Amor Fati

2 Postulados e Teoremas


Notas iniciais
Olá! Venho com o segundo capítulo desta história original. Espero que continuem gostando. Ainda está no início, mas espero que o capítulo entretenha a todas as leitoras! Conto com cinco leitoras no total por enquanto, e sei que quatro delas são Arrriba, LaurenPS, Lune Noire e Gigi V, quatro amigas maravilhosas que fico honradíssima e feliz por me acompanharem em mais essa empreitada! s2 Dedico este capítulo a todas vocês, em especial a Gigi que já inclusive recomendou! *o* Sabe como eu amei isso, né, sua linda?! =D Beijos a todas e boa leitura!

— Por onde gostaria de começar, Cecília?

Meu professor perguntara. Pisquei levemente, enquanto reparava em seus dedos compridos, com alguns vincos na pele. Olhei para sua mão direita crispada em uma caneta apontada para uma folha de papel em branco, já disposta acima da mesa da sala de jantar. As veias em sua mão estavam visíveis, e por um breve momento detive meu olhar nelas, demorando para responder.

— Pela matéria de amanhã, acho — respondi, ajeitando minha postura na cadeira. Senti que minhas costas ficaram um tanto endurecidas, meus músculos ao redor da coluna retesados. Passei a me sentir subitamente ainda mais desconfortável. Não era algo recorrente um professor particular surgir na minha porta como se tivesse se materializado no hall de entrada, ainda mais uma figura quase que saída de dentro de uma das fotografias antigas do meu tio.

Da época de sua outra vida.

— E qual seria ela? — Bento perguntou com delicadeza. Sua voz afável não combinava com as feições de seu rosto, que me passavam a impressão de haver uma mente capciosa por trás de seu semblante gentil. Observei-o colocar a data no alto da folha de papel, de uma forma que me parecia calculadamente despretensiosa. Logo depois, voltou seus olhos para o meu rosto, sorrindo discretamente, como se não quisesse me apressar.

Algo em sua forma de se dirigir a mim, de me olhar, de absorver o ambiente ao seu redor me incutia a ideia de uma gentileza contida. Forçada. Como se escondesse algo por trás.

Ele me inspirava desconfiança, e aquilo começava a me deixar inquieta.

— Não sei — falei duramente, o encarando com um olhar que sabia ser petulante. Preferi desafiá-lo; não costumo gostar de joguinhos sociais, uma das prováveis razões de ter tão poucos amigos e não ser muito bem quista pelos outros.

Ele, ao contrário do que eu esperava, sorriu ainda mais.

— Acho melhor você descobrir, não? — Bento sugeriu, piscando os olhos devagar e baixando a caneta sobre o papel. — Para ver se conseguimos terminar a aula antes do jogo. — Ele me deu uma piscadela quase imperceptível, após mais um sorriso comedido.

Aquilo me irritou. Não era o que eu esperava de um professor particular que eu acabara de conhecer; imaginei que ser deselegante talvez o desencorajasse a tentar forçar um contato amigável comigo. Uma primeira e incisiva pista de que eu não queria conversa fiada. Mas, pelo contrário; a maneira com que ele reagiu me deu a impressão de que apenas aprumou ainda mais sua postura fingida, e eu me senti infantilizada. Como uma criança malcriada e turrona que se sente constrangida ao enfim perceber seu próprio comportamento inadequado.

Então, decidi ficar em silêncio. Se a estratégia da antipatia não funcionaria, talvez a mais absoluta quietude diminuísse sua lisura e me fizesse me sentir mais à vontade durante o suplício que seriam aquelas aulas forçadas.

Como se em resposta à sua pergunta, peguei meu celular do bolso de meu short jeans branco, e digitei a senha para ativá-lo. Mandei rapidamente uma mensagem de whatsapp para Daniel, perguntando a matéria, já prevendo sua resposta debochada que logo se comprovou:

“A essa hora da noite você ainda nem começou a estudar? Tu é uma perdida na vida mesmo. Análise combinatória, fatorial e arranjos simples.”

Não me dei ao luxo de responder-lhe. Comprovar sua postura responsável, como sempre, apenas me deixou ainda mais irritada.

