Amor Submerso

41 Capítulo 41: Julgamento


Notas iniciais
Gente, eu to sem aula e to conseguindo escrever direitinho! Isso é tão legal! E ah, a fic está em um momento focado de aventura, porque eu não consigo ser daquelas que termina um livro com as partes conversando e fingindo brincar de guerra u.u

Restavam quinze minutos. Alexia parou o iate em um ponto qualquer no meio do oceano e conferiu o seu GPS pelo menos três vezes antes de anunciar que tínhamos finalmente chegado. Coube a Nathan a missão de chamar Scarlet e Lynn de seu improvisado ninho de amor. Foi inevitável soltarmos algumas piadinhas sobre aquelas duas que ficaram o caminho inteiro dentro da cabine. Quando elas apareceram pareciam flutuar e querer sorrir a qualquer momento.

-Vocês três tomem cuidado – Scarlet pediu um pouco séria e depois sorriu soberba – Não façam nada que eu não faria.

-Não iremos detonar tudo pela frente e perguntar depois – debochou Lynn por puro costume.

-Se isso fizer você voltar nem ao menos hesite, vossa alteza – Scarlet acrescentou sem pensar, pigarreando para disfarçar – Vão logo, se não me engano só restam doze minutos agora.

Revirei os olhos e segui em direção à armação de segurança do iate. Lynn foi a primeira a saltar graciosamente na água. Fiquei em pé na grade e Nathan já estava assumindo o meu lado quando Alexia o puxou e roubou-lhe um beijo rápido e fugaz. Ele ficou extremamente vermelho quando ela disse que era apenas para dar sorte e o empurrou para a água. Saltei logo em seguida, transformando minhas pernas em um rabo de sereia quase que naturalmente. Havia me acostumado com aquela minha parte peixe. Porém olhei para Nathan com um olhar inquisidor e ao mesmo tempo debochado, como uma verdadeira irmã faria para perturbar ao seu irmão tímido. Ele engoliu em seco e nadou mais rápido tentando escapar disso e eu quase ri.

Debaixo do mar eu segui os dois na mais alta velocidade que nossas barbatanas poderiam permitir. Foi impossível não ver a Cidade Submersa, mesmo que a distância. Ela estava bem ao fundo, mas iluminava a todo o lugar, protegida por uma película quase cremosa e oval, uma barreira protetora. O aspecto era de uma enorme cidade que crescia ao redor de um morro. Havia rochas que representavam casas, formações de corais que lembravam lojas. Mal havia portas e janelas, era tudo muito aberto e lindo! A vegetação estava literalmente viva, movendo-se de acordo com a correnteza e muito da flora iluminava-se. Foi impossível não ficar encantada, com uma leve sensação de que estava adentrando um reino místico. Porém, assim que ultrapassamos a barreira sereias e tritões armados apareceram, apontando suas lanças e espadas em nossa direção.

“Ora, ora, chegou bem a tempo minha irmã. Só assim para ser pontual” – Irina apareceu com aquele seu ar arrogante e metida a superior.

“Não faz tanto tempo que nos encontramos, irmã” – Lynn respondeu em um tom calmo.

Duas outras sereias apareceram. Uma de cabelo loiro avermelhado e a outra literalmente ruiva. Ambas de olhos azuis e caudas azul e verde. Elas nos encararam com um olhar frio, porém ao olharem minha mãe ficaram, mesmo que por alguns segundos, com um jeito saudoso e complacente.

“Illy, Aurora” – minha mãe cumprimentou com um sorriso – “Vocês cresceram”.

“É o processo natural da vida” – a ruiva comentou e fechou a cara novamente – “Teria visto isso de perto se não tivesse fugido”.

“Vejo que ainda não me compreendes, Illy” – Lynn lamentou.

“Podemos deixar o reencontro familiar um pouco de lado?” – implorei aproximando de minha mãe com um olhar suplicante – “Preciso ver Dianna”.

“AH VOCÊ!” – Irina finalmente pareceu me reconhecer – “Não irá escapar de um julgamento por atacar-me!”

“Oh claro, toda a corte vai querer saber como uma sereia desconhecida derrotou a tão prestigiada princesa Irina com um único gole” – Nathan prontamente veio em minha defesa.

“Seu moleque, sua mãe não lhe deu instruções suficientes para que fosse educado e...”

“Chega!”

