Amor Submerso

35 Capítulo 35: São Paulo


Notas iniciais
Galera, eu nem sei por onde começar. Primeiro informar que eu passei uma semana de viagem fora em um congresso e seminário. Segundo que eu estava com o capítulo pela metade, mas não consegui terminá-lo a tempo. Voltei só no domingo morrendo de cansaço. Então não se preocupem, eu não abandonei a fic! Foi apenas um contratempo que durou mais do que eu planejava.

O capítulo ia ser maior, mas como eu sei que o próximo a Deus pertence a sabedoria de quando vai ser postado, preferi postar aqui logo as poucas novas informações. Mas ainda assim, espero que gostem!

PS: Capítulo sem revisão nenhuma, cheguei só de noite da facul e fiquei morrendo de preguiça de corrigir t.t

Pela primeira vez havia encontrado uma vantagem naquela desventura que estava sendo a minha vida. Agora eu não precisava dar satisfações para tio Saulo e Rita, apenas peguei junto com minha família o primeiro voo para São Paulo com uma escala em Natal. Meus sentimentos se misturavam, mesclavam, confundiam-me. A todo o momento pensava em Dianna, em como estávamos bem horas atrás de tudo culminar como em um conto de tragédia. E agora? Eu nem ao menos sabia onde ela estava, se estava ferida, se estava bem. E a cada tipo de pensamento desse que eu tinha, mais ódio sentia daquele maldito Dante.

Ainda estávamos no avião. Nathan ao meu lado estava quieto e tenso, Scarlet e minha mãe iam acomodadas na poltrona da frente. Havia poucas outras pessoas naquele voo o que nos dava maior comodidade, porém, mesmo assim, nos mantínhamos em silêncio. Respirei fundo e apoiei meus braços nas pernas enquanto pousava o queixo em minha mão. Minha cabeça estava a ponto de explodir com tudo o que estava acontecendo!

-Sky – escutei a voz baixa de minha mãe vindo da frente, se eu estivesse sentada corretamente não seria capaz de ouvi-la – Está chorando?

-Não – Scarlet negou seca.

-Sky...

-Eu já disse que não – Scarlet a cortou e sua voz vacilou um pouco – Deve ser esse ar forte que está ressecando meus olhos. Deixe disso e se preocupe com suas coisas, estamos em uma bela encrenca.

-Você pode chorar – minha mãe falou naquele tom adorável e tranquilizador que ela possuía naturalmente – Você perdeu muita coisa, pode chorar a sua dor.

-Não! – a pirata foi mais definitiva – Não vou chorar, seria humilhante, não vai trazê-los de volta, não vai fazer essa dor ir embora.

-Mas vai ajudar você manter o controle depois, se prender isso dentro de si vai carregar um peso a mais.

-Mais um peso? Eu já não tenho mais peso, eu não tenho de cuidar de um navio e da vida de um bando de piratas sem vergonhas, eu não tenho de me preocupar se vamos encontrar algo no mês que vem – Scarlet disparou em sua fala, cada vez mais emotiva – Eu já não tenho mais nada princesa, consegue entender isso?!

-Sim, eu entendo muito bem. Por várias vezes eu senti que havia perdido tudo também. Venha cá – escutei sons vindo da frente, era fácil imaginar que naquele momento minha mãe a puxou para um abraço – Eu aprendi que da mesma forma que perdemos, também podemos ganhar alguma coisa, algum dia.

-Eu irei vinga-los Lynn, cada um deles! – Scarlet prometeu com a voz abafada – Aqueles homens, aquele navio... Era a única coisa que meu pai deixou para mim.

-Eu sei que vai. E querendo ou não, eu vou estar do seu lado para ajuda-la.

-Não deve manchar suas mãos com isso, é minha vingança.

-Envolve minha filha, minha nora... Envolve você. Não aceitarei um não Sky, eu vou estar do seu lado e só para deixar claro, não estou pedindo sua permissão.

-Eu me recuso! Você tem de...

-Ah cala a boca!

Arqueei minhas sobrancelhas surpresa, pois no momento seguinte podia jurar que Scarlet havia suspirado. Segundos depois escutei um barulho que só podia ser produzido em um beijo. Afastei meu corpo bruscamente fazendo uma careta de nojo. Sério que no meio desse caos eu tinha de escutar minha mãe beijando aquela pirata ruiva? Olhei para o lado e encontrei Nathan com um meio sorriso, aparentemente ele parecia aceitar bem que elas fossem um casal, ou estivessem se tornando um. Porém sabia que talvez minha mãe estivesse naquele momento salvando aquela humana de naufragar em sentimentos tão negativos que a transformasse. Eu também me sentia caminhando por uma linha tênue entre a sanidade e o tentador lado do insano ódio.

