Amor Fati
7 Teoria dos Quatro Elementos
Notas iniciais
O sal marinho encharcava minha camiseta regata preta. A estampa — o rosto do personagem Heisenberg, a alcunha de Walter White no narcotráfico na série Breaking Bad — já estava gasta pelo uso, a gravura azul desbotando dentro do balão de fundo chato desenhado na mesma cor.
Os raios solares do meio da tarde acariciavam minha pele já quente, exposta aquela luminosidade desde a hora que eu acordara. Eu cheirava a filtro solar, sal e areia. Já deveriam ser cerca de três horas e estava morta de fome. Ainda assim, também estava compenetrada. Franzia as sobrancelhas, focando o olhar em um alvo próximo.
Eu, Daniel e Guilherme, um dos amigos de Raquel, a irmã mais velha de Marcos que nos levara para aquela viagem à Búzios, jogávamos uma partida de dois toques. O jogo consistia em um goleiro — defendendo um gol improvisado, delimitado por dois chinelos na areia em cada lateral imaginária —, e dois jogadores que podiam passar a bola um para o outro por no máximo dois toques. O primeiro dava um toque, geralmente para levantar a bola, e o segundo deveria ser o que passaria a bola ao outro. O jogador que a recebesse tinha de dominá-la e chutar para o gol.
— Vai! — bradou Daniel, fazendo uma embaixadinha para levantar a bola velha e desgastada do chão. Em seguida, moveu as pernas para me entrega-la depois de um belo passe alto de calcanhar. Meu melhor amigo era capaz de um domínio de bola extraordinário, me sentia pereba perto dele.
Para não fazer feio, matei a bola no peito e girei meu corpo, levantando alto meu pé esquerdo descalço, ao passo que caía com as costas na areia fofa depois do movimento preciso. A bola cinza de tantos chutes acumulados pelos anos passou ligeira à esquerda do goleiro, na altura de seus ombros. Consegui o que queria, e ri ao atestar meu feito bem-sucedido.
— Porra, gol de voleio é humilhação, vão tomar no cu! — reclamou Guilherme entre divertido e aperreado. Esguio e atlético, devia ter quase um metro e oitenta de altura, mas não conseguiu defender e impedir meu gol.
Levantei do chão da praia de Manguinhos ainda rindo, enquanto Daniel se aproximava e batia a palma de sua mão contra a minha em um cumprimento satisfeito.
— Mandou, toco de gente! — Meu melhor amigo me deu um tapinha afetuoso nas costas, me parabenizando.
— Melhor ter a minha altura do que ter a sua quando se usa esse teto de choupana na cabeça! — Apontei para os longos cabelos espiralados dele, mas Daniel nem ligou. Já não olhava para mim, tinha seus olhos postos na silhueta de Sandra, que se banhava no mar raso com suas duas amigas.
Ainda fitando a namorada, meu melhor amigo me deu um peteleco na cabeça, e eu grunhi algum palavrão desaforado, afastando sua mão de mim.
Uma rajada de vento fez minha franja lateral cobrir meu rosto. Ajeitei-a, sentindo a areia voar contra minhas pernas desnudas em uma lapada suave. As patricinhas praianas ainda mergulhavam e riam enquanto Lívia, uma das "cocotinhas", gritava ao protestar pela temperatura gelada da água. Marcos se sentava embaixo de um guarda-sol junto com Roberto, ambos concentrados em algum jogo no Nintendo DS. Raquel e os universitários tomavam cerveja levadas por coolers e isopores debaixo de outro guarda-sol próximo, todos conversando preguiçosamente, estirados em cangas.
O dia estava bonito, com algumas nuvens no céu. A praia por si só também estava agradável, nem cheia de gente nem absolutamente vazia. Algumas pessoas caminhavam por ali, mas havia uma boa distância entre os nossos guarda-sóis e os dos desconhecidos com quem dividíamos aquela porção de areia e mar. Decidimos ficar na parte da praia defronte à casa dos irmãos Salles, bem perto da ponta direita, esta cercada por algumas colinas cobertas por cactos e outras plantas tropicais típicas de Búzios.
— A carne ‘tá pronta! — berrou ao longe Henrique, o amigo da irmã mais velha de Marcos que eu flagrara aos beijos com Beto, na madrugada passada.