— Análise combinatória. Fatorial e arranjos simples — respondi secamente para Bento, sem levantar o olhar, colocando o celular em cima da mesa.

— Ótimo. — Ele buscou um dos livros de exercícios que havia disposto na superfície da mesa de jantar, abrindo-o no capítulo específico. Tentou fazer mais uma gracinha sobre como se esforçaria para terminarmos logo a matéria, mas eu sequer sorri. Mantendo seu comportamento cordial, ele passou a explicar a matéria, e eu tive de me controlar para prestar atenção. A má vontade que me atacava não era devida apenas ao tema entediante que estudaria, mas especialmente a impressão cada vez mais forte de que havia algo de controverso em cada mísero gesto do homem ao meu lado. Bento falava educadamente sobre o produto dos números naturais e fatoriais de ‘n’, e eu tinha vontade de cortá-lo de imediato e perguntar qual era o problema dele.

Ou será que era algo comigo?

Em vez disso, tentei focar minha atenção nos conceitos que ele resumia, delineados ao longo do capítulo do livro que ele abrira e colocara à minha frente, para facilitar minha leitura. Depois da explicação oral, Bento perguntou se eu havia entendido, no que confirmei balançando a cabeça de forma rija. Em seguida, me pediu para que lesse mais uma vez os conceitos, desta vez sozinha, e lhe perguntasse algo em caso de maiores dúvidas.

Respirando fundo, arrastei meus quadris para o lado, movimentando-os pelo assento como se quisesse me afastar do professor o máximo possível que a distância entre nossas cadeiras nos permitia. Entretanto, meu movimento foi impreciso, e, sem desejar o resultado, movi minha cadeira um tanto mais próxima da dele, ao invés de afastá-la. Parte da minha perna esquerda, desnuda por conta do short curto, roçou nas calças escuras dele, antes que eu a cruzasse por cima da perna direita, disfarçando o contato indesejado.

Levantei os olhos de esguelha, e o flagrei encarando minha coxa. Logo em seguida, propositalmente, movi meu pescoço de forma a encará-lo abertamente. Sabia que minha expressão estava fechada, da melhor maneira que eu conseguia mantê-la.

De uma maneira quase inacreditável, as feições dele tinham mudado completamente, no milissegundo que se passara. Sorria da mesma forma discreta de antes, olhando descaradamente em meus olhos, como se absolutamente nada tivesse acontecido.

Ele era muito dissimulado. Naquele momento tive certeza. Por alguma razão, aquilo me trouxe um arrepio ligeiro na espinha, despertando algum instinto primal de adrenalina. Desta vez, ao invés de endurecer minha postura, fiz o contrário. Curvei meu corpo em direção ao livro, minha bochecha direita e queixo amparados pela minha mão direita, apoiada pelo cotovelo acima da superfície da mesa. Deixar minha coluna arqueada me dava uma sensação maior de proteção, como se meu corpo fosse meu escudo.

Enquanto já estava na segunda página de leitura, o silêncio predominava por todo o ambiente; apenas ouvia-se o tique-taque dos relógios antigos, de corda, que haviam na sala de jantar. Itens de decoração herdados de meus avós, provavelmente caríssimos. Senti meus cabelos caindo pela minha bochecha esquerda, devido à postura encurvada que eu adotara, e aquilo me deu um ridículo alívio momentâneo.

Como se uma cortina de cabelos me permitisse me esconder do olhar de Bento, de seus penetrantes orbes escuros disfarçados por camadas de simpatia e afabilidade.

Depois de alguns minutos, eu já terminara a leitura dos conceitos, passando para o enunciado do primeiro exercício. Finalmente fixara a matéria, quando senti seu toque em minha bochecha.

Não tive reação, fiquei completamente surpresa. Sequer movi a cabeça.

Apenas senti seus dedos compridos puxarem para trás os fios que caíram na frente de meu rosto, que antes impediam tanto minha visão lateral dele quanto sua visão de minhas feições.

Bento pôs parte de meus cabelos atrás de minha orelha esquerda, enquanto eu piscava, encarando a primeira questão sobre fatoriais. Virei meu rosto para ele, devagar, agora eu mesma adotando uma postura calculada.

