Notas iniciais
Olá, galera. Bem-vindos ao primeiro capítulo de minha humilde história, rs.

Sugestão de música

Eu tinha quatro anos quando o conheci. De longe. Eu estava no banco levemente acinzentado de uma das pracinhas de Nova Paisagem.1 Sozinha, no meu modo antissocial de ser. Observava as crianças brincando na gangorra, no balanço e no escorregador. Não tinha medo de me machucar em algum destes brinquedos.

Praticamente sou indolor. Correção: indolor as dores físicas, não as do coração. Talvez, por consequência, as dores sentimentais penetrem com mais facilidade em mim. Toda vez que a minha mãe fazia algum alerta sobre o meu comportamento, eu nem esperava ela terminar. Corria para o meu quarto e refletia os meus não atos. Também levava minha mão na altura do coração e murmurava: ­

— Não sofra comigo. — Uma frase consoladora, na minha opinião.

O parque era um lugar para se divertir. Disso eu tinha certeza. As crianças continuavam brincando. Uma menina loirinha pegou um pouco de terra que estava debaixo de uma árvore podada e arremessou na direção de um menininho. O garotinho no mesmo segundo teve uma crise de choro. Fiquei perplexa com as gotas transparentes que saíram de sua face. Nunca chorei. Esse é um mistério que carregava comigo. Claro que eu berrava horrores como um bebê normal quando estava “suja”, esfomeada ou querendo amor dos meus pais.

— Lágrimas... — sussurrei, concentrada no escândalo do menininho que devia ter a minha idade na época.

De repente, uma mulher de cabelo marfim aproximou-se do pequeno e limpou a sujeira do seu rosto. Eu sabia (só de observar o olhar preocupado) que era a mãe dele. Simplesmente, ele era LINDO.

Olhinhos verdes cintilantes que fiz comparação a duas esmeraldas. Na época eu não sabia o nome, pois logicamente eu tinha quatro anos e vivia repetindo o que mamãe falava para em seguida perguntar o significado. O que eu tinha conhecimento é que os olhos do menino podiam sim ser comparados a essa pedra preciosa. Mamãe até tinha um par de brincos assim.

Depois, cabelos que de início não consegui distinguir a cor. Uma mistura de loiro com vermelho. Eu nunca tinha visto aquela cor antes, não sabia o que era uma pessoa ruiva. Permiti-me levantar do banco e ficar mais perto da cena para poder distinguir. Mas não consegui definir exatamente. Eu só estava... fascinada. Por todas as características físicas que ele continha e pelo seu chorinho que me deu pontadas de tristeza no coração. Menina ruim, eu pensei. Onde se encontrava os pais da criança para lhe dar educação?

O que eu vi a seguir me fez dobrar a língua.

Quando a mulher terminou de limpá-lo, jogou um olhar repreensivo para menininha loira.

— Raíssa, quantas vezes eu preciso pedir pra você não fazer isso? — perguntou.

— Mamãe, eu tô blincando — respondeu.

Foi então que eu percebi que ela também era filha dela.

Duas crianças de comportamento tão diferentes. O menino só estava concentrado no seu carrinho de plástico, laranja. E a menina segurava na outra mão — a que estava livre de terra— uma boneca do estilo Barbie. Que por sinal era sua cópia fiel.

— Querida, brinque com sua boneca. Brincar com terra é muito perigoso.

A garota se encheu de uma estranha raiva e começou a bater o pé. Um detalhe que eu achei muito engraçado. Mais estranho ainda era a reação do menino. O choro já havia cessado e ele olhou confuso para a irmã por mais ou menos cinco segundos. Após isso ele voltou a mexer o carrinho pra lá e pra cá.

— Tá vendo mãe? Tá vendo? — Pôs a mão na cintura — Ele não liga pra eu!

A mulher ficou pensativa e depois soltou várias gargalhadas suaves, no timbre de voz feminino. Eu franzi o cenho de imediato. Se eu estivesse no lugar da garota receberia vários sermões e ficaria sem doces por uma semana. Bem, eu nunca gostei muito de doces, então pouco me importava.

— Agora eu entendi. Você quer que Bryan brinque com você. – A moça deu o veredicto assim que terminou com o acesso de risos.

Bryan. O nome dele era diferente e interessante. Com a pouca linguagem que eu falava naquele tempo, apenas pensei que era... bonito. Nada casual. Não que o meu fosse comum por onde moro.

A mãe da loirinha sorriu e pegou sua mão para levá-la ao irmão.

— Bryan, sua irmã quer brincar com você.

O menino lançou novamente um olhar confuso para as duas. Parou de mexer no carrinho e deu de ombros.

Eu ri com o movimento e até imitei discretamente em seguida. Isso aparentava ser meio louco, mas eu não tinha esses costumes. Mamãe dizia quer dar de ombros era feio, coisa de criança mal-educada.

A loirinha sorriu longamente e agachou-se de frente para o pequeno. Colocou a boneca “gêmea” montada no carrinho e começou a falar frases desconexas, enquanto ele movia o carrinho pra frente e pra trás.

— Eu vou para Nova Yolk comprar roupas.

