Amor Fati

1 Termo Constante


Notas iniciais
E aqui temos o primeiro capítulo. Espero que gostem! Primeira vez que escrevo em primeira pessoa. Aguardo comentários, por favor!

Acordei com persistentes cutucões conhecidos em minhas costelas.

Pisquei os olhos, contrariada pela sonolência do despertar e pela sensação irritante, e minha primeira visão foram seus conhecidos cachos compridos de um castanho muito claro. Ao piscar mais uma vez, estreitei meus olhos pela brilhante luz que vinha de uma das quatro janelas laterais da sala de nossa turma do colégio, e banhava timidamente seus fios em formato espiralado.

— Ele já acabou a aula e vai fazer a chamada — Daniel explicou, suas costas levemente arqueadas para frente da própria carteira posicionada de forma a fazer dupla com a minha, sua voz simpática mesmo depois de uma entediante aula de matemática. Sua postura mostrava a atenção que sempre tentava dispor a todas as aulas, um rapaz filho de dois professores, criado de forma a levar a educação muito a sério.

— Foda-se — respondi em um meio sussurro, colocando meu rosto entre a bem-vinda escuridão de meus braços cruzados. Já podia sentir o agradável sono voltando.

Menos de meio segundo depois, senti seu indicador me cutucando com firmeza no mesmo local, outra vez.

Levantei a cabeça lançando-lhe um olhar claramente irritado, mas ele não vacilou e insistiu.

— Vê se não vai reprovar por falta. ‘Cê já ‘tá perigando reprovar por nota. — Meu melhor amigo foi sincero, sua voz gentil em um tom de ordem que até me faria debochar, se não estivesse tão indisposta.

— Sabe que não estou preocupada com isso — menti, enquanto ajeitava o queixo acima de minhas mãos, olhando com desdém para o professor decrépito que lecionava aquela matéria.

— Então acorda pra jogar daqui a pouco. Esqueceu que hoje tem aula de educação física? — Daniel comentou ao meu lado, fechando o caderno displicentemente e já preparando a mochila para sair. — Vou convencer os moleques a te deixar no ataque. Vê se marca um gol, pelo menos — ele exigiu como pagamento pelo favor.

— Convence a 35 a botar o Marcos no gol deles e vai ser fácil. — Sorri debochada para ele, minha cabeça ainda repousando acima dos meus braços. Daniel sorriu ligeiramente, com a menção à lerdeza física — e também mental — de nosso amigo em comum, tido por nossos colegas como um dos membros “nerds” de nosso grupo de “excluídos”. O dia era quarta-feira, e teríamos como nosso último tempo de aula educação física com a turma 35. Éramos membros da turma 32.

O professor já havia começado a chamada enquanto tínhamos nossa breve conversa. Levantei levemente o queixo a menção de meu nome, como se o movimento fosse um grande esforço para meu corpo exaurido de cansaço.

— Cecília Liberatti Macedo — clamou o professor de álgebra, sua caneta em seus punhos que tremelicavam pela idade longeva e suas consequências.

— Eu — respondi de qualquer jeito, levantando alto meu braço direito, o esquerdo ainda mantendo meu queixo descansado após ter respondido a chamada. O professor moveu a caneta sobre a pauta com os nomes dos alunos da turna, usando do máximo de precisão que seus dedos trêmulos permitiram.

Aguardamos mais alguns nomes, enquanto eu respirava buscando vontade para levantar e enfrentar mais uma aula. Dessa vez, uma que eu realmente gostava.

— Daniel Moraes Martinho — o professor chamou com o máximo de potência que sua voz fraca adquiria.

— Presente! — Daniel respondeu educadamente, se levantando e deixando a sala comigo e com o resto dos alunos que já haviam sido chamados.

No meio do caminho, passando pelo corredor longo e amplo no qual se localizavam as turmas do terceiro ano, da 31 até a 37, encontramos Afonso, que já havia saído por ter sido um dos primeiros a responder a chamada, e aguardamos por Marcos e Roberto, o restante de nosso grupo tido como "esquisitinho".

Nosso pequeno grupo é formado por Afonso dos Santos, um rapaz bolsista, bonito, de físico forte e cabelos raspados que foi rejeitado por grande parte dos admiráveis e proeminentes alunos que frequentam nosso colégio por morar na comunidade ao lado da escola e, bem... Por ter a pele negra.

Provavelmente mais da metade deles jamais admitiriam que não fizeram amizade com ele por causa disso, mas se você quer a verdade, esta é ela. Na nossa série, só temos dois colegas negros dentro de uma maioria branca. Afonso e Simone, uma aluna da turma 36 que é troçada até hoje por nunca responder a chamada em voz alta.