— Estava prejudicando sua leitura — ele falou, sorrindo cínico, sugerindo que meus cabelos caindo em meu rosto pudessem atrapalhar minha visão e logo, a compreensão da matéria. Como se justificasse seu gesto abrupto, ao qual eu não dera nenhum sinal de receptividade.

Queria xingá-lo, perguntar quem lhe dera intimidade para tocar em meu rosto, mas não fiz nada. Apenas o encarei. Em silêncio. Piscando meus olhos, olhando fundo nos dele.

Enquanto assim fiquei, ele manteve meu olhar, sem aparentar dificuldade alguma de fazê-lo.

Depois de alguns segundos, desisti, voltando a olhar para a frente, encarando o livro de exercícios como se ele fosse me ajudar. Ainda estava tentando entender o que acontecia ali.

Subitamente, me senti muito vulnerável. Tive a completa consciência de que usava roupas muito curtas, que revelavam bastante do meu corpo. Estava sozinha em casa, sem a Eliete — a empregada doméstica contratada -, sem meu tio, com um homem quase desconhecido. Um homem que não parecia agir de maneira muito previsível. Ou até mesmo apropriada.

Se nos minutos iniciais de aula agia de maneira tão profissional que chegou a soar incômodo, pareceu dar-se a intimidades bastante rápido. Aquilo estava confuso.

Eu estava confusa.

— Sinto muito se fui desagradável. Devo tê-la constrangido. Mil perdões — Bento disse, como se tivesse lido meus pensamentos. Levantei meus olhos para ele, ainda silenciosa. Ele sorriu discretamente com os lábios fechados, mas eu podia ver que não estava realmente arrependido. Eu não queria prolongar aquela brincadeira que ele propusera, fosse ela o que fosse.

— Terminei a leitura. Acho que consigo fazer essas questões — respondi, como se nada tivesse acontecido, tentando romper o assunto.

— Muito bom! — Ele sorriu mais amplamente. — Pode começar, então. Qualquer dúvida que tiver, pode me perguntar — o professor falou, enquanto buscava em sua pasta a tiracolo, também depositada acima da mesa de jantar, alguns documentos reunidos em uma pequena pasta para arquivamento. Tirou de lá algumas folhas de papel almaço, e logo percebi que se tratavam de provas.

Em uma delas, avistei no cabeçalho preenchido em uma letra redonda e facilmente legível: “Universidade Federal do Rio de Janeiro – P1 de Sociologia”.

Franzi as sobrancelhas. Se Bento era professor particular de matemática, o que fazia dando aulas de sociologia em uma das melhores faculdades do estado?

Encarei-o buscar uma caneta vermelha simples dentro da mesma pasta, e seus olhos escuros logo se focaram no rolo de provas empilhadas que tinha para corrigir. Vi seus dedos compridos e ágeis puxarem a primeira, colocando-a na sua frente, a caneta vermelha dedilhando a primeira questão preenchida por algum aluno desconhecido por mim. Deixei meu olhar se perder no caminho que a caneta vermelha fazia, riscando algumas frases, colocando um símbolo de correto em outras, sublinhando algumas...

— Não entendeu alguma coisa, Cecília? — Bento perguntou amigavelmente. Seus olhos se punham descaradamente nos meus.

Não entendi muita coisa. Tive vontade de responder. Não sei nem que merda você está fazendo aqui. Pensei, mas não tive a ousadia de expressar em palavras audíveis.

Apenas meneei a cabeça, desviando rápido o olhar. Voltei o pouco da atenção que me restava às questões, e resolvi a grande maioria rapidamente, demorando um tanto a mais em algumas que tinham as chamadas ‘pegadinhas’.

As quase três horas de aula se passaram assim, entre a leitura de fórmulas e a resolução de exercícios, com meu curioso professor corrigindo as questões que eu fazia e indicando meus erros aqui e ali. Por mais que não quisesse admitir, ele realmente era bom naquilo; aprendi com facilidade a matéria, e eu era uma aluna do tipo que tinha muitos "buracos" em conceitos matemáticos.

Apesar de eu, no caso, detestar matemática, todo aluno, por pior que seja, sabe de alguns conceitos básicos; é um pouco como viver, querendo ou não aprendemos como que por instinto, a cada passo trôpego dado, a cada lição dura que nos é ensinada. Por exemplo, postulados de geometria: sei que, por um ponto, passam infinitas retas. Sei também que dois pontos distintos podem determinar uma única reta.