Irina pareceu empalidecer. De detrás das sereias, uma surgiu com uma aura extremamente intimidadora e forte. Ela possuía a maior cauda que eu já tinha visto, suas tatuagens eram mais ramificadas e seus olhos tão azuis quanto os de minha mãe. Havia uma coroa em sua cabeça com pedras brilhantes e pérolas de diversas cores. Ela era surrealmente bela! Cada traço era perfeito e proporcional, era como se tivesse nascido para que fosse admirada por qualquer ângulo e motivo. O cabelo era tão loiro quanto o de minha mãe, porém ainda maior e trançado. Ela aproximou-se de Lynn e parou a sua frente, as duas pareciam ter uma conversa mental particular, o que me deixava ainda mais curiosa com aquela figura.

“Guerreiros, levem minha filha para o Salão Real, onde o rei e meu marido a espera. A prisioneira humana está lá”.

“Espera, ela é a rainha então ela é...” – comecei a falar em choque.

“Sim” – Lynn completou em minha mente.

Aquela era a minha avó! Antes que eu processasse o que estava acontecendo, os guerreiros algemaram minhas mãos e a dos outros, praticamente nos arrastando por um entre a água, seguindo sempre para o norte. O Palácio Real era enorme, com direito a formações que lembrava torres pontiagudas e ligações que pareciam pontes ou passarelas. Seguimos por um corredor aberto, vários tritões e sereias paravam para nos observar. E claro, eu a eles! Afinal, aquele era parcialmente o meu lar, onde meu povo, querendo ou não, também vivia. Eu ficaria ainda mais encantada se não ficasse também ansiosa a cada nado palácio adentro. Foi fácil reconhecer o Salão Real, ele era como um verdadeiro saguão de um castelo, aberto e bem a frente no centro havia dois feitos de uma formação rochosa encrustada com pedras preciosas. Lá estava um tritão “sentado”, com cauda vermelha e olhar terrivelmente assustador. Mas não fiquei observando muito ao tritão rei, meus olhos quando deparam-se com uma jaula de ouro não puderam ver a mais nada.

Dianna estava lá, amarrada e meio que flutuando na água em puro tédio. Mas ao notar a movimentação virou em nossa direção e ficou o máximo possível colada as grades. Meu impulso foi o de nadar rapidamente em sua direção. Sai de dentro da formação de escota, driblando facilmente um guerreiro... Apenas para ser atingida com um choque nas costas. Bolhas saíram de minha boca abafando o grito de dor. Ao virar meu corpo vi Irina com uma espécie de cetro na mão e um sorriso superior nos lábios.

“Ninguém deu permissão, sereia” – ela avisou ficando mais séria novamente.

“Não seja insolente” – a rainha alertou em um tom neutro, mas que fez a filha tirar aquele sorriso irritante.

“Você está bem?” – Lynn nadou para perto de mim preocupada.

“Foi só uma faísca” – a tranquilizei apesar de ainda sentir incomodo em meus músculos.

A rainha fez um gesto para que continuássemos. Nadamos até a frente do trono e só então percebi que havia cinco tritões de cabelo branco ao redor do lugar. Não eram velhos, pelo contrário, sua fisionomia era sempre a de um homem em seus trinta anos. Meu olhar tornou a fixar Dianna, ela segurava nas barras com certa aflição e alívio mesclados. Eu queria quebrar tudo, pegá-la no colo e sair o mais rápido dali.

“Deixe que eu falo” – Lynn ordenou – “É para o nosso próprio bem e da Dianna, não se exalte!”.

“Entendido” – murmurei de volta.

O rei ficou em pé e esticou a mão para receber a sua rainha ao lado. Aqueles eram meus avós. As sereias princesas logo estavam abaixo deles, minhas tias. Irina, Illy, Aurora e a que eu tinha visto naquela comunicação via Skype mágico, Katreen.

“Que a sessão comece” – ordenou o Rei sem emoção nenhuma na voz – “Nossos sujeitos são Lynn, seu filho Nathan e...”.

“Fernanda” – Lynn acrescentou quando o rei encarou-me – “O nome dela é Fernanda”.

“Os crimes cometidos por esses três são terríveis. Quebra de leis ancestrais, perversão com humanos, desacato ao Rei, fuga e ataque a membros da realeza” – completou um daqueles velhos-jovens.

“Estou disposto a esquecer disso tudo” – o rei falou pausadamente, parecendo suplicar com o olhar – “Mas deverá renunciar ao mundo humano, nunca mais sairá do mar novamente!”

