Amor Platônico

6 Eu renasci das cinzas


Notas iniciais
Estou aqui! Era para ter postado antes de ontem, não é? (que vergonha dona Nara, tsc tsc) Eu estava muito ocupada meninas. Simbora!

Sugestão de música

Todas as pessoas que me conheciam formaram um “o” com a boca. As que eu nunca tinha visto na vida também. Franzi o cenho.

De início, eu não pude decifrar se era espanto ou surpresa, até sentir uma mão pequenininha puxando a minha.

– Tha? – era Melissa. Seus olhos estavam esbugalhados, mas no seu rosto tinha um sorriso.

Isso era uma reação positiva, não é?

– Meu Deus, você está… É linda! – exclamou.

Ela se embaralhou muito nas palavras e por um momento eu pensei que estava mentindo. Mas no seu rosto eu via sinceridade. Fiquei aliviada.

Mel me arrastou até a decoração, dando pulinhos animados, como ela sempre fazia com boas notícias ou tudo que a agradava.

O pessoal ainda me olhava. Foi estranho. Eles agora não só olhavam como cochichavam entre si. E eu pude ver caretas de raiva no grupinho das garotas que me detestavam. Logicamente, eu não entendi o porquê.

– Joana, Raíssa, Henrique, Biel e Bryan precisam ver isso! – continuou gritando, me deixando mais encabulada – Eles devem estar ocupados com alguma coisa por aí pra não ficarem chocados como eu!

E realmente estavam.

Henrique foi a primeira pessoa que nós duas encontramos. Ele estava ocupado dando ordens aos garçons para servirem corretamente as bebidas. Tive que rir.

– Dois de vocês devem começar servindo por ali e, aquela galerinha ali são uns beberrões! – dava ordens a eles, sem perceber nossa presença. – É melhor não esquecer que eles têm que estar sempre com o copo cheio, senão… Uow! Tha,é você? – Depois de tagarelar à beça, ele me viu.

– Oi Henri– acenei, como uma idiota. – Tudo bom por aqui?

Ele fez um sinal de já volto para os garçons e se aproximou de nós duas. Melissa era só sorrisos, sem fala.

– Essa é a Ágatha, a garotinha que vivia escondida debaixo do capuz?

Eu corei. E infelizmente, os irmãos captaram esse pequeno gesto.

– Que fofo! – Melissa gritou. Agora ela queria falar.

Eu revirei os olhos, sabendo que a essa hora parecia com um tomate.

– Biel está ali! – Vi Gabriel conversando com Raíssa no canto da festa. Eles tinham a cara emburrada.

Eu soltei a mão de Melissa e tentei acompanhá-la pela multidão. O pessoal aos poucos já havia começado a voltar aos seus afazeres.

Mel foi diretamente pra Gabriel, plantando um selinho no biquinho dele. Pois é, eles assumiram o namoro há dois dias. Mas, isso não surpreendeu ninguém, já que todos sabiam o clima que rolava entre eles.

– O que foi amor? – Ela dirigiu um olhar desconfiado a Raíssa, que muitas vezes era a responsável por qualquer encrenca do grupo.

– Não é culpa minha, nem vem – A loira suspirou teatralmente. – O seu namoradinho é que não me deixa em paz!

A frase possuía um duplo sentido. Melissa e eu – camuflada – aguardamos uma explicação melhor.

– Essa daqui – Ele apontou a irmã. – Fica dando atenção pra todos os garotos! Tinha um que quase estava tocando os… – Ele quase não conseguiu terminar. – seios dela.

Mel gargalhou. E gargalhou.

– Que lindo! – Apertou a bochecha esquerda dele. – Você está bancando o irmão protetor! – Seus olhos brilhavam demais.

Eu levantei o dedo indicador discretamente para dar minha opinião em relação a aquilo. Abaixei, ao lembrar que nenhum dos dois me via ainda.

Os três estavam discutindo sobre o assunto. Sempre que Melissa fazia algum gesto carinhoso em Gabriel, Raíssa emitia um alto “blargh”. Devia ser alérgica a romantismo. Já eu? Fiquei imóvel esperando a criatura recordar que eu existia, e, estava bem atrás dela.