E sei que, entre dois pontos distintos desta reta...

...Existirá mais outro, próximo ou não a eles.

Ao fim do último exercício de arranjos simples, Bento já havia corrigido mais da metade das provas da faculdade, e me ajudara a rever um erro bobo que eu cometera na última questão. Quando viu que entendi porque errei, moveu o lápis para longe da folha de papel na qual eu resolvia os exercícios, guardando-o dentro da pasta junto com o resto dos materiais.

Em seguida, senti que eu teria a chance de testar algo que me dera vontade desde que ele tivera a audácia de, aleatoriamente, tocar em meu rosto. Desde que me deixara sem ação.

Queria ver se a recíproca seria verdadeira.

Esperei ele guardar quase todos os materiais, escondendo a borracha com o braço esquerdo, depositando-o por cima dela. Enquanto isso, ele fechava a pasta.

— Esqueceu a borracha — comentei, e, com um olhar desafiador, levantei meu braço, de forma que pudesse ver que fora eu mesma que a escondera. Casualmente, ele moveu a mão para alcançar o material escolar, e eu movi meu braço para trás, dando-lhe passagem. Provavelmente não esperava o que eu faria em seguida.

Assim que Bento colocou seus longos dedos ao redor da borracha, eu pus minha mão direita acima da dele, tocando-a com uma delicadeza firme. Senti sua temperatura e sua pele quente, convidativas.

Ele encarou minha mão, e eu reparei que seus dedos estremeceram ligeiramente, de forma tênue, quase imperceptível. Senti um forte e inexplicável triunfo dentro de mim, mais intenso do que imaginei que sentiria ao afetá-lo também com um gesto brusco de minha parte.

— E esqueceu também essa caneta. — Dei meu primeiro sorriso para ele. Um sorriso impertinente e debochado, enquanto retirava do bolso do short a pequena caneta vermelha com que ele corrigira as provas de sociologia. Escondera-a no meu bolso enquanto ele explicava a última questão feita, percebendo-o distraído.

Mantive a caneta em minhas mãos, enquanto ele guardava a borracha em sua pasta. Bento parecia controlar um sorriso. Segurei a caneta vermelha em minha mão direita, erguida de forma propositadamente infantil. Se ele me trataria daquela forma, então eu faria meu melhor para ser insuportável. Ele queria brincar, e eu, mesmo não sendo fã desse tipo de joguinhos, participaria. Mas pelas minhas regras de conduta.

Permaneci o encarando, provocando, como se quisesse ver o que é que ele faria em seguida. Até onde iria.

Logo, com um movimento de seu braço direito, ele levou a mão até a caneta vermelha, seus dedos compridos roçando nos meus. Eu apenas apertei com mais força o objeto, sentindo uma pulsação estranha perpassar meus dedos. Meu professor particular deu um pequeno puxão, e, vendo que eu não soltaria, se rendeu, soltando um risinho sem som.

— Pode ficar com você — Bento respondeu. — Se gostou tanto. — Ele me deu um olhar de esguelha, e, dessa vez, seu sorriso fora natural.

E completamente malicioso, combinando com as palavras escolhidas.

Não soube o que responder. Cheguei a pensar se ele não percebera que eu escondera os objetos, e me deixara achar que eu o havia surpreendido.

— A aula acabou, então? — perguntei, tentando soar indiferente.

— Já sabe toda a matéria de sua prova. Por hoje é só! — Ele sorriu. — Pode ficar aliviada — Bento provocou.

Antes que eu me erguesse da cadeira, ele se levantou da que estava sentado, arrastando-a com cuidado para trás para não riscar o chão. Deu-me, assim, espaço para me afastar da mesa e sair da sala de jantar com mais conforto.

O professor fez um gesto com as mãos para que eu fosse a primeira a sair, de uma forma que provavelmente julgar-se-ia cavalheiresca. No mesmo instante pensei que talvez não passasse de uma desculpa polida para encarar meu corpo, enquanto eu estivesse de costas para ele.