Os estudantes do Colégio São Patrício não estão acostumados, digamos, com a... Diversidade.

Pessoas pobres são dignas de piedade e compaixão para a imensa maioria nascida em berço de ouro, misericórdia essa demonstrada pelas orações nas missas de domingo em que frequentam com a família e os inúmeros “likes” e compartilhamentos que fazem em seus perfis do facebook. Vivem denunciando diversas mazelas sociais que não afligem a elite, mas que eles, curiosamente, entendem tão bem.

Seria tudo muito bonito, se seu único real contato com pessoas de classe mais baixa do que a deles não fosse apenas com suas respectivas empregadas domésticas — quase sempre negras e moradoras de favelas — as quais gostam de tratar, recorrentemente, como mascotes da própria família que trabalham para eles. E que nem sequer merecem receber comida tão cara quanto o labrador puro-sangue que compraram na pet-shop da Barra da Tijuca.

E que, também, ganham um salário de fome. Herança escravocrata? Será?

A elite estudantil demonstra sua forte empatia para com o próximo também com mendigos ou pivetes, referindo-se a eles por altos brados imponentes do nível de “bandido bom é bandido morto” e “vagabundo que fica sujando minha rua, deveria arranjar um emprego”.

Posições interessantes para pessoas que nunca trabalharam na vida (e talvez nem sequer tenham de fazê-lo para terem seu próprio sustento). Para alguns que jamais souberam e nunca saberão o que é passar necessidade.

“Levanta-te e vem para o meio?”

Essa fica restrita as aulas de religião mesmo.

De volta ao nosso grupo, ficamos recostados na varanda perto do pátio interno, aguardando os restantes. Ao centro do jardim deste pátio, repousa uma estátua do mestre educador o qual nosso colégio homenageia.

Ao meu lado, Daniel comentava sobre o último jogo que tivemos contra a 35 do qual não participei, e Afonso mal falava, como sempre, preso em sua timidez.

Sempre me pergunto até que ponto ele é realmente tímido ou usa sua personalidade fechada como uma forma de defesa.

Passados alguns poucos minutos, chegou Marcos Salles, seus cabelos compridos pretos descuidados presos em um rabo de cavalo malfeito. Corria esbaforido, suas bochechas gordinhas estavam vermelhas pelo esforço, seus pequenos olhos castanhos escuros brilhando. Seu casaco feio, preto e desbotado tentava cobrir de maneira esdrúxula sua barriga grande e flácida. Estava muito quente, fazendo o típico calor de quase 40 graus do Rio de Janeiro, cidade na qual as estações se dividem entre verão insuportável, verão quente, verão e primavera tórrida. Mas Marcos jamais tirava seu casaco.

Eu sabia que era, também, seu mecanismo de defesa. Talvez imaginasse que o abrigo o deixava menos gordo, e, assim, menos suscetível a ofensas, que o perseguiram desde seu primeiro ano primário, quando entrou na escola.

Foi meu segundo amigo. O primeiro foi Daniel.

Aguardamos mais um pouco. Depois de instantes, encontramos Roberto Gonçalves da Rocha, um estudante da filial de nosso colégio vindo do sul do Brasil, muito loiro e de pele muito branca, com olhos verdes brilhantes. Ele entrou na escola no começo de nosso terceiro ano e logo foi acolhido pelo grupo. De início, nossos colegas populares aproveitaram para perseguí-lo por ser magricela, muito alto, desajeitado e feio, além da costumeira piada de ser necessariamente “viado”, condição obrigatória ao seu nascimento gaúcho.

Ironicamente, eu achava perceptível que Beto era realmente homossexual, talvez por já ter convivido um pouco com familiares gays, ou simplesmente por não ser uma completa filha da puta totalmente autocentrada como grande parte de meus colegas de série. Então eu podia imaginar como aquela “zoação” — para não dizer “caça às bruxas” — deveria doer nele. Por isso, insisti para que Daniel, nosso único garoto-carisma do grupo, fizesse o esforço de convencê-lo a se unir a nós quatro.

Daniel Moraes Martinho, meu melhor amigo desde que eu me entendo por gente, foi uma das poucas pessoas que me recordo de terem se aproximado de mim por livre e espontânea vontade. Não me pergunte que virtude ele pôde ter enxergado em mim para querer ser meu amigo, mas a iniciativa partiu dele.

Nos conhecemos realmente quando ele mudou de turma, no CA2. O evento que nos aproximou foi a partida de futebol que joguei um dia, com os meninos, durante a educação física, algo que sempre fiz desde muito nova. Daniel pareceu ficar encantado com isso, considerando que nenhuma outra menina da turma sequer demonstrava interesse pelo esporte, tampouco gosto por praticá-lo. Passamos a conversar sobre futebol depois do fim da aula. No recreio seguinte, ele me chamou para jogar com os garotos, que, um pouco reticentes, aceitaram.

