Amor Platônico
12 Eu não quero que termine
Notas iniciais
Férias de julho. Nunca me animei com elas, já que passava as duas semanas inteiras trancada em casa. Sem vida social, apenas devorando alguns romances históricos. E incrivelmente, isso tinha mudado. Eu estava… Palavra difícil de processar. Sim, eu estava namorando. Não era simplesmente um namorico de adolescência e sim com a pessoa que tinha sido meu primeiro e único amor. Algo surreal. Talvez surreal seja eufemismo. Não existe palavra alguma decente para expressar o tamanho da felicidade que me envolvia. Agora, eu tinha esperanças. Sem necessidades de ficar resmungando sobre a minha absurda solidão.
Raíssa me ligou há pouco tempo, avisando que Bryan chegaria aqui. Era nosso primeiro encontro definitivo. Nada demais, para a maioria dos adolescentes. Ir ao cinema, passear pelo shopping. Para mim, era como o paraíso. E olha que eu detesto tumultos.
Depois do enorme sorriso que preencheu minha boca ao saber da notícia, veio o nervosismo. Respirei fundo, buscando evitar aqueles ataques femininos como “não tenho roupa pra usar”. Controlei meus nervos, tomando um longo banho quente e pegando uma roupa qualquer que eu achava aceitável. Maquiagem? Eu comecei a usá-la moderadamente logo após receber várias broncas de Melissa, tendo que aturar um longo discurso dela.
Flashback on.
— Meninas precisam de maquiagem, amiga! Tudo bem que eu acho linda a sua palidez, mas você poderia dar uma cor nessas bochechas, certo? E destacar esse rosto com um batom suave, um lápis de olho! Não estou pedindo pra você fazer um esforço! MA-QUI-A-GEM! Coisa que foi feita para mulheres usarem! — Essa era minha amiga baixinha. Exagerando sempre na hora colocar detalhes em nossa cabeça.
Flashback off.
Passei uma pequena porção de blush no rosto, rindo com a lembrança de Melissa. Suavemente, claro. Só queria espantar minha palidez, não colocar duas bolas de maçã nas bochechas. Deixava esse tipo de atitude para Vanessa, a estúpida garota que se oferecia para qualquer um. Após aquele episódio do refeitório, ela finalmente me deixou em paz. Não ria de mim pelas costas, pois Bryan lançava olhares mortíferos pra ela enquanto depositava seus braços ao redor dos meus ombros. Ele fazia isso pra provar ao colégio que eu era dele. Como se ele precisasse disso. Eu pertencia ao meu amado, de corpo e alma. Ops, não de corpo, não ainda. Nós nunca tivemos um contato profundo demais, não tocávamos no assunto virgindade. Eu, como uma pequena medrosa, deixava pra lá. Sabíamos que não era a hora certa. Ah, deu pra entender.
Mal terminei de passar meu batom rosa claro nos lábios e a campainha tocou.
Por que sempre acontece isso?
Tive sorte de ter tido tempo o suficiente para me arrumar. Já tinha visto essa cena que estava acontecendo comigo naquele exato momento em vários filmes. E mesmo parecendo clichê, aquilo me aliviava. Minha mente de antes só sabia processar que meu destino era passar o resto da vida sem alguém ao meu lado. Para fazer companhia, assistir televisão ao mesmo tempo em que faria tricô para os meus netos. Enfim.
Corri para a porta, batendo minha testa. O devaneio que surgiu na minha mente de repente com certeza fez Bryan esperar demais.
— É… Pensei que não tinha ninguém em casa. Estava quase indo embora e… Uou! Você está linda, Tha. — Não pude evitar rir do meu namorado ao vê-lo se embolar com as palavras. Aquele era um momento raro, muito raro.
Corei lentamente. Ele fez uma careta divertida. O que me fez rever os conceitos sobre blush. Se eu já tinha essa chata maneira natural de exibir coloração rosada com qualquer indício de vergonha e fúria, imagina naquele instante? Minhas bochechas deveriam estar pegando fogo.
— Linda…? Posso entrar na sua casa? — Oscilei, saindo de outro devaneio. Coitado, deixei meu namorado na porta de casa como um estranho, por estar flutuando no mundo da lua.
— Claro! Oh, Deus, me desculpa.
Ele apenas riu, subindo direto para o meu quarto. Sim, não se sentou no sofá ou algo do tipo.
