Amor Perdido
36 Sayori especial Parte VI
Notas iniciais
Os meses seguintes passaram devagar e sem novidades. Nevou muito e o shiro das Brumas ficou coberta com um manto branco e brilhantes, Sayori e Inutaisho regressaram várias vezes à lagoa da gruta, mas a Sayori não voltou a tentar falar com a Água.
A Primavera chegou antecipadamente. O tempo aqueçeu um pouco, o suficiente para a neve desaparecer das folhas das àrvores e o chão de relva verde ser novamente visível por entre as brumas, e a chuva recomeçou.
Era uma noite fria e chuvosa. Sayori, agora com dezasete anos, estava sentada no chão, com as costas apoiadas contra o tronco de uma velha e gigantesca árvore e os joelhos enlaçados pelos braços. Com o capuz da capa azul escura posto e completamente envolvida nela, Sayori era practicamente invisível. O equinócio da Primavera aproximava-se e ela começava a ficar ansiosa. Tinha a certeza de que descobriria o que eram aqueles pontos brancos brilhantes.
Sayori levantou-se. Estava cada mais frio, até parecia que o Inverno se estava a aproximar e não a afastar. Já não estava ali a fazer nada. O melhor era regressar, acender a sua lareira e passar algum tempo a ler ou a conversar.
E então ouviu-as. Ao início pareciam as folhas das árvores a chocarem umas com as outras por causa do vento. Mas não havia vento naquela noite. Apenas frio e brumas. O som aproximou-se a uma velocidade espantosa e ela viu-as. Uma miríae de pequenas borboletas de um branco prateado voava velozmente na sua direção vindas das profundezas da Floresta das Brumas.
Sayori ficou muito quieta a olhá-las. Eram tão lindas. Mas como tinham aparecido ali?
As borboletas rodearam-na e voaram por entre os seus cabelos prateados, os seus braços abertos, as suas roupas e à sua volta, como um rasto de luz. Por entre o estranho ruído das suas asas a baterem ouvia-se um outro som que elas prodiziam. Sayori não percebia porque é que aquilo estava a acontecer. Tinha a certeza, que elas eram os pontos brilhants que, por vezes, vislumbrava nos equinócios e solstícios. Mas ainda faltavam alguns dias para o equinócio da Primavera!
Aquilo era tão bom, tão estranho e tão maravilhoso! Inutaisho chegou nessa altura e o que viu deixou o sem palavras. Era como se Sayori se tivesse transformado em pura luz. Tinha os olhos fechados e toda ela parecia reflectir a luz da lua. Os seus braços, roupas e cabelo brilhavam estranhamente atrás ela havia uma maraviloso e enorme rasto dessa luz.
Sayori abriu os olhos e viu o seu primo a olhar perplexo para ela. As borboletas, tão depressa quanto tinham surgido desapareceram. Sayori olhou à sua volta, triste por elas terem desaparecido.
- O que se passa? — perguntou a Inutaisho, um pouco irritada
- Hanon mandou chamar-te — respondeu ainda um pouco espantado.
Sayori seguiu Inutaisho pelos os corredores. Não queria falar com a Hanon. Queria ir para o seu quarto, acender a lareira e passar o resto da noite sentada em frente dela a conversar com o primo. Percorreram o corredor do quarto de Hanon, silenciosa e discretamente.
- Inu...
- Hum
- Sabes o que Hanon quer?
- Não faço ideia. Mas uma repreesão por passares o teu tempo molhada era capaz de não ser má ideia.
Sayori riu e Inutaisho fez-lhe um sinal rápido para que se calasse. Chegaram ao quarto de Hanon e Sayori bateu, levemente, à porta.
- Entra, Sayori — isse a voz suave de Hanon, do outro lado.
Inutaisho murmurou " Boa Sorte" e desapareceu na direção do seu quarto. Sayori entrou. O quarto de Hanon estava estranhamente claro, iluminado por uma luz de um azul claro que era tudo menos natural e, ela estava sentada muito quieta e direita no banco do toucador. Uma das pequenas borboletas brilhantes estava delicadamente pousada nos seus cabelos, como se fosse uma restiazinha da luz que há momentos atrás envolvera Sayori.
- Sabes, pensei que elas nunca se iriam decidir — disse enquanto erguia uma mão branca, com o indicador ligeiramente levantado, para onde a borboleta passou — Eu já não aguentava muito mais tempo de ansiedade.
