Notas iniciais
Aqui estou em, em espírito. Mais uma postagem programada.

Sugestão de música

História era fácil pra mim. Uma matéria simples de ser descoberta. A pessoa ao meu lado, não.

De minuto em minuto, os olhos de Bryan pousavam em meu rosto, como se ele quisesse me fazer uma pergunta muito complicada. Eu quase arranquei um pedaço da folha de caderno e escrevi “O que está acontecendo?”

Talvez fosse o deslize bêbado da minha festa. Ou ter recusado o seu beijo na entrada.

Eu não sei.

Eu só sei que me peguei fazendo uma careta triste quando ele saiu a passos apressados da sala de aula.

Eu saí logo depois dele, me escondendo de muitos olhares – principalmente de Joana, Melissa e Raíssa. Comecei a tremer de medo enquanto passava rapidamente pelos olhares curiosos de todo mundo. Se uma delas estivesse no meio de toda aquela gente, eu praticamente iria sair correndo pelos corredores. Porque eu não queria ver três pares de olhos cheios de curiosidade e repreensão.

Por sorte, eu não avistei nem mesmo algum dos meninos. E também achei algum lugar vazio, para que eu ficasse sozinha e pensasse em todas as drásticas mudanças que ocorreram na minha vida em apenas um mês e alguns dias.

Uma adolescente sozinha e cheia de paranoias. Perdida, sem esperança. Diante de como minha vida estava naquele momento, eu senti que meu jeito de antes era grotesco. Que eu era seca e sem vida.

A timidez ainda me acompanhava bastante, porém era algo que como Jo vivia dizendo era aceitável e natural, não uma coisa de quem desejava ser antissocial. Bryan era a única pessoa que eu não conseguia olhar por um bom tempo. Tirando a noite em que eu estava bêbada, é claro.

O meu futuro iria ser mudado, já que a cada dia as emoções que eu escondia estavam aparecendo. Eu teria alguns momentos adolescentes de desconcerto e travessuras. O único problema é que Bryan marcava presença em todos os meus planos. E isso não era certo. Era uma passagem para a ilusão, sem volta.

Pela primeira vez na minha vida, a raiva por amá-lo tanto bateu em meu corpo. Eu sempre achei que ser obcecada por ele era justo e me fazia bem. Mas isso me mataria com o tempo. Porque eu veria que seu caminho é outro. Por mais que ele fosse mulherengo e um pouco indiferente, eu o via com uma família.

Crianças andando pela casa com seu cabelo ruivo. Uma esposa atenciosa cuidando de uma casa grande e aconchegante…

Fechei a mão em punho. Raiva, muita raiva. Desespero. Nada de lágrimas.

Passos barulhentos fizeram com que eu saísse da letargia. Barulhentos e irritantes.

Vanessa e suas discípulas vinham ao meu encontro com uma pose ridícula de quem quer tirar satisfações.

Levantei-me. Se elas pensavam que eu ficaria humilhada com suas palavras nojentas, estavam redondamente enganadas. Eu as faria engolir tudo e ainda por cima jogaria na cara delas o quanto elas eram fúteis.

– Eu vi você beijando o Bryan – despejou Vanessa, naquela voz nauseante.

Arqueei a sobrancelha direita.

– E daí?

Ela ficou meio roxa.

Faltavam dez minutos para o intervalo acabar. Eu a ignorei e saí andando pelo colégio, sem rumo. Não. Eu queria que elas me seguissem, irritadas.

– Você acha que ter tirado o capuz vai fazer com que você o mereça? – vociferou histérica. Eu estava passando pelo refeitório e as pessoas imediatamente abriram seus ouvidos na nossa direção.

Eu parei. Fitei-as. Meus olhos brilhavam de raiva. Aquilo era muito imbecil. Vanessa esperou que nós ficássemos no meio de todos os alunos pra me esnobar. Ela tinha gritado, só pra abrir um showzinho, esperando que de alguma forma eu fosse rebaixada no final.

– O que? – Eu gritei mais alto, alimentando seu capricho. Guerra declarada.

– É isso mesmo, querida. – Uma discípula ruiva respondeu.

– Você não é boa o suficiente pra ficar com o Bryan! – Agora era Karen, a atirada que estava tentando arrancar pedaços do meu amado no meu aniversário.

As retardadas riram, em conjunto.

A plateia esperava minha reação.

De pronto, vi Melissa e Joana. Com as mãos em punho. Elas estavam preparadas para me defender. E eu queria fazer isso sozinha.

Varri meus olhos pela sala e adivinha que eu encontrei?

Bryan. Embasbacado, intrigado, apreensivo.

Ótimo. Em boa hora.

Eu respirei fundo e logo uma ideia se formou em minha cabeça. Cruzei os dedos. Iria cometer uma loucura. E não, não tinha nada a ver com agressão física.

Fui ao seu encontro, esbarrando em todo mundo que via pela frente. Eu cheguei perto o suficiente dele para que sentisse seu hálito viciante. Ele não exibia nem mesmo um daqueles sorrisos debochados e nem sequer havia falado alguma coisa. Lancei um olhar maligno pras patricinhas. Fechei os olhos. Agarrei seu cabelo. Virei meu rosto, vendo os olhos de Vanessa se arregalar. Sorri pra ela. Mordi meu lábio inferior. Voltei minha atenção a Bryan.