Abusado? Imagina…
Bryan era mágico. Conseguiu afinidade máxima com meus pais em um piscar de olhos. Mamãe o tratava como um parente e papai não se fazia de difícil. Renato nunca teve o estereótipo de pai carrancudo e mandão. Era mais liberal que mamãe, até. Não fazia horários para vê-lo, não ficava pegando no pé. Eu admirava muito isso nele.
Segui Bryan devagarzinho, temendo sua reação ao ver a pequena bagunça que estava o meu quarto. Eu me considerava a rainha da limpeza. Limpar era o meu passatempo. Antigamente, é claro, com a falta do que viver. Mas no desespero de me arrumar rapidamente para o encontro, acabei deixando um bocado de roupas sobre a cama e a maquiagem recém usada sobre a penteadeira.
— Não repara —
— Pff. Como se o meu quarto não fosse bem pior.
Mordi os lábios. É, na última vez que timidamente visitei sua casa, assustei-me com a falta de organização do quarto dele. Mais espaço para um novo flashback.
Flashback on.
— Pronta? — Bryan perguntou, na saída do colégio.
Eu queria vomitar de nervosismo. Não me sentia preparada para conhecer seus pais. Ainda mais com as roupas informais que estava usando. Pensei em algo mais organizado — que me incluía decentemente arrumada e meu namorado com roupas elegantes — e não exatamente naquele casaco preto de couro verdadeiro que ele estava usando. Claro que ele era lindo com qualquer vestimenta.
— Si-mm.
Gaguejar denunciou de cara a minha mentira. Mas como Bryan tinha o dom de ser descontraído, ele simplesmente riu da minha insegurança.
— É sério. Não ria de mim, por favor.
Porém, ele continuou. O que me fez ficar totalmente emburrada e bater os pés exageradamente. Uma boa cena para o pessoal em volta de o estacionamento apreciar. Não parei, nem mesmo envergonhada. Entrei no carro dele de braços cruzados. Aquilo era irritante. Bryan sempre teimava em rir da minha falta de coordenação sentimental. Minha sensibilidade aflorava com isso.
Durante o trajeto, ele não chegou nem a pedir desculpas, se suavizar comigo de alguma forma. Entendia que pra ele eu representava certa vivacidade — apesar de que na minha opinião eu era uma mosca morta — mas essas risadinhas descontroladas extrapolaram o limite. Já que era assim, eu que não iria baixar a bola. Engano meu. Bastou que ele mexesse em meus cabelos quando o semáforo ficou vermelho, um leve selinho e eu me derretia novamente. Sentia-me fácil demais.
— É raro, mas adoro te ver nervosa.
Abaixei a cabeça, contemplando suas palavras. Acho que comecei a entender porque ele não tinha tomado uma atitude ou parado de rir me vendo daquele jeito. Realmente, eu deveria parecer patética, ridiculamente engraçada quando me irritava.
— Tudo bem, é… Sou idiota —
— Idiota é a sua mania de se menosprezar. — Ele suspirou teatralmente, como se tivesse cansado das minhas crises de existência. — Agatha, você precisa se sentir segura sobre si mesma. Você pode não ter me contado, mas sua mãe me informou sobre os pesadelos de noite … E isso me perturba. Pensei que estar comigo era o suficiente para que você pudesse perceber o quanto é maravilhosa.
Eu forcei o choro pra fora de mim, olhos vermelhos e retina mareada. Nada. Não conseguia chorar. Com minhas bizarrices, não podia evitar o ódio que tinha contra quem eu sou. O fato de não merecer Bryan ao meu lado chutou meu estômago. Não eram borboletas, eram nós que me deixavam enjoada. Tristemente chateada com a personalidade doente que eu tinha. Acho que dessa vez iria aceitar a oferta do meu pai de ser levado no psicólogo. Finalmente entendi que precisava de ajuda.
— É lindo da sua parte, amor. Obrigada. Só acho que já fizemos sua família esperar demais.
— Essa é a Agatha confiante que eu admiro. Vamos.
Saímos do carro e eu apertei sua mão, como se pedisse “me ajude”. A resposta dele foi apertar de volta.
Deparei-me com uma casa… absolutamente incrível. Completamente modernizada, uns dois ou três andares. Não era nada rústica como a minha. De fora, já dava pra imaginar que não existiria nenhum móvel de madeira. Tudo completamente metalizado, de última geração. Assustava, pois eu não tinha toda essa riqueza em minha vida. O meu lar era pequeno e aconchegante. Confortável, mesmo sem objetos super tecnológicos ou algo do tipo.
