Amor Platônico
8 Eu sou um idiota
Notas iniciais
Narrado por Bryan
Trim… Trim… Trim…
Um barulho irritante me incomodava. Ele que se ferrasse. Eu não queria acordar.
Trim… Trim… Trim…
Coloquei dois travesseiros colados sobre os meus ouvidos. Impressionante como isso sempre acontece quando estou dormindo.
Trim… Trim… Trim…
Grr!
– Hora de acordar, querido.
Dona Cristina me sacudia constantemente. Que ódio.
– Não. – Fui curto e grosso.
Minha cabeça latejava muito, apesar de não ter bebido uma gota de álcool ontem.
– Tudo bem. – Ouvi seu suspiro alto e lamentoso. – Só vá estudar se quiser.
O mundo real caiu sobre a minha cabeça.
– Merda!
Passei o fim de semana inteiro socado dentro do meu quarto, tentando entender sobre sexta-feira a noite. Tentando entender sobre… Ouch, o que aconteceu com Agatha?
Sim, praticamente todas as manhãs, minha mãe era obrigada a me acordar, pois a síndrome do “tenho pavor de acordar cedo” constantemente me ataca. Sempre tive um péssimo humor no início da manhã. No fim das contas, ir para o colégio era bom por um lado. Ele sumia só de saber que eu era bem acolhido lá. Que todas as gatinhas queriam um pedaço de mim.
– Eu sei o quanto é complicado ter de se esforçar mentalmente logo cedo. – Abriu as cortinas, expondo um jato de luz sobre o meu rosto. – Seus irmãos já estão tomando café da manhã. Talvez, se você quiser faltar hoje –
– Não precisa – grunhi.
Ela era doce demais. E isso era um problema pra mim. Não tinha ideia de como retribuir toda essa suavidade, uma palavra que não combina muito comigo. Não incomoda o fato de ela ser tão gentil. A culpa era minha mesmo. Simples.
Nunca havia me importado antes, de ver Cristina sair do meu quarto lentamente. Já hoje, eu pude observar como ela estava abatida com o meu comportamento frio. Pude observar como o meu quarto estava uma bagunça também e que depois Suzana – a empregada – teria que limpá-lo outra vez nesse intervalo de dois dias.
Sou insuportável.
No sábado, quando abri meus olhos, vi que não era o mesmo. Uma certa pessoinha estava fixada na minha mente. Não no sentido de que eu queria repetir a dose, ou seja, o beijo. E sim de que me sentia imperfeito demais, confuso demais.
Catei as várias calças de moletom, as peças íntimas e algumas meias – todas eu usava pra dormir – do chão e pus no cesto de lixo. Preciso citar que nunca havia feito isso antes?
Tomei um banho rápido, pondo com pressa na mochila o material espalhado por todo o quarto. Eu era um bom aluno segundo os professores, por mais que minha desorganização contrariasse o que eles falavam. Estudar pra mim era mais do que pegar uma caneta e abrir a apostila na página tal. De vez em quando, eu fazia questão de esquecer vários itens escolares, só pra fazer questão de mostrar que eu não precisava disso pra absorver a matéria. A mente fazia o trabalho completo. Infantil, eu sei.
– Nós vamos no atrasar, idiota – Raíssa resmungou, buzinando freneticamente pra mim no meu carro.
Andei o mais devagar que pude só pra provocá-la.
– Também te amo. – Era ótimo quando Miss Nova Paisagem bufava de raiva – Agora, pode ir dando um jeito de ir mais pro lado que eu quero dirigir.
– Papai disse que não vai demorar muito pra eu ganhar o meu conversível. E vai ser muito melhor que o seu. – Estirou a língua como uma criança. Pra mim, Raíssa nunca havia passado dessa fase mesmo…
– Que inveja – debochei.
Gabriel começou a demonstrar impaciência. Pois é, ele estava sentado no banco de trás, incrivelmente calado, como na maioria das vezes em que eu e a criancinha sentada ao meu lado discutíamos. Ele era muito taciturno de manhã.
– Gabriel está tão ansioso para encontrar sua namoradinha… – Não podia dizer o mesmo da minha irmã, que fala demais.
– Ela é sua melhor amiga e ver você falando desse jeito me enoja. – Por mais que ele fosse quieto, não significava que não sabia deixar alguém pra baixo.
Desviei a atenção da estrada por um segundo, apenas pra ver a anta loira escorada na poltrona do meu precioso carro, de joelho e ainda por cima encarando meu irmão com um olhar mortífero.
– Senta direito essa bunda aí, senão você vai ser obrigada a limpar o carro inteiro depois – disse como se tivesse dito um “oi”.
Seus olhos lacrimejaram em resposta. Lá vinha um drama daqueles.
– O que eu fiz pra merecer um irmão ignorante e outro que vive pegando no meu pé, sem me deixar ter um pouco de liberdade?! – Ela ainda não havia se sentado direito no carro, o que estava me preocupando seriamente. Ele custou muito caro. – Nem meu pai é tão super protetor assim, tá? – cuspiu a última frase na cara do meu irmão.