Crispei os lábios, ao me recordar daquilo.
Naquela ocasião, depois de muito tentar e fracassar em minha missão de adormecer no mesmo quarto que as amigas de Sandra, resolvi descer e me distrair para ver se o sono chegaria. Acabei por topar com uma cena inusitada: meu amigo Roberto se atracava em segredo com aquele rapaz alguns anos mais velho.
Diante daquela situação que eu obviamente não deveria ter visto, aconteceu o contrário: fiquei ainda mais desperta. Por sorte, Daniel acordara e me encontrara sozinha na sala escura, tentando digerir o que tinha acabado de testemunhar.
Acompanhei-o até a cozinha, enquanto ele buscava uma garrafa d’água para encher a moringa de seu quarto, onde dormia com a namorada. Meu melhor amigo me perguntou o que eu estava fazendo ali.
Ao tirar curtas férias da minha exaustiva missão de flertar, provocar, seduzir e infernizar a vida de Bento, tarefa essa que eu parecia cada dia mais decidida a cumprir com êxito, minha vontade honesta era de lhe responder com uma pergunta: afinal de contas, quantas mais pessoas de nosso grupo tinham aventuras libertinas em segredo além de mim e de Beto?
É claro que não foi isso que eu disse. Acabei apenas mentindo que a viagem me deixara insone e tinha descido para acender um beck e relaxar. Daniel, folgado comigo como eu era com ele — de anjo ele só tem a cara e os cabelos de querubim — aproveitou para pedir que dividíssemos. Sem outra escolha, tive de fazê-lo, depois de fingir ter esquecido o baseado no andar de cima.
Subi, selecionei um dos poucos que eu tinha separado e levado para a viagem, e desci outra vez. Acabou não sendo uma má ideia passar aquela conversa. Conversei e fumei com meu melhor amigo como fazíamos desde os nossos catorze anos, quando experimentamos maconha. Sentamos em um banco na frente da casa, na varanda frontal da construção. Falamos bobagens, tiramos sarro um do outro e de nossos amigos, e eu consegui a distração que precisava.
Dividimos um pacote de biscoitos depois de fumar e cada um foi para o seu quarto, minha mente já enevoada pela substância entorpecente e pela hora tardia. Acordei depois do meio-dia, depois de uma madrugada e manhã de sono pesado sem sonhos.
Contudo, após aproveitar algumas horas de praia, nadando com meus amigos, tomando sol e jogando bola, o mesmo impasse surgia outra vez em minha mente atormentada. Eram muitos segredos polêmicos para uma única garota de dezesseis anos.
Surgiram-me dúvidas perigosas. Será que eu havia julgado mal a situação que eu mesma incitara? Ver Roberto se encontrando em segredo com Henrique me fez refletir. Pensei no sofrimento que deveria ser para meu amigo, punido por antecipação por sua homossexualidade escondida. Era algo duplamente doentio, não apenas pelo preconceito, já que Beto levava a pecha de gay não por assumir sua sexualidade, mas por ter um jeito esquisito e ser gaúcho. Também pensei no medo que aqueles encontros furtivos não deveriam lhe despertar, e na solidão que deveria sentir ao viver aquele romance secreto, que tantos condenariam.
Comecei a roer a pele macia perto de minhas unhas sem perceber. Senti a ansiedade crescer gradativamente dentro de mim, aquelas múltiplas incertezas multiplicando seu efeito apreensivo. Meus olhos estavam perdidos nas ondas da praia de Manguinhos, e só retornei ao cenário que vivia quando Daniel me deu um peteleco na testa.
— Se liga, se bobear só vai sobrar carne bem passada — meu melhor amigo preveniu, já caminhando para longe, passando pelos arbustos de mangue que cresciam ao fim da areia da praia. Segui caminho para dentro da casa de beira do mar junto com alguns amigos atrasados de Raquel.
Durante o churrasco próximo da piscina pequena e quadrada que havia nos fundos da casa, consegui beber algumas latinhas de cerveja e me forcei a bater papo e pensar em qualquer outro assunto.