A sala de estar era… Linda. Enorme, com dois sofás extremamente brancos… A mesa de centro certamente foi feita por encomenda, pois parecia grande demais e os detalhes eram muito bem feitos para ser comprada numa loja estilo Casas Bahia. O aparato que enfeitava o cômodo era variado. A típica televisão de tela plana com inúmeras polegadas, uma estante com alguns livros. Aqueles trambolhos que você podia perceber que eram vídeo games caros. Enfim. Tudo do bom e do melhor.
— Olá. — Uma voz doce preencheu a sala.
Cristina permanecia linda. Era a segunda vez que a via, e apesar de ser muito novinha, minhas lembranças ainda captavam sua fisionomia. Diferente da versão mais velha que estava na minha frente, claro.
Corei como uma condenada. Eu tinha tanto medo de que eles me estranhassem, até cheguei a pedir a Bryan que os alertasse sobre a minha timidez e a aparência estranha. Senti-me aliviada logo de início, pois a mãe dele tinha nos lábios um sorriso amigável e uma mão estendida. Apertei suavemente, contemplando os bons modos daquela mulher.
— Oi, senhora.
Imediatamente, Cristina pôs uma expressão de surpresa. Bryan gargalhou — ele sempre ria demais, algo de família — e tirou os braços da minha cintura.
— Agatha age assim, mãe. É educada demais para sua idade.
Cristina balançou a cabeça. Eu não entendia nada.
— Fofo, eu acho. Mas não precisa me chamar de senhora. A senhora está no céu — justificou, esclarecendo tudo.
— Desculpe.
— Sem problemas. Então, é muito bom te conhecer, Agatha. Meu filho é muito fechado, não quis comentar muito sobre vocês dois. Nem adiantou. Percebi rápido que ele estava me escondendo algo.
— Para, mãe. —Meu namorado revirou os olhos.
— É verdade. – Ela nos deu as costas, dirigindo-se pra outro cômodo. Bryan a seguiu, e minha única ação foi ir atrás dele. — Eu sou mãe, sabe como é. Foi fácil ver que ele estava gostando de uma garota.
E pela primeira vez, eu vi Bryan corar como eu, quase roxo de vergonha. Após esse breve momento, percebi que o dia ia ser longo. Só esperava ser aprovada como namorada do cara que eu amo.
— Menos, mãe. Bem menos. — A coloração do seu rosto começou a voltar ao normal. — Vou levar Agatha para conhecer nossa casa.
— Claro, querido — respondeu minha sogra, o êxtase sempre presente em suas feições. — Espero que goste, Agatha.
Apenas assenti, pensando se ela estava falando sério. Até a entrada da casa parecia incrível. Imagine o resto.
Depois de um tour por vários cômodos, eu e Bryan chegamos a uma porta quase escondida, no fundo do corredor do segundo andar. Sabia de antemão que ali era o seu santuário, o lugar onde todos os jovens buscavam bastante privacidade.
— Esse é meu quarto — falou, buscando ver a minha reação.
Talvez ele pensasse que eu iria entrar em pânico, com medo dele me atacar lá dentro, ou algo do tipo. Mas quando entrei, entendi porque ele estava bastante cauteloso. Isso não tinha nada a ver com nós dois lá dentro, sozinhos. O problema era a... bagunça.
Quero dizer, não exatamente um problema. Era só que o quarto de Bryan parecia uma zona de guerra. Algo de se esperar de adolescentes masculinos. Na verdade, algo de se esperar vindo de Bryan. Havia meias espalhadas pelo chão, livros com títulos interessantes espalhados pela escrivaninha e uma cama desfeita, como se o dono dela vivesse do lema “para que arrumar a cama, se mais tarde irei bagunça-la de novo?”
— Nossa. — Não pude deixar de comentar algo do tipo, mesmo parecendo grosseiro. — É seguro, aqui?
Ele franziu o cenho, apesar de não parecer se importar com o fato de eu ter visto o Afeganistão devastado depois de um bombardeio. Aposto que achava que eu estava com medo dele tentar alguma coisa ali, tirar uma casquinha da minha virtude. Uma virtude que eu tinha por opção, não para pagar de puritana. Bobagem.
— Está com medo de mim, Tha? — Ele acabou com a distância entre nós depois de alguns passos lentos. — Eu não mordo, —
— Só se você pedir — completei no lugar dele. Essa frase era absurdamente estúpida e comum, e saiu muito estranha dos meus lábios. — Não mesmo, só estou pensando onde você guarda suas revistas pornográficas. Não que seja fácil de encontrar nessa bagunça.
