Amor & Preconceito
3 Tentativa Frustrada
— Não é nada — respondi puxando o envelope.
Guilherme segurou a carta de forma firme e eu não consegui pegá-la.
— Se não é nada, então me deixe ler.
Senti um frio na barriga. Não sabia como meu namorado iria reagir ao saber que o Heitor gostava de mim.
— Caso um dia, você e o Guilherme perceberem que não se amam mais, saiba que estou aqui, esperando pelo dia no qual os nossos lábios poderão enfim se tocar — leu visivelmente irritado — Então esse maldito quer ver o fim do nosso relacionamento? Pois ele vai se ver comigo agora mesmo — vociferou raivoso enquanto deixava o quarto.
— Guilherme, calma — clamei o seguindo.
Consegui alcançá-lo, mas não fui capaz de o convencer a não ir atrás do Heitor.
Andávamos a passos rápidos, estávamos praticamente correndo.
Quando chegamos a casa do Heitor, ele abriu a porta e assim que o fez, recebeu um forte soco de Guilherme, que o fez cair no chão.
— Isso é pra você aprender a não cobiçar a namorada dos outros — esbravejou Guilherme retirando-se dali.
— Desculpa — pedi antes de ir atrás de Guilherme.
Ele continuou deitado no chão, parecia muito assustado com o que tinha acabado de acontecer.
Heitor ao contrário de Guilherme não possuía muitos músculos, a sua força física era muito inferior a do meu namorado. Felizmente, seja pelo susto ou por bom senso, Heitor não veio atrás de nós para revidar o soco e iniciar uma briga.
— Não precisava isso, você se comportou como um animal — reclamei.
Ele não respondeu nada, apenas continuou andando.
Quando chegamos à sua casa fui direto ao quarto dele pegar minha mochila, estava muito chateada com o que ele tinha acabado de fazer, caso ficasse ali, provavelmente iríamos discutir.
— Você já vai?
— Sim — respondi secamente.
— Desculpa, eu não queria bater no Heitor, foi uma decisão impulsiva, eu fiquei com raiva, me senti traído por ele.
Respirei fundo e em seguida, falei:
— Eu não quero falar sobre isso, preciso ir agora.
Ele não disse mais nada e me deixou ir embora.
[...]
Ao chegar em casa encontrei meu pai bebendo chá de erva-cidreira.
— Resolvi seguir o seu conselho — disse ao me ver.
Depois de todos os acontecimentos daquele dia, eu também estava precisando de um chá de erva-cidreira. Eu precisava relaxar um pouco.
— Ainda tem?
— Sim, a garrafa térmica está cheia.
Peguei uma xícara e pus um pouco de chá para mim. Então, sentei na mesa, em frente ao meu pai.
— Cada dia você fica mais parecida com a sua mãe… Você tem sorte de ter herdado o biótipo dela, não precisa ficar fazendo um montes de dietas que nunca funcionam, igual a mim — observou com um leve riso no rosto.
Fiquei feliz dele não reclamar por eu ter saído. Seria insuportável ter que discutir com ele novamente naquele dia. No entanto, ele falar da mamãe foi algo que me deixou triste. Papai sempre ficava melancólico quando falava desse assunto.
— Talvez o senhor devesse procurar um nutricionista.
— Não vai adiantar, nunca adianta. Eu sou um gordo incorrigível — brincou.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, mas mantivemos o olhar fixo um no outro, era como se conversássemos através dos nossos olhos. De repente, meu pai rompeu a quietude do momento.
— Eu não quero que você vá embora, você é tudo que eu tenho — expôs com os olhos lacrimejando.
— O senhor pode ir pra Salvador também.
— Não, eu nunca me acostumaria a morar lá, aquela cidade é um inferno, gosto da paz daqui.
— Pai, é importante pra mim.
— Você também é importante para mim.
— Eu nem sei se vou passar, então acho melhor não sofrermos por antecipação.
Papai levantou de sua cadeira e veio até mim, e me deu um abraço apertado. Quando ele soltou-se do abraço estava em lágrimas.
— Não chore. Por que o senhor está chorando? — questionei acariciando sua face.
— Porque sei que vamos nos separar. Eu te amo, Ângela e não quero ficar longe de você.
— Pai, eu também te amo, mas por favor não chore, não vamos nos separar — disse já entregue às lágrimas também.
— Vamos, eu sei que vamos — rebateu, deixando a cozinha e indo para o seu quarto.