O resto da viagem prosseguiu em quase total silêncio. Eu não tinha o que falar, estava fervendo de raiva ao mesmo tempo em que me sentia totalmente incompleta sem a Dianna do meu lado. Ela era mais do que minha namorada, era a minha parceira, minha amiga, minha força. E mesmo que o tempo fosse absurdamente pouco a comparação aos namoros comuns, eu me sentia como se tivessem arrancado parte de meu coração. Quando chegamos a São Paulo capital Scarlet alugou uma van preta e foi dirigindo.

-Quem é essa caçadora? – Nathan perguntou sentado ao meu lado.

-Estamos indo encontrar a Fênix – Scarlet explicou concentrada no intenso transito de São Paulo.

-A Fênix?! – Nathan repetiu surpreso – Mas não era apenas uma lenda?

-Que lenda? – minha mãe perguntou o que me fez prestar mais atenção na conversa, se era algo que ela não sabia deveria ser realmente importante e mais sinistro.

-Aconteceu um pouco depois de você ter sumido – Nathan começou a explicar olhando para Lynn que estava sentada no banco da frente – Diziam que havia surgido um caçador muito poderoso, que sabia lidar com o Povo do Submundo e das Sombras.

-Pera, existe Povo do Submundo? – interrompi com medo de me perder na conversa.

-Sim, muitos do Povo das Sombras fazem parte do Submundo, demônios de todos os tipos, vampiros e bruxas. Mas nem todo o Povo do Submundo é um Sombra – Scarlet explicou em um tom um pouco distante.

-Deram um apelido para esse caçador. A Fênix, pois por mais que dissesse que ele havia sido derrotado, ele ressurgia e terminava o trabalho – Nathan concluiu o seu conto – Mas nunca foi comprovado já que ninguém sabe como é esse tal caçador.

-A não ser alguém que o tenha ajudado a treinar – Scarlet comentou com um sorriso de lado – Vocês vão se surpreender. Fênix não é uma pessoa, mas um grupo que guia o tal caçador. Que por ventura é uma garota, na verdade. Vocês verão.

O assunto acabou por ali e eu tornei a me distrair em meus pensamentos obscuros e saudosos. Fiquei olhando pela janela sem me focar em nenhum ponto, sem prestar atenção realmente na capital. Nathan teve de mexer em meu braço para chamar minha atenção, havíamos parado em um novo shopping center. Desci do carro e coloquei meus óculos escuros, não precisava que meus olhos anunciassem para todos a minha tristeza e as olheiras pela falta de sono. Seguimos Scarlet para dentro do shopping e eu teria rido bastante de Lynn e Nathan admirado com qualquer coisa. Desde os hologramas de propagandas aos diversos tipos de loja e ambiente que tinha ali dentro. Quase perdemos a Lynn quando ela parou encantada demais com uma vitrine de roupas.

-Tinha de ser princesinha mimada até na forma humana – Scarlet não deixou de provocar e resmungar ao mesmo tempo.

-Como se você fosse deixar de ser uma pirata mal educada fora de seu navio – Lynn respondeu zangada.

-E eu pensando que esse romance de vocês ia parar essas brigas – comentei em tom de derrota.

-ROMANCE? – Scarlet encarou-me com os olhos bem abertos e levemente vermelha – Com ela? Não, já fiz minha boa ação do ano que foi ajudar você no resgate.

-É isso? – Lynn a encarou com um brilho diferente em seus olhos muito azuis – Como se eu fosse ter algo com uma pessoa de sua estirpe!

-O que quer dizer com isso?

-Não tínhamos de encontrar a Fênix? – Nathan lembrou e se pôs entre elas.

As duas se afastaram e eu revirei os olhos. Nathan iria para o paraíso, se existisse um. Scarlet seguiu a frente enquanto minha mãe caminhava de braços cruzados evidentemente contrariada. Elas eram tão orgulhosas a ponto de não perceberem que se gostavam? Pegamos um elevador com paredes transparentes, dando uma visão panorâmica de todo o shopping. Disfarcei o máximo que pude quando vi minha mãe agarrar inconscientemente o braço de Scarlet quando o elevador começou a subir pela surpresa do movimento.

Por fim fomos até a praça de alimentação que ocupava todo o quinto andar. Scarlet andava mais devagar, procurando alguém com os olhos um pouco cerrados até que por fim pareceu encontrar o seu alvo. Ela me puxou junto com o Nathan e nos encarou seriamente.