Demorou uns cinco minutos, no mínimo.

– Oh meu Deus, Tha! – Bateu na testa, sem esquecer-se de emitir aquela risadinha típica de criança. – Quero mostrar a vocês dois a pessoinha mais angelical e perfeita que eu já vi na minha existência!

Ela me empurrou com força na direção deles. Eu quase caí.

– Uau Melissa, ela é a sua cópia! – No início pareceu um deboche da parte de Raíssa, até ela entender que o clone era nada mais nada menos que eu. – Agatha? – A loira meio que se engasgou. – Você é branca mesmo, né?

Raíssa Ribeiro era Raíssa Ribeiro. Sempre superior, nunca saia de seu salto.

– Ela quer dizer que você é linda, querida. – Melissa traduziu. Eu sorri feliz.

– Tanto faz. – A loira abanou a mão, fingindo tédio.

Eu achei que havia chegado o momento de contar pra ela o dia do parque.

– Eu entendo ela, Melissa. Desde novinha dizendo que queria ir pra “Nova Yolk” comprar roupas. – Eu tenho uma memória fotográfica, acredite.

Gabriel se assustou.

– Ei, desde que eu nasci ela vivia enchendo o meu saco dizendo que ia fazer isso! – Prendeu o riso.

– Ela também falava que era melhor comprar sapatuuuuz? – fiz uma voz de criança. Era o meu aniversário e eu estava surtando. Sendo a mais descarada possível. Isso era bom.

Raíssa deu um grito histérico que foi abafado pela batida dançante da festa. Depois, fez uma expressão de quem queria esganar a pessoa mais próxima.

– Anjinho, você conhece a Rai desde quando? – Mel perguntou.

Ops. Foi aí que eu percebi que dei a impressão de que os espionava o tempo todo.

Pronto, a festa acabou de começar e você já está fazendo besteira!

– Nossa, onde está Joana? – Foi a minha vez de puxar a mão de Melissa com força, deixando pra trás uma loira furiosa e um garoto encabulado.

– Feliz aniversário Tha, você tá ótima! –O ouvi gritar! Incrível como ele foi o primeiro dos meus amigos a me dizer essas duas palavrinhas tão comuns que eu não havia recebido desde que pus o pé no jardim.

Joana teve a reação mais explosiva.

– Poxa Tha, porque escondeu essa beleza de todos nós? – brigou, fingindo estar chateada comigo. – O colégio todo pensava que você tinha o rosto mais feio do mundo… Uma verruga no nariz, uma queimadura na metade do rosto… Eu ouvi esses boatos por aí!

Arfei.

– Verdade?

Joana manteve a expressão séria, me provando que não estava mentindo.

– É sim! Está vendo esse bando de gente olhando pra você como se você fosse a princesa de alguma terra encantada?!

Tá, alguns meninos me olhavam com os olhos cintilando de alegria, fascínio talvez.

– Você está exagerando, amiga, eu…

Ela grunhiu muito, muito alto.

– Exagerando? O que? Estou é bastante irritada de saber que a minha amiga se esconde desde o ano passado, conhecida como o “fantasma do segundo ano” é tipo, a menina mais linda que eu já vi desde que… Sei lá, eu nunca vi alguém como você –

– Jo, respira! – alertei. A qualquer momento ela ficaria roxa. – Eu não acho que eu seja tão bonita assim, entende? Não tem como ignorar que por onde eu passo grito branco!

A pestinha riu sarcasticamente.

– Eu vi sua mãe antes dela ir embora – Massageou as têmporas. – Ela me disse que você sempre se sentiu muito rejeitada e que tinha uma beleza exótica, diferente. Desde que você entrou pro nosso grupo, eu… Você é a melhor amiga que eu já tive, Tha.

Essa era uma confissão que me obrigava a chorar. As lágrimas não saíram. Mas, com tantas surpresas só nessa meia hora de festa, eu me sentia a pessoa mais autoconfiante do mundo. Queria gritar para o mundo o quanto eu fui burra.

Abracei Joana com muita força, enquanto uma Melissa chorona nos assistia como plateia.

– Entra no abraço Mel! – gritei. Nós três pulamos muito, sem nos importar com o nosso redor. Foi maravilhoso. Isso se chamava A-M-I-Z-A-D-E.