Me senti roxa de vergonha por dentro, porém, com minha vingança concluída. Queria que ele sentisse o mesmo que eu sinto, quando ele faz comentários capazes de fazer com que eu tente me enterrar no cemitério mais próximo.
Levou aproximadamente dois minutos para ele se recompor e me encarar frente a frente.
— Fico me perguntando... Onde está aquela jovem tímida eu conheci no começo desse ano?
Ele não sabia de nada, é claro. Não se lembrava de ter contato comigo dos cinco até dez anos de idade, até eu mudar de escola, pois meus pais depois de muita luta mudaram para um bairro melhor. Ele não foi capaz de me enxergar por um bom tempo. É claro que isso magoava, só que não era sua culpa. Eu apenas sentia muito por isso e continuava escondendo dele esse fato tão crucial para mim. Me fazia ser menos obsessiva e patética, quando na verdade era difícil dormir todas as noites, pensando nele. Todas elas.
— Você sabe que ela não sumiu. — Me defendi. — Ela apenas está tentando cumprir seu pedido, de ser mais solta.
— Está aprendendo direitinho. — Ele mostrou aquele sorriso encantador e novo, que parecia sincero e desprovido de más intenções. — Eu mereci me sentir envergonhado. Já te provoquei demais, linda. — Seus lábios começaram a roçar os meus, como se pedissem permissão para avançarem.
Eu permiti, encaixando os meus braços em seu pescoço e rindo internamente de mim mesma por ter que ficar na pontinha dos pés, em momentos como esse. Valia muito a pena, pois nos beijos e carinhos inesperados, é que eu sentia o meu amor florescer sem reservas, enquanto o meu cérebro tentava cortas as raízes dos meus sentimentos. Ele queria que eu não me machucasse, mas era tarde demais. Sem amor ou com amor, a dor vinha sempre.
— Posso sentar você na cama e continuar, antes que você machuque os seus pés de bailarina? — Nosso momento mágico foi interrompido por ele mesmo, mas da forma mais divertida possível. Bryan sabia estragar um feitiço sem fazer com que o alvo sofra. Naquele momento, eu estava rindo muito da situação.
— Pode — respondi, em meio a uma risada sufocada. — Apenas lembre-se que seus pais estão em casa, esperando por nós para um almoço tardio.
De repente, Bryan pareceu lembrar que não estávamos sós. Naquele começo de namoro, nunca ficamos sem telespectadores. No colégio, os olhares invejosos das meninas. Em casa, a vigia constante da minha mãe. Enfim, simplesmente não dava.
— Ai, merda. — Revirou os olhos. — Eu sei, e não é como se fosse fazer algo demais com a senhorita Prado. Vai que ela surte e eu tenha que explicar para os meus pais seu desmaio no meu quarto? Não, não seria legal.
— Sem palavras e sem piadas agora, Bryan. Eu, a senhorita Prado, não sou tão frágil assim. Estou bem, como pode ver.
Me sentei na beirada da cama, convidando-o com os olhos a se juntar a mim. Ele fez, não deixando de sorrir. Provavelmente estava satisfeito com o pequeno fio de confiança que estava surgindo entre nós.
— Eu sei, Agatha. Por isso vou te beijar muito, até que a minha mãe chegue daqui a pouco e atrapalhe a gente, falando que o meu pai chegou do escritório para nos conhecer.
Suspirei, realmente desejando que nossos beijos continuassem. Hora de delirar.
Flashback off.
Uma lembrança gera outra. Um encontro resulta em outros encontros. Uma semente pequena de amor torna-se tão inchada com o tempo, que um médico até poderia dizer que ela está com câncer. E de qualquer forma, ele estaria certo. Não tem retrocesso, nem quimioterapia para os meus sentimentos. Nem cura.
Agora, sentada ao lado de Bryan, assistindo um filme de ação — não, não fazíamos o tipo convencional que assiste juntos filmes de água com açúcar —, eu sonhava. Não estava prestando muita atenção no filme e sim nele. Ele prestava atenção na tela, animado com uma cena de “morte para todos os lados”. Eu só pensava: “Deus, que isso dure. Que ele não enjoe de mim tão rápido, pois não sou tão forte como Bryan pensa.”
Logo afastei os pensamentos negativos, contemplando seu rosto sem que ele percebesse. A escuridão tinha suas vantagens. Vai dar tudo certo, o lado positivo da minha mente dizia. Não sei no que daria, então, só me restava aproveitar aquele período de glória.
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