Notas iniciais
Espero que gostem da história. Críticas construtivas são bem aceitas. Boa leitura!

Era um dia ensolarado, um dia daqueles que parece que o Sol vai destruir todas as coisas vivas. Eu estava morrendo de calor, era como se fosse derreter a qualquer momento. Caminhava lado a lado com Heitor, que estava estranhamente calado.

— Por que você está assim? — perguntei de súbito, rompendo a quietude do momento.

— Assim como? — indagou de volta num tom de voz desanimado.

— Calado, triste, ausente….

— Não é nada — disse sem nem ao menos me olhar — Deve ser o calor — completou após um momento de silêncio.

Algo estava acontecendo com ele, mas por algum motivo ele não queria revelar. Isso me deixava preocupada, todavia eu não queria forçar o meu amigo a falar sobre algo que ele não estava com vontade.

— Eu vou ver o Guilherme. Você quer ir comigo?

A ausência de conversa estava me incomodando muito. Voltar da escola com Heitor era ter a certeza de uma volta animada. Falávamos de diversos assuntos e ríamos de qualquer bobagem. Ele era a minha alma gêmea, em forma de amigo, nós não tínhamos segredos e sempre nos divertíamos no longo e deserto caminho de volta para casa. Eu, ele e Guilherme, ausente naquele momento por motivos de saúde, apreciávamos muito a companhia um do outro.

— Não sei se é uma boa ideia.

— Por quê? Você acha que o coitado não merece uma visita? — interroguei.

— Ângela, não se faça de boba, você sabe do que eu estou falando.

— Do meu pai?!

— Não, do papa — rebateu num misto de irritação e ironia.

— Ele não vai saber se ninguém contar.

— Tudo bem. Nós vamos, eu também estou preocupado com ele, mas você sabe que não podemos demorar.

— Sim, eu sei.

A nossa caminhada seguiu silênciosa. Em algum momentos tentei puxar assunto. Todavia, não importava do que eu tentasse falar, Heitor não dava continuidade a conversa, o assunto simplesmente não fluía.

Ao chegarmos na casa de Guilherme, fomos recepcionados por ele, que ainda estava um pouco doente.

Heitor e eu sentamos no sofá, localizado frente à poltrona onde Guilherme estava sentado.

— Onde está sua mãe? — perguntei preocupada.

Guilherme estava se recuperando de uma forte virose e ainda estava tendo alguns episódios de febre. Não era bom que ele ficasse em casa sozinho.

— Ela foi na cidade, precisou comprar algumas coisas.

— Você está melhor, cara? — questionou Heitor.

— Sim, já estou quase como novo, graças ao seu Lulu e à minha amada. A mistura de ervas feita por ele está fazendo efeito mais rápido do que todos os remédios que eu estava tomando.

Era uma pena, o fato do meu pai não aceitar o meu namoro com o Guilherme. E pena maior ainda era ele nem ao menos saber que o remédio para dona Alzira não era para dona Alzira, mas sim para o meu namorado, odiado por ele, pelo simples fato de ser negro.

— Você irá ficar bom logo, as ervas do meu pai são poderosas.

— Sim, eu sei disso.

— Mas se você piorar é melhor ir ao médico, pois eu acho que meu pai não vai querer lhe atender...

—.Fique tranquila, eu vou ficar bem.

— Não sei como você quer ser médico, se acredita mais em ervas do que em remédio de farmácia — pontuou Heitor.

— Serei médico homeopata. Não farei os meus pacientes alimentarem essa maldita indústria farmacêutica — argumentou em tom de indignação.

— Ele parece mais filho do seu pai do que você, Ângela — disse com um riso debochado.

Papai odiava médicos alopatas com todas as suas forças. Ele dizia que os farmácos destruíam o corpo e entristeciam a alma. Para ele, tudo que o ser humano precisava, para o bem e para o mal, estava na natureza.

— Amor, mais tarde você vem estudar comigo? Estou me sentindo muito perdido. Preciso pôr os assuntos em dia. Fiquei muito tempo sem estudar...

— Se eu conseguir dar um perdido no meu pai, eu venho sim, mas não prometo nada. Ele provavelmente não vai sair, é tempo de Lua Minguante. Ele sempre evita sair nesse período.

Meu pai era um homem extremamente místico, a nossa vida era guiada pelas fases da Lua. A Minguante era a Lua má, coisas ruins eram mais propensas de acontecer nesse período, negócios não deveriam ser fechados nessa Lua. A Crescente, como sugerido pelo próprio nome, indicava crescimento, um bom período para fazer plantações ou abrir um negócio. A Nova, era boa para quem quisesse realizar uma mudança de qualquer natureza, essa mudança teria a ajuda dos bons espíritos. A Cheia era a melhor de todas, papai costumava dizer que era quando Deus se aproximava mais de nós, abençoando a todos, principalmente, a aqueles que desejassem se casar. Casamentos realizados na Lua Cheia, durariam a vida inteira.

— Mas ele deve dar aquele cochilo vespertino… Ou você pode ir estudar com a Flávia.

— Você sempre me levando pro mal caminho…

— Vocês dois já estão no mau caminho — intrometeu-se Heitor.

Ao olhar para o meu relógio de pulso, notei que já estava um pouco tarde. Eu não poderia mais ficar ali. Meu pai provavelmente já tinha notado o meu atraso e com certeza brigaria comigo.

— Acho que já está na hora de ir embora — disse despendido-me.

— Mas já? Você não me deu nem ao menos um beijinho.

Atendi ao pedido dele e trocamos um beijo apaixonado, porém rápido. Beijar Guilherme na frente de Heitor, era um pouco embaraçoso para mim, eu ficava constrangida por deixar o meu amigo de vela.

