Amor & Pecado

30 Capítulo 30 - Um dia após o outro


De que são feitos os dias?

De pequenos desejos,

Vagarosas saudades,

Silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,

Momentâneos lampejos,

Vagas felicidades,

Inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,

De pecados, de glórias.

Do medo que encadeia

Todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,

Dentro deles choramos,

Em duros desenlaces

E em sinistras alianças...

(Cecília Meireles)

– Então... Você vai comigo, por favor? – Pergunto com um tom de voz pidonho e faço beicinho. Marcos me encara com seus olhos cor de mel e abre o sorriso mais lindo do mundo.

– O que você não me pede sorrindo, que eu não faço com o maior prazer? – Ri.

– Pensei que iria dizer “chorando”.

– Jamais! Você é a melhor coisa que me aconteceu nesses últimos tempos, quero te apoiar sempre que necessário e te fazer feliz, mesmo não respondendo ao meu pedido. – Marcos ergue uma das sobrancelhas e morde o lábio.

– Faz quinze dias, Marcos! Não quero ser precipitado, ok? O pessoal na cafeteria já está desconfiado de algo entre nós, não quero ninguém falando ainda mais de mim, ou até mesmo de você.

– Pare de se importar com os outros e seja feliz! – Marcos me aperta ainda mais contra seu corpo e apoio minha cabeça, novamente, em seu peito. Passamos o dia deitados em sua cama, assistindo filmes. Adoro ficar com ele, adoro o jeito que ele me trata, seus beijos, seus toques, seu humor. Esses quinze últimos dias têm sido tão bons, que parece que é um sonho que estou prestes a acordar. – Embora você não tenha me dado uma resposta, pretendo um dia, oficializar a nossa relação e mais cedo ou mais tarde as pessoas saberão.

– Eu sei. – Suspiro fundo ao erguer minha cabeça novamente. – Eu quero muito ter um relacionamento que não seja às escondidas, que as pessoas saibam e respeitem, como qualquer outro casal. Na verdade não é nem o lance da aceitação com que me preocupo, e sim com meus pais.

– Entendo que eles sejam religiosos, mas não acredito que seriam capazes de renegar o único filho, pela orientação sexual dele.

– Será? – Pergunto confuso.

– Claro que sim. – Marcos sorri. – E como é esse Bazar Beneficente? Nunca fui a um.

– Bom, é como se fosse uma quermesse, há barracas com jogos, outras com comidas típicas e há arrecadações de roupas e acessórios, seminovos para doação.

– Hmm... Entendi. E aos olhos dos demais, seremos apenas amigos, certo?

– Sim! – Respondo com convicção. – Ninguém pode imaginar que... – Me foge a palavra que define nossa relação. Não namoramos, mas nos beijamos e ficamos juntos a maior parte do tempo.

– Que...? – Marcos ri. – Se aceitasse meu pedido, poderia ter um final concreto para a frase como: “Ninguém pode imaginar que somos namorados”.

– Não fala assim, quero que tudo ocorra naturalmente.

– Entendo seus motivos, seu bobo. – Marcos me puxa para cima de si e me beija. Seu toque é suave e exigente. Suas mãos percorrem minhas costas, que causando um leve arrepio. As minhas estão em seus ombros largos e rígidos. Mordisco seu lábio inferior, como fazia com Vinicius e seu corpo estremece como o dele. Merda! Por que eu tenho que compara-lo ao Vinicius? Interrompo o beijo.

– O que foi, fiz algo errado? – Marcos pergunta.

– Não. – Respondo. Marcos me puxa contra ele novamente, fazendo com que fiquemos sentados na cama e eu entre suas pernas longas. Suas mãos passam pelo meu cabelo e sua língua se move dentro da minha boca com uma delicadeza sem fim, rapidamente livro-me do que me perturba e retribuo o beijo com mais dedicação. Marcos é tão carinhoso, ele não funciona na base da brutalidade e isso me encanta. Passo minhas mãos pelo seu tórax e pouso uma delas em seu rosto, liso e macio. Ao terminar o beijo, abrimos os olhos.

– Ah! – Ele grita.