A irmã de Marcos não se importava com que bebêssemos, fumássemos ou fizéssemos outras atividades proibidas para menores de dezoito anos ou até mesmo para maiores de idade; ela na verdade só levava o caçula e seus amigos colegiais a mando dos pais. A mãe e o pai dos irmãos Salles se preocupavam com as poucas habilidades sociais do filho e com sua baixa auto-estima por ser um garoto tão acima do peso. Raquel, a irmã mais velha, relativamente popular nos tempos de escola e que sempre teve boas notas, inspirava-lhes confiança o suficiente para permitirem que cuidasse do irmão mais novo. Assim, viagens com amigos eram não só aprovadas como incentivadas.
Esforcei-me para olhar para Henrique e Roberto sem diferença alguma em minha expressão, para não lhes inspirar desconfiança. Depois de me fartar de comida e beber uma boa quantidade de álcool, já sentia um cansaço bem-vindo. Resultado das horas de exercício físico e a malemolência que uma tarde na praia trazia, também incentivada pelo nível de leve ebriedade em que me encontrava no momento.
Quando todos já comiam a sobremesa — banana grelhada com canela e sorvete de creme —, Daniel tinha saído de perto do grupo que se dividia entre a piscina, as espreguiçadeiras e algumas mesas e cadeiras de pano. Guilherme e outros amigos de Raquel passavam a ligar as luzes da casa, porque já anoitecia.
Meu melhor amigo voltou para o convívio de todos trazendo seu violão antigo. Fiquei surpresa, aquele item lhe era tão valioso. Daniel morria de ciúmes daquela herança de seu bisavô.
Fitei-o ao se sentar perto de Sandra, que tinha os pés na piscina. Os dois trocaram um selinho enquanto ele afagava seus cabelos morenos compridos com um carinho ímpar. Eu podia imaginar Lívia e Jéssica se derretendo e invejando a sorte da amiga que parecia que iria desmontar de emoção na frente de meu melhor amigo, com um sorriso enorme em seu rosto bronzeado.
Desviei os olhos, querendo rir. Eu sabia da imagem galante que as meninas da minha idade tinham de Daniel, mas eu conhecia o troglodita por trás da carinha de bom moço. Era uma boa pessoa, sem dúvidas, e eu ficava muito feliz de saber que ele estava em um relacionamento que lhe fazia bem. Mas também estava longe de ser tão bem-comportado e cabeça aberta quanto gostava de posar. Todos temos defeitos, não é?
Talvez por isso eu tivesse medo de lhe contar sobre Bento. Eu sabia que Daniel condenaria o que eu estava fazendo. Na verdade, meu temor real era outro.
Eu tinha medo de que ele me condenasse.
Não demorou muito e uma típica rodinha de violão se formou. Alguns amigos de Raquel acenderam alguns becks, mas eu não me sentia à vontade para fumar na frente dela. Não sabia o que ela contava para os pais de Marcos, e eu não queria que o senhor e a senhora Salles tivessem segundos pensamentos sobre as companhias de seu filhinho precioso. Por lealdade ao meu amigo, resolvi preservá-lo e fingi não fumar quando Guilherme me ofereceu o baseado dele.
Reparei que Daniel agiu da mesma forma que eu, recusando, como imaginei que faria. Não à toa éramos melhores amigos.
O repertório de meu simpático amigo no violão era há muito conhecido por mim. Los Hermanos, Banda do Mar, Paralamas e umas poucas dos Mamonas. Quando queria pagar de seresteiro, se empolgava e arriscava alguns covers de Chico Buarque.
Daniel já estava em sua décima segunda música quando Jéssica pediu uma. Os amigos de Raquel tinham debandado em sua maioria, apenas Henrique e umas duas garotas ainda se sentavam perto de nós. Eu estava aconchegada na beira da piscina, ao lado de Marcos, bocejando com a cabeça em um de seus largos ombros, meus pés dentro d'água. De vez em quando, eu fitava de esguelha Roberto, sentado ao meu lado. Flagrei-o mais de uma vez trocando olhares com Henrique, deitado em uma espreguiçadeira próxima.
— Toca “Oração”? — pediu a garota. Alguns riram e debocharam dela, sem reconhecer o título da música, como se pedisse algo gospel.
— É da Banda Mais Bonita da Cidade — esclareceu Sandra, grudada com meu melhor amigo. Olhava para ele como se visse a encarnação de um deus em formato adolescente.