Tudo o que Raíssa queria, meu pai dava. E no caso do seu tão esperado conversível vermelho, ele estava se matando pra dar. Se Dr. João Pedro não madrugasse tanto para chegar ao trabalho, provavelmente ela nem estaria pegando mais carona comigo. Fora que azucrinaria os ouvidos do meu pobre pai com esse assunto de que a maioria de suas amiguinhas já são “motorizadas” e que ela devia ser também. Deprimente.
Ela é a princesinha do papai.
– Fique sabendo, que é ele mesmo que vive me pedindo pra tomar conta de você. – Ele devolveu na mesma moeda. Doeu até em mim.
– Que saco! – Estava muito aliviado de naquele exato segundo não ter que aturar juntamente com o passageiro de trás os gritos da loira do banheiro.
– Chegamos. – Estacionei e saí do carro imediatamente, vendo pelo canto do olho a idiota se apavorar por ter sido tão distraída e nem ao menos perceber que o pátio estava amontoado de estudantes.
Gabriel bateu a porta do carro estressado e me acompanhou, deixando a dondoca terminar de checar sua aparência sozinha. Comovente.
Como sempre, Henrique e Melissa chegaram primeiro que nós. Não que tenhamos chegado atrasados. Sabe como é, família exagerada…
– Bryan! – Uma pintora de rodapé saltitante pulava em minha direção. Alguém precisava avisar a ela que por mais que fosse pequena, era bem fortinha. Quanta energia numa pessoa só…
Quando o cara atrás de mim ficou bem em frente a sua vista, tudo mudou…
– Amooooooooooooooooor! – Diferente de mim, Gabriel fingiu não estar nenhum pouco assustado com os gritos matinais de Melissa. E nem com os milhares de beijos no rosto babados que ela dava nele sem parar. Eca.
Deixei os pombinhos pra lá, indo até um Henrique com cara de torturado.
– Que foi, esteroide? – Eu me divertia espalhando pra escola que ele havia tomado bomba de boa qualidade. Uma brincadeira minha. Ele somente malhava demais, como um louco.
O grandalhão pôs a mão na cabeça como se tivesse morrendo de dor. Dor de cabeça.
– Nossa, a ressaca está grande hoje, hein? – perguntei meio sério e meio risonho. Toda vez que ele aparecia assim na escola é porque tinha tomado todas na noite anterior.
– Boate – declarou.
Alguma parte de mim esperava que suas festinhas não fossem o motivo desse comportamento. Talvez, algo como estar preocupado com o futuro e tal…
Por que estou pensando nisso?
Sério, eu não estava reconhecendo a mim mesmo.
– O problema é ter juntado tudo o que bebi na festa da Branca de Neve com o que eu bebi ontem. Sabe no que dá né? – de alguma forma eu estremeci quando ele falou dela. Não quis falar mais nada e me apoiei no seu jipe, observando como meu irmão dava uns amassos em Melissa, sem deixar de fiscalizar Raíssa. Babaca.
Quase um minuto depois, vi Joana – a pentelha – no portão de entrada, ansiosa pra ver algo ou alguém. Tanto faz.
Um carro prata parou em frente a ela. De lá saiu quem eu mais queria ver…
Eu não sabia que sua mãe também dirigia, e sim que o pai dela trabalhava na mesma empresa que o meu pai advogava. Realmente, eu tinha pouquíssimo conhecimento sobre sua vida.
Joana acenou, enquanto Agatha deu um breve beijo na testa de Amanda, que logo em seguida arrancou com o carro. E como era de se imaginar, havia vindo sem o capuz pela primeira vez. O mais inacreditável: usando uma blusa branca.
Ela remexia a manga, como se sentisse muito incomodada com a cor da roupa. Sinceramente, era branco demais e a fazia empalidecer, desaparecendo por completo.
Joana a puxou para o estacionamento e eu ri ao ver que ela se arrastava com a cabeça um tanto baixa por causa dos diversos olhares em sua direção. Não era por causa da sua blusa. E sim, o temor com as pessoas. Aparentemente, Agatha ainda não tinha superado os diversos olhares de surpresa, cobiça e inveja. Aposto que ela nem os via desse jeito.
Eu continuei olhando. Ela pediu que Joana segurasse sua mochila por uns instantes e pôs um casaco devido ao início de uma chuva fina. Detalhe: era vermelho.
Oscilei.
Agora sim, se parecia com a personificação da Branca de Neve. Uma visão pura, convidativa e completamente virginal.
– Hey. – A branquinha me cumprimentou, muito tímida. Não conseguia manter os olhos em mim por mais de um segundo.
Eu não era capaz de tirar os meus dos dela. Bizarro.
– Oi, maior de idade – brinquei, com sinceras intenções de fazê-la se lembrar da festa.
E do beijo.
– Foi perfeita – a intrometida – vulgo Joana – comentou.
– Claro, até parece que você ia falar mal de uma festa que você mesma arrumou. – Não deixei escapar.