Sim, eu o beijei na frente de todo mundo. Como se o mundo fosse acabar. Porque na verdade, o meu mundo se dissiparia quando eu não pudesse mais tocá-lo de alguma forma.

Ouvi aplausos, urros de incentivo. Se eu fosse mais estranha do que eu já era, riria em meio ao beijo. Mas eu não estava só me aproveitando da situação para sentir seus lábios. Eu sempre o amei desde – aproximadamente – cinco anos de idade.

O mais empolgante daquilo tudo?

Era que ele estava retribuindo avidamente. Que se manteve mudo logo após meu ataque surpresa. Porque ele era o centro do meu mundo.

A consciência me bateu de volta, mas eu não fugi.

E ele fez tudo valer à pena, porque de repente seus dentes se abriram num sorriso extremamente infantil. Não era como quando seus lábios se mexiam de um jeito torto. Era sincero e muito apreciável.

O barulho de passos irritantes voltou. Só que dessa vez, o grupinho de cinco dissimuladas saiu derrotado. E eu tinha corado bem pouquinho, confirmado que por mais que eu me desenvolvesse e ganhasse coragem, minha essência de sempre permaneceria ali. Afinal, eu continuava apaixonada, né?

Dã.

* * *

– Tha, você e Bryan andam se beijando por aí? – Melissa estava numa agitação tremenda, pulando bem na minha frente.

– Nunca imaginei você e ele juntos. Isso é… estranho. – Raíssa insinuou de um modo bem claro que nós não combinávamos. Muito animador.

Dei de ombros.

– Se a palavra estranho for a mesma coisa que dizer que os dois formam o casal mais fofo do mundo, você está completamente certa, Raíssa Ribeiro. – Jô deixou transparecer toda a sua aversão as palavras da loira carrancuda. Um dos motivos da nossa amizade era a proteção que a doida me oferecia. Joana me parece irônica como ninguém.

As três esperavam algum tipo de resposta da minha parte, mas eu me calei, enquanto pensamentos confusos atravessavam minha mente.

Eu não me preparei para encontrá-las na hora da saída. Mamãe também colaborou muito – pra não dizer ao contrário – se atrasando pra me buscar.

Ugh. Me buscar. Isso soava muito infantil pra alguém de 18 anos. O que eu podia fazer? Não queria abandonar alguns costumes de como quando eu era criança.

– Ótimo, pelo visto vamos ter que aguentar mais um tempo sem resposta. – Mel indicou com o queixo uma direção. – Ali, Tha. Seu príncipe encantado de má qualidade está vindo pra cá.

Eu lutei pra não demonstrar receio e outros sentimentos derivados. Também não me virei. Se eu fizesse isso, com certeza ele veria de cara que me afetava ao extremo com sua presença. Em todos os aspectos, Bryan conseguiria captar várias sensações estranhas que surgiam constantemente dentro de mim, somente porque ele estava perto.

– Meninas – cumprimentou ele, em seguida agarrando meu braço com destreza. – Vou roubar ela por um tempo. – E saiu me arrastando pelo estacionamento. Eu pedia socorro com os olhos, mas minhas amigas riam e achavam tudo normal.

Tá, ele não pegou meu braço com tanta força e muito menos tinha uma carranca de zangado no rosto. Apenas saiu andando comigo sem permissão, ignorando que tudo e todos nos olhavam com indiscrição. Nós paramos em frente ao seu carro caríssimo. Ele abriu a porta do mesmo, me jogou lá dentro, entrou no banco do motorista, ligou a chave e simplesmente voou estacionamento afora.

De repente eu estava sentada no lado do passageiro, boquiaberta.

Imediatamente, seu rosto impassível foi substituído por uma expressão divertida. Meu pobre coração opressivo batia com força, sem entender bulhufas do que estava acontecendo.

Quinze minutos depois – finalmente – Bryan parou. No meio do nada.

Quer dizer, não tinham casas por ali. E tudo era completamente… lindo.

Saindo do asfalto, eu pude ver a vegetação mais preservada na minha vida. As árvores pareciam me engolir e mesmo estando num lugar úmido demais, algumas florzinhas estavam num estado perfeito.

– Aqui tá bom – disse, se sentando embaixo da árvore que provavelmente era a mais bonita dali.

Eu era a personificação da confusão naquele momento. Nem ousei me mexer.

– Senta Agatha. – Ele rolou os olhos e bateu na grama ao seu lado. Talvez achasse que eu era fresca demais pra ter contato com a natureza.

Pra falar a verdade, ele mal me conhecia.

Enquanto obedecia ao seu comando, eu tentei controlar qualquer coisa que denunciasse minha paixão. Não tive sucesso, claro.

– Nós dois temos que bater um papo. – A voz dele era clara e objetiva. – Quero esclarecer algumas coisas.

Eu assenti, mas não falei nada.