Ah, não. Pensei, me controlando para não revirar os olhos. Levantei o rosto dos ombros de Marcos e cocei a nuca, desconfortável. Aquela música era até bonita e eu a escutava de vez em quando, mas era o que faltava para a roda de violão ficar completamente sacal. A canção se apoiava em versos repetitivos, que se reproduziam de novo e de novo até importunar o ouvinte. Era uma música para se escutar quando se estava em um humor leve e introspectivo, reflexivo talvez, mas não para ser cantada por um grupo de pessoas até a exaustão.
— Alguém afoga aquela garota — murmurou Roberto para mim, também desagradado com a sugestão. Dei uma risada maliciosa, baixa, e acho que Sandra notou pois ela desviou os olhos do namorado para mim por alguns segundos.
Mantive o olhar e quase dei de ombros, ao passo que meu melhor amigo, alheio a tudo, já estava no refrão do pedido. Alguns dos convivas cantavam junto e eu troquei um olhar com Beto, nós dois levantando a sobrancelha um para o outro como se falássemos “quero sair daqui”. Repartimos alguns risos nervosos até a rodinha se aquietar e parar de repetir “cabe até o meu amor, essa é a última oração pra salvar seu coração, coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa” e todas as baboseiras melosas da música.
— Acabou o sofrimento — sussurrei para meu amigo loiro, que concordou em um meneio afirmativo de cabeça. Porém eu não ficaria para a décima quarta música. Dessa vez foi um pedido de Sandra, que não posso negar ter trazido certo rebuliço interno irremissível.
— Toca “João e Maria”, é tão lindaaa... — a princesinha implorou com charme, enfatizando as palavras que quase ronronava para o namorado. Daniel apenas sorriu e começou a tocar a música de Chico Buarque, e eu tive uma pequena, porém pungente, sensação de torção ao peito.
Dessa vez eu nem podia fingir debochar da canção com Roberto, pois era realmente boa. Uma das minhas melodias favoritas, aliás, como de tantos brasileiros pelo país. O que me incomodava não era o gosto musical de Sandra, mas o contexto e a história por trás daquela música.
Você deve se lembrar de que contei que eu cheguei a ficar algumas vezes com meu melhor amigo. Pois bem, como já salientei, tudo isso não deu lá muito certo. Digamos que aquela linda canção nostálgica de Chico tem certa relação, porém, com a época que nossa amizade quase virou outro relacionamento.
Abracei meus joelhos, retesando a coluna que antes estava relaxada. Passei a mirar o rosto de meu melhor amigo, que só dividia o olhar entre as cordas do violão e as feições de sua namorada.
— ...E você era a princesa que eu fiz coroar, e era tão linda de se admirar, que andava nua pelo meu país — cantavam Daniel e o grupo envolto pela bela toada. Até mesmo Beto murmurava a canção. Baixei os olhos para a água da piscina. Só não me levantei e saí pela ironia que seria em consonância aos próximos versos.
— Não, não fuja não, finja que agora eu era o seu brinquedo... Que eu era o seu pião! O seu bicho preferido... Sim, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo... No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido.
Eu podia discernir a voz de meu melhor amigo acima das outras, embora não mais fitasse seu rosto. Afastei as pernas de meus braços, ainda me sentindo um tanto contrariada, de certa forma ofendida. Poderia ser uma completa bobagem, sentimentalismos meus, mas aquela música ficara marcada para mim. Fiquei magoada ao pensar que o mesmo não se sucedeu para ele. Aquilo não deveria ser “território” de Sandra.
Como bons adolescentes idiotas e sensíveis, eu e Daniel tínhamos elegido aquela canção por ter uma letra que combinava tanto conosco. Representava perfeitamente o vínculo que cultivávamos: nossa amizade sólida, acima de tudo, nascida quando éramos tão crianças.
Não demorou muito e a melodia cessou. O repertório de mpb logo foi trocado por algumas baladas internacionais, depois para Bob Marley e a certa altura ninguém mais aguentava cantar em conjunto ou escutar mais nada no violão. O vento da tarde aumentara durante a noite, e nos dividíamos entre quem estava no pique de sair para o centro da cidade e os que queriam ficar em casa descansando.
Como meu grupo de amigos decidiu pelo passeio, não ficaria para trás amargando minhas ansiedades e borrascas na casa de praia sozinha com os estudantes de comunicação que eu mal conhecia. Tomei banho, coloquei uma calça jeans, all star vermelho e uma camisa xadrez da mesma cor, por cima de uma regata lisa também rubra. Pensei que a escolha de roupas foi infeliz, porque eu já deveria estar parecendo um tomate pelo tempo de sol tomado.
Saímos junto a Raquel e alguns de seus amigos. Ela e Guilherme dirigiram os dois carros, acompanhados dos determinados a desbravar a noite buziana.
Os universitários iriam para uma boate, e nós decidimos por andar pela Rua das Pedras procurando um lugar para beber. A Rua é basicamente o local em que tudo acontece em Búzios, quando a noite cai. Sempre fechada para o tráfico apenas de transeuntes, a Rua das Pedras é composta por bares, lojas de grife e restaurantes charmosos, envoltos por uma iluminação amarelada que combinava com o luar daquela noite clara. Assim, tentamos a sorte, no meio do burburinho de locais, turistas brasileiros e gringos.
Fracassamos terrivelmente. Marcos e Roberto não tinham carteirinhas falsas, apesar de eu, Daniel, Sandra e suas amigas fruirmos de documentos falsificados. Meu melhor amigo, sua namorada e as outras meninas não precisariam, porque tinham o ar de universitários bonitos e despojados. Eu, com minha cara de menina, Marcos, com suas feições de nerd meio abobado e Roberto, com sua magreza excessiva e pele quase albina contendo algumas espinhas tínhamos “ADOLESCENTES” escrito em nossas testas.
Acabamos por depender da boa vontade de Daniel e sua namorada, que compraram algumas batidas de coco, maracujá e outras frutas em um bar menor. O estabelecimento ficava perto da Orla Bardot, continuação da Rua das Pedras, delineada pela praia da Armação. Andamos até nos sentarmos aconchegados perto da estátua de Brigitte Bardot, a atriz francesa que diziam ter “descoberto” Búzios, ou ao menos a possibilidade de dar charme aquele balneário fluminense.
Dividimos nossas bebidas em copos de plástico e brindamos. Daniel abraçava a namorada, que conversava com ele e suas amigas. Eu, Roberto e Marcos nos sentávamos ao lado de Brigitte, e fingi abraçar a estátua pelos ombros e oferecer-lhe um gole do meu copo. Marcos deu uma risadinha e Beto um sorriso enviesado.
— Sabe, a gente tinha que se unir — comentei, indicando com o copo a direção onde estavam de pé Daniel e as patricinhas. Meus dois amigos sentados próximos a estátua me olharam.
— Somos os bizarros do grupo, temos que nos proteger! — Dei um cutucão brincalhão no ombro de Marcos, que estava mais perto.
— Ah, para, Ciça, você é bonita e sabe — meu amigo acima do peso respondeu, torcendo o nariz. Fiquei lisonjeada pelo elogio e devo admitir que um lado não muito evoluído meu gostou de ser colocada no mesmo patamar que Sandra, em algum quesito.
— Eu sou esquisita também. Acha que eu não sei que falam que eu sou a “lésbica enrustida” e a “deprimida mongolóide” do colégio? — disse sem amarras. Marcos baixou o rosto e Beto levantou as sobrancelhas, incapazes de contra argumentar. Eu já tinha descoberto que algumas pessoas assim me chamavam pelas costas. Provavelmente Sandra, Jéssica e Lívia estavam dentro desse rol.
— Tem muita gente escrota no mundo — Roberto falou, dando de ombros. Fitei meu amigo por alguns segundos, pensando nos múltiplos significados que aquela frase poderia ter para ele.
— Mas a gente é estranho pra caralho mesmo — admitiu Marcos, abrindo um sorriso sincero. Eu e Roberto o encaramos. — Porra, eu sou um gordão, Beto um magrelo espinhento de um metro e oitenta e a Ciça uma baixota carrancuda de um metro e meio, mais macha que nós dois. — Meu amigo de cabelos morenos abriu as mãos como se atestasse o óbvio ululante. Beto trocou olhares surpresos comigo, pois Marcos não costumava ser tão sincero. Era quase um tabu falar de sua obesidade.