– Eu poderia muito bem te xingar de mil coisas possíveis, mas… HOJE É O DIA DA MINHA FLORZINHA SE MOSTRAR PARA O MUNDO!
Vi a pobre garota arregalar os olhos, apavorada.
– Por acaso Agatha se tornou famosa? – Tentei descontraí-la. – Foi chamada pra fazer um filme junto com as maiores estrelas do país?
Agatha se encolheu com a ironia besta.
– Imbecil! Idiota! Arrogante! Ignorante! – A maluca soltou todos os apelidos que tinha economizado.
Ops.
Agatha entendeu tudo errado. Devia ter achado que eu queria humilhá-la, fazê-la se por no seu lugar. Eu não fazia isso. Poderia ter mil defeitos, mas não era encrenqueiro. Era só o meu jeitão de ser. Conclusão: como ela me achou completamente grosseiro e humilhante, na primeira oportunidade que tivesse iria fugir e definitivamente não gastar nem meio segundo me olhando.
Desconfortável e chato, pra mim.
Não pensei duas vezes em puxá-la discretamente – muitas pessoas viram – para um canto mais vazio, também a salvando de uma Melissa hiperativa e saltitante. Não custava nada corrigir um erro.
– Desculpe – soprei.
Foi difícil pedir desculpas e ainda assim ver seu olhar triste e desamparado. Pior mesmo é que ela não reagia com raiva. Eu merecia isso.
– Tá tudo bem. – Sua voz fina e melodiosa atingiu meus ouvidos. Nenhum pouco irritante quanto às afinações de todas as garotas que me queriam. Não era um tom forçado e sim natural. E olha que eu nunca fiquei analisando como os outros falam.
Sua expressão abandonada tinha cedido um pouco. Ainda assim, havia resquícios de melancolia ali.
– É sério. – Cocei a nuca – Só disse aquilo pra que você não tivesse medo da pentelha – Tentei sorrir. – Joana é muito exagerada.
A branquinha deu a impressão de não estar prestando muito atenção no fim das minhas desculpas. Estava concentrada em alguma parte de mim.
– Por que está nervoso?
Fiquei tremendamente chocado. Ela lia mentes ou algo do tipo?
– Como sabe disso? – repliquei, muito curioso.
Ela soltou uma risadinha antes de me responder.
– Está coçando a nuca – declarou.
Peraí, como ela sabia da mania que eu tinha desde criança?
– Tem certeza que não está me espiando?
Seu rosto começou a adquirir um tom de rosa intenso.
– Não, não, não. – Negou com a cabeça. – Sou muito observadora, só isso.
Estranhei. Eu também captava com facilidade essas coisas, mesmo sendo meio distraído. Na verdade as pessoas acham que eu sou desatento ao meu redor. Tenho o hábito de expandir os meus outros sentidos quando quero. Duvido que Agatha me achasse observador, como ela.
Entretanto, havia uma coisa que eu queria que todos observassem. Todos. Até meus irmãos e melhores amigos.
Plantei um beijo nos lábios dela. Um simples “selinho” que já provocava centenas de faíscas estranhas dentro de mim. Senti a sua insegurança de me beijar em público. Agatha abriu os olhos e se afastou, dando dois passos pra trás.
– O que foi? – perguntei rabugento. Por que ela não tinha me dado permissão para terminar o beijo?
Ela vacilou totalmente a expressão. Pude ver seus olhos criarem um mar avermelhado e começarem a lacrimejar. Me xinguei mentalmente em vários idiomas, com a mão pronta pra dispersar suas lágrimas.
Lágrimas que não vieram.
É claro que eu havia sido grosseiro. É claro que eu estava magoado por ser rejeitado ali, na frente de todos.
Minha branquinha mastigou seu lábio inferior – o que me deu muita agonia – e começou a tatear meu rosto devagarzinho.
Opa.
– Droga – suspirou. – Eu sei que todo mundo está olhando, entende? Não quero uma legião de garotas revoltadas comigo, prestes a me atacar em qualquer lugar pra onde eu vá. – Repentinamente ela estava sorrindo, apesar das palavras sérias.
Hmm. Acabei me esquecendo de que o verdadeiro motivo era o público.
De muitas frases e palavras que eu queria falar, de sentimentos diferentes, atos embaralhados e todas essas coisas que estavam acontecendo conosco, nenhuma saiu pra fora. Ficaram presas na minha garganta.
Agatha passou a mexer nos meus cabelos – em pé mesmo – desalinhando-o completamente. Ela estava desfazendo todo o meu penteado, mas eu não me incomodei…
Eu vi o brilho nos olhos dela por fazer isso. Parecia que…
Oh não.
Parecia que ela desejava fazer isso há tempos. Não pode ser. Parecia que ela gostava de mim e…
O sinal tocou.
– Sorte a minha que eu estudo na mesma turma que você. – Pôs a mão que estava me acariciando no bolso do casaco flamejante. – Não vou conseguir olhar na cara das minhas amigas tão cedo.
Eu ainda ia tirar essa história a limpo. Ia sim.
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