Eu ri.

— Não! Vou comprar sapatuuuuz.

Reprimi uma gargalhada. Ela fazia uns biquinhos estranhos no final das frases...

— É melhô complar um blincooo, não acha Bibi? — perguntou repentinamente.

Não contive uma enorme careta. O apelido que ela deu para o garoto me pareceu odioso. Ele fez questão de ignorá-la e começou a balbuciar uns “vruuum” e uns “puft”, imitando o som de um carro.

Não era amor à primeira vista. Claro que não, eu nem podia definir esse sentimento. Mas eu estava sentindo uma admiração. É, o jeito sensível de criança misturado com uma pose largada. Eu não considerava a minha vida ruim na infância. Os meus pais faziam de tudo para me verem integrada com outras crianças. O problema era eu. E sempre foi.

Cinco minutos depois, eu avistei um homem alto e loiro junto da mãe das duas crianças. Quando eles deram um selinho a minha primeira reação foi nojo. A segunda foi descobrir que eram marido e mulher, como meus pais. E a terceira tirou minhas dúvidas quanto à cor do cabelo de Bryan. Mãe com cabelo chocolate — que puxaria para o ruivo se fosse um pouco mais claro — e pai loiro. Certamente, ficou uma boa junção de cores. Essa não era uma justificativa plausível, mas o tempo novamente — nas aulas de Biologia — me fez perceber que casos assim aconteciam.

— Filha, hora de ir — chamou-me papai.

Eu amo o meu pai. Sou mais conectada com ele do que com minha mãe. O meu temperamento é calmo igual ao dele. Por isso que eu não faço escândalos quando me sinto injustiçada. E além do mais, ele aguenta os sermões variados da minha mãe com a maior calmaria.

Amanda — minha mãe — é uma pessoa com bastante tenacidade. Pra não dizer cabeça-dura. Enquanto caminhava com meu pai, lembrei-me de Raíssa, a loirinha. Ela tinha sinais de irritação parecidos com o de minha mãe quando ficava zangada. Na verdade, as duas tinham semelhanças em vários aspectos que consegui descobrir só naquela cena divertida. Oh, se minha mãe soubesse que eu pensei nessas coisas...

Dei uma última olhada para aquelas quatro pessoas, que aparentavam ter uma vida digna e repleta de felicidade. Pessoas que não são perfeitas aos olhos de Deus, mas que pra mim eram anjos humanos. Anjos têm defeitos e irritações também. Sempre acreditei em Deus, da minha maneira. Por mais que o número de pessoas ateias esteja crescendo, eu sei que ele existe. Não sei se é de carne e osso, mas pode ser uma força magnética que nos define o destino.

— Brincou muito, filha? — questionou-me mamãe.

Lancei meu olhar indiferente pra ela. Significava algo como “tudo na mesma”. Então, no mesmo instante ela percebeu que o meu passatempo era ficar sentada no banco da praça. Mamãe desde que me conhece por gente acha que eu não sou feliz. Eu sou. Só não preciso demonstrar para o mundo inteiro. Na verdade, eu não sei como demonstrar. Tenho uma casa, uma boa alimentação e meus bens materiais. É o que basta, não é?

— Você precisa se relacionar com outras crianças, querida... — Apesar da linguagem perfeccionista dos meus pais, eu sempre conseguia entender o que eles falavam. Conseguia entender também porque minha mãe estava me pedindo isto.

Agora, partir para a ação era difícil.

Ninguém me convidava para brincadeiras. Não com minha pele de cadáver. Já conheci pessoas muito brancas, mas nada se comparava a mim. E eu não era albina. Não tinha essa doença. Até Bryan e sua família tinham uma pele corada, rosada nas bochechas.

Eu até deveria culpar Renato ou Amanda, se alguns deles fossem da mesma cor de pele que eu. Acho que se não existisse as fotos para comprovar, eu ficaria em dúvida. É muito chato ouvir os conhecidos e parentes dizer: “Nossa! Essa menina é branca... demais”.

Quando papai me apresentava para alguém do trabalho — ele trabalhava numa fábrica, na época — eu tinha que aguentar a pergunta: “Ela é adotada?” Já tentei conseguir explicações coerentes dele, mas a única resposta que recebia é que eu tinha uma tataravó com a pele no tom da minha. Grande ajuda.

Pensei nisso até os meus seis anos de idade. E desisti.

Na verdade, pensei naquela família também. E penso até hoje. Desde o dia do parquinho. O pequeno Bryan, a criança mais linda que eu já tinha visto na minha vida. E Raíssa não ficava para trás. Aliás, todos tinham o padrão de beleza igual. A diferença é que o jeitinho do menino criava uma espécie de encantamento em meu sistema nervoso. Explicando melhor, o jeito dele era... Cativante.

No fundo, bem no fundo, eu guardava uma esperança de que iria reencontrá-lo. E isso se concretizou.

1 Cidade fictícia. Nas duas primeiras versões, eu tinha colocado cidades de verdade, mas eu não quero mais. Nesta história, localizações não importam.

Notas finais
É isso, espero que gostem.