Amor Perdido

33 Sayori especial Parte III


Sayori não dormiu nessa noite. Preparou a sua mochila e vestiu as suas roupas de viagem. Izayoi passou a noite com ela e as duas conversaram muito. Sayori tinha dificuldade em se separar do seu pai, mas prometera respeitar a sua decisão e fá-lo-ia. Além disso, ela tinha treze anos, já não era propriamente uma criança. Tinha idade suficiente para estar longe do pai.

Quando o amanhecer se aproximava, Sayori desceu com a Izayoi até à entrada do castelo, onde um pequeno grupo de soldados, seu pai, seus tios, sua avô e o se primo a esperavam. Despediu-se dos seus tios e da sua avô, agradececeu à sua prima por tudo e beijou o seu pai no rosto e sorriu-lhe, depois montou na sua égua e o pequeno grupo, incluindo o Inutaisho imitou-a. Foi um dia cansativo, Sayori podia sentir o cansaço dos cavalos, mas não podiam parar.

A travessia do Oeste foi longa, mas eles conseguiram encontrar algum conforto na paisagem. O sol brilhava alto e quente no céu e a relva parecia ainda mais verde e fresca do que era habitual. Sayori acelerou e distanciou-se durante algum tempo do grupo para poder sentir o vento a bater-lhe na cara e a afastar os seus longos cabelos. Inutaisho sorriu e também ele se afastou um pouco do grupo para sentir o efeito da velocidade no seu corpo.

Finalmente,quando o sol se começava a pôr, cobrindo a relva verde de tons rubros, eles chegaram à entrada da floresta de Brumas. As árvores dali eram mais altas do que as do Reino do Oeste. Um ou dois dos soldados olharam Sayori com uma mistura de medo e desaprovação, mas ela incitou a sua égua a continuar e todo o grupo a seguiu.

A floresta era densa e era necessário conduzir os cavalos num percurso zigue zague, um pouco como se tratasse de uma gincana. As brumas também dificultavam o avanço, pois cobriam o chão, ocultando os obst´culos. Estava frio ali e muitos dos youkais soltaram suaves murmúrios de lamentação e desaprovação que a Sayori ignorou. Ao fim de algum tempo, Inutaisho aproximou o seu cavalo, com alguma dificuldade, da de Sayori.

- Está a anoitecer e, em breve será impossível avançar mais. Fzes alguma ideia da distância a que estamos do shiro das Brumas?

Sayori não respondeu logo. Há muito que via as grandes montanhas. Mas não fazia ideia de quanto tempo ainda demorariam a lá chegar.

- Só mais um pouco, já não deve faltar muito — respondeu por fim

Cavalgaram ainda durante algum tempo, até que, quando já era quase impossível ver o caminho que percorriam, uma chuva miudinha começou a cair, chegaram a uma pequena clareira. À sua frente estava uma das grandes montanhas de Brumas e, na sua base, erguia-se um castelo de granito escuro com cinco andares que parecia irromper de dentro da montanha, pois parte das suas paredes estavam cobertas de relva escura ou ocultas pela própria montanha. Tinham chegado.

Um vulto branco rodeado por dois vultos negros esperava-os. Sayori desmontou e dirigiu-se-lhe.A chuva caía com mais intensidade e ela ficou rápidamente encharcada, mas avançou sem se importar com o facto.

- Hanon, Senhora as Brumas e da Chuva, Nós pedimos-te proteção — disse a Sayori

- Sê bem vinda Sayori, Hime das Terras do Reino do Oeste — respondeu Hanon impressionada pela a jovem hime, de facto ela demonstrava ser a filha do Lord do Oeste

Sayori inclinou a cabeça, em sinal de agradecimento e respeito. Depois olhou para trás e o seu grupo desmontou e aproximou-se. As duas servas que roeavam a sua senhora avançaram para os cavalos e levaram-nos.

- Entrem — disse a Hanon — Devem estar cansados e com fome. É uma longa viagem até aqui

O interior do castelo era estranhamente quente e acolhedor. Sayori podia sentir a sabedoria que as grandes pedras de granito escuro encerravam, bem como a forte proteção que elas ofereciam. As janelas eram altas e elegantes, feitas de vários rectângulos de vidros liso e transparentes, presos a barras de ferro. Os corredores, largos e extramamente altos, eram iluminados por fogos que ardiam em pratos de ferro e todas as portas eram de anuliss e algumas bem trabalhadas. Entraram numa enorme sala, que parecia um refeitório.

- Não tinha a certeza de quantos vocês eram, por isso peço-vos que aguardam um pouco. Mas sentem-se, onegai — pediu a Hanon

O grupo sentou-se e, em pouco tempo, entraram três servas, vestidas de azul claro, com pratos, copos e talhares que distribuíram à frente deles. As servas saíram e Hanon manteve-se imóvel no seu quimono branco a olhá-los. Quando as servas regressaram com travessas cheias de comida e jarros de água, sumo e vinho, Hanon saiu, silenciosamente. Inutaisho serviu-se de comida e sumo, pois o vinho era demasiado forte para ele, os soldados preferiram o vinho. A Sayori serviu-se de um pouco de comida e de água, após de um dia tão cansativo suspeitava ainda estar longe do seu fim, para um merecido descanço.