– O que foi?! – Grito em reposta e olho para trás, onde seus olhos estão fixados.

– Boa noite, meu querido! Sentiu minha falta? – A senhora distinta e elegante do retrato no escritório da cafeteria está em nossa frente. Merda! É a mãe dele.

– Mãe, que surpresa! – Marcos responde sem graça e eu saio do seu colo, com o rosto ardendo de vergonha. – Pensei que chegaria amanhã.

– Convenci Lauro a vir hoje. – Ela sorri. – Não irá me apresentar o garoto adorável que estava beijando? – Agora ela ri.

– A-ah... – Marcos olha para mim e para ela confuso. – Marcos essa é minha mãe, Elizabeth.

– Muito prazer, Marcos! – Diz ela. – Adorei o seu nome.

– Muito prazer, Sra. Elizabeth. – Digo de cabeça baixa.

– Por favor, me chame de Beth.

– Como preferir. – Digo.

– Aguardo os dois para o jantar, lá embaixo daqui a meia hora. E nem pense em ir embora, Marcos. – Beth diz antes mesmo de eu sair correndo. – Não fique com vergonha, respeito às escolhas do meu filho e não me oponho a suas decisões e fui muito indelicada ao entrar no quarto sem bater na porta.

– Já estamos descendo mãe. – Marcos fala desconfortavelmente.

– Tudo bem. – Beth nos deixa a sós e fico mudo.

– Relaxa, como minha mãe disse, ela não se importa. O desconforto foi mais por causa do nosso susto do que qualquer outra coisa.

X

– Tenho a sensação de te conhecer de algum lugar, Marcos. – Sr. Lauro diz a mim.

– Na verdade o Sr. me conhece, sou funcionário da cafeteria.

– É verdade! – Sr. Lauro diz surpreso. – Perdoe-me a indelicadeza de não me lembrar de você.

– Tudo bem. – Tento sorrir. A mesa é tão grande e tão bem posta que fico confuso com tantos pratos, talheres e taças. Mas uma coisa é inegável: O cordeiro que estamos comendo está divino.

– Nos conhecemos antes de eu administrar a cafeteria, Lauro. Tanto que quando Marcos descobriu que eu seria seu patrão, quase morreu engasgado com um gole de café. – Marcos ri.

– Esse mundo é muito pequeno. – Sr. Lauro sorri.

– Além do mundo ser pequeno, o destino junta pessoas de uma forma tão intrigante, não é mesmo? No mesmo local de trabalho e com o mesmo nome. – Beth fala e sorri, enquanto terminamos o jantar. Ainda estou envergonhado pelo flagra, Sr. Lauro e Beth, parecem estarem sendo muito sinceros, quanto à cordialidade para comigo. Após o jantar ambos se retiram e deixam-me a sós com Marcos, na sala de estar.

– Está na hora de eu ir para casa. – Digo.

– Durma aqui, por favor. – Marcos suplica.

– Não. – Rio. – Quero minha cama e amanhã nos veremos, não é mesmo?

– Claro! Irei com você no Bazar da sua Igreja, “amigo”.

– Bobo! – O puxo e o beijo. – Vamos.

Marcos me deixa em frente a minha casa.

– Até amanhã. – Sorrio. – Peça desculpas a sua mãe e ao Sr. Lauro, caso eu tenha os ofendido de alguma maneira.

– Está tudo bem, Marcos. Eles me aceitam e não se importam com isso, relaxa.

– Você já levou alguém em casa?

– Não.

– Está vendo? Tenho certeza que não dei uma boa primeira impressão.

– Claro que deu! Nunca levei ninguém em casa, porque eu nunca encontrei alguém tão importante quanto você. – Marcos sorri e beija minha testa. – Quer que eu venha te buscar ou prefere me encontrar no Bazar?

– Me encontre lá, deixei o convite ao lado da sua cama.

– Ok. Então está marcado, até amanhã.

– Até. – Desço do carro e o vejo partir.

A cada dia que passa me apego mais a Marcos, porém Vinicius ainda mora dentro de mim. Estou em conflito comigo mesmo, gosto de Marcos ou estou o usando para esquecer Vinicius? Merda! Odeio me sentir dessa maneira.