Foi uma questão de tempo até ficarmos muito amigos.

Daniel sempre foi muito querido pelas pessoas ao seu redor, desde aquela idade. É aquele tipo de gente que tem alguma espécie de carisma incomensurável que faz com que os outros se aglomerem em volta de si, sedentos por sua atenção. E ele jamais pareceu perceber isso.

Ou, se percebeu, nunca usou realmente ao seu favor.

Daniel sempre foi muito sorridente, gentil e é do tipo que consegue fazer os outros rirem sem precisar desmerecer alguém para isso. Um tipo de humor que realmente é raro no meio social que vivo. A simpatia dele é natural; ele é a única pessoa que exibe uma alegria aparentemente inabalável que não soa superficial ou sequer me irrita.

Além disso, tem uma carinha de anjo que engana qualquer um, que, combinada com sua personalidade esforçada e dedicada, sua altura considerável para a idade que tem e o físico de um garoto que adora jogar futebol e já tentou competir profissionalmente — sendo injustamente recusado por vários clubes — se torna um prato cheio para os sonhos melosos de toda menina adolescente que eu conheço.

Eu e Daniel já inclusive ficamos algumas vezes, mas temos uma história conturbada a respeito disso. Mais tarde posso entrar em detalhes; por enquanto, basta dizer que ele já elegeu sua favorita há alguns meses: namora firme com Sandra Loureiro, uma menina linda, de cabelos morenos, longos e lisos até sua cintura. Tem a pele muitíssimo bronzeada, e é uma ótima dançarina de ballet, jazz e street dance; uma princesinha moradora do Leblon, da turma 35.

Eu gosto dela. Ela parece realmente ser apaixonada por ele, e lhe faz muito bem.

Mas não tenho tanta certeza se ela me trata bem por apreciar a minha pessoa ou por saber que tem de ser agradável comigo pela amizade que tenho com seu namorado.

Na verdade, acho que ela me odeia. Como grande parte das outras mulheres com quem eu convivo. Não sei exatamente o que há, mas não consigo me adaptar bem ao jogo social que envolve o convívio feminino. Jogo este que, ainda no século XXI, nos é ensinado nas mesmas estruturas repressivas, forçando nossa submissão.

O mesmo modelo ultrapassado, conservador, danoso e segregatório de compreendermos umas as outras. A ferrenha competição, o julgamento implícito, herança nociva passada a todas nós por essa cultura de pensamento machista: a impossibilidade de uma garota olhar a outra como uma igual, e não como uma rival.

Já sobre mim, não há muito o que falar.

Você não vai gostar de mim.

Não falo isso querendo sua atenção ou comiseração. Estou apenas sendo sincera. A parte interessante do meu grupo já foi descrita, então serei sucinta. Não sou simpática, doce ou agradável.

Sou uma menina de dezesseis anos. Estou um ano adiantada na escola, porque meu tio me matriculou antes do necessário, não querendo gastar um dinheiro supostamente excessivo com babás, que fizeram a pouca maternagem que conheci.

Tenho uma aparência bonita, embora digam que eu pareço mais nova do que a idade que tenho. Culpa dos traços infantis de minha mãe, ou, em outras palavras, “rosto de bonequinha” que herdei quase completamente. Minha pele é realmente delicada; nunca sofri com espinhas, cravos, ou marcas do gênero. Minha pele lisa é um dos dotes recebidos de minha mãe. Tenho inclusive seus cabelos muito castanhos, de textura entre o liso e o ondulado, que, ao sol, parecem castanhos claros.

De meu pai, tenho apenas o último sobrenome e seus olhos azuis, como pedras de água-marinha cintilantes. E a herança que dividi com minha irmã mais velha.

Sim, eu sou órfã.

Minha mãe, Beatriz Liberatti, morreu de câncer quando eu tinha dois anos.

Meu pai, Gustavo Macedo, morreu de overdose quando eu era um bebê.

Era um cocainômano, viciado em prostitutas, e um dos advogados mais corruptos de que se tem notícia no Rio de Janeiro. Sua morte foi seguida de um escândalo midiático que meu tio nunca pôde esconder de mim e de minha irmã, e que afetou profundamente a saúde mental de minha mãe. Ela passou alguns anos lutando contra uma depressão profunda, mas, quando se recuperou e recebeu alta dos remédios e do acompanhamento psiquiátrico, foi diagnosticada com um tumor maligno no esôfago. Já era tarde demais.