[...]
Um mês se passou e durante esse período nós não conversamos mais sobre eu ir ou não para Salvador. Acabei aceitando aprender mais sobre as ervas. Surpreendi-me muito ao ver que já tinha aprendido muita coisa, apenas observando o meu pai. Papai também me ensinou rezas poderosas, que segundo ele eram muito mais eficazes do que remédios de farmácia.
Todo o misticismo de meu pai era algo que me encantava. Tinha muito respeito por todas as crenças dele, acreditava em muitas delas também, porém muitas coisas contadas por papai, pareciam ser completamente impossíveis como, por exemplo, a história de que ele estancou um sangramento fortíssimo apenas com reza. Ele dizia que isso só foi possível, porque ele também era médium, então um amigo espiritual o ajudou. Com certeza, se eu resolvesse ser curandeira, perderia muito por não ter a mediunidade de papai.
Heitor havia se afastado de mim e de Guilherme, ele nem sequer olhava mais na nossa cara. Isso me deixava imensamente chateada, uma vez, tentei falar com ele, mas Heitor foi extremamente grosso comigo e me culpou por Guilherme ter visto a carta.
Apesar de eu e Guilherme estarmos mais apaixonados do que nunca, meu pai continuava a rejeitar o nosso namoro. Tudo indicava que não existia nem erva, nem reza capaz de curá-lo do maldito preconceito.
Estava voltando pra casa com Guilherme e nós já estávamos quase na porta da casa dele. Então despedi-me, mas a minha despedida foi rejeitada.
— Não, hoje eu vou com você até a sua casa, já é hora de eu conversar com o seu pai.
— Amor, é melhor não fazer isso. Ele só vai te destratar.
— Eu preciso conversar com ele, me deixe fazer isso.
— Isso é uma péssima ideia.
— Mas eu preciso fazer.
Ao chegarmos em frente a minha residência vimos papai na varanda. Ele estava colocando algumas ervas para secar.
— Boa tarde, seu Lulu — Guilherme disse aproximando-se de meu pai.
— Só os meus amigos me chamam de Lulu, pra você é Luis Antônio.
— Seu Luis Antônio, eu quero conversar com o senhor.
— Fale que eu estou ouvindo — respondeu com desdém.
— O senhor sabe que namoro com a sua filha há quase um ano. Namoramos sem a sua permissão, mas agora eu quero dar um passo importante com ela e eu acho que talvez o senhor tenha mudado de ideia. Talvez, agora me veja de forma diferente e possa então permitir que eu me case com a Ângela.
O pedido de casamento me deixou imensamente surpresa. No entanto, a reação de papai não foi nenhuma novidade.
— O que? Você está louco, seu negro maldito? Você acha que eu iria permitir isso? Você acha que eu quero ter netos mulatos? Você enlouqueceu? — interrogou papai aos gritos, partindo pra cima de Guilherme.
Guilherme ficou sem reação, papai o segurava pela gola da camisa com uma força absurda.
— Pai, por favor, solte ele — implorei.
Papai o soltou e Guilherme vociferou extremamente enfurecido:
— Depois não diga que não pedi permissão.
— Saía daqui agora, nunca mais ouse pisar no meu terreno — ordenou.
Entrei em casa sem nem ao menos olhar para o rosto do meu pai e fui direto para o meu quarto.
— Ângela, abra essa porta, é uma ordem — vociferou batendo na porta do meu quarto.
Obedeci e assim que eu o fiz, ele num tom de voz completamente tomado pela raiva, declarou:
— Ângela, se afaste desse preto desgraçado, eu já te disse que você irá chorar lágrimas de sangue com esse maldito, me ouça, Ângela.
— Era só isso? — indaguei com uma falsa calma.
Ele não respondeu e apenas saiu dali e voltou para as suas ervas.
[...]
No dia seguinte, no caminho de volta para casa, Guilherme me revelou algo.
— Eu tenho uma tia em Salvador, o marido dela acabou de morrer, ela não tem filhos, está sozinha e disse que nós podemos ir pra lá. Você quer ir prá lá? Você quer viver comigo, Ângela?
— Eu não sei, não sei se vai dar certo a gente morando de favor…
— Seria um favor para nós e para ela, seria unir o útil ao agradável, meu amor. Minha tia está se sentindo muito solitária.
— Quando iríamos?
— Hoje mesmo.
— Hoje mesmo? Você enlouqueceu?
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