“Volte para casa, filha” – a rainha apelou.

Minha mãe estava tensa, Irina demonstrava completo desgosto. Os segundos transformaram-se em uma verdadeira tortura. Meu corpo estava agitado, ansioso e temeroso. Queria agir, queria ter Dianna em meus braços!

“Não posso renunciar a vida que eu escolhi” – Lynn falou calma, finalmente! – “Não me arrependo de nada, vossa Majestade. Há coisas acontecendo na superfície que eu não posso ignorar”.

“Está negando sua família outra vez!” – o rei alterou-se prontamente.

“Você nem ao menos pergunta o porque de minhas decisões. Não quero machuca-lo, papai, mas vou viver a vida pela qual escolhi lutar” – Lynn prosseguiu parecendo estar cansada.

“Está sentenciada a pagar por isso!” – o rei esbravejou, pegou o tridente e apontou para Dianna – “Como punição a invasão, considero essa humana uma espiã. Sua punição será a morte!”.

Meu coração pareceu parar naquele momento. Assim como o tempo. Toda a energia acumulada pelo meu corpo, apenas esperando para ser liberada quando tivesse Dianna em meus braços pareceu explodir em minhas células. Eu não pensei. Quando dei por mim estava seguindo meus instintos enquanto nadava mais veloz que nunca em direção ao rei. Nesse mesmo tempo o tridente liberava luzes vermelhas ameaçadoras e concentrava em sua ponta. Quando cheguei perto o suficiente minha mão foi de encontro ao cabo perto do garfo e o ergui sem hesitar, fazendo o ataque sair para o teto, quebrando uma grande rocha que se fragmentou em pedaços bem menores. Eu estava ofegante, o coração parecia prestes a ter uma taquicardia. Minhas tatuagens ficaram lilases, mas naquele momento eu não sabia que meus olhos também tinham adquirido uma tonalidade arroxeada.

Eu estava furiosa. E minha magia partia das emoções.

O tritão rei estava atuardido com a minha velocidade e audácia. Com um rápido giro de mãos eu roubei-lhe o tridente e apontei para ele com um olhar nada amigável. Isso foi o suficiente para que os guerreiros e princesas virassem contra mim como reação a proteção de seu rei.

“Jet zestó neró” – falei o encanto sem nenhum erro em minha tonalidade.

Um jato de água se formou e se moveu como uma serpente controlada por mim. Mas não era apenas água, eu havia mudado a temperatura daquela água específica a deixando próximo do ponto de ebulição, ou seja, extremamente quente. Atingi os guerreiros e fiz com que o jato batesse bem próximo de onde as princesas estavam.

“Eu disse que se encostasse nela eu iria por essa cidade abaixo” – meu tom de pensamento era baixo, mas completamente ameaçador.

“Mas como isso é possível?!” – um dos sábios perguntou incrédulo.

“Essa é uma magia avançada demais para ser feito dentro da água, pois a temperatura das moléculas ao redor tende a ter efeito sobre o ponto de ebulição!” – Aurora exclamou entre impressionada e assustada.

“Ela está segurando o tridente do rei, apenas a família real pode fazer isso sem sofrer consequências” – ouvi de alguém atrás de mim.

Ok, confusão armada. Afastei um pouco e apontei o tridente em direção a jaula. A sensação que eu tinha era de que eu sabia exatamente o que fazer, mesmo que nunca tivesse pegado em um item como aquele ou lido o seu manual. Simplesmente sabia. Assim, foi fácil lançar um pequeno raio de energia em direção a fechadura da jaula a abrindo. Fiz um sinal com a cabeça indicando a Dianna que ela deveria ir para perto de Lynn e Nathan. Quando a vi nadando finalmente encarei a minha mãe que me olhava apreensiva.

“Você disse que eu não devia falar nada, mas não disse nada sobre fazer algo!” – me defendi prontamente, como uma filha justificando um ato.

“O que está acontecendo aqui?!” – o rei exigiu saber – “Você é uma ameaça, sereia!”.

“Papai não seja tolo!” – dessa vez era Kat quem tomava à dianteira e nadava até mim – “Vocês estão esquecendo o principal! Olhe as marcas dela! Ela é abençoada por Anfritite, eu tenho certeza disso!”.

