Amor Platônico
11 Eu estou namorando
Notas iniciais
É, eu tinha muito o que explicar. Mas omiti a parte em que esse amor está dentro do meu peito há mais de 10 anos. Então, veio a reação dele.
Eu nunca tinha visto Bryan arregalar os olhos daquele jeito. Ele com certeza ficou atordoado, pensei que iria gritar de surpresa. Mas não. Ele apenas ficou quieto como aquelas vezes, fazendo com que eu me cansasse depois de alguns minutos e apoiasse minha cabeça na árvore. Não que eu estivesse com sono ou algo assim. Do jeito que eu estava dava pra observá-lo melhor.
Mais minutos se passaram. Seu choque estava passando. Ele se virou completamente pra mim, se acomodando da mesma forma que eu. Nós ficamos tão próximos um do outro – ainda quietos – que se meu rosto se movesse um centímetro para frente, meus lábios estariam conectados com os dele.
Contudo, eu não podia fazer nada precipitado. Porque assim que sua boca se abrisse não seria pra me beijar e sim pra acabar com minhas esperanças. Ou seja, provocar em palavras cortantes o nosso afastamento.
De repente, eu fiquei tão desesperançada que não senti a dor vir. Aquela dor antecipada me alertando do quanto eu era idiota e infeliz.
Eu deveria – se fosse uma adolescente normal – sair dali e compreender que estava derrotada, mas se eu tinha aqueles últimos instantes com ele, por que desperdiçar?
Nós estávamos nos olhando fixamente há tempos. Eu resolvi quebrar o gelo.
– Hmm, é melhor falar a verdade do que mentir, você não concorda? – Tentei ser bem descontraída e funcionou um pouco. Minha pergunta foi tão débil.
Ele não me respondeu, somente coçou a nuca.
Eu ri.
– Qual é o problema? – Ele tentou entender porque eu estava rindo. Eu imitei o seu gesto e ele se deu conta de que estava fazendo aquela mania que significava que ele estava nervoso.
Eu franzi o cenho. Engraçado como ele ainda não tinha me dado um fora. Eu estava ali com ele esperando por isso. Eu só tinha que dizer pra mamãe que me perdi no meio do mato – se o celular pegasse ali – enquanto tentava voltar pra casa. Porque ele iria embora e me deixaria aqui, não é mesmo?
– Agatha, você é tão linda… – Foi a minha vez de ficar em choque.
Bryan me beijou, e aquele foi um beijo tão longo e o mais especial que eu tinha recebido dele. Eu me sentia grata de nunca ter provado outro gosto a não ser o seu. Os meus pensamentos – aqueles que achavam que ele iria me dar um fora e tal – foram eclipsados. Guardados num lugar escondido. Não. Eles foram jogados fora.
Enquanto eu tentava me recuperar do beijo, Bryan ficou de pé num instante e estendeu a mão pra que eu me levantasse. Eu peguei sua mão – extremamente encabulada – esperando seu próximo ato ou qualquer coisa que me indicasse como estávamos. Eu não estava entendendo nada.
Estou louca, pensei.
– Eu não sou muito chegado nisso de namorar e tudo mais e tal, mas se você quiser chamar o que vamos ter daqui pra frente de namoro, tudo bem.
Daqui pra frente…? Namoro…?
– Ei, não era pra você estar me dispensando agora?
– Por que eu faria isso? – perguntou, zangado.
– Lembra do que aquelas garotas falaram no refeitório? “Você não é boa o suficiente pra ele!” – citei a frase. – Eu concordo com elas.
Ele gargalhou.
– Nem uma formiga liga pra o que ela falam, linda. – Seus olhos brilhavam de diversão. – Vamos, senão minha sogra vai brigar comigo – brincou ele.
– Ugh. – Eu tremi. – Bryan, nós estamos… Juntos? – Eu não consegui me expressar bem, apesar das indiretas dele terem sido claras como cristal.
– Aham. – Ele simplesmente respondeu, concentrado em acertar o caminho de volta para o seu carro.
Eu e Bryan Ribeiro estávamos namorando. Tá, ia demorar muito pra minha ficha cair. A não ser que eu estivesse sonhando.
* * *
A minha ficha demorou a cair.
Mamãe realmente ficou muito surpresa quando eu apareci em casa com Bryan. Ela gostou da presença dele. Preocupada, me encheu de perguntas. Eu iria inventar uma desculpa qualquer, mas ele simplesmente disse a ela que a culpa de eu ter chegado em casa às 15:00 h da tarde foi dele. E aí veio a parte constrangedora. Antes que minha mãe perguntasse o que estávamos fazendo ele foi logo soltando algo como “pedi Agatha em namoro”.
