Amor Platônico

2 Eu estou apaixonada


Notas iniciais
Olá, voltei! Este capítulo ainda não é uma evolução, acredito que as coisas vão acontecendo no próximo, o terceiro. É isso.

Sugestão de música

Eu tinha seis anos.

Passar do Jardim III para a o C.A foi um grande avanço para mim. As crianças já não iam para a escola com o cabelo muito despenteado. Eram mais cuidadosas do que antes.

— Boa sorte na aula, Tatá — desejou papai, frisando o apelido do ano. Eu odiava esse.

Sorri timidamente e o abracei como um ursinho. Confesso que estava amedrontada e nervosa. Indo para um purgatório onde as pessoas iam ter o mesmo julgamento em relação a minha pessoa: a albina estranha.

Só foi virar as costas para Renato que eu vi a reação dos alunos.

Algumas pessoas olhavam amedrontadas como se eu tivesse uma doença contagiosa. Nas outras eu via os olhos brilharem.

— Um anjo? — perguntou um menininho moreno para si mesmo.

Ele era... fofo. Observando melhor, a pele dele era apenas bronzeada e seu cabelo era bem escuro, com vários cachinhos rodeando a sua cabeça.

Franzi o cenho. Aquilo era uma piada, não era? Segundo as histórias, anjos verdadeiros não tinham defeitos e muito menos sofriam discriminações.

O pessoal que achava que eu possuía alguma doença se afastava cada vez mais. Um novo grupo de meninas patricinhas e esnobes soltava risadinhas enjoativas ao meu respeito. Reações normais, reações de sempre.

A parte mais constrangedora foi a apresentação na sala de aula.

— Pessoal essa aqui é Agatha, nova aluna da escola — disse o professor que atendia pelo nome de Flávio, o único que nos daria aula o ano inteiro.

Pouco me importei se ele era do sexo masculino. De qualquer forma, não me dava bem com nenhum tipo de pessoa a não ser meus pais.

Quem acha que os alunos da turma se contentaram em saber meu nome, está enganado.

— Por que você é branca desse jeito? — perguntou um aluno.

— P-o-o-r-q-u-e-e sii-m. — Ia começar a série de gaguejos.

— Você é doente? — Outro aluno.

— N-ã-o.

— Por que está ficando com rosto vermelho? — E mais outro.

— Ahn?

Por causa da timidez, eu corava da raiz dos cabelos até a pontinha do meu queixo.

— Se tu é muito branca, por que o seu cabelo é marrom? — Mais um.

— S-ee-i lá...

— Você queria ser loira? — De novo.

— Não goos-too muii-to de ama-re-lo.

Foi à deixa para a representante do grupo das patricinhas — que tinha o cabelo loiro — soltar as garrinhas.

— Como é que é?

O professor viu que as simples perguntas estavam virando provocações e encrencas, então resolveu chamar a atenção dos alunos que não estavam sendo nada “delicados”.

— Crianças, chega de perguntas por hoje — suspirei, aliviada.

Porém, sabemos que em cada série sempre existe o desobediente, o palhaço. Aquele que ousa dar a última palavra.

— A última! — exclamou um garoto com cara de perturbado. — Você não consegue falar direito?

As discriminações estavam tornando-se uma oração diária, um mantra. Imaginem uma droga repetitiva, que leva a doença mental se você não a obtê-la diariamente. Dava a impressão de que sofreriam absurdamente caso um dia não tivessem a oportunidade de me azucrinarem.

Esquisita, branquela e introvertida. Até essa parte eu aguentava Agora, ser considerada gaga? Demais pra mim.

Exausta de tudo e todos, eu gritei. E meu grito ecoou por toda a sala.

Todas as crianças da sala arregalaram os olhos, assustados. Mas o pior foi que na direção que eu pus os olhos, eu o vi.

Choque se passou pelo meu rosto. Bryan era o único que não me olhava com uma expressão confusa, os orbes verdes no lugar normal.

Uma vergonha angustiante apoderou-se de mim. Rapidamente, saí porta afora.

Gritar foi a única saída que eu encontrei. Era a primeira vez que apelei ao grito. E apesar de tudo, eu não conseguia chorar. Nesses momentos eu me odiava, desejava morrer ou ser outra pessoa. Se eu não tivesse tomado tal atitude, padeceria na dor da injustiça. Como se eu já não fizesse parte dela.

Concentrei-me em Bryan. A aparência estava idêntica ao episódio do parque, tirando os centímetros de altura que ele cresceu. Havia algumas sardas naturais ao redor de suas bochechas. E claro, estava mais lindo do que a primeira vez que o vi.

Ah, eu preferi ser direta.

— Eu, Agatha Prado, estou apaixonada.

Obviamente, uma criança de seis não juntaria as peças da situação. Porém, não estamos falando de uma criança comum. Estamos falando de mim, a estranha.

Levei um susto quando vi quem estava do meu lado. Sentado, no mesmo banquinho de madeira que eu, no corredor. Era ele. Juro que era ele. Se não estivesse tão perto eu iria fazer o mesmo que vi na televisão: beliscar-me para ver se estava sonhando. Isso era patético, eu sei. Eu sabia que estava acordada.