A surpresa de geral me fez sentir um pouco apreensiva. Tive vontade de fazer piadinha apenas para tirar aquele peso de olhares de cima de mim. Respirei fundo mesmo debaixo da água, segurei o tridente e ofereci ao rei com um olhar mais tranquilo. Eu ainda tinha raiva dele, mas o momento era delicado demais para que eu colocasse tudo a perder. O rei aceitou relutante e eu finalmente nadei em direção a Dianna. Meu corpo, minha mente, meu coração e alma entraram em sintonia quando finalmente a agarrei em um abraço apertado e forte. Dianna estremecia e parecia chorar, eu finalmente a tinha em meus braços novamente!

“Eu nunca mais perderei você!” – prometi em um fio de pensamento.

“Sei que não” – ela respondeu finalmente soltando-se de mim – “Seus olhos... Eles ficaram lilases também!”.

“Qualquer dia desses eu fico completamente roxa!” – resmunguei de mal humor com aquilo.

Ela sorriu e eu soube que havia salvado o mundo. Meu mundo.

“Eu exijo respostas!” – Irina se manifestou quebrando o clima.

“Você?” – perguntei ironicamente.

“Como Anfritite pôde ter escolhido uma sereia desconhecida? Isso vai contra a tradição!” – Aurora ponderava mais curiosa do que me julgando – “Algo está acontecendo papai!”

“Acho que poderei responder a maioria dessas perguntas” – Lynn finalmente se manifestou, olhou para mim extremamente hesitante e pareceu tomar coragem – “A tradição não foi quebrada. Fernanda não é uma sereia desconhecida. Ela é minha filha e de Pedro”.

“Está dizendo que você conseguiu ter o bebê e que ele sobreviveu?” – a rainha estava surpresa.

“Provavelmente apenas pela benção de Anfritite, não foi fácil, nem um pouco, mas eu tive a minha menina” – Lynn explicou pacientemente – “Poderei contar minha história, se for permitido”.

O rei e a rainha trocaram olhares, ele ainda estava irritado, mas ele tinha a obrigação de nos escutar, afinal aquilo envolvia a segurança do reino. Logo deu a permissão e minha mãe fez um resumo dos últimos acontecimentos, focando principalmente nela, no nosso primeiro encontro e dos treinos que se sucederam. E claro, aos encontros com o Povo das Sombras e a traição de Dante. Enquanto isso os braços de Dianna não me soltavam e eu não relaxava, tinha medo de que aqueles peixes surtassem e ordenassem um novo ataque. Todos escutavam atentamente, mal havendo interrupções desnecessárias. Esperava, do fundo de meu coração, que eles compreendessem o que estava acontecendo e nos deixassem partir logo.

“Uma guerra está acontecendo lá fora, pai” – minha mãe finalmente parecia concluir o seu monólogo – “O povo celestial foi praticamente dizimado já. Por isso não posso ficar aqui, tenho de lutar e proteger a tudo o que conheço, lutar ao lado de minha filha”.

“Eu entendo agora os planos de Anfritite” – Kat se manifestou e deu um sorriso enorme, como se tivesse acabado de montar um quebra-cabeça de mil peças – “A guerra não é mais apenas no mar, é em terra. Nosso escolhido, nosso campeão, não poderia ter o sangue apenas do mar em suas veias, mas também da superfície. É completamente compreensível e brilhante!”.

“Pra mim ainda é loucura” – comentei sem querer.

“Se o que você diz, se tudo isso for verdade” – rei começou com um tom pesado dessa vez – “Teremos de tomar medidas de guerra e...”.

“VOSSA MAJESTADE!”

Um tritão nadava ofegante e desesperado, invadindo aquela reunião inusitada parecendo ignorar os olhares de repreensão.

“Diga, comandante!” – ordenou o rei irritado.

“Es... Es... Estamos para ser a-atacados!” – ele exclamou desnorteado – “A patrulha norte, da Fenda do Dragão, foi dizimada!”

“Explique-se!” – a rainha exigiu.

“Foi por um Leviatã!” – o guerreiro exclamou assustado – “E não está sozinho!”.

Por alguns pouquíssimos segundos se fez silêncio, como se o choque fosse coletivo. Eu não sabia o que era um leviatã, mas para todos ficarem desse jeito, inclusive Irina e o Rei, algo bom definitivamente não era.

“Preparem o exército!” – o rei brandiu em prontidão – “Quero defesas reforçadas no perímetro da cidade, os magos devem fortalecer a barreira! Minha Rainha providencie que isso aconteça!”