Meu pai foi um dos sócios fundadores do Macedo e Lahmer Advogados, firma de advocacia que hoje em dia tem filial em oito grandes capitais brasileiras, além de uma sede em Paris e outra em Roma.

Minha mãe formou-se em história da arte, e era uma socialite herdeira da família Liberatti, uma das mais suntuosas famílias da elite carioca. Em uma tapeçaria encomendada com nossa árvore genealógica — peça que acho incrivelmente brega, disposta na sala de minha casa —, podemos ver que há ramos que nos ligam com a Casa de Saboia, da família real italiana.

Por alguma razão, isso é motivo suficiente para inúmeros dos meus parentes longínquos nos julgarem pessoas “à parte” e especiais. Para usar alguns eufemismos.

Meu tio, que oficialmente criou a mim e a minha irmã, embora seu papel efetivo em nossa vida seja discutível e talvez meramente burocrático, se chama Frederico Liberatti, e foi colocado na posição de sócio da firma de meu pai por puro “quem indica”. Sempre foi a ovelha negra entre os irmãos, aquele que a família, pelas costas, alimenta rumores de que não dará certo na vida.

Ironicamente, foi o que vingou.

Hoje em dia, divide seu tempo entre viagens de negócios, reuniões com clientes, congressos, palestras, festas “de quem importa”, prostitutas — vício que provavelmente aprendeu com meu pai —, a atenção quase integral ao escritório, e as carreiras controladas de cocaína que já o flagrei cheirando para conseguir manter o foco, a produtividade e a atenção.

Supostamente, ele para quando quiser.

Minha irmã Flávia, três anos mais velha do que eu, atualmente estuda filosofia na ENS, em Paris. Ela fez o que eu já deveria ter feito, assim que completou dezoito anos. Juntou em uma conta o montante que tinha da herança recebida após a morte de meus pais, e viajou para nunca mais voltar.

Não a vejo desde meus quinze anos, mas nos falamos de vez em quando pela internet.

Em resumo, é o que tenho a contar sobre mim. Minha vida não é interessante, e, apesar de encher a boca para condenar meus colegas de colégio, isso pode soar um tanto confuso dada a condição muitíssimo abastada que tenho. Infelizmente, não a aproveito tão bem quanto deveria. Em parte por ainda não ser maior de idade, de resto por não ser tão corajosa quanto minha irmã.

Pelo menos me esforço para não ser hipócrita.

Assim, nosso grupo é composto de cinco singelos párias: eu, o fracasso do convívio social, Marcos, o nerd gordo, Beto, o gaúcho maricas, Afonso, o bolsista, e Daniel, alguém que simplesmente caiu de paraquedas em meio aos fracassados.

Faz parte de sua natureza bondosa ser amigo de pessoas como nós.

Então, vamos regressar à nossa quarta-feira.

Quando estávamos todos finalmente reunidos, nos encaminhamos para a aula de educação física. Saímos do prédio das salas de aulas, caminhamos pelo pátio central, atravessando o lindo e grande campo de futebol de grama — uma das partes que mais amo em nossa escola —, para chegarmos em nossos respectivos vestiários, dentro de um dos ginásios.

Após nos trocarmos para os uniformes de educação física, aguardamos a chegada dos professores junto a turma 35, todos ocupando as arquibancadas que rodeavam o campo de futebol. Enquanto prendia meu cabelo em um rabo de cavalo alto e malfeito, Daniel foi falar com sua namorada, e eu o observei andar sorridente até ela, alguns metros longe à esquerda.

Ao se aproximarem, ele logo levantou a menina ainda mais baixa do que eu do chão com um abraço divertido e carinhoso que até me fez sorrir. Desviei o rosto enquanto eles se beijavam, reparando nos olhares cobiçosos de algumas colegas de turma. Aquela visão era tão típica que já estava acostumada.

Ao meu lado, Marcos e Beto conversavam animadamente sobre um novo lançamento de um jogo para Playstation 4 que eu não acompanhava. Gostava de jogos de videogame, mas não conhecia muitos dos lançamentos. Costumava jogar mais jogos de futebol, como Fifa, Winning Eleven e similares. Afonso continuava calado, e resolvi começar a conversar com ele sobre o clássico que passaria mais tarde, um jogo entre Flamengo e Fluminense, sabendo que meu amigo era rubro-negro.

Alguns minutos se passaram, e o professor que apitaria o jogo — ou melhor, a pelada — no campo de grama chamou alguns alunos, dentre eles, Daniel, um dos melhores jogadores da série, senão o melhor. Olhei para os alunos descendo pelas arquibancadas e alcançando a figura do professor, e sabia o que Daniel faria.