Quando acabaram, as três servas trouxeram-lhes taças, colheres e uma taça grande de pêras cozidas com mel quente. Sayori nunca comera aquela sobremesa, mas achou-a deliciosa. A pêra cozida parecia desfazer-se na sua boca e o sabor doce e intenso do mel aquecia-a.

No fim da refeição, as três servas voltaram a entrar e levaram tudo para dentro. Quando Sayori se levantou, duas novas servas estavam de pé, imóveis, atrás dela. Estas tinham quimonos simples de tecidos leves e flutuantes azul escuro que, quando elas finalmente se mexeram a sua cor escura para prateado, conforme os seus movimentos.

- Eu conduzirei o seu grupo aos quartos que lhe foram destinados — disse uma delas.

Sayori fez sinal para o seu grupo para que seguissem a serva e sorriu para o seu primo quando ele passou.

- A Senhora das Brumas espere-a — disse a outra e saiu. Sayori acompanhou-a.

Subiram uma escada até ao último andar, percorreram um enorme corredor, onde à sua direita havia janelas iguais à entrada do castelo e do seu lado esquero estavam inumeras portas de anuliss lisas e simples. O corredor era iluminado por fogos que ardiam em pratos gigantescos presos no tecto, andaram até que param na única porta à sua frente, trabalhada em minuosos relevos. A serva bateu na porta.

- Entra Sayori — disse a voz de Hanon

Sayori abriu a porta devagar e entrou deixando a serva para trás. O quarto de Hanon era bonito, mas Sayori sentiu-se como se estivesse presa e a sufocar. Era aquele castelo tão fechado, tão escuro, tão triste apesar de toda a beleza, que a fazia sentir-se assim. O castelo do Oeste também era fechado, mas lá o ar corria mais livremente e respirava-se felecidade e alegria.

- Sim é um pouco triste — disse a Hanon olhando para a sua convidada.

Hanon fez uma pausa e Sayori permaneceu silenciosa.

- Conhecimento e controlo — disse a voz suave da Hanon — Foi isto que vieste procurar

- Hai — respondeu a Sayori após de alguns segundos, mas na verdade ela queria estar perto da sua família em vez de estar ali

- Muito bem — comentou a Hanon a sorrir. Parecia contente — Vou-te ensinar tudo o que precisas saber mas, não vou mentir-te poderás estar um ano, dois anos, cinco anos, uma década, um centenário nesta fase da tua vida, tudo depende da rapidez com que aprenderes. Aprenderás sobre plantas medicinais humanas e youkais, os povos e animais youkais, as diferentes espécies e clãs, as suas forças e fraquezas, a história gloriosas e fracassos dos teus antepassados, rituais que terás fazer quando assumires o teu destino, controlar os elementos da natureza, arte de luta com todas as armas que existe e a língua mística antiga, falada por seres ancestrais. Elfos, youkais, fadas e duendes fazem parte desses seres. Amanhã começeras as tuas aulas e se queres voltar para casa rápido surgiro que te apliques a sério nos teus estudos. Terás uma sensei para cada coisa. Eu ensinarei os mistérios da noite que ela encerra.

Sayori reprimiu um sorriso infeliz.

- Mas se vou ficar aqui durante um tempo... indefenido, quero saber o que acontecerá ao meu grupo

- O teu primo é, evidentemente, bem vindo, poderá ficar o tempo que quiser, até partilhar algumas aulas se quiser. Quanto ao resto penso que o melhor será regressasem. A floresta dá-te toda a proteção de que precisas e se, por acaso, precisares escolta de um grupo de soldados, existem suficientes guerreiros aqui para o fazerem. Poederás ao fim de semana descançar, explorar o meu reino e sempre que precisares terás um mensageiro ao teu serviço para enviares noticias ao teu chichiue.

Sayori assentiu com a cabeça. Hanon levantou-se abriu a porta e olhou na direção da Sayori.

- Segue-me — disse ela num tom suave e alegre

Percorreram o corredor em sentido inverso e, viraram à direita para um novo corredor. Hanon abriu a sétima porta a contar do ínicio do corredor e sorriu para a sua nova protegida como que a encorajá-la a entrar.

- Boa noite — disse por fim e regressou ao seu quarto

Sayori entrou. Estava escuro e frio dentro do quarto, mas ela pôde ver a sua mochila pousada em cima do banco redondo do toucador. Aproximou-se, abriu-a e tirou de lá de dentro uma camisa de noite. Enquanto se vestia, observou o quarto. Não era muito grande. Apenas uma cama de solteiro encostada à parede oposta à da porta, uma janela alta sem cortinas ao lado da cama e com uma arca por baixo, a qual tinha umas almofadas bordadas em cima, servindo também de banco, um toucador encostado à parede da porta e uma lareira apagada na parede do lado direito. Toda a mobília era de anuliss.

Deitou-se, rapidamente, para não apanhar muito frio, e fechou os olhos. Ia começar uma nova etapa da sua vida, tinha de descançar. Lá fora a chuva castigava as janelas.