Amor Perdido
34 Sayori especial Parte IV
Notas iniciais
Um homem de longos cabelos pretos soltos e meio ondulados como serpentes. O seu pai na sua frente. O brilho de um punhal no meio da escuridão. O seu pai a cair morto e ela não o podia ajudar, não podia fazer nada. O homem dos cabelos como serpentes a rir, o divertimento e o deleite gravados na cara. Fechos os olhos. Podia ouvir o ranger de uma porta a fechar muito longe. Abriu os olhos. Desatou a correr. E então o homem dos cabelos como serpentes apareceu novamente. Estava encurralada, não podia sair. Tinha sido apanhada como um animal numa armadilha. Enroscou-se no chão, calada e extremamente quieta.
Sayori acordou, encharcada em suor e simultaneamente confusa e assustada. Porque tinha de ter este pesadelo? Tinha apenas treze anos, feitos muito recentemente, e já tinha aqueles sonhos desde dos seis anos de idade. Ninguem sabia a verdade, só o seu primo, que sempre fora o seu confidente em tudo. Virou-se de lado e fixou os olhos na parede de pedra. Tinha de arranjar outra coisa qualquer na qual se pudesse concentrar. Respirou lentamente e fechou os olhos, pronta para dormir.
O homem dos cabelos como serpentes.
Abriu novamente os olhos. Não adiantava, não conseguia tirar a imagem dele da cabeça. Precisava de algo mais, para se acalmar definitivamente. Levantou-se, calçou uma espécie de pantufas, enrolou-se na sua capa de viagem e saiu do quarto. O corredor estava totalmente escuro e silencioso. Era impossível ver fosse que fosse, mas ela era uma youkai, tinha exelente visão. Quem era aquele ser que lhe atormentava os seus sonhos? Aquele homem matara o seu pai inumeras vezes nos seus pesadelos e, um dia, ela seria a sua prisioneira. Terceira porta, o quarto de Inutaisho. Abriu a porta e entrou. Aproximou-se da cama e sentou-se na borda.
- Inu — murmurou ela
Ele virou a cara e abriu os olhos para ela.
- Sayori?! O que estás a fazer aqui? — perguntou com a voz rouca — Sonhas-te outra vez com o homem de cabelos como serpentes?
Sayori assentiu, suavemente, com a cabeça.
- Queres dormir aqui? — perguntou ele
- Hai, chega-te para lá — disse tirando a capa e as pantufas, enfiou-se dentro da cama com o Inutaisho.
- Se o teu pai descobre que dormes comigo, ele mata-me.
- Ile, no máximo manda capar-te — os dois riram-se
Ficaram algum tempo em silêncio. Sayori encostou a cabeça ao peito dele e sentiu-se a mover lentamente com os movimentos da respiração. Ele estava quente e ela agarrou-se mais a ele, como se tivesse medo de o perder.
- Então, pequenina? — perguntou ele e ela riu
- Porque me chamas isso?
- Porque és a minha pequenina — a sua voz era fina e estridente
- Pára com isso?
- Com o quê?!
- Com essas mudanças repentinas de tom de voz
- Não posso. É inevitável à espécie humana, tu sabes que eu sou mais humano que youkai. Será que aqui está sempre a chover?
- Nem sempre, acho eu, mas quase. Dizem que é raro o sol aparecer aqui.
- Vamos ter de explorar a floresta, com chuva ou sem ela, para encontrar-mos um bom sítio para os treinos.
- Hai. Mas também vou ter lições para compreender a noite e outras coisas.
- Está bem. Enquanto tu aprendes isso tudo, eu só quero aprender mais sobre as plantas. Será útil para mim. Poderei partilhar com a minha mãe e irmã, esses conhecimentos.
- Achas que a nossa família, um dia, vêm cá ter?
- É provável. Um dia... quem sabe. Mas tu sabes que é complicado vir para cá
- Pois sei. Boa noite
- Boa noite, pequenina
Sayori fechou os seus olhos dourados mais uma vez. Mas ainda s encontrava com meo e asustada que o homem misterioso aparece-se de novo.
- Inu... — a sua voz era estranhamente descontrolada
- O que foi pequenina? — a sua voz era calma, mais havia nela um ligeiro tom de preocupação, mal disfarçado
- Não consigo mais ver o meu chichiue morrer na minha frente
- Eu sei, mas um dia vamos descobrir o significado deste sonho. vai ver que sim — sorriu para ela dando ânimo e coragem
- Devíamos ter sido irmãos
- Talvez um dia sejamos, na outra vida. Agora dorme. Estás a precisar — e beijou-a nos cabelos
Sayori adormeceu passao pouco tempo, ela estava exausta.
Algo brilhava no meio da escuridão. Uma grande teia de aranha. A aranha estava lá, muito quieta, maior do que seria normal, uma forma estranha e exótica, com o corpo peludo amareloe as patas ás riscas amarelas e pretas. Sayori aproximou-se com os olhos fixos na aranha. Era tão raro ver aranhas! Como seria tocar-lhe?