— Acha que não iam sacanear a gente? Porra, alguém tinha que fazer, senão a tarefa sobrava pra nós — completou, e tivemos de rir. Gargalhamos até. Ao abrir os olhos, aferi que Daniel nos fitou por alguns segundos, parecendo desejoso de estar perto e saber do que falávamos.
— Aos fodidos do mundo! — Ergui meu copo e brindei com meus amigos, e mais uma vez rimos juntos.
Mais tarde naquela noite, estávamos já bêbados e voltávamos tortos de madrugada. Eram quase duas horas da manhã, e retornamos da Rua das Pedras sozinhos, em uma van que nos deixou na frente da casa na praia de Manguinhos.
Todos entraram, mas eu avisei que ficaria um pouco na praia. Quando alcoolizada, sentia ainda mais vontade de ficar perto do mar. Meus sentidos se potencializavam, então eu me embevecia ainda mais com os encantos marinhos e fragrâncias do oceano.
Sentei na areia, quase me largando pelo chão da praia. Estava fria, e ri comigo mesma. Aquela música idiota sobre corações, despensas e penteadeiras se repetia na minha cabeça, e a cantarolei estupidamente, movendo os dedos pelo ar.
Tinha me esquecido de Henrique e Beto.
De Bento.
Acabei por me lembrar daquele fantasma realista naquele instante, ao sentir meu celular caindo para fora do bolso de meus jeans apertados. Recordei-me das últimas mensagens e de como ele reagira à foto que eu enviara.
Catei o aparelho telefônico da areia, dando uns tapinhas para que não fosse danificado pelos grãos. Por alguns segundos estultos quase me vi escrevendo uma mensagem para meu professor particular. Queria xingá-lo por sua perversão há muito tempo, todavia minha vontade no momento era um pouco distinta. Pretendia injuriá-lo porque, de algum modo vultuoso, eu me sentia atraída por ele. Toda vez que me lembrava dos beijos em cima do balcão da cozinha eu sentia um arrepio que misturava receio e desejo simultâneos. Restava saber quem triunfaria dentro de mim.
Não soube quanto tempo fiquei naquele tormento mental. A maré tinha subido e quase alcançava meus pés. Só sei que alguns momentos depois percebi uma aproximação. A praia era segura, algumas luzes da casa estavam acesas — pois alguns ainda bebiam, fumavam cigarros e conversavam pela sala, até mesmo jogando no ps4 que Marcos trouxera —, mas eu não pude evitar ficar alerta. Eu era garota, e ser uma garota ainda significava, infelizmente, temer pela própria segurança quando estamos sozinhas.
Ergui-me o melhor que pude pelos cotovelos, sentando-me na areia e olhando para trás.
Pelo balanço e volume dos cabelos na altura dos ombros, logo reconheci a silhueta de Daniel chegando perto de mim no escuro. Segundos depois lá estava ele, bocejando de boca aberta com as mãos aos bolsos da bermuda.
— Já passou da hora de criança dormir — debochou, movendo os braços enquanto estalava as costas. Parou de pé ao meu lado.
— Já passou da hora de você ir à merda — retruquei, retornando a olhar o mar. Novamente me senti tentada a lhe contar sobre os últimos eventos relevantes. Entretanto, logo depois me lembrei de como ele fizera uma serenata com “João e Maria” para Sandra na frente de todas aquelas pessoas. Fiquei emburrada, por mais idiota que isso pareça.
— ‘Tá aí bancando a deprimida por quê? — inquiriu, ainda parado no mesmo lugar. Revirei os olhos, pois sabia que ele torraria minha paciência até eu dar o braço a torcer.
— Não ‘tô deprimida — retorqui, incerta. Deprimida eu de fato não estava. Mas eu com certeza não estava, como se poderia dizer... Bem.
— Sua namorada não tá te esperando não? — sugeri que ele se afastasse e fosse atrás de Sandra.
Daniel soltou uma expiração e sentou ao meu lado.
— Ela ‘tá dormindo que nem uma pedra. Não aguentou meu ritmo. — Levantou os ombros e torceu os lábios como se contasse vantagem em silêncio. Rolei os olhos outra vez e tive de rir.
— Parabéns pelo trabalho bem feito — trocei. Provavelmente eles nem tinham feito nada naquela madrugada. Voltamos tarde e Sandra já estava trocando os pés de tão bêbada.