-Temos um pequeno contratempo. Eu sabia que ela estaria aqui, mas não imaginei que dessa vez estaria com a sua família – Scarlet começou a falar – A identidade da Fênix é um segredo até mesmo para seus familiares, que também são caçadores. É para protege-los e toda aquela baboseira de identidade secreta. Então vocês vão se aproximar, dizer que são amigos da Alexia e falar para ela que passaram um tempo no Acampamento de Verão. Entenderam?

-Acho que sim – respondi franzindo o cenho.

-Ficaremos ali tomando um milk-shake – Scarlet finalizou sorrindo e dando um leve tapa em nossos braços – Mãos a obra, meus pequenos aprendizes.

-Vai querer que te chame de mestre jedi agora? – ironizei a fazendo rir.

-Mestre jedi? – Nathan retrucou sem entender.

-Piada de nerd – expliquei e dei de ombros – Mas afinal, quem é a garota?

-Aquela morena ali.

Scarlet apontou para uma garotinha. Isso mesmo, uma garota de cabelos negros como ébano e que chegavam até o meio das costas com leves ondulações. Suas roupas eram da última moda e perfeitamente planejada para chamar a atenção. A pele era branca, mas não muito a ponto de poder ser comparada a Júlia, a fantasma camarada do Rio de Janeiro. Ela realmente estava com a família, três homens aparentemente mais velhos que ela e uma senhora que deveria ter os seus quarenta e poucos anos.

-Fala sério? Ela deve ser mais nova que eu! – comentei surpresa.

-Como eu disse, Fênix não é alguém, mas uma organização. Houve uma primeira Fênix que... Bem, morreu – Scarlet explicou – Há três anos Alexia assumiu o nome e vem sendo melhor que a primeira. Ela tem um futuro ainda mais grandioso que o meu. Agora vão.

Respirei fundo e segurei o braço de Nathan. Ele parecia um pouco inseguro, afinal era do tipo quieto e resguardado. Se para encontrar Dianna precisava daquela garota eu a teria em meu “time” mesmo que a arrastasse pelos cabelos. Assim, decidida, vesti a minha melhor máscara e abri um sorriso enquanto me aproximava da mesa da caçadora.

-Alexia? – chamei fingindo um tom de surpresa – É você?!

-Oi? – Alexia me fitou confusa e depois parou alguns segundos encarando Nathan.

-Fala sério menina! Como se esqueceu de mim? – abri o melhor sorriso que conseguiria naquele momento – O Acampamento de Verão!

Alexia fitou-me um pouco surpresa, mas segundos depois estava abrindo um sorriso tão falso quanto o meu. Escutei a senhora pigarrear e Alexia riu de forma afetada.

-Perdão! Pai, Elena, manos, essa é...

-Fernanda – murmurei para ela fingindo a lembrar de meu nome.

-A Nanda! – Alexia emendou rapidamente – Nos conhecemos no meu acampamento. Nanda, esses são meu pai, Augusto, minha madrasta Elena e meus irmãos Pedro e Henrique.

Pedro. O nome lembrou meu pai, mas no Brasil era um nome comum em qualquer região. Acenei um pouco e meu irmão apenas balançou a cabeça em afirmação. Os olhares dos irmãos dela estavam obviamente cravados em mim.

-Eu tenho tanta coisa para te falar – tratei de agir rapidamente, não era para socializarmos com os parentes da Fênix – Posso roubá-la um pouco? Por favorzinho?

-Claro, só fique com seu celular filha – Augusto permitiu com um sorriso fraternal.

-Porque não leva sua amiga lá em casa depois? Para um jantar? – Henrique logo agiu tentando sorrir charmosamente.

-Talvez – pisquei para ele, segurei o braço de Alexia e praticamente a arrastei para longe dali.

Afastamo-nos alguns passos e logo a garota puxou o braço de volta. Seu olhar estava completamente diferente, assim como finalmente percebi que eram castanhos esverdeados, começando com uma tonalidade de verde bonita e terminando ao centro com manchas marrons.

-Quem são vocês? – ela exigiu saber mais séria.

-Venha, tudo vai ser explicado – Nathan finalmente falou algo.

