braços de Nathan me envolvendo e eu não temi em apoiar-me nele e chorar de verdade. Estava desesperada, estava fraca. Em um vislumbre meio turvado por causa das lágrimas em meus olhos, vi minha mãe amparando Lynn que soluçava silenciosamente.

Passamos um tempo indeterminado ali, sofrendo em silencio e reunindo o restante de nossas forças. Para mim os segundos se arrastaram em profunda tortura, mas foi Scarlet a primeira a recuperar-se e endireitar a sua postura. Em seus olhos uma profundar dor estava estampada ao lado de um ódio quase palpável.

-Iremos revidar – ela anunciou prontamente – Mas antes iremos buscar ajuda. Vocês terão de fazer tudo o que eu mandar, por mais absurdo que seja.

Afastei-me de Nathan e levantei. A dor ainda estava ali presente, já estava me acostumando com a sensação ruim que ainda pesava meu ser. A imagem daqueles seres mortos no mar me dava calafrios e força para vinga-los. Acenei com a cabeça e logo fui seguida por Nathan e por fim um longo suspiro vindo de minha mãe.

-Qual seu plano? – ela questionou.

-Reforços, encontrar o inimigo e esmaga-los. Está bom para você? – Scarlet respondeu dura.

-Para mim está – respondi prontamente – Quanto mais rápido encontrarmos eles, mais chances de Dianna estar bem.

-Vamos salvá-la, Nanda – Lynn me garantiu firmemente – Por hora, também seguirei esse plano. Para onde vamos?

-Encontrar a melhor caçadora que eu já conheci e a única que sobreviveu aos Draccons – Scarlet quase sorriu – Nathan, compre passagens para São Paulo, por sorte ela está no Brasil.

Nathan acenou com a cabeça e levantou. Lynn aproximou de mim e me deu um abraço apertado e rápido. As coisas haviam mudado, novas cartas, um novo jogo de morte. Eu sabia que o perigo estaria a nossa frente sempre, mas só não esperava que fosse me separar de Dianna tão bruscamente. De uma coisa eu tinha certeza e era nisso que eu estava me agarrando para não enlouquecer e ter forças: Dante iria pagar pelo que tinha feito! Pela primeira vez na vida me senti capaz de matar alguém.

Notas finais
Ficou maior do que eu esperava! Então, próximo capítulo novos personagens vão aparecer! Quem ficou surpresa com o rapto da Dianna?