Comecei a passar os dedos pela areia úmida. Desviei o olhar para as ondas escuras outra vez.
— ‘Cê tá estranha, Ciça — Daniel comentou, enfim, como eu sabia que ele faria. Respirei fundo com discrição. Não o olhei de volta, tentando manter a mesma expressão tranquila.
— Eu não costumo ter que pedir pra você me falar as coisas. 'Cê se finge de quietinha mas é uma fofoqueira do caralho — zombou, ao cutucar meu ombro direito e me empurrar de leve. — Pode falar, eu sei que ‘tá rolando alguma parada.
Tive de encará-lo. Daniel me dava um de seus olhares angelicais de “labrador humano”, de propósito. No fundo, o verdadeiro fofoqueiro era ele. Adorava saber da vida de todo mundo.
— Relaxa, cara. Você é meu melhor amigo, ou era? — brinquei. Senti uma torção aguda na altura do peito outra vez, lembrando da mesma bobagem relativa a música de Chico Buarque.
— Por isso mesmo, pentelha. ‘Tô preocupado contigo, na moral. — Ele me deu um incontável peteleco diário na cabeça. Dei um tapa mais forte na mão dele.
Eu tinha de escolher. Ou contaria sobre Bento ou sobre Beto.
— Não conta pra ninguém, pelo amor de Deus. Ontem... — Engoli em seco. Foi mal, Beto.
— ...Eu vi o Beto pegando o Henrique. Pegação sinistra mesmo, ali, lá no condomínio, naquelas árvores abandonadas. — Apontei.
— Caralho — disse meu carismático amigo, com simplicidade. Passou uma das mãos pelo rosto e coçou uma bochecha. — Não é como se fosse uma surpresa, tipo... — Aquiesci com o rosto. Já tínhamos conversado sobre as nossas mesmas desconfianças acerca da sexualidade de Beto. — ...Eu meio que sabia que ele era viado, mas porra, que bad. Tipo, esconder e tal né. Deve ser foda lidar com isso — falou e seu olhar se perdeu no mesmo mar que eu antes mirava.
— Deve ser — concordei e fitei uma onda se quebrar perto de nossos pés. Mal sabia Daniel o quanto eu me identificava com Roberto. Ele não era o único a vivenciar uma atração proibida.
Meu humor acabou ficando mais pesado, o que não era comum na companhia de meu melhor amigo. Estava ainda mais tentada a confessar tudo para ele. Como já mencionei, Daniel tinha como uma de suas características marcantes a quase milagrosa habilidade de melhorar os ânimos das pessoas ao seu redor.
Contudo, nossa interação não tinha acabado ali. Ele me surpreendeu mais uma vez.
Daniel se levantou rápido, segurando algo na mão direita. De súbito, senti um punhado de areia atingir meus cabelos na altura da nuca.
— Idiota! — berrei agudo, com vontade de lhe encher de sopapos. Ele atirara uma enorme bola de areia em mim. Saltei de pé e peguei uma porção dos grãos em minhas mãos e comecei a jogá-los em cima do rapaz. Daniel gargalhava as minhas custas e facilmente desviava da minha mira. Isso porque meus pés são certeiros, minhas mãos não.
Depois de um tempo desisti daquela vingança infantil e esperei ele se aproximar para lhe dar um empurrão. Ele continuou rindo as minhas custas e avançou depois de cambalear um pouco. Empurrei-o novamente, e já estava mais bem-humorada.
Talvez Daniel tivesse me dado um conselho com aquela sucessão de besteirol. Talvez eu não devesse levar tudo aquilo tão a sério.
— Vou ter que tomar outro banho agora — resmunguei, andando em direção a casa.
— É melhor, porca — implicou, e eu revirei os olhos, bufando.
— Cresce, garoto — quase supliquei, não muito sincera. Queria que ele continuasse sempre assim. Alegre, jovial, cheio de empatia. Já tinha me esquecido do quanto ficara chateada com a questão da música de Chico.
A certeza de tê-lo sempre presente comigo me dava forças. De longe ele era e sempre seria meu melhor amigo.
Mas eu precisava mais de Daniel do que sabia. Dentro em breve descobriria o quanto. Efetivamente.
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