Amor Platônico

4 Eu enfrento a decepção


Notas iniciais
Voltei! Vamos ao próximo capítulo.

Sugestão de música

O sinal tocou logo depois desse meu devaneio. Eu fiz uma carranca triste e agradeci aos céus que eles não viram isto. Eu me coloquei no meu lugar; não almejava qualquer chance de criar uma amizade longínqua com o grupo e em todos os intervalos ficarmos juntos ou qualquer problema servirmos de consolo um ao outro. Uma coisa que eu sempre sonhei e fantasiei. Ter um ombro amigo para lamuriar e não chorar, já que a tonta aqui nem derramar qualquer estúpida lágrima conseguia.

– Agatha? – meu coração tripudiou no peito. Era a voz dele, me chamando...

– Sim? – tentei não gaguejar e consegui essa proeza. Por outro lado meu interior pulsava de alegria. Patético.

Ele ficou satisfeito com minha resposta-pergunta imediata.

– Por que não tira o capuz?

Achei que iria ficar deprimida ou... indecisa, porém apenas mordi os lábios, crendo que aquela poderia ser uma boa ideia. Outra parte da minha mente queria fazer um suspense. Iria ser legal, daria um ar de mistério para a minha vida insignificante.

– Você e seus “por quês” – disparei, e automaticamente levei a mão esquerda à boca. Eu estava relembrando do dia em que ele questionou meu grito e o tanto de “por que” pra lá e pra cá quando ele assombrava seus amigos de perguntas. Pois é, eu tenho bons ouvidos.

– Uau, você por acaso anda me espionando?

Ou ele era insensível ou era curioso. Eu pensei em ficar ofendida, pois minha paixão por ele não chegava a invadir sua privacidade...

– Nem um pouco – e saí andando, triunfante. Pela primeira vez na vida eu andei assim. Que estranho.

Confesso que naquele momento queria ter um olho nas costas – mesmo que a ideia soasse repugnante – e ver sua reação. Eu tinha deixado um por cento da minha timidez fluir por água abaixo. Mas o resto dela ainda me perturbava e naquele dia eu provei da esperança de consegui me curar do meu comportamento horrível.

Pela primeira vez na minha tosca vida eu não prestei atenção por completo ao restante das aulas. E desejei muito que o sinal tocasse com toda aquela pressa que ele resolveu tocar num momento brando, o intervalo.

A semana que se passou foi extasiante. Qualquer pessoa normal – que não fosse estranha como eu – acharia... legal. Joana gostava da minha companhia e eu a seguia como uma sombra. Redondamente ridículo e impotente da minha parte. O lado interessante da história era constatar que os olhares dos alunos tornaram-se menos sobressaltados.

– Vai querer o que? – Joana perguntou-me sobre o que eu comeria no intervalo.

– Não... sei... tal vez... talvez... um suco... É... Uma maça também. – Não fazia a mínima ideia. Fast-food e qualquer alimento com bastantes calorias nunca me chamou a atenção. Não muito. Deve ser porque mamãe não me permitia ingerir constantemente algo do tipo.

– Ah, Tha! – pois é, ela fez questão de inventar um apelido para mim. – Nada disso! Vamos comer pizza! – com certeza, Joana possuía a voz mais esganiçada e implorativa do universo.

– Tá – dei de ombros.

Logo após enfrentarmos uma fila imensa – que pelo menos andava um tanto rápida – vimos Henrique e Melissa acenarem longamente para nós duas. Suspirei, quando percebi que Bryan estava bebericado um refrigerante na mesa, concentrado em ler o rótulo da embalagem.

– Tudo bem, querida? – apesar de mal conhecer Mel, eu a considerava como uma irmã.

– Tuuudo! – tentei corresponder de um jeito animado, só que saiu como se eu tivesse algo preso em minha garganta.

Bryan desviou o olhar da lata de refrigerante com a minha resposta. Poxa, foi tão ruim assim?

Nem tanto, já que segundos depois ele sorriu torto e descontraído.

– Oi, Agatha – o único que ignorava meu apelido. Porém, não me permiti ter um ataque de tristeza interior.

Eu mexi a cabeça timidamente, confirmando. Era hora dos cumprimentos acabarem.

E, pela primeira vez na minha vida eu estava sentindo demasiada sorte. Seis pessoas, os primeiros a fazerem questão da minha presença em todos esses anos.

* * *

Eu resolvi criar pequenas doses de coragem no fim da última aula. O professor Rafael explicava pacientemente noções de Física. Mas a excepcional noção que eu tinha era a de tentar abordar Bryan, nem que fosse um simples “tchau”.

E digo antecipadamente que me arrependi. Realmente, eu nunca soube agir corretamente com as pessoas.

O pátio da escola estava lotado de alunos, então eu percebi que seria inteiramente difícil encontrá-lo. Alunos populares caçoando dos inteligentes – que eles cismavam em chamar de “nerd” – melhores amigas fofocando sobre quem usava roupa antiquada na escola e tentando chegar a um consenso de que balada elas iriam participar no fim de semana.

Sem contar alguns “casaizinhos” enroscados, dando vários amassos em qualquer canto: árvores, bancos de madeira, paredes exteriores...

E como em qualquer história onde a garota estranha gosta do garoto popular e lindíssimo da escola, Bryan fazia parte da última opção.

Beijando. Uma garota. Metida. Mimada. Patricinha. Loira.

E que coincidentemente era representante de um grupo que tinha como passatempo me ridicularizar e mandar olhares de pena para mim. Pena que eu não necessitava.

Ploft!

Você corre de lá o mais rápido que suas pernas permitirem, reclama mentalmente de como o mundo é cruel e interroga pra si mesma como ele foi capaz de pegar logo uma das garotas que você mais odeia. Vanessa. Por fim, você corta os pulsos – ideia extensamente clichê – e vai parar no hospital, vendo a dor da sua família e dos seus poucos conhecidos aumentar enquanto a sua vida vai desfalecendo.

Essa não sou eu.

HÁ, HÁ, ri sarcasticamente, ainda parada em frente à cena.

Assisti aquele momento grotesco até o fim. Vi Bryan dar uma olhadela confusa para mim. Não fiz questão de decifrar. Esse olhar era repetitivo demais, arrogante demais.

Virei às costas lentamente – imitando sem querer um robô insensível – e fitei o chão, distraindo-me com uma lagarta verde que ziguezagueava vagarosamente. Toda a cena passou por minha mente.

Os braços de Bryan enroscados nos de Vanessa. Ela retribuía freneticamente. Não posso dizer o mesmo dele, parecia um ato sem emoção de sua parte. De qualquer forma dei um chá de sumiço na história, porque obviamente eu fui a telespectadora da situação e não sei como ocorreu o “por trás das câmeras” , o “making of”. Ou seja, eu não tinha a mínima ideia de que a cena envolvia sentimentos totalmente amorosos ou não. Eu só servi de plateia. Um papel que eu cumpro muito, observando os outros terem coisas que eu nunca obtive.

Notas finais
Não sei se vocês vão gostar realmente da história ou se vão ter uma relação de altos e baixos com ela. Mas sei que vou dar o meu melhor à partir da parte em que parei de escrevê-la, no passado. Isso é tudo, pessoal.