Sentei-me na mesa central, bem pertinho da decoração. Estava devorando alguns salgadinhos gordurosos, enquanto me entupia de refrigerante.

Toma essa, mãe!

Tudo que eu colocava na boca era controlado por ela. Eu era magra demais, por isso. Mas do meu corpo eu não coletava reclamações, porque sempre fui saudável. É que às vezes eu queria sair um pouco do limite com minha alimentação e não podia.

Todo o nosso grupo estava sentado numa mesa enorme. A cada minuto, alguém chegava perto de mim me desejando felicidades e todo aquele blá blá blá que um aniversariante gosta de ouvir. Como eu nunca tinha recebido tanta atenção, amei.

E, não, eu ainda não tinha visto Bryan. Não que ele não tivesse vindo a minha festa. Mas a Mel me explicou que ele costumava chegar atrasado nessas coisas. Eu estava tremendo, quase descascando a francesinha que minha mãe havia desenhado com muito trabalho nas minhas unhas.

Um grupo de meninas passou lentamente por mim. Vanessa e suas discípulas, me olhando com nojo.

– Inveja, pode crer. – Mel deu dois tapinhas no meu ombro, me reconfortando.

– Deixa pra lá. Elas não me incomodam.

Minha amiga sorriu e fitou a entrada da festa, compenetrada.

– Bryan está chegando… – cantou.

Eu, como uma menina assustada e apaixonada, logo tratei de fugir e ir ao banheiro, só pra dar uma ajeitada na aparência.

Claro, eu estava bem. E mais segura. Agora que as reações foram positivas, mesmo que ele me achasse ridícula, a dor iria ser ligeiramente menor. Eu me agarrei a isso.

E respirei fundo.

Uma.

– Agatha Prado, hoje é o seu dia.

Duas.

– Você precisa ir lá pra fora e encarar a situação.

Três.

– E é agora.

Eu bati a porta com força e voltei confiante pra mesa.

Não tão confiante até vê-lo sentado ao lado de Melissa, no lugar onde eu estava.

Certo, nem um pouco confiante.

Contudo, a coragem entrou em mim com força e eu me preparei mentalmente para o que vinha a seguir.

Ok, eu preferi bisbilhotá-los de longe.

– Cadê a aniversariante, Melissa? – Sua voz não continha impaciência ou estresse. Só aquela despreocupação rotineira.

– Você precisa ver, primo! – Sorri com a empolgação dela. – A Agatha está tão linda…!

Ele riu.

– É mesmo? Onde ela está? – perguntou.

Antes que Mel respondesse, eu me sentei na única cadeira que havia sobrado – ao lado dele – e fingi estar calma e muuuito segura.

– Desculpe, a fila estava grande. – menti. Existiam três banheiros na minha casa e o pessoal ainda nem tinha enchido a bexiga o suficiente pra correr pra algum deles.

– Agatha?

Eu me preparei muito antes de olhá-lo. Eu sempre me preparava. Porque tinha medo de mostrar através dos meus olhos o quando eu era apaixonada por ele. De qualquer forma, a voz dele era hipnotizadora e me convidava.

Seus olhos também.

Eu não consegui decifrar de nenhum jeito o que aquelas orbes verdes achavam de mim. Não vi espanto, surpresa, riso, zombaria, fascínio… Nada. Havia alguma coisa ali, no entanto, eu não conhecia essa palavra.

– Oi, Bryan. – Minha voz saiu descontraída. Ufa.

Ele não disse o quanto eu estava bonita e aquelas coisas piegas que estavam começando a me irritar. Eu até ponderei em ficar triste, mas… Quer saber?

O que mais tinha me admirado nele era o seu jeito de saber ignorar facilmente tudo o que o irritava, de não ficar se torturando – como eu – e ser um livro aberto, que expunha todas as emoções. E se ele fosse diferente de quem era, por acaso, eu sentiria aqueles sintomas bobos de quem estava apaixonada? Certamente, não.

Eu me levantei da mesa com o sorriso mais misterioso da vida, querendo encontrar um local vazio só pra refletir minhas conquistas. Ele me seguiu.

Notas finais
Vamos lá!