Amor Fati

8 Atração e Repulsão


Notas iniciais
Boa tarde, meus queridos leitores e minhas queridas leitoras! Nessa tarde de segunda-feira venho oferecer mais um capítulo de Amor Fati. Um que traz certas cenas... Derradeiras. Pessoal que aprecia a controvertida relação entre Bento e Cecília provavelmente vai surtar ahuuhhue! Quero dedicar este capítulo a três leitoras em especial, que além de velocistas — eis que já comentaram no capítulo que postei na noite de sábado e me fizeram muito feliz com isso —, me mimam com um carinho tamanho que não posso fazer nada além de agradecer imensamente. Muito obrigada, Maria Vicente Carvalho, que além de sempre marcar presença por aqui, recomendou Amor Fati! o/ Isso é pra fazer a Menta cantarolar boba de alegria até amanhã! Muito obrigada, Gigi V, uma das minhas ídolas deste site, nossa primorosa Baudelaire Nabokov. Uma das melhores escritoras que conheci em meus poucos anos de vida! E muito obrigada, Arrriba, outra das escritoras mais talentosas que tive a sorte de encontrar nas esquinas desse mundo das originais e fanfics publicadas online. Espero que gostem tanto do capítulo quanto me envolvi em sua escrita! Agradeço por fim a todos os 181 leitores que acompanham a história. Acho que ela vem crescendo em um ritmo galopante, para tão poucos capítulos publicados! Que os números só cresçam mais: de leitores, de comentários, de favoritos, de recomendações! Amarei recebê-los! A epígrafe com os breves versos de Quintana — um dos meus poetas favoritos —, diz muito sobre o capítulo e sobre os personagens destacados. E assim me despeço com mais um pouco deste encanto cotidiano: contestável, curioso e tão humano em suas falhas e virtudes. A vida como ela é. Beijos e boa leitura!

Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa, na vida, inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos...
Já viste as flores que a mentira dá?

— Mario Quintana



O último dia de nossa estadia em Búzios foi pautado pela ausência de acontecimentos relevantes. Até porque sofríamos todos com terríveis ressacas. A cada tranco do carro eu sentia que minha cabeça iria explodir em combustão espontânea. Minha testa fervia e eu lidava com uma enxaqueca devastadora.

Contudo, não seria minha primeira ressaca, tampouco a última. Aquela especificamente se devia ao resultado final da última madrugada: depois da conversa que tive com Daniel, entramos na casa e passamos horas ouvindo música aos berros e jogando videogame com Marcos e Beto. E, lógico, bebendo sem parar. Até mesmo alguns amigos de Raquel se uniram a nós.

Quase ao amanhecer, Marcos teve uma incursão desagradável ao banheiro. Teve de receber ajuda de Daniel. Roberto estava tão avariado pelo álcool que mal conseguia se levantar do sofá. Enquanto isso, o caçula de Raquel regurgitava quase a própria alma para fora, e eu, entre risadas confusas e tontura alcóolica, dançava torta pela casa ao som da música que ainda tocava do iphone de Beto.

Em algum momento desabei em uma poltrona, aconchegando-me em cima dela como um gato enrolado em si mesmo. Tenho uma vaga lembrança de meu melhor amigo se aproximar e me cobrir com uma das mantas que estavam no chão. Só acordei na tarde do dia seguinte.

Chegaria até a ser engraçada a cena de retorno ao Rio: Daniel estava cabisbaixo, logo ele sempre tão alegre e falante. Eu não sabia ainda, mas tinha a intuição — confirmada depois — de que a razão disso era Sandra ter despertado no meio da noite sem o namorado ao seu lado.

Tiveram uma discussão homérica. Eu sabia que Daniel achava a namorada ciumenta em demasia. Deveria ser difícil namