Amor & Pecado

29 Capítulo 29 - Lembranças: Narrado por Letícia


Notas iniciais
Oie! Mais um capítulo novo! o/ Espero que gostem.

O quarto está escuro e o único som perceptível é o dos ponteiros do relógio, ao lado da minha cama. Estou imóvel com o olhar fixo na escuridão, minha cabeça lateja e sono não chega. Estou pesarosa, sinto alguns golpes no peito e tento não admiti-los a mim mesma. Minha cabeça está dizendo: “Afaste este sentimentalismo para longe! Você é uma sobrevivente garota”. Enquanto meu coração diz: “O que você está fazendo?! Se auto destruindo e levando as pessoas junto com você?”.

Levanto-me e ascendo à luz, olho para o relógio e são três da manhã. Neste mesmo instante olho para a aliança no meu dedo e vejo que ela não significa nada, exatamente como Marcos disse. Tenho a impressão de que nunca terei algo verdadeiro nessa vida, nunca terei uma família, namorado ou um amigo sequer. Parece que estou destinada apenas ao sofrimento. Estou com uma fina camisola de alças, na frente do espelho, viro-me de lado e vejo as marcas claras, finas e grandes em minhas costas. Vinicius foi a primeira pessoa a ouvir um pouco da verdade sobre estas cicatrizes. Parece que foi ontem...

Não gosto de novelas. – Penso comigo mesma. – Vovó nunca me deixa assistir desenhos e o único horário em que a TV pode ser ligada é à noite. Estou com frio, sinto as pontas dos meus dedos um pouquinho dormente e minha barriga “ronca” de tanta fome. Levanto-me e sigo para a cozinha.

– Vovó, estou com fome.

– Estou cozinhando, sua praga!– Vovó grita. – Você é muito impertinente garota, só sabe reclamar e pedir. – Suas roupas são grossas, calça e blusa de moletom, enquanto visto uma camiseta, apertada, curta e um short surrado.

– Estou com frio também. – Digo baixinho.

– Cale essa sua boca e sente-se!

Sento-me a mesa e aguardo a comida, o cheirinho de carne cozida está tão bom. Hoje ela está mais rabugenta que o normal, a peguei chorando escondida no quarto, pela manhã, segurando uma foto do papai. Lembro-me dos meus pais e sinto saudades. Vovó sempre me diz que causei a morte do meu pai e que eu e mamãe, deveríamos ter morrido no lugar dele. O carro em que estávamos capotou em uma rodovia do interior, enquanto iríamos a um parque aquático, que eu queria muito ir. Os dois morreram e por um milagre sobrevivi, se é posso dizer assim. Vovó me culpa pela morte dele e deixa claro seu desprezo pela memória da mamãe, ela sempre a tratava mal e eu nunca soube o por que.

– Tome! – Vovó praticamente joga o prato na mesa, junto com uma colher. Observo a “sopa” em meu prato, uma água quente e marrom, com alguns caroços de feijão e três espaguetes.

– Posso comer na sala, vovó? A senhora irá assistir a novela e não quero ficar sozinha aqui.

– Tudo bem, mas não me “encha o saco!” E já sabe, não é? Se derrubar algo no meu sofá novo irá apanhar, depois não diga que não avisei.

Levo cuidadosamente meu prato nas mãos e sento-me no sofá. Vovó se senta no outro e é impossível não reparar em seu prato, cheio, com um feijão e arroz fresquinhos, carne de panela e salada de alface. Fico com muita vontade, mas decido me satisfazer com o que tenho, não quero apanhar hoje e nem quero chatea-la ainda mais. Ao terminar, deixo um pouco do caldo insosso da “sopa” e me levanto para levar o prato à cozinha. Sem querer, acabo tropeçando e deixo o prato cair no chão e sujar um pouco o sofá com o caldo. Sinto um frio na barriga e ao olhar para trás, vovó já está de pé, com o chinelo na mão. Corro para a cozinha e abro a porta, saio no quintal e os pelos do meu corpo se eriçam, por causa do frio. Sou encurralada entre ela e uma cerca de arames farpados, que divide nosso quintal, com o terreno ao lado.

– O que eu te disse, sua peste? – Ela grita.

– Me desculpe, vovó! Foi sem querer, eu limpo “tudinho”, mas não bata em mim, por favor! – Falo aos prantos e com muito medo. Levo um tapa forte no rosto, me fazendo encostar-se à cerca, que espeta minhas costas. Dou um grito e levo outro tapa, sou puxada, bruscamente, pelo braço esquerdo. Minha camiseta enrosca nos arames, dificultando que ela me arraste para dentro de casa. Ela decide me puxar pelos ombros para me desvencilhar, fazendo com que eles me arranhem, ainda mais, com os movimentos. Dói muito e eu não consigo segurar o choro.

– Bem feito! Nem precisei sujar minhas mãos, você mesma se machucou. Agora suba, tome um banho e vá dormir. Não quero olhar para essa sua cara imunda mais hoje, mas antes disso, limpe a sujeira na sala. – Seu rosto está vermelho e seus olhos cheios de fúria.

Caminho devagar para a sala e limpo tudo, minhas costas ardem muito, termino e subo para o meu quarto, pego roupas limpas e vou tomar meu banho. Ao tirar a camiseta, vejo marcas vermelhas. São de sangue! Quando a água cai sob minha pele, ela arde. Choro um pouco de dor e logo saio do chuveiro. Me seco com cuidado para não me machucar ainda mais, visto-me e vou me deitar. Está frio e só tenho uma manta para me cobrir, meu colchão está no chão, já que vovó se desfez de todos os móveis de quanto papai e mamãe moravam aqui, inclusive minha cama. Deito-me de bruços e com as costas latejando, caio no sono.

... Não gosto de me lembrar deste dia, mas às vezes é inevitável. Minha relação com ela melhorou após começarmos a frequentar a Igreja e ninguém faz ideia das coisas terríveis que ela já fez a mim. Vovó nunca mais me tratou mal, porém nunca me pediu perdão. Não quero mais ficar nesta casa e já que o destino me colocou nesta situação com Vinicius, farei com que ela fique ao meu favor e eu possa sair daqui o quanto antes.

Notas finais
Pooooor favooooor, comentem! Só assim saberei se estou agradando. Não hesitem em falar o que deve ser melhorado. :)