Sayori não respondeu. Não tinha a certeza de estar a compreender.
- Tu achas que eu tenho segundas intenções para ti — a borboleta pousou no colo de Hanon e esta olhou-a — Tens razão. Tenciono, desde o dia em que chegas-te aqui que, tornasses a nova Senhora da Noite e da Lua. Mas não dependia só de mim. São elas que escolhem a nova Senhora. Sabes o que elas são?
Sayori permaneceu silenciosa. Hanon não poia estar a falar a sério. Aquilo só podia ser uma brincadeira, uma brincadeira de muito mau gosto, principalmente para uma youkai. Ela era Hime do Reino do Oeste, não podia ser também a Senhora da Noite e da Lua! Não podiam fazer aquilo.
- Eu sou a Hime do Reino do Oeste — murmurou, mas Hanon ignorou-a
- Elas são as borboletas da lua, que voam pela a Floresta das Brumas para escolherem nova Senhora, saudarem a chegada da Primavera e do Verão e fecharem o ciclo no Outono e Inverno. Eu não estou a pedir que, deixes o teu reino do Oeste e que vivas aqui para sempre. Podes continuar a ser a Hime do Reino do Oeste e a Senhora da Noite e da Lua, aliás tu és as ambas coisas. Poderás cumprir as tuas obrigações no reino do teu chichiue. Mas terás ainda fazer um teste para seres a nova Senhora.
- Um teste?! — Sayori estava confusa
- Não te preocupes quando chegar a altura saberás o que tens de fazer é só deixares-te guiar pelo o teu instinto — Hanon falou com os olhos fixos na pequena borboleta e passando os dedos, ao de leve, pelas as asas dela — Tu achas que as velhas regras e traições são injustas, não é assim?
Sayori sorriu. Era, de facto, assim que ela pensava.
- Há leis antigas que de nós têm dificuldade em mudar. A tua mãe era humana, é por isso que és assim. Tu tens as duas partes em ti, sangue youkai e humano. Fazes tudo para mudar aquilo que achas estar mal e, não te importas de passar por cima dos costumes ou leis, tal como o teu avô Inutaisho.
Hanon levantou-se, passou por Sayori a sorrir e foi sentar-se no parapeito da janela aberta. A borboleta seguiu-a.
- Oh! Mais uma coisa, Sayori. Tenho a certeza de que vais conseguir passar no teste da cerimónia
- Porque dizes isso? — disse Sayori intrigada
- Dentro de mim, algo me diz que sim.
Hanon virou-se para a noite que, durante toda a sua vida tanto amara. Recomeçou a chover. Começou a trovejar, o vento soprou com uma força extraordinária, atirando os ramos as árvores uns contra os outros e a chuva transformou-se num autêntico dilúvio. As asas da borboleta, que estava pousada nos joelhos de Hanon, a ser cuidadosamente, acaraciada por ela, reflectiam as cores assustadores e maravilhosas da tempestadade. Sayori ficou parada no meio do quarto.
A brilhante borboleta, que talvez fosse a líder das borboletas da lua, voou na sua direção, arrancando-a aos seus pensamentos. Sayori olhou para Hanon. Ela ainda olhava para o exterior onde a tempestadade acalmara. A borboleta da lua pousou nos cabelos da Sayori.
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A noite do equinócio da Primavera chegou, finalmente. Sayori foi até ao quarto para, com a ajuda de uma serva, se arranjar para a cerimónia. Elian, momentos antes, explicara-lhe o que devia fazer durante a cerimónia, mas Sayori não fazia a miníma ideia de como tudo se ia processar e, muito menos, o que ia realmente acontecer.
Escolheu um quimono azul roxeado de mangas largas, tipo boca de sino, tinha como único enfeite um desenho de linhas elegantes, mas simples, bordados com fio verde claro à volta do decote. A serva fez-lhe duas tranças largas no cabelo, cada uma partindo, do cimo das orelhas.
Assim que ficou pronta, desceu até a porta do refeitório, onde Hanon, Elian, Inutaisho e as suas senseis a esperavam. Elian conduziu o grupo até uma porta, igual a todas as outras, um pouco mais para a entrada do shiro. Sayori abriu a porta e, seguida por eles, desceu as escadas. Esta plataforma era iluminada por fogo que ardia num grande prato pendurado por cima das suas cabeças. Sayori virou à esquerda e começou a descer o túnel.
