— Pra casa da Flávia.

— Hoje não. Não te quero na rua. Já disse mil vezes que é Lua Minguante, coisas ruins podem acontecer.

O tom de sua voz evidenciava total preocupação. Papai seguia as fases da Lua à risca, principalmente a Minguante, pois foi quando eu nasci e ele perdeu minha mãe no parto.

Resolvi chegar a esse mundo um pouco antes do previsto, meu pai não estava pronto para fazer um parto de emergência. Ainda mais um parto em plena Lua Minguante, o que o deixou intensamente nervoso.

Foi um parto muito complicado. Ele tentou todas as suas rezas, tentou contato com todos os seus amigos espirituais. Todavia, foi tudo em vão, ele perdeu minha mãe. Ela morreu nos braços dele e ele se sentiu um inútil. Depois da morte dela, ele enfrentou um período de imensa tristeza e os dois primeiros anos da minha vida passei com uma tia, que cuidou de mim, até papai melhorar. Então, fui morar com ele.

Cresci me sentindo culpada pela morte de minha mãe. Por que não eu? Se eu tivesse morrido eles poderiam viver felizes. Durante muito tempo, um sentimento de culpa tomou conta de mim. Até que um dia, papai me encontrou chorando e quando externei o motivo, ele me tranquilizou, disse que um dia antes dele me buscar na casa de minha tia, mamãe apareceu para ele e lhe disse que havia morrido, pois tinha uma missão importante para cumprir no plano espiritual, mas que, em uma vida futura eles se veriam novamente e se amariam mais uma vez.

Achava aquela história tão linda. Era bonito imaginar que um amor poderia ultrapassar essa vida e seguir pelas outras vidas.

— Tudo bem, eu vou mandar uma mensagem pra ela e avisar que não vou.

Voltei pro quarto e avisei a Guilherme que não poderia ir vê-lo. Ele ficou um pouco chateado, porém entendeu.

Estudei muito aquela tarde. Fazia um bom tempo que eu não estudava com tanto afinco. Talvez eu tenha feito aquilo para tentar esquecer um pouco das atitudes racistas do meu pai.

O meu maior desejo era poder ir estudar na capital. Obviamente, porque eu desejava muito poder estudar engenharia civil, mas também porque lá eu poderia ser livre e viver o meu amor com o Guilherme.

[...]

Uma semana se passou e Guilherme então, totalmente recuperado, voltou a escola. O retorno para casa tornou-se ainda mais agradável. Pude então voltar para casa com o meu melhor amigo e o meu namorado, situação melhor era impossível.

Heitor e eu deixamos Guilherme em casa e seguimos o nosso trajeto. Heitor parecia nervoso, mas estava extremamente falante. Ia emendando um assunto no outro, impedindo o silêncio de se instalar entre nós.

Quando chegamos a minha casa ele me entregou um envelope.

— O que é isso?

— É algo pra você, algo que eu nunca conseguiria dizer — respondeu, afastando-se de mim a passos rápidos.

Entrei em casa e fui direto para o meu quarto e abri o envelope, Heitor tinha escrito uma carta para mim.

Querida Ângela;

Não sei muito bem como começar essa carta. Estou muito nervoso, acredito que isso seja perceptível pela minha escrita trêmula.

Nós somos amigos desde crianças. Desde a infância nutrimos um sentimento de afeição mútua, mas preciso confessar, preciso soltar algo engasgado há tempos na minha garganta: sinto muito mais que uma afeição por você. Eu sinto um amor, um amor tão intenso….

Sinto a minha alma dilacerada toda vez que lembro que não podemos pertencer um ao outro, pois você já tem outro alguém, isso me deixa tão frustrado… Me sinto um babaca por ficar fantasiando nós dois juntos.

Eu te amo imensamente. Não faço a mínima ideia de quando esse sentimento surgiu, só sei que ele surgiu e eu não aguentava mais guardar isso só para mim, eu precisava confessar todo esse amor, mesmo sabendo da inexistência de uma reciprocidade.

