Amor Platônico
5 Eu estou preparada
Notas iniciais
O meu aniversário estava chegando. Como nos anos anteriores um pequeno jantar com a família e alguns presentes. Era isso o que eu esperava.
– Chame seus amigos! Eu compro umas guloseimas e nós podemos fazer uma festinha! – Dona Amanda tentou imitar a animação de um jovem. Eu ri, mas não porque achei a piada engraçada e sim por causa do nervoso que seria chamar meus amigos – amo essa palavra – para uma festa de alguém que era pateticamente antissocial.
Desde que mamãe tomou conhecimento das minhas novas companhias escolares, ela estava assim. Animada, feliz por mim. No fundo, eu era contagiada pela sua alegria, apenas não sabia demonstrar corretamente.
– Mulher – alertou papai. – Deixa ela fazer o que quiser.
Oh, eu te amo por isso.
Mesmo assim, mamãe nos persuadiu até conseguir o que queria. Cabeça dura.
Foi extremamente difícil dar essa notícia a eles.
– Hmm – limpei a garganta. – Ficarei mais velha esse fim de semana. – Mordi o lábio, temendo que eles ficassem entediados com meu comentário.
No mesmo instante, Melissa abriu um sorriso enorme, mostrando todos os seus dentes brancos e sincronizados. Ela ficou tão iluminada, como se estivessem a acertado com uma flecha da alegria.
– Não ligue, Agatha. Melissa ama aniversários. – Gabriel clareou minha mente. Meu semblante estupefato diminuiu um pouco.
– Oh, como ama. – Raíssa resmungou. Às vezes eu sentia que minha presença a incomodava. Em outras, eu a vi sorrir só por estar sentada ao lado de Henri. O que não aconteceu hoje. Adivinha? Pegou o lugar ao meu lado.
Ela tinha uma queda enorme por Henrique e no fundo ele percebia isso. Talvez não soubesse como corresponder.
– FESTA! AHH! Nós precisamos organizar cada detalhe… E a roupa? Deus, porque não me falou antes Tha… – Mel resolveu soltar toda a sua euforia.
Corei.
– Não vai ser nada grandioso – expliquei. – É só pra não passar em branco.
Bryan resolveu mostrar que tinha voz.
– Melissa é Melissa, Agatha – revirou os olhos.
– Nós vamos escolher um vestido pra você – eu sabia que na verdade não existia “nós”, pois quem iria decidir o vestido seria ela mesma . – E depois vamos montar uma decoração super fofa! Acha que sua mãe pode cuidar da comida? Henri compra as bebidas, essa é a especialidade dele –
– Ei! – meu amigo enorme interrompeu com um protesto. – Está me chamando de bêbado?
– Não sou eu que bebi dez doses de vodca semana passada – Bryan zombou – Você é um beberrão, não sei como nunca entrou em coma alcoólico – riu.
Raíssa se enfureceu.
– Não fala dele assim! Você também não fica atrás, seu mulherengo idiota!
O clima ficou desconfortável. Principalmente pra mim. Odeio brigas.
Se Henrique gostava de beber, eu é que não ia julgá-lo por isso. E se Bryan curtia seu modo de vida “pegador”… Eu não queria me lembrar disso.
– Mel, escolha meu vestido por mim, certo? Absolutamente, não sei me vestir. Henri, traga as bebidas. Só não se esqueça de que adolescentes menores de idade ainda tomam refrigerante. Hmm, vou procurar Joana e pedir pra que ela cuide da decoração. Minha mãe vai cuidar das coisas comestíveis. – Eu não tinha a menor noção de onde veio essa coragem. Mas entendi que com os poucos eu ia me soltar e talvez um dia agir como uma menina normal. – Se Bryan quiser trazer cinco ou dez mulheres pra festa não é da minha conta. Encontro vocês no domingo. – Peguei minha bandeja e fui em direção ao lixo, enquanto cinco pares de olhos arregalados me olhavam.
Eu havia perdido a fome.
* * *
Era hoje.
Hoje eu iria completar 18 anos de idade, e ter que assumir qualquer consequência da vida sozinha.
Mas, não era só isso.
Eu sabia que Melissa iria convidar praticamente a escola inteira. E agradeci a Joana por ter resolvido fazer a festa no jardim, pois não teria espaço o suficiente para todos.
E, por fim: minha aparência.
Não era tão estúpida pra usar aquele capuz, logo no dia do meu aniversário. Então, só me restava rezar para que as pessoas me achassem aceitáveis. Ou seja, não ficassem com medo de mim.
Durante a semana, eu passei quase o dia todo assistindo programas de beleza. Porque eu sabia que iria ter que usar maquiagem pela primeira vez na vida – inacreditável – e principalmente, escolher com Melissa a roupa certa pra esse dia.
É óbvio que a Mel quis me arrumar dos pés a cabeça. Mas eu não provei vestido nenhum. Pedi para a baixinha encomendar um vestido que coubesse em mim e que entregasse em casa. Eu não tinha curvas, então era só escolher o menor tamanho da loja.
O vestido era azul anil, com alças largas. Meio curto, porém comportado. Ainda bem que ela não exagerou na escolha, pois eu ainda não tinha acumulado coragem para usar algo tomara que caia e com um decote gritante. E de qualquer forma, ele tinha lá seu charme…
A maquiagem foi um tanto quanto básica: optei por um lápis de olho preto e sombra também preta. Não queria errar na cor. E uma coisa que aprendi é que preto combina com tudo. Sem esquecer o batom quase avermelhado. Confesso que a cor era meio berrante, mas era uma festa…
E então, às sete horas da noite, minha mãe bateu na porta do meu quarto.
– Entra.