Heitor e eu fomos em direção à minha casa. Por algum motivo, ele havia tornado-se mais falante.

— Estou com medo de ir pra Salvador. É uma cidade grande, não conheço ninguém lá. Você não tem medo?

Estávamos no último ano do ensino médio e como morávamos numa cidade muito pequena, precisávamos ir para a capital, caso desejássemos ter uma graduação.

Eu já tinha ido a Salvador duas vezes. A cidade era muito bonita, porém muito barulhenta e cheia de gente. Foi um terror ficar desviando das pessoas em plena Avenida Sete, eu nunca tinha visto tanta gente junta.

Apesar de todo barulho e de ter tanta gente dividindo o mesmo espaço, Salvador era uma cidade instigante para mim. Lá eu poderia fazer um monte de coisas que não poderia na minha cidade como, por exemplo, ir ao cinema com uma maior frequência, pois o cinema mais próximo de mim, ficava a três horas da minha cidade.

— Um pouco, mas sei que vai ser bom. Vamos poder conhecer um monte de gente. Sair desse fim de mundo. Imagina como deve ser legal poder ir ao cinema todo fim de semana?

— Sim, deve ser bom. Deve ser bom ir num cinema com ar condicionado e que não fede a mofo.

— E o melhor de tudo, um cinema perto de você e não uma porcaria no fim do fim do mundo.

— Salvador parece menos assustadora agora. Espero que a faculdade também não seja tão assustadora.

— Heitor, fique tranquilo. Não entendo todo esse medo. Vai dar tudo certo, meu amigo. Saíremos dessa roça e seremos felizes.

— Você não vai contar pro Guilherme? — indagou do nada.

— Contar o que?

— O motivo pelo qual seu pai não gosta dele e não permite esse namoro.

— Esse motivo é tão estúpido… Tão nojento... Eu não gosto nem de pensar em falar isso pra ele. Além do mais, o Gui é inteligente, infelizmente ele já deve ter percebido.

Quando chegamos na frente da minha casa, vimos meu pai na varanda. Ele parecia me esperar e não aparentava estar muito feliz.

— Pelo visto demoramos demais. Deixa eu ir logo antes que a fera fique ainda mais furiosa.

Andei um pouco e antes de eu me afastar muito, Heitor me chamou. Parei e ele foi até mim. Depois de um tempo em silêncio, avisou:

— Não esqueça de levar o livro de geografia amanhã, o professor vai fazer atividade pontuada.

Por algum motivo, algo nos seus profundos olhos azuis me diziam que não era bem isso que Heitor queria dizer. Ele estava estranho, algo estava acontecendo.

Ao aproximar-me de papai, veio a bronca.

— Onde você estava? Você sabe que é Lua Minguante. Não é bom ficar muito tempo a toa por aí, estão assaltando na estrada direto — esbravejou.

— Eu estava voltando pra casa. Como o senhor viu, eu estava com o Heitor.

Antes que eu pudesse entrar dentro de casa ele segurou o meu braço com força e questionou:

— Fale a verdade, eu sei que você estava com aquele negro.

Respirei fundo e não respondi. Diante do meu silêncio ele acabou apertando o meu braço e com raiva novamente solicitou a verdade.

— Pai, eu estava com o Heitor, o senhor viu ele.

— Espero que esteja falando a verdade.

— Por que eu não posso namorar o Guilherme? Por que o senhor não esquece esse seu racismo idiota? — interroguei com a voz trêmula.

Aquela situação sempre provoca um intenso nervosismo em mim. Eu adorava o meu pai e não queria desapontá-lo. No entanto, não conseguia entender o porquê um homem tão bom quanto ele era um racista nojento.

— Eu não sou racista. Já disse isso a você, só não gosto daquele rapaz — disse me soltando.

Ao olhar para o meu braço pude ver que uma grande mancha vermelha contrastando com a minha pele branca.

— Por que o senhor não gosta dele? — perguntei com os olhos lacrimejando.

O racismo do meu pai me deixava triste. Sempre surgia em mim uma vontade de chorar quando ele se mostrava contrário ao meu namoro.

— As vibrações dele… Ele tem uma energia muito ruim. Pressinto que com ele você só terá dor e sofrimento.

— Pai, por favor, não inventa. O Gui tem uma energia maravilhosa. Sempre me sinto bem com ele.

— Seu mal é não me levar a sério. Você não percebe isso agora, mas no futuro, tudo ficará evidente e você irá se arrepender. Se você ficar com esse negro, irá chorar lágrimas de sangue.

— Não me amaldiçoe assim. Eu sou sua filha, o senhor deveria me desejar o melhor.

— Ângela, eu não estou te amaldiçoando. Estou falando a verdade. Sabe quem tem boas energias e só te fará bem?

— Quem?

— O Heitor.

— Sim, o branco sempre tem boas energias — declarei irritada — Esse seu racismo me enoja — completei entrando em casa e indo diretamente para o meu quarto.

Fiquei trancada no quarto por um bom tempo, tempo suficiente para que o meu pai pudesse iniciar a sua soneca vespertina, me deixando livre para ir ver o meu amado.

Saí do quarto e dei uma rápida olhada na direção do quarto de papai, ele estava dormindo.

Quando eu já estava prestes a sair acabei tropeçando num vaso de planta, com o barulho, meu pai acordou e rapidamente foi até a sala verificar a fonte do ruído.

— Pra onde você pensa que vai? — questionou com visível estresse.

Notas finais
ATENÇÃO: As informações aqui narradas sobre as fases da Lua, são completamente fictícias.