E, enquanto eu ficava praticamente roxa de vergonha – corar já não era o suficiente pra mim – ela reagiu pacificamente. Sério. Como se ter relacionamentos amorosos fosse parte do meu cotidiano. Estranho.
– Eu vou preparar um lanche pra vocês. Pode ficar a vontade, querido. – Ela queria dar uma de mãe caseira e responsável.
E nós dois ficamos acomodados – afastados – no sofá, sem falas.
Aproveitei o momento pra refletir.
Era uma reviravolta grande pra um dia. De manhã, eu era apenas uma garota apaixonada com sentimentos trancados. E de repente… Eu estava me declarando para o meu amado. E ainda tinha a parte em que ele tinha feito o pedido de namoro mais confuso do mundo. Sem incluir que antes eu não tinha a mínima chance de tê-lo.
E agora? Ele é só meu?
– No que está pensando, Tha? – A voz de Bryan fez com que eu pausasse meus pensamentos.
Eu nem sabia por onde começar.
– Em muitas coisas – suspirei. – Seria bom que nós conversássemos depois.
– Conversar sobre o que?
Fiquei atônita. Pra ele as coisas eram simples e diretas.
– Você me pediu em namoro, mas há muitas questões a serem resolvidas. Por acaso você sabe há quanto tempo eu… – Aquelas palavras era o cúmulo do envolvimento. – te amo?
Ele franziu o cenho.
– Desculpe. Eu sei que estou agindo de um modo estranho. – Esperei que ele buscasse as palavras certas. – É que… Tha, eu não quero discutir a relação com você. Eu quero deixar tudo fluir naturalmente entre a gente, entende?
Fiquei boquiaberta diante do jeito em que ele queria que nosso relacionado tivesse forma e fosse especial, diferente daqueles casais que arranjavam brigas pra passar o tempo.
– Entendo perfeitamente – sorri.
– Estamos namorando e pronto – disse, descontraído.
Dona Amanda chegou nesse exato momento com o nosso lanche posto numa bandeja e um sorriso descarado no rosto. Acho que ela tinha ouvido a última frase da conversa.
Comemos em silêncio, enquanto éramos vigiados pelos olhares descarados dela. Estava começando a achar aquela situação um pouco engraçada. Quase me engasguei bebericando o suco. Ali, a ficha foi caindo…
Eu tinha muitas conclusões guardadas em minha mente. A maior delas era a definição do meu amor por Bryan.
Amor platônico não é aquele amor de quem ama sem ao menos falar com a pessoa. Não é aquele amor do estranho que fica admirando o outro escondido na janela. Percebi que eu estava definindo esse termo de uma forma completamente errada.
Meu namorado foi embora minutos depois, com a promessa de que me buscaria amanhã. Eu nem queria pensar nas expressões curiosas do pessoal da escola. Mas… resolvi decifrar o termo que eu dava muitas vezes em que pensava nele.
Eu tinha um daqueles dicionários grandões, com a capa preta e com uma fina camada de poeira que alegava o quanto ele estava sendo desnecessário, devido à tecnologia. Eu até senti vontade de procurar a palavra “platônico” no computador, mas aquele dicionário antigo daria uma definição extensa ao que eu sentia.
E, enquanto eu procurava pela letra “p”, sentada confortavelmente na poltrona de couro da biblioteca pequena – e pouco usada – do meu pai, torcia para que não estivesse redondamente enganada.
platônico | adj. | s. m.
pla·tô·ni·co
adjetivo
que é puramente ideal, casto, sem lascívia. Ex: amor platônico.
Amor platônico.
Eu fiquei levemente surpreendida – pra não dizer muito – que um simples dicionário conseguiu responder minha pergunta.
Eu não tinha definido nada errado. Eu só não soube interpretar o que eu sentia corretamente.
Casto. Significava que o meu amor era puro.
Sem lascívia. Significado que o meu amor – inicialmente – não foi construído a base de desejo, luxúria.
Ideal. Esse significado pra mim era meio… engraçado. Significava que o que eu sentia parecia perfeito. Que Bryan parecia perfeito e que eu pensava e que eu fantasiava coisas inimagináveis com ele. Até que hoje uma das minhas fantasias saiu da minha mente pra se tornar realidade.
Tudo era tão estranho, confuso. Mas nós estávamos namorando.
Namorando.
Namorando.
Namorando.
Com certeza, naquele momento aquela palavra era a mais bonita da face da Terra.
A ficha tinha caído.
Eu sempre fui boba, reclusa, tímida, estranha. Idiota eu não era. Porque antes de eu fechar meus olhos e dormir no tapete da biblioteca, meu íntimo me alertou que problemas surgiriam pela frente. Eu querendo ou não.
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