Então, quanto estava mesmo tocar-lhe, ouviu o riso trocista do homem dos cabelos como serpentes. Olhou para cima e viu-o a soltar a teia para cima dela. Sayori ficou presa debaixo da teia ligeiramente viscosa. A aranha deslizou pelo seu braço até à escuridão e Sayori gritou de medo e desespero.
Sayori despertou e descobriu que não tinha de facto gritado. Ainda tinha a cabeça encostada ao peito de Inutaisho e ele deixara o braço a envolvê-la. Permaneceu muito quieta. Era como se tivesse que a aranha ou o homem dos cabelos como serpentes estivessem ali, à espera para a apanharem.
Deslizou, para fora da cama. Calçou as pantufas e cobriu-se com a capa. Foi até à janela e sentou-se no parapeito com as costas encostadas à pedra fria. Olhou para o exterior. O vento parara de soprar a chuva diminuíra. Apenas se ouvia um ocasinal e suave "ping, ping, plonk, ping" resultante da fraca chuva que teimava ainda cair nas janelas e nas folhas. A tempestade acabara, já havia uma ligeira clariedade.
Encostou a sua cara ao vidro gelago. Estava preste a amanhecer. Talvez o novo dia lhe reservasse alguma surpresa, alguma desoberta e novidade.
- Bom dia, chichiue — sussurou
Mas estava tão cansada! Os seus olhos fecharam-se sem que ela o pudesse impedir e adormeçeu. O sonho não a procurou no resto dessa noite e durante as seguintes noites. E por alguns meses, mas apenas alguns, não lhe trouxe mais sonhos com homens de cabelos como serpentes, teias ou aranhas.
Quando Inutaisho acordou, pouco tempo depois, encontrou-a profundamente adormecida no parapeito da janela, com a cabeça encostada ao vidro e completamente gelada. Gentilmente levou-a para o seu quarto e reposou-a na sua cama, tirou-lhe as pantufas e cobriu-a com o cobertor, Sayori só acordou muito mais tarde.
Quando Sayori acordou descobriu um quimono quente, azul claro acizentado, com mangas à boca de sino presas a meio braço e outro quimono igual ao primeiro, mas de tom azul escuro, e uma capa do mesmo tom azul escuro, com capuz, que se prendia de lado com um alfinete de prata em forma de lua quarto crescente, pousados aos pés da cama. Vestiu o quimono mais claro, calçou uns sapatos, sem cordões, de camurça tingida da mesma cor da sua roupa, que estavam ao lado das suas botas de viagem e saiu para o refeitório.
Não estava tão atrasada quanto pensara. Sayori ao chegar lá, sentou-se ao lado do seu primo que olhava para ela discretamente, mas admirado com o traje dela. Ela era observada atentamente pela a Hanon.
- O que se passa, Sayori? — perguntou ela, enquanto se servia de pão e de doce
- Dormi pouco — disse Sayori, enquanto Inutaisho lhe punha pão e fruta no prato.
Hanon olhou para ela. Era óbvio que lhe escondia qualquer coisa. Sayori sentiu ser observada por alguém sentado na ponta da enorme mesa. Olhou para ela sem cessar. Ele era um youkai tigre puro, alto, bonito, aparentava ter a idade do seu pai, olhos azuis brilhantes como se fossem duas belas safiras e um cabelo negro enorme, que passava um pouco abaixo do seu quadril, e ondulado. Sayori lembrou-se do homem de cabelo como serpentes, e ficou assustada. Será que era ele? Ela nunca conseguia ver o rosto do homem que persegui-a nos seus sonhos.
- Hanon-sama, quem é aquele youkai? — apontou para ele disfarçadamente
- Oh, é o meu general Elian. Doushite? — perguntou curiosa, mas a Sayori não respondeu
- Sayori tem o mesmo sonho, desde dos seus seis anos de idade. Com um youkai de cabelos negros e ondulados com serpentes. Ele mata o meu tio e faz ela a sua prisioneira, através de uma enorme teia. Gomenasai Hanon-sama, mas o seu general é muito parecido — disse, inesperadamente, Inutaisho
Sayori olhou para ele com uma mistura de surpresa e fúria, mas ele enfrentou-lhe o olhar. Hanon sorriu.
- Sayori tem a Visão através dos sonhos — Sayori voltou olhar para a Hanon — Ela pode mostrar-te o passado, o presente e o futuro. Também pode permitir-te comunicar com alguém, mas para isso, a outra pessoa precisa aprender libertar a sua mente por completo e estar em sintonia contigo.
Sayori ainda estava incrédula com que acabára de ouvir.
- Durante quanto tempo pensavas escondê-lo de mim, minha aprendiz? — Hanon perguntou suave e divertida
- Eu não estava a esconder — respondeu Sayori — Eu só... não sabia o que era
- Eu compreendo. E creio que o homem que te assombra seja alguém do passado e, garanto que não é o meu general
- Nani? — perguntou o Inutaisho
- Acho melhor que seja os vossos pais a explicar para vocês
Sayori não disse mais nada, limitou-se a comer um pouco de pão
- Inutaisho fez bem em dizê-lo — acrescentou Hanon
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