“Prontamente”.

Ela ia se afastar, mas voltou para aplicar um beijo singelo no rei. Tudo de repente ficou tenso novamente. Mais um ataque, mais uma batalha. Dianna apertou meu corpo também ficando tensa.

“Temos de leva-la daqui e alertar Scarlet e Alexia” – Nathan aproximou-se.

“Ei velho!” – exclamei chamando a atenção do rei – “Poderia tirar essas algemas?!”

Ele resmungou algo e fez um gesto, logo as algemas se soltaram de nossos pulsos.

“Eu a levarei para o iate” – Nathan se prontificou – “Vocês duas são melhores em combate, devem ficar e proteger a Cidade”.

Segurei Dianna mais firme, a fitei, suspirei e a beijei. Um forte encaixe de bocas, impossível de saciar a saudade ou satisfazer meus desejos, mas ainda assim necessário e necessitado.

“Isso não é um beijo de despedida” – falei para ela séria.

“Um beijo de boa sorte” – ela sorriu fraco e colocou a testa na minha – “Fique inteira, ok?”

“Fique viva, ou terei de ir ao inferno sequestrar você”.

“Mas eu sou boazinha, eu vou para o céu”.

Sorri e dei um último e rápido beijo antes de deixa-la ir com Nathan. Maldito destino! Eu mal a tinha comigo e estava novamente a vendo partir. Quando tudo isso iria acabar para que eu pudesse ser feliz com minha mulher? Mas no meio de caminho ela parou e retornou com Nathan com uma expressão urgente no olhar.

“Eu tenho de dizer! O grande chefão disso tudo é um demônio que possuiu um corpo!” – Dianna fava rápido por pensamento – “Eu o vi enquanto fugia!”.

“Um demônio...” – murmurou minha mãe em um tom vazio.

“Isso não é o pior. O corpo é humano e quase não suportou a possessão, sendo necessários vinte anos para que ficasse completa” – Dianna começava a ter cautela, olhando de mim para Lynn – “Isso não tem jeito fácil de contar, então vejam em minhas memórias”.

Ela nos fez ficar concentradas em imagens de suas lembranças, segurou nossas mãos para que ficasse bem nítido. Vi a sala onde ela ficou aprisionada, como machucou os pulsos para se desamarrar, seguir por um corredor e ver Dante ao lado do demônio... Lynn soltou bruscamente a mão de Dianna, seu peito subia e descia como se estivesse tendo problemas respiratórios. Eu a entendia, pois meus olhos estavam arregalados e surpresos. Também reconheci o receptáculo escolhido, passei a minha vida vendo fotos de meu pai em diversos momentos e lugares.

“Não pode ser... Não pode ser!” – Lynn repetia parecendo entrar em surto.

“Mãe!” – a segurei pelos ombros de maneira firme, a fazendo me fitar – “Papai morreu, não é ele!”

“Mas... É o Pedro, é ele, ele está andando e...”

“Seu vínculo foi quebrado não foi? Então mãe! Pedro Fontaine está morto, aquele é apenas o seu corpo. Temos de chutar aquele demônio e vingar essa profanação. Não entre em desespero!”.

Ela precisou de uns dois minutos para controlar-se. Tudo ao nosso redor parecia um verdadeiro caos. Sereias e tritões nadando de um lado para o outro, por vezes auxiliados por animais marinhos. O rei discutia com tritões que pareciam ser seus comandantes e generais.

“Leve-a e tire Scarlet daqui” – minha mãe disse de forma controlada – “Temos prioridades, deter esse Leviatã”.

Fiz que sim com a cabeça e Dianna olhou para mim preocupada, apenas abracei a minha mãe para deixar todo mundo tranquilo. Eu não iria abandonar aquela sereia de forma alguma. Nathan então finalmente levou Dianna para longe de mim e do perigo. Olhei ao redor completamente perdida e finalmente fitei Lynn.

“Um Leviatã é tão ruim assim?” – perguntei em dúvida, afinal mal sabia o que era um leviatã!

“É um dos pesadelos do mar” – Lynn afastou-se um pouco e começou a nadar em direção ao alto – “Precisaremos de armas, precisaremos de fé e de sorte”.

Para mim era mais fácil pedir por uma bomba nuclear do que esperar pela sorte.

Notas finais
Eu acho, só acho, porque eu não planejo os capítulos muito bem, que estamos chegando na reta final.