Reparei na forma como ele conversou com o professor de educação física, e sorri comigo mesma. Já reconhecia aquele jeito doce, porém esperto, de falar. Olhei bem para os cachinhos claros de Daniel se movimentando, caindo longos até seus ombros, enquanto ele gesticulava caricaturalmente com o professor, seu rosto expressivo fazendo piadas e falando algo como “ela joga melhor que um terço do time, pelo menos não vai atrasar ninguém”.

Estava tentando convencer o professor a me deixar entrar no time naquele dia. Apesar de, em tese, meninas terem de fazer as aulas com meninas, e meninos com meninos, o professor de vez em quando abria exceções para mim, por saber que eu jogava razoavelmente bem e não tinha frescura de entrar em rachas pela bola e similares.

Apesar de que a maior parte dos garotos não tinha coragem de entrar em divididas comigo, tendo em vista meu 1,58 m de altura.

Logo, o professor cedeu. Olhando impaciente em minha direção, ele me chamou com um gesto brusco com uma das mãos, e com a outra levou o apito à boca, pressionando os lábios firmemente e soprando, chamando a atenção dos outros rapazes. Fui logo ocupar meu lugar no ataque, à esquerda, onde gostava de jogar por ser canhota no chute (apesar de ser destra quanto a escrita).

Passando por Daniel, levantei a palma da mão e bati na palma da mão dele em um cumprimento agradecido e comemorativo. Sorri, sentindo-me finalmente mais disposta naquele dia, enquanto disse para provocá-lo:

— Vai lá, hein, zagueirão. Vê se não dá vexame! — brinquei com meu amigo, um excelente jogador que certamente jamais seria ruim de bola.

— E você vê se deixa de ser cone! — ele troçou de volta, fazendo pouco de minhas habilidades no ataque. Dei a língua para ele e trotei até minha posição, ignorando a cara feia que alguns alunos da turma 35 faziam para mim, claramente desagradados por terem de jogar com uma garota no time adversário.

O jogo seguiu durante os 50 minutos de aula, sem intervalos. Nosso time jogou mal, a defesa abrindo muitas brechas, e a bola não chegava até mim e aos outros atacantes. Por mais que Daniel se esforçasse para suprir os buracos dos perebas da nossa turma, a 35 tinha jogadores melhores, que nos driblavam com uma facilidade risível. Daniel era muito bom, mas era um só. Enquanto o jogo corria, e perigávamos ser goleados, mantive minha posição no ataque esperando por uma oportunidade, atenta à quando ela chegasse. Continuava zero a zero.

Durante os minutos finais do jogo, Afonso correu desenfreadamente passando por dois alunos da 35 com um lindo drible, pedalando por cima da bola de uma forma que pareceria ter sido feita pelo próprio Robinho em seu auge, e eu comemorei à curta distância que diminuía entre nós dois. Ele arrancou correndo para o meu lado, e passou a bola rapidamente, riscando a grama.

Não hesitei.

Na hora em que fez o passe, três jogadores defensores da 35 correram em direção a bola, mas fui mais rápida. Com medo de rachar comigo, dois deles recuaram, hesitando por um segundo que me deu vantagem. Correndo em meu encalço, só faltava driblar mais um e estaria na cara do gol.

Aproveitando a diferença de altura entre eu e meu adversário, rolei a bola em uma caneta efetiva por baixo de suas pernas, e corri rapidamente para o lado em busca da bola que escapou dele. Meu fôlego estava firme, por tê-lo guardado durante o jogo, aguardando minha chance de ajudar o time.

Conduzindo a bola já a alguns centímetros da linha da grande área, olhei decidida para o rosto também atento do goleiro e mirei um chute certeiro, fatiando a bola com a lateral interna de meu pé esquerdo. Senti o impacto gostoso da bola com minha chuteira, e vi o resultado do chute potente. O goleiro pulou para o lado direito, na direção certa, mas mirei bem.

A bola entrou no ângulo reto superior da trave direita do gol, sem chance de defesas, girando com efeito para dentro de “onde a coruja dorme”. Saí do estupor compenetrado que somente jogar futebol conseguia me trazer, e olhei para trás, vendo meu time correndo em minha direção.

Sorri, mais feliz do que me lembrava me sentir há semanas. Já fazia alguns meses que não conseguia jogar com minha turma, ou por birra do professor ou porque simplesmente matei a aula.

Comemorei pulando com meus amigos que jogaram, Afonso e Beto, sendo cumprimentada pelos meus colegas de turma e time, enquanto o apito do fim da partida soava. Alguns despeitados da 35 xingavam e se sentiam humilhados por terem tomado um gol tão bonito vindo de uma garota, e andavam derrotados para o vestiário masculino.