Seguimos para a mesa de Scarlet e Lynn praticamente do outro lado do prédio. Elas pareciam discutir alguma coisa como sempre fazia ao mesmo tempo em que tomavam milk-shakes. Alexia ao ver Scarlet quase deixou o queixo despencar e logo estava puxando a cadeira ao lado da pirata. Scarlet abriu um sorriso que pareceu bastante sincero, um que não brincava nos lábios da ruiva desde que tudo aquilo tinha acontecido. Eu e Nathan buscamos cadeiras extras para que pudéssemos sentar.

-Eu não acredito, porque não me avisou que vinha?! – Alexia exclamava animada – Seria uma honra recebe-la da maneira certa, Lettie.

-Não houve tempo – o sorriso de Scarlet morreu – Preciso de sua ajuda, em um modo de urgência que não poderia por em palavras. Eu fui traída.

O jeito da garota mudou completamente, sua postura e seu olhar tornaram-se mais sérios e até mesmo parecidos com a Scarlet. Fui fazer uma pequena piada sobre isso para Nathan, mas ao tornar meu olhar para o tritão ele estava bastante interessado na garota a sua frente. Franzi o cenho e tornei a olhar para Alexia. Sim, ela era bonita ao seu modo, porém patricinha demais. Mesmo que fosse a melhor no novo ramo de caçadora não parecia ao nível de meu irmão. Ah, sim, eu estava ciumenta!

-Não é o melhor lugar para conversarmos sobre isso. Coisas ouvem e falam – Alexia quase estava murmurando – Passarei um endereço para você, só preciso de um número de celular. Deverão me encontrar lá a meia-noite, é o tempo de enrolar a minha família.

-Eles ainda pensam que você é uma garota fútil e que nem sabe manusear uma faca de cozinha? – Scarlet tinha um tom de riso na voz.

-Obviamente. Usar facas de forma desnecessária poderia danificar minhas unhas – Alexia tornou a ser aquela garotinha com aparência mimada e depois riu – Você me ensinou bem. Laura teria orgulho de você.

-Laura? – Lynn questionou finalmente, observando atentamente quando Scarlet entregou seu celular para Alexia.

-Eles não sabem? Não são do Canção? – Alexia olhou desconfiada para mim, Nathan e Lynn.

-Novatos – Scarlet ficou um pouco tensa e fitou apenas a minha mãe – Era minha meia-irmã. A primeira Fênix.

-E quem são eles? – Alexia questionou rapidamente, não deixando que digeríssemos a informação de que a pirata tinha uma irmã que pela lógica estava morta.

-Está é Lynn, a princesa sereia – Scarlet apresentou com um inicio de sorriso nos lábios.

-A que teve um romance com o seu humano?! – a garota exclamou surpresa – A mesma que sumiu durante tanto tempo e...

-Sim, sou eu – Lynn a cortou e sorriu educadamente – Prazer em conhece-la, Fênix.

-Prazer é todo meu, sempre a admirei – Alexia estava com um jeito de que só faltava pedir um autografo.

-E esses são meus filhos. Fernanda e Nathan – Lynn terminou de apresentar.

-Fernanda é como você – a pirata acrescentou alternando o olhar de mim para Alexia – Meio-humana.

-Você também é meio-sereia?! – olhei para ela surpresa assim como ela olhou para mim.

-Não! Eu sou meio-celestial – Alexia respondeu – Talvez o último vestígio de minha raça. Longa história. Olha, eu tenho de ir, Lettie gravei o endereço no seu celular e não se esqueça, exatamente a meia noite ok? Encontraremos com a equipe nesse local.

Scarlet apenas acenou com a cabeça e sem nem ao menos despedir-se a garota afastou-se. Ainda era difícil de acreditar que ela era meio-humana assim como eu, ao mesmo tempo sendo uma lenda na caçada e com tempo de sobra de fingir ser outra pessoa. Quando parava para pensar assim até que minha vida parecia mais fácil. Ou o era quando Dianna estava em meu lado.

-Ela vai mesmo nos ajudar a trazer Dianna de volta? – perguntei hesitante, minha garganta parecia ter um bolo de emoções.

-Sim, como eu disse ela é meio-celestial e está na caçada contra os seres das Sombras por terem destruído sua raça. A história dela a ela pertence, se ela quiser contar a vocês o fará quando for necessário – Scarlet disse e suspirou – Acho que vou querer outro milk-shake.

Afundei na cadeira e olhei ao meu redor. Tantos humanos. Tantas coisas por trás da ignorância. Não recusei quando Nathan me chamou para comer alguma coisa, precisaria de minhas forças, pois de uma coisa eu tinha aprendido depois dessas loucuras que aconteciam em minha vida. Tudo poderia mudar no próximo segundo.

Notas finais
O que acharam da Fênix?