Ainda assim, aceitei sua sugestão, e saí da sala de jantar antes dele. Logo segui pelo corredor longo, buscando a sala de estar e a porta de saída, comprimindo eu mesma um sorriso estúpido que teimava em querer se formar em meu rosto.

De início, a postura de Bento me intimidara, mas agora me divertira. Divertira-me pensar que eu mesma poderia ter algum efeito sobre ele.

— Gosta de futebol, Cecília? — o homem me perguntou, enquanto conferia sua pasta antes de sair. Eu já aguardava próxima da porta de saída, não como se o expulsasse, mas em uma distância educada entre uma mesinha de centro e a porta.

— Muito — respondi, curta.

— Imaginei. Sei que Fred é palmeirense, também, nasceu em São Paulo... E você? Torce por quem? — indagou, mencionando meu tio por apelido. Por alguns momentos, quase havia me esquecido de que ele conhecia minha família. E que parecia bem íntimo... Tanto de meu tio como de minha mãe.

— Corinthians — falei, ainda mantendo minha postura resistente. Torcia por um time paulistano dada a origem de minha família materna ser da cidade de São Paulo. Assim como grande parte das famílias do país que vieram de raízes italianas.

De imediato, ele deu um sorriso curto, porém aparentemente genuíno. Parecia um gesto triste, não divertido. Não aparentara troçar de mim, e eu tampouco contara uma piada. Não compreendi aquilo.

— Falei algo engraçado? — perguntei, quase soando grossa.

— Não. De jeito nenhum! — Bento respondeu, aproximando-se da porta, e, portanto, de mim.

Quando ele chegou perto o suficiente, abri a porta delicadamente, permitindo que ele saísse pelo hall de entrada, que se iluminou pelo sensor de movimentos. Ele se curvou em minha direção para se despedir de mim, e, ao invés de dar os típicos dois beijinhos em cada rosto como é o costume carioca, deu-me um beijo em minha bochecha esquerda, alguns segundos a mais do que seria considerado... Esperado.

— A próxima aula é...? — perguntei, evasiva, tentando disfarçar a sensação ardente em minha bochecha. Olhei o professor que já se afastara de mim apertar o botão do elevador, e me senti um tanto ansiosa. Não sabia como meu tio programara aqueles encontros educativos.

— Sexta-feira. No mesmo horário — Bento respondeu, seus olhos brilhando divertidos.

— Sexta-feira?! — eu respondi imediatamente, arregalando os olhos e apertando com força a maçaneta da porta. Filho da puta! Xinguei meu tio mentalmente, a raiva fluindo rápida e vigorosa dentro de mim. Aulas particulares em uma sexta-feira à noite eram sem dúvidas uma forma de castigo elaborada na surdina por aquele escroto.

Bento riu, da forma mais verdadeiramente simpática que eu vira naquela noite.

— Irei me dedicar para que elas sejam as melhores possíveis, Cecília — ele respondeu, e de súbito sua expressão já tinha novamente aquele ar contido e falso. Aquela frase não fora gratuita.

— Espero que sejam mesmo — respondi, malcriada e furiosa, mordendo o lábio inferior.

— Isso me lembra de outro detalhe — Bento falou, enquanto abria a porta do elevador, que já alcançara meu andar.

— Por favor, me dê o número do seu celular para que eu possa preparar o material para suas aulas com mais antecedência. E até para remanejarmos as datas, marcarmos aulas extras... — Ele sugeriu de maneira profissional, da mesma forma dissimulada que lhe parecia muito bem ensaiada.

Enquanto ele segurava a porta do elevador com um dos pés, buscou no bolso da camisa o celular, anotando rapidamente o número que lhe ditei. Ao menos meu tio não fora suficientemente babaca a ponto de dar meu número para ele sem minha permissão prévia.

— Depois lhe mando uma mensagem para que me adicione aos seus contatos também — Bento disse, afável.

Concordei com a cabeça, fingindo desprendimento.

Quando estava a ponto de me voltar para fechar a porta, acreditando que ele entraria no elevador, resolvi ter a palavra final.

— Foi um prazer conhecê-lo — falei, tentando parecer o mais sonsa e ingênua possível.

Bento voltou o rosto lentamente para mim. Deu-me um único sorriso enigmático, e entrou pelo elevador, apagando as luzes do hall assim que o abandonou.