Daniel veio por último, aplaudindo devagar, seu sorriso gentil sincero em seu rosto. Muito alegre, me desvencilhei dos meus outros colegas e pulei em seus braços já abertos para me abraçar. Ele me jogou para cima em um dos gestos de carinho típicos dele, falando “Ciça, 'cê joga muito, porra!”, usando o meu apelido carinhoso para me elogiar. Enquanto isso, Afonso e Roberto nos cercavam.

Olhei para as arquibancadas, e vi que algumas meninas da 35 assistiam ao final do jogo, saídas de seus afazeres durante a aula. Dentre elas, Sandra, que me encarava com um olhar que não me parecia nada convidativo.

Por solidariedade ao meu amigo, me desvencilhei dele e lhe dei mais um “high five”, enquanto me despedia dos outros e me dirigia ao meu próprio vestiário. Não me senti intimidada por Sandra, mas pensei que seria melhor evitar possíveis discussões enciumadas trazidas à tona por parte de inseguranças da garota.

Não precisava provar para ninguém que éramos apenas amigos. Sei que nem mesmo Sandra ou meu tio em seus maiores esforços conseguiriam nos separar. Nossa amizade era um vínculo sólido desde que éramos crianças, e o tempo não tinha mudado isso, apenas firmado ainda mais, como raízes fundas de uma árvore de idade ancestral. Daniel era meu melhor amigo, e eu era a melhor amiga dele.

Nós dois sabíamos disso, e isso sempre me bastou.

*****

No dia seguinte, teria prova de matemática.

Mas não iria estudar. Não me importava que pudesse zerar a prova.

Da cobertura de meu apartamento no bairro do Jardim Botânico, olhei a paisagem da mata atlântica ao redor da área onde havia o deque da piscina, a churrasqueira e algumas mesas. A luz vespertina de um belo pôr-do-sol em um céu sem nuvens banhava a pequena floresta ao meu redor, enquanto ouvia distraída o som dos pássaros que cantarolavam tarde adentro. Debrucei-me na amurada alta e olhei para a folhagem verde das árvores, divagando.

Aquela manhã fora divertida, mas acabara muito rápido. E, como sempre, eu passara o resto do dia sozinha.

Assobiando uma melodia de Janis Joplin, sem realmente pensar no que fazia, girei em meus calcanhares e me afastei da mureta. Andei até a parte coberta do último andar de meu apartamento, e desci as escadas circulares, pensando se deveria dar um dois — gíria carioca para fumar um baseado —, e tentar tirar uma soneca depois, esperando que o jogo começasse mais tarde.

Não era uma boa ideia, sabendo que o cheiro de maconha empesteando a casa me faria subornar meu tio lhe cedendo boa parte do meu estoque para que parasse de me encher.

Poderia ver se marcaria de sair com alguém para espantar a sensação vazia que já me era quase tão comum quanto as mulheres que eu encontrava de manhã, quando não me atrasava para a escola, na sala do meu apartamento.

Mulheres bonitas, saindo com notas grossas nas mãos depois de dormir com meu tio.

Ao chegar no primeiro andar, saindo na sala de estar, liguei a televisão na ESPN, e desisti da ideia de convidar alguém, cedendo ao marasmo. Joguei meu corpo acima do sofá em formato de L, chutando meus sapatos pelo chão, abrindo as pernas de forma confortável, a saia do uniforme espalhada pelo assento. Sim, o uniforme do meu colégio é aquele tipo fetichista similar ao do Colégio Pedro II, provavelmente não modificado até hoje por agradar os professores mais velhos. Se é que entende o que estou querendo dizer.

Aquela hora do dia começava a segunda edição do programa Sportscenter. Prestei atenção até a metade de uma pequena reportagem sobre Oscar, um meia do Chelsea, jogador que gosto bastante. Enquanto ouvia suas palavras em uma entrevista recente, um zumbido seguido de um pequeno assobio acima do estofado do sofá me avisou que havia recebido uma mensagem de whatsapp.

Abri o aparelho e vi que era de Daniel.

“Não vai estudar, vagabunda?”

Irritada por ele ter adivinhado meu completo e nem um pouco arrependido descaso, resolvi tirar a desforra. Fui até a geladeira, roubei uma das cervejas da marca Heineken de meu tio e a abri, bebendo a garrafa long neck direto do gargalo. Fui até o sofá e tirei uma foto com o celular, enviando-a para ele como se fosse uma resposta digna da pergunta.

Passados alguns segundos, mal tive tempo de tentar focar a atenção no programa, quando o assobio tocou de novo.

Sorri internamente, digitando a senha do celular que já apagara.