– Oi, querida – ela disse meio hesitante e deu uma checada no meu visual. – Nossa, você está linda!
Eu não era de longe tão estonteante quanto Raíssa e Melissa. E mesmo sendo a aniversariante, não teria a roupa mais deslumbrante da festa. Estava apresentável.
– Dá pro gasto – dei de ombros. Dar de ombros era bom. Bryan sempre fazia isso.
Mamãe fez uma careta descontente.
O que eu podia fazer? Eu sempre tive complexo de inferioridade. Nunca estava satisfeita comigo mesma. E tinha vários motivos para ter desencadeado isso durante todos os meus anos de vida.
Papai surgiu, e se escorou na porta. Ele não queria dizer nada. E sim mostrar um sorriso de satisfação por eu estar me revelando pela primeira vez na vida. Por que ele tinha conhecimento da minha personalidade.
Dona Amanda olhou para trás e sorriu pra ele. Em seguida, atravessou o quarto e me deu um demorado beijo na bochecha. Estranho.
Não sou muito boa com demonstrações de afeto, portanto, apenas sorri com o canto da boca.
– Eu sei que quando você descer daquela escada e atravessar a porta de entrada, sua vida vai mudar. Seu pai e eu não vamos estar aqui pra ver esse momento, mas eu quero chegar amanhã e vê-la gargalhando da vida, simplesmente porque começou a entender que não precisa se sentir culpada por ser quem você é o tempo todo.
Aquilo foi a coisa mais bonita que minha mãe havia dito pra mim. Eu quis chorar, mas como todas as outras vezes, não consegui.
Decidi mudar de assunto.
– Não entendo porque vocês não querem participar. Eu gosto da presença dos dois.
– Ág – papai prendeu a minha atenção. Desse apelido eu gostava. – Hoje é o seu momento. Não acho que dois coroas combinariam com uma festa cheia de jovens, entende?
Não entendia nada. Se até hoje eu ainda andava de braços dados com eles pela rua e ainda os chamava de mamãe e papai, não seria hoje que me importaria.
– Querida, a festa vai ser agitada e seu pai e eu já não temos mais energia pra dançar a noite inteira – brincou mamãe. – Não estamos mais na adolescência, não é mesmo, Renato?
Papai riu.
– É. Bons tempos aqueles.
Engraçado, muitas pessoas que vivem com seus pais dizem o tempo todo que se sentem sufocados, mas… eu não me sentia assim. Pelo contrário, sem eles a insegurança logo subia até minha garganta fazendo com que eu mal conseguisse me virar direito em questões de comportamento adolescente. Pelo menos tentei prestar atenção no jeito dos meus seis amigos.
Da janela do meu quarto eu conseguia escutar as batidas da música que ecoavam no jardim. Cruzei meus dedos – talvez alguma superstição funcionasse – e dei uma checada na minha aparência no espelho. Calcei meus sapatinhos prateados e respirei fundo várias vezes.
Está na hora.
O paft paft produzido pelo meu jeito de andar e pela madeira antiga da escada me enervou. Eu parei.
Algumas frases que os meus pais diziam pra mim na infância me vieram à mente.
– Você precisa se relacionar com outras crianças, querida… – mamãe.
– Você só é tímida, Tatá. Na sua idade eu também agia assim… – papai.
– Só espero que faça amigos com o tempo… – mamãe.
– Boa sorte na aula, Tatá… – papai.
Eu ri, segurando o corrimão.
Pra Dona Amanda, tudo era motivo de fazer novas amizades. Eu sabia que mesmo num funeral ela conseguia bater papo com alguém. Renato era diferente. Ele só falava quando era necessário. E sempre me dizia que estava tudo bem. A educação que eu sempre recebi era um choque de realidade e outro de ilusão.
A sala de estar que em primeiro plano seria o local da festa, estava vazia. Sozinha, naquele cômodo, foi que eu me dei conta de que estava com medo. Parei novamente. Tentando ficar segura, tentei me lembrar das pessoas que me aceitaram em seu “grupo”.
– Gostei muito de conversar com você... – Joana.
– Fique Agatha, se quiser pode passar o resto do intervalo conosco… – Melissa.
Essas eram recentes. Eu tinha muito mais, porém sabia que era hora de sair do meu casulo e me mostrar para os convidados.
Eu abri a porta.
Não, ninguém da festa já podia me enxergar. Ainda faltava percorrer um percurso da varanda ao jardim. Ridiculamente, eu parei pela terceira vez.
Agora, eu tinha um motivo mais lúcido pra ter feito isso. Quais seriam as reações das pessoas? E Bryan?
Eu poderia conviver sabendo que sou de má aparência para o resto das pessoas, poderia aguentar numa boa os apelidos relacionados a tudo o que é branco, seco, imortal e frio. Mas… Se eu visse um olhar de nojo, medo, espanto e riso da parte dele eu não sei se suportaria. E tristemente, eu não tinha memórias perfeitas de algo que ele havia dito pra mim. Apenas memórias visuais, como dar de ombros, dar as costas…
Ugh.
Eu fui obrigada a ficar pronta.
Abri a porta da altíssima cerca que separava a varanda do jardim.
Barulho, barulho, barulho.
Primeiro passo.
Muitos adolescentes estavam lá.
Segundo passo.
Eles dançavam como se não houvesse amanhã.
Terceiro passo.
Alguém que eu não conhecia percebeu minha presença. As pessoas pararam de dançar. A música foi abaixando até parar. Enfim, todos deixaram de fazer o que estavam fazendo para me olharem.
E as reações por um lado eram iguais as de quando eu era pequena. Por outro, eram completamente diferentes. Foi difícil chegar a uma conclusão.
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