Fiquei algum tempo olhando meu elevador, ouvindo os ruídos dele descendo andares abaixo. Fechei a porta, franzindo as sobrancelhas.

Mas que porra foi essa? Perguntei-me, mas ainda estava longe de compreender.

Meu aprendizado mal começara.

*****

Meu tio chegou durante o final do jogo.

Eu assistia ao Corinthians x Santos que se daria na mesma noite, jogada no sofá da sala, mas volta e meia o comentarista e o narrador informavam os resultados do Fla x Flu. Aparentemente o Fluminense ganhava de 3 x 0 do Flamengo, com três surpreendentes gols do péssimo atacante Fred. Sabia que Afonso seria motivo de piada amanhã em nosso grupo, e eu contribuiria animada.

— Quanto ‘tá? — tio Frederico perguntou, quase rosnando, aproximando-se de mim. Largou a maleta que usava em cima de uma das mesas de centro da nossa enorme sala de estar, e se jogou alguns metros longe de mim, no mesmo sofá em que eu repousava.

Em seguida, soltou sua gravata que já estava frouxa, retirando o paletó do terno e o jogando de qualquer jeito pelo chão. Não fazia diferença sujar ou amassar um terno italiano refinado daqueles, na lógica do desperdício de meu tio.

Não quando ele tinha dinheiro para ter um closet repleto de dúzias deles.

— 1 x 0 Timão — respondi à sua pergunta referente a partida, e ele fez uma careta de cansaço e desagrado. Como bom palmeirense, ficava feliz com a derrota dos rivais, e irritado com suas conquistas.

— Você e a Bia são realmente mãe e filha... — meu tio comentou, e pude ver uma centelha de saudade na forma como mencionou minha mãe.

— Por quê? — Bocejei, desinteressada.

— Esqueceu? Sua mãe era corinthiana também — Fred respondeu, passando as mãos pelo rosto, cansado pelo dia de trabalho. Pelo visto, não cheirara sua carreira de cocaína naquele dia.

Senti um baque em meu peito. Subitamente, a reação de Bento à minha resposta se explicara.

Além do time, o que mais ele sabia... A respeito de minha mãe?

Passamos algum tempo em silêncio, enquanto eu concatenava comigo mesma a estranheza daquele encontro com um homem do passado de minha família. O jogo terminou com o mesmo placar, e comemorei silenciosa, ainda um tanto levada por meus questionamentos prévios.

— Como foi sua aula com o Bento, hoje? Ah, se ele não apareceu... — meu tio passou a falar, em tom de ameaça. Pelo visto, confiava no amigo.

— Normal — menti. Fora tudo, menos normal.

— É? — Fred perguntou, parecendo aprovar. — Que bom. Só um santo que nem ele para te impedir de reprovar — meu tio falou com agressividade, e comecei a me irritar. Frederico se levantou, aproximando-se do corredor próximo a sala de estar.

— De onde você conhece esse cara? — perguntei, bruscamente. Meu tio parou de andar, e me olhou com atenção.

— Eu imaginei que você talvez não fosse se lembrar... — Fred comentou, pensativo.

— Lembrar de quê? — inquiri, mais impaciente e irritada. Mas algo me dizia que eu já sabia o que ele iria dizer.

— Você já o conheceu. Por pouco tempo, e o viu menos vezes ainda — meu tio falou, voltando a caminhar para dentro do corredor.

— Do que você está falando? — perguntei, ríspida.

Só pude ver sua silhueta, seus cabelos loiros alinhados desaparecendo de meu campo de visão, enquanto me concentrava para ouvir o que ele sentenciara, por fim.

Olhei em seguida para os jogadores do Corinthians, na televisão, que eram aplaudidos pela torcida. Estava atenta não ao fim da partida, mas à voz de meu tio. Meu coração parecia ter parado de bater. Tive uma incômoda e atormentadora sensação de vertigem enquanto absorvia o significado daquelas palavras que ele dizia:

— Bento foi o último namorado de sua mãe.

Notas finais
~ Fanart linda da Ciça feita pela Laurenlinda! ♥ Aguardo reviews! Recomendações seriam muito bem-vindas também! =D Espero que ganhe novas leitoras com mais esse capítulo!