Era um túnel largo e longo, mas era também húmido. Havia luz natural ao fundo deste. Sayori gostaria de ter acelerado o passo para desvendar mais rapidamente aquele mistério, mas não lhe pareceu apropriado e, por isso, manteve o passo calmo e altivo. Quando chegou ao fim do túnel não conseguiu evitar olhar para cima. Era lindíssimo!
Estavam dentro da montanha. As suas paredes estavam cobertas de plantas verdes, com pequenas gotas de água a repousarem em cima delas. Então ao olhar para a frente, deparou-se com mais uma coisa que a deslumbrou. Mesmo no meio do intrior da montanha, erguia-se, a partir da relva tão verde e brilhante quanto o resto das plantas daquele lugar, uma árvore branca, sem qualquer tipo de folhas, coberta de pontos de luz. A árvore não era muita alta. De facto, não devia ter mais de dois metros de altura. Os ramos nús e de madeira tão lisa e suave quanto o tronco prolongavam-se elegantemente numa posição horizontal, relativamente paralela ao chão, criando uma ligeira sensação de abóbada.
- Esta é a sagrada Árvore Branca — disse Elian que, entretanto, se aproximara de Sayori — A árvore sem folhas, que raramente dá frutos e encerra muitos mistérios.
Elion afastou-se e ocupou o seu lugar na grande círculo que o grupo tinham formado à volta da árvore. Sayori inspirou suavemente, olhou para cima, ergeu os braços para o céu e começou a cerimónia.
- Noite que inicias e completas o ciclo, nós te saudamos. A Primavera aproxima-se, a Natureza está pronta para despertar para o seu tempo fértil. Aler, Lha, Dral, Lud! Niod olastu. ( Ar, Água, Terra, Fogo! Ouçam-nos)
- Olastu (ouçam) — disseram o grupo em coro
- Noite, que segues e antecipas o dia, inicia o ciclo. Elementos, acordem a Natureza adormecida — Sayori baixou os braços e encostou a palma da sua mão direita ao tronco — Rimni (acorda) — disse, quase num sussurro
Sayori retirou a mão e uma das borboletas da lua, saiu dentro do tronco. Ficou alguns momentos parada em frente a Sayori, como se a tivesse a observar. Sayori afastou-se um pouco da árvore e todas as borboletas da lua saíram do tronco em direção à abertura da montanha, muito acima deles, como uma enorme luz brilhante. Hanon aproximou-se da Sayori.
- Conseguis-te. És a nova Senhora da Noite e da Lua
Sayori não respondeu, apenas olhou para o seu primo feliz. Terminára o seu treino e agora poderiam voltar para casa. Pelo menos, era o que ela pensava.
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Alguns dias se passaram e, Hanon por alguma razão, não deixava a Sayori voltar para o Oeste. Sempre que a hime perguntava o porquê, esta apenas lhe dizia que ainda não era hora. Sayori estava lá fora sentada na relva verde, o clima por incrível que apareça estava ameno, ela encontrava-se um pouco afastada do shiro pensativa. Elian chegara e ela viu-se a olhar para ele com um brilho nos olhos um pouco evidente de mais.
- Deve ser muito agradável estar sentada nessa erva num dia como este — observou ele num tom de deboche
Sayori não o viu, mas sabia que tinha sorrido debilmente. Elian sentou-se ao seu lado.
- Talvez não seja assim tão desconfortável — disse ele — Qual vai ser a lição de hoje minha aprendiz?
Olhou para longe, para as profundezas da floresta, do outro lado do rio. Durante algum tempo nenhum deles disse o que quer que fosse. Sayori viu que, enquanto estivera a olhar para a floresta, Elian não desviara os olhos dela.
- Elian... — disse Sayori
- Eu sei — Elian afastou-lhe uma longa madeixa de cabelo do rosto, a sua mão desceu até aos lábios de Sayori e os dedos finos acariciaram-nos
Sayori afastou a mão de Elian e levantou-se. Virou-se para ele e sorriu, esticando uma mão para o ajudar a levantar. Ele tinha uma ligeira expressão de incompreensão no rosto
- É desconfortável fazê-lo sentada — disse e soltou uma risadinha muito suave
Elian levantou-se. Sayori passou a mão pelo o rosto suave dele e a aproximou-se a sua cabeça da dele. Elian enterrou a mão no meio dos cabelos dela e os seus rostos aproximaram-se. Iniciando assim um beijo calmo e tão desejado por ambos.
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