Caso um dia, você e o Guilherme perceberem que não se amam mais, saiba que estou aqui, esperando pelo dia no qual os nossos lábios poderão enfim se tocar.

Heitor

— Ângela, Ângela. Você já chegou?! — ouvi papai bradar.

No susto abri a mochila e joguei a carta dentro do meu caderno.

— Estou no quarto pai.

— Venha aqui fora.

Atendi seu pedido e fui até ele.

— Passei a manhã catando algumas ervas. Vou fazer uns remédios novos, quero que você me ajude. Acho que já está na hora de você aprender a como misturar as ervas. Um dia você será minha substituta.

— Pai, eu não vou ser sua substituta. Eu já te falei que quero estudar engenharia civil.

Meu pai começou a balançar a cabeça negativamente, parecia estar furioso.

— Não, você não vai. Eu não vou permitir isso. Não sei de onde você tirou essa ideia ridícula de fazer faculdade, o ensino médio já é o bastante para uma mulher — vociferou.

— O senhor só pode ser mesmo um bruxo, como dizem por aí, só assim para justificar essa sua mente tão medieval. Nós estamos no século XXI. Mulheres vão à faculdade, sabia?!

— Você quer jogar a tradição de curandeirismo da nossa família fora pra fazer um curso de macho, você é uma vergonha pra mim — bradou enfurecido.

— Vergonha é o senhor, seu Luis Antônio pensar assim, pois fique aí com as suas plantinhas, aproveite e faça um chá pra se acalmar — externei aos gritos enquanto saía dali.

— Por que você é assim? Por que você é tão sem coração? Quem vai ajudar as pessoas quando eu não estiver mais aqui? — interrogou, seguindo-me.

— Não sei, um médico talvez.

— Deixe de ser idiota. Se alguém passa mal no meio da noite, aqui nesse meio de nada, eu chego mais rápido do que a pessoa consegue chegar na cidade ou que um médico consegue chegar aqui.

— Pai, eu só não quero passar a minha vida toda nesse fim de mundo, brincando com plantinhas. Eu quero ir além. Quero viver na cidade grande, conhecer pessoas e…

Acabei cortando a fala, eu iria falar de Guilherme, mas seria estúpido fazer isso, falar sobre o meu amor, só faria meu pai bradar todo o seu preconceito racial e eu já estava cansada de tanto racismo.

— E viver o seu grande amor? — questionou franzindo o cenho.

— Sim, isso também. Quero poder viver o meu amor com o Guilherme longe de todo o seu preconceito.

— Espero que vivam esse suposto amor bem longe de mim mesmo. Não quero ver a desgraça que será a sua vida e a dos seus filhos — declarou afastando-se.

— Ah, eu não brinco com plantinhas, eu salvo vidas — disse voltando alguns passos na minha direção.

Fui até o meu quarto e peguei a minha mochila. Toda aquela discussão fez o meu sangue ferver, eu precisava andar um pouco para poder descarregar a minha raiva e nada melhor do que o unir o útil ao agradável, decidi ir caminhando até a casa de Guilherme.

Ao chegar na casa de meu amado cumprimentei minha sogra e esta disse que Guilherme estava no quarto estudando.

— Você por aqui? — indagou surpreso.

— Sim, vim estudar contigo.

— E o seu pai? Reclamou muito?

— Acho que ele nem me viu sair, nós discutimos. Ele inventou que eu tenho que ser a sucessora dele. Não posso ir pra Salvador estudar.

— Amor, você sabe o quanto os assuntos místicos são importantes para ele, ele deve ficar chateado ao pensar que tudo irá acabar quando ele morrer.

— Eu não quero mais falar disso. Vamos estudar, é bem melhor — sugeri, abrindo a mochila e pegando o caderno.

Assim que peguei o caderno a carta de Heitor caiu e antes que eu pudesse pegá-la Guilherme a pegou.

— O que é isso? — questionou com o envelope em mãos.