– Você não tem boca? Eu não estou fazendo um monólogo, Agatha..

É, o meu silêncio o irritou. Sua calma foi cedendo ao poucos, dando lugar a uma irritação crescente. Imediatamente, me odiei. Também, não dá pra amar a si mesmo quando você atinge quem você ama. Simples.

– Não está – respondi. Ele até se assustou. Devia ser porque minha voz era fina e irritante, diferente da sua voz melodiosa e estupidamente encantadora. – Pode falar.

Era complicado – estar cara a cara com Bryan. Só que naquela vez, foi mais que complicado. Porque eu estava sentada e a centímetros do seu rosto, perto o suficiente para poder sentir sua respiração fazendo cócegas em mim. Uma sensação agradável.

– Certo. – Ele tomou fôlego. – Eu tenho te observado há algum tempo –

Puff – soltei, arregalando os olhos em seguida. Não havia nada de interessante na minha pessoa. Eu era tédio puro.

– É sério.– Ótimo. Ele pensou que eu estava duvidando de suas palavras.

– Tudo bem. Pode começar.

Eu achei que ele iria ponderar muito antes de por pra fora. A minha mente idiota chegou a pensar que ele iria me repreender por ter feito aquela cena no refeitório. Pois de algum jeito eu invadi sua privacidade, nem ao menos o consultei rapidamente. Eu não queria pedir permissão nenhuma ou explicar baixinho que aquelas oferecidas estavam me desafiando. Eu só queria beijá-lo.

– Você ficou o ano passado inteiro escondida nas sombras, naquele maldito capuz. Sem falar com ninguém. – Sim, ele me surpreendeu soltando detalhes de mim que eu nem queria saber que um dia existiram. – O colégio inteiro pensava que você era… – Ele riu secamente, sem humor algum. – Uma espécie de bruxa ou garota com uma deformação física esdrúxula. Agatha eu ouvi um grupo de garotas falarem que você tinha uma doença extremamente contagiosa, entende? – Sua voz se alterava mais e mais a cada frase. – Aí no ano seguinte…

– Nossa, eu –

– Me deixe continuar. – Ele praticamente mandou. Eu não tinha nada pra esclarecer sobre como eu me escondia anteriormente.

Suspirei, esperando.

– No ano seguinte Joana criou um desafio besta de ver quem teria coragem de tirar aquela merda redonda que cobria seu rosto – rosnou, como se aquilo o chateasse. – Eu discordei, é claro, e ela insistiu dizendo que poderíamos pelo menos apostar quem faria com que você dissesse pelo menos um “ai”. Enfim, eu nem pude acreditar que aquela doida conseguiu. Eu só sei que no outro mês, quando eu fui ao seu aniversário e vi uma boneca de porcelana se sentando ao meu lado –

– Hã?

– Você. – Ele confirmou. Eu não acreditava que eu era tão bonitona assim. Baixo-estima. – Linda, o colégio inteiro está paralisado.

– Por quê? – Fiz umas das minhas perguntas confusas.

– Você não tem cicatriz alguma no rosto, você é completamente saudável e educada. Doce e tem uma aparência impecável. Não fala palavrão, não reclama. Não tem defeitos físicos. Não faz nada errado –

– Bryan! – Eu gritei, me levantando porque nenhum ser humano poderia ser assim – Eu não sou perfeita, entende? – Saí andando pelas árvores, sem saber a direção que eu iria parar. – Eu estou ficando louca com tudo isso!

– A verdade te deixa louca? – ele agarrou no meu braço, dessa vez com força. – Eu não estou mentindo e ainda não cheguei ao ponto principal.

– Qual é? – Eu gritei, parando de andar.

Ele me arrastou de volta a aquele lugar. Eu me sentei novamente ao seu lado, eu respirei o seu ar outra vez com deslumbramento…

– O ponto é que eu tenho observado seu comportamento quando eu estou por perto faz tempo. Você nem tinha tirado o capuz ainda. – Droga. Isso não podia estar acontecendo.

– No início parecia que a minha presença irritava você, que eu a enojava. – Aquilo era o maior absurdo que eu já tinha ouvido.

– Claro que não, eu nunca odiei você –

– Eu sei. É o que eu estou tentando falar. Olhe, não me leva a mal, mas você muda muito sempre que eu falo com você. Seus olhos mudam para uma tonalidade diferente, você fica irrequieta e às vezes treme.

Eu tinha ideia da pergunta que viria a seguir. Não sabia exatamente com que palavras ela seria feita, porém eu não ia mentir pra ele.

– Agatha, talvez eu esteja demente, mas você gosta de mim? Gosta de verdade mesmo, como uma mulher quer um homem pra ser mais do que amiga dele?

Foram duas perguntas, na verdade. Eu não gostava dele. Gostar era pouco, uma miséria em relação aos meus sentimentos por ele.

– Bryan, eu não gosto de você. – Vi sua expressão cair em desânimo. – Eu te amo.

Notas finais
Tudo bem, galera? Olhe só onde eu parei! Que injusto, não é? Desculpe, desculpe. Espero que estejam gostando.