Amor Incondicional
2 Capítulo 1
Marina estava arrumando sua gaveta de memórias. Nessa gaveta havia muitas coisas importantes de sua vida, como fotografias, bilhetes de seus amigos, objetos que a fazem lembrar momentos de sua vida, diários de quando era adolescente, e algumas cartas... Ela já não se lembrava mais delas. Quando foi a última vez que escreveu? Devia ter uns 20 anos. Agora, com 34, gostava de lembrar a vida que teve e pensar no que ainda estava por vir. Ao pegar o último diário que escreveu, um envelope cai ao chão.
— Que estranho, nunca tinha reparado nesse envelope — pensa Marina.
"Abra aos 34 anos" era o que estava escrito no envelope.
Ao abrir, Marina se deparou com a última carta que escrevera para si mesma. Isso era algo que ela costumava fazer, mas as cartas não tinham uma idade certa para serem abertas. Ela sempre lia e guardava, dali a alguns anos as lia novamente. Mas esta era bem específica.
"26 de dezembro de 2003.
Querida Marina de 34 anos (se quando abrir esta carta ainda não tiver 34, pode parar de ler e guardá-la novamente. Ainda lendo? Então já deve ter 34),
Estamos saindo de um feriado de Natal bem chatinho. Não foi a festa legal de sempre. Você se lembra desse dia? Não? Vou te situar então: foi o Natal em que sua prima estava ranzinza por ainda ser solteira aos 34 anos. Espero que lembre-se disso.
Bom, vamos começar então: eu te faço uma pergunta e se a resposta for "Sim", você pode parar de ler esta carta; se a resposta for "Não", você lê a próxima pergunta.
Você tem 34 anos. Tem filhos?
Ok, é casada então?
Não. Tudo bem. Ainda podemos reverter isso. Tem namorado atualmente? Digo, namoro sério e duradouro.
Eita, Marina. Bom, ainda temos mais uma: você sai de casa para conhecer gente?
Poxa, Marina! *Respira fundo* Não vamos nos alterar. Isso acontece. Você pelo menos tem uma carreira, não?
Trabalha e consegue se manter?
Você ainda mora com o pai e a mãe?
Mas eles estão bem, não? Você ainda os tem? Tomara que sim.
E o Fernando está casado? Tem filhos? Marina, você ao menos tem sobrinhos?
Tudo bem, tudo bem. Lembra-se do Natal de 2003? A promessa que fizemos? Não, eu sei. Sua resposta pra tudo é "Não"?
Bom, nós fizemos uma promessa de que se chegasse aos 34 (como aquela prima), sozinha (como aquela prima), daríamos um jeito. Porque a mãe disse que quanto mais velha a mulher solteira, mais chata ela é.
Podemos mudar isso. Lembra da promessa? Prometemos que iríamos adotar uma criança. Você deve ter um gato de estimação, mas deveria ter um filho. Não é uma ideia genial?
É claro que enquanto escrevo essa carta, estou pesando os prós e os contras. Afinal, tenho 20 anos, entendo algumas coisas.
Marina do futuro, as crianças te adoram, sempre adoraram (você que sempre teve medo delas). Está na hora de ter uma.
Procure um advogado, procure um abrigo. Se informe. Conheça. Quem sabe uma criança não pode transformar sua vida?
Não importa se for grande ou pequena, menino ou menina. Concentre-se em seu coração e nas crianças, elas vão te escolher.
Mas, Marina, se isso não der certo, não desanime. A vida sempre vale a pena. Viva. Viaje, conheça pessoas e lugares novos, passeie e cuide do pai e da mãe, reúna nossos amigos da escola, converse, ria. Seja feliz.
Com amor,
Marina de 20 anos"
Por essa ela não esperava. Adotar uma criança? Era o que ela havia programado para si no futuro? Que bela decisão para se tomar aos 20 anos... O pior era que tudo o que estava na carta aconteceu. Ela não se lembrava daquele dia quando começou a ler a carta, mas agora se lembrava perfeitamente. Foi um dos dias mais chatos de toda a sua vida. Sua prima implicava com tudo e com todos, e o pior era que ainda estava solteira; ninguém queria uma velha ranzinza.
Parando para refletir sobre sua vida, Marina começou a pensar em suas respostas: não tinha filhos; não era casada; há tempos não tinha namorado e seus namoros nunca duravam muito tempo; não gostava de festas, então dificilmente saía de casa, na maioria das vezes ia até a biblioteca e, quando muito, encontrava seus amigos da escola. "Pelo menos uma coisa boa", pensou Marina. Ela tinha uma vida boa, tinha um emprego bom e de que gostava; não morava com os pais e eles estavam bem, curtindo a aposentadoria juntos. Seu irmão, Fernando, estava de férias com a família no momento. Seus dois meninos, Paulo e Carlos, sua princesinha Amanda, e a mulher, Suzana.
E não, Marina não tinha bichos de estimação. Não mais. Não ainda. Sua gatinha, Flor, havia morrido há pouco tempo de tão velha, e ela ainda não arrumara outro animal. Estava se sentindo um pouco cansada, mas sozinha também.
E ela realmente não se lembrava da tal promessa. Adotar uma criança? Que loucura!
Marina dobrou a carta, recolocou-a no envelope e a guardou na gaveta novamente. Não pensaria mais nisso.
Mas, e se...
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