O fitei com minha expressão serena e desconfortável de sempre. Achava que ele iria me ignorar como as pessoas faziam, porém foi um tanto quanto diferente.

— Tá tudo bem? — E as três palavras ficaram guardadas na minha memória. Eu nunca tinha ouvindo sua voz antes. A não ser os sons esquisitos que ele fez no dia do parque. Ridiculamente, classifiquei o “tá tudo bem?” como uma frase símbolo na minha infância. Na minha vida, talvez.

A sua voz era uma mistura de rouquidão forte demais pra uma criança, com o tom musical de um cantor mirim. Lindo de se ouvir. O tipo de voz projetada para admirar. E ele nem percebia isso.

— Sim. — Foi só o que saiu da minha boca.

Entrei em um transe hipnótico, focando minha visão em seus olhos. Não conseguia desgrudar.

—Terra chamando Agatha? – Ele acenou bem na frente do meu rosto, querendo chamar atenção.

Eu ri. Meu nome saindo por seus lábios era perfeito, não podia negar.

Não consegui responder nada. Assenti para ele ver que eu estava nesse planeta. Coisa estranha de se falar. Muito estranha. Nunca me dei bem com essas tiradas sem nexo. Não tinha e não tenho humor pra isso.

— Por que você gritou na sala?

Essa era uma pergunta que eu não queria responder. Provavelmente, Bryan pouco me compreenderia e eu seria taxada de louca. Na minha infância, ninguém chegou ao ponto de me chamar de chamar disso.

— Estava com vergonha — menti, por partes.

Tá, eu me senti envergonhada sim. Porém esse motivo era de minha natureza. Timidez. Agora, não é todo dia que eu ficava estressada e agoniada daquele jeito. Foi uma forma de defesa. De mostrar que eu não estava gostando daquele questionário superficial, parecido com um julgamento de um ET.

Abaixei a cabeça, constrangida. Não aguentaria mais estresse.

— Entendi — sussurrou ele, dando de ombros. Lembrei-me do dia do parque. O tempo passou, mas ele continuava com toda aquela indiferença. Por um lado, me confortava, mais por outro eu me sentia isolada, um nada. Difícil de explicar.

Repentinamente, apareceram duas garotas. Uma delas eu reconheci como o projeto de patricinha. Quando ela crescesse ia formar grupinhos maiores e tentar “comandar” a escola. As crianças da minha sala tinham de cinco a sete anos. Crianças que estavam numa série para aprender a ler, ampliar o vocabulário. Sem querer me gabar, eu sempre falava melhor que todos. Até hoje.

— Bryan, o tio está mandando você ir pra sala agora. — A representante meio que ordenou.

A voz dela era forçada, planejada para a conquista. Eca.

Por Deus, nós éramos crianças que mal saímos das fraldas! Ela agia como uma pré-adolescente. Só que com o cérebro de um passarinho. Pássaros eram bem mais inteligentes que ela, se quer saber.

Eu relevei a palavra tio. Não importava que eu gostasse de chamá-los formalmente, porque até a quarta série esse era o costume.

— E você também, branquela — disse a seguidora dela. A mesma fez questão de frisar a palavra. Sorte dela que eu não me incomodava, pra mim era um apelido carinhoso, mesmo que usado para humilhação.

— Vamos? — Bryan me chamou. Eu gostei da gentileza particular dele.

Enquanto estava me levantando, ouvi as duas garotas bufarem de raiva. Eu tinha provocado raiva nelas. E adorei isso. Só quando voltei a sala, observei a situação.

O professor não tinha nem me seguido, perguntado se eu estava bem, como qualquer um faria.

Então veio a luz. Ele tinha colocado Bryan pra isso. Como alguém carismático para aplacar os problemas. Se isso era um método decente eu não sei. O que importava é que foi uma ideia genial.

O certo seria achar que o amor platônico acaba quando você tem um contato de fala ou toque com a pessoa. No amor platônico só se usa basicamente a visão. Porém, eu não falei mais com Bryan naquele ano. Supostamente, o mesmo devia estar tentando afastar-se, deduzindo que eu tinha problemas sérios. Ou talvez fosse pra ser assim. E pronto.

No outro ano escolar me mudei, a fim de morar numa casa mais confortável e ampla para os meus pais. Eu não tinha mais esperança nenhuma. Só lembranças.

O tempo passou, e eu fui ficando a mesma interiormente. A diferença era mais conhecimento, mais tempo de vida. Por dentro, aquela garotinha dramática e conturbada permaneceu aqui, e pode ser que permaneça para todo o sempre.

Notas finais
Pois é, o capítulo não foi uma Brastemp, mas introduzir a história é importante. Lembrando que eu não tenho nada contra loiras - já fui loira por vários anos, adoro - nem a Agatha. É apenas um clichê encaixado na história, das patricinhas loiras que perturbam a pobre coitada, haha. Espero que gostem.