“Fdp. Nem oferece. Tomara que reprove mesmo.”

Ri levemente e respondi:

“Você não viria de qualquer jeito. Duvido que ia deixar de estudar pra beber, sr. Bom Moço.”

Nem sequer larguei o celular. Sabia que ele responderia logo.

“Prometi que ia ajudar a Sandra. Ela não tá sabendo a matéria. E tem juízo, diferente de você.”

Fingi que fiquei irritada na mensagem seguinte, mas aquela pequena crítica dele tinha um fundo de verdade, e aquilo de certa forma me incomodou. Não admitiria, então passei para a brincadeira.

“É por isso que ela é sua namorada, e não eu. Só gosta de gente chata que nem você.”

Lancei o flerte de piada. Se Sandra lesse aquilo provavelmente ficaria furiosa, mas era responsabilidade de Daniel não deixar que ela invadisse sua vida particular. Não poderia me preocupar que ela começasse a espionar sua intimidade.

“Não te namoro porque você é uma baranga mesmo.”

Ele respondeu de brincadeira, e eu ri de novo.

“Vai tomar no cu. Vai pra sua matemática que eu vou pra minha cerveja.”

Respondi, em tom de quem encerra a conversa, mas esperei para ver se ele responderia. Ele só me mandou um emoticom de língua de fora, e eu joguei o celular para o lado, de qualquer jeito. Seria uma noite muito tediosa e solitária, assim como a tarde que se passou. Bebi toda a cerveja, sem prestar muita atenção na televisão.

Passados alguns minutos, decidi que enfim acenderia o baseado. Mas antes, tomaria um banho, uma vez que já começava a cheirar mal pelo suor seco que impregnava meu corpo.

Andei até o banheiro de meu quarto, uma das suítes do amplo apartamento, e me despi, colocando o uniforme que usava e o de educação física, retirado da mochila, na cesta de roupas sujas. Separei minha chuteira preferida, que usara naquele dia, e a deixei para tomar ar na pequena varanda que havia em meu quarto. De volta ao banheiro, liguei a água fria, já que fazia calor, a rotina do Rio de Janeiro.

Tomei um banho agradável e me vesti com um short jeans branco curto e uma regata de um azul claro como meus olhos. Calcei uma havaiana branca e simples, e passei a enrolar um beck generoso.

Enquanto o fazia, caminhei pelos corredores do apartamento, passando pelo escritório do meu tio, vazio àquela hora. Ouvia os sons do canal esportivo à distância entoados pelo apartamento, e dei alguns passos para dentro do aposento.

Passei os olhos pelas estantes repletas de livros jurídicos e alguns poucos tomos raros de literatura que já muito havia manuseado, e a maioria, lido.

Em seguida, deixei meu olhar recair para os porta-retratos colocados acima da mesa dele, uma escrivaninha lindíssima de madeira cara. Já conhecia aquelas fotos, mas evitava olhá-las. Sempre me davam uma sensação inexplicavelmente desagradável. Uma angústia difícil de suportar.

Lá tinham fotos da minha mãe, jovem, abraçada com meu tio, que tinha a mesma diferença de idade que tenho com minha irmã. Três anos mais novo que minha mãe.

Fotos do meu pai, de terno, encontrando famosos ministros do Supremo Tribunal Federal, desembargadores e outros advogados importantes. Havia ali até mesmo uma foto tirada em um restaurante sofisticado em São Paulo, que reconheci por já ter ido até lá com meu tio em um jantar para um egrégio desembargador. Por esta fotografia, eu podia ver Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do PSDB, sentado ao lado de meu pai, ambos brindando com taças do que parecia ser algum espumante caro.

Abaixei o porta-retrato com estrondo, sentindo nojo. Fiz uma careta e olhei para outras fotografias, pronta para acender meu baseado, tentando esquecer a última imagem que relembrei. Desprezava a figura de meu pai e tudo o que ela representava.

Passei a mão esquerda pela minha franja, sentindo a textura dos meus cabelos que ainda não estavam completamente secos, que eu secara de qualquer jeito com o secador agora jogado em cima da minha cama, em meu quarto. Por algum motivo, meus olhos foram atiçados por uma foto específica.

Em um porta-retrato discreto, meu tio estava ao lado de minha mãe, que sorria como sempre, lembrando muito meu rosto apesar de seus olhos castanhos. Junto a ela, havia outro homem. Alguém que a abraçava de forma protetora e carinhosa pelos ombros.

Mas não era meu pai.

Era um homem alto, de postura elegante, cabelos negros ondulados e bonitos e um rosto de feições finas que lembravam as de uma raposa. Tinha um olhar muito expressivo, cujas íris apresentavam uma coloração que eu não sabia discernir ser um castanho escuro ou um azul marinho. Seu olhar era tão bonito, passava uma impressão de tristeza contida. Havia um ar melancólico naquela fotografia, e talvez não fosse apenas pelo fato de, nela, figurar minha mãe, que morrera tão precocemente.

Fui surpreendida com o som da campainha. Imediatamente, escondi o cigarro de maconha em uma das gavetas do meu tio, insistindo mentalmente que não poderia esquecer de tirá-lo de lá para evitar possíveis discussões.

Segui pelo corredor até a porta, e olhei pelo olho mágico. Pelo hall do meu andar, não conseguia distinguir a figura que ali estava.

Arrisquei e abri a porta.

Um homem alto, com cabelos negros que tinham mechas grisalhas em suas laterais, saiu para mais perto da luz do lustre que iluminava aquele ponto da minha sala de estar e o começo do hall. Aparentemente, a luz do corredor não estava funcionando direito.

Ao ver suas feições, suprimi uma exclamação de surpresa.

Parado a minha frente, estava a imagem do homem que eu vira no último porta-retrato no escritório de meu tio. Em carne, osso e presença ainda mais impressionante do que a que eu vira na foto.

Seus olhos encontraram os meus, e eu juro que pude ver alguma espécie de sugestão estranha naquele olhar. Algum tipo de instinto contido, talvez, que me deixou subitamente assustada e muito curiosa.

— Boa noite, Cecília. — A voz dele era grave, um pouco rouca, e suave como suas feições. Não condizia com seu olhar firme, que eu não conseguia parar de encarar.

— Boa noite — respondi, sem me perguntar como ele sabia meu nome. Por alguma razão, ele me parecia muito familiar. Atribuí aquilo a ter visto tantas vezes sua foto guardada por meu tio.

— Você não deve se lembrar de mim. — Ele sorriu, mostrando uma das mãos para que eu a apertasse. Não me movi. Minha mão ainda segurava a porta, e ele a manteve estendida. Parecia conter um sorriso. Como se esperasse aquela reação.

— Meu nome é Bento — falou, me olhando como se esperasse que eu expressasse algum reconhecimento. Vestia uma camisa social elegante, listrada em tons de azul escuro e branco, e calças também escuras, bem como sapatos bem engraxados e em perfeito estado. Como não me movi, e franzi as sobrancelhas, desconfiada, ele abaixou a mão e falou:

— Seu tio me contratou para suas aulas particulares. De matemática. E talvez de outras exatas — ele acrescentou, como se aquilo fosse algo que eu devesse obviamente saber.

— Imagino que achou melhor que fossem ministradas por um... Amigo da família — ele comentou, e por algum motivo aquela frase me pareceu ter múltiplos significados.

Imediatamente levantei a mão direita que segurava a porta e levei-a à testa. Puta que pariu. Esqueci. Pensei, me repreendendo mentalmente.

Em uma das últimas brigas que tivemos, meu tio falou que não aceitaria mais minhas notas baixas, e me obrigaria a ter aulas particulares. Discutimos, falei que não adiantaria de nada, que não as frequentaria, e esqueci completamente do assunto. Achei que ele também não se lembrava mais, dado que a discussão havia ocorrido há mais de um mês.

— Sinto muito. Acabei esquecendo. — Parte de mim queria fechar a porta e expulsá-lo de lá. A última coisa que eu desejava, agora, era aprender matemática.

Mas a coincidência fora tamanha que eu não poderia simplesmente ignorar.

— Não tem problema. — Ele sorriu discretamente, e seus olhos se estreitaram um pouco. Curiosamente, aquele sorriso não parecia muito verdadeiro. Seus olhos não se moviam da mesma forma que seus lábios, quando sorria.

Abri a porta para lhe dar passagem, e o encaminhei até a sala de jantar, onde havia uma mesa ampla para que se sentasse. Enquanto isso, desliguei a televisão — que era do tipo smart —, pelo leitor de movimentos.

Ele seguiu minhas orientações, e, dentro da sala onde fazíamos nossas refeições, abriu a pasta à tiracolo, tirando algumas folhas, lápis, borracha, canetas e livros de exercícios. Olhei para aquela figura, atônita, praticamente saída de uma fotografia de, provavelmente... Em torno de 16 anos atrás.

— Vamos começar? — ele perguntou, indicando a cadeira ao lado dele para que me sentasse e não pude evitar assentir. Ao sentar ao seu lado, senti uma espécie de espasmo percorrer meu corpo com o olhar que o flagrei dando, por um milésimo de segundo, à minha silhueta.

Depois de um dia aparentemente banal, algo singular acontecia.

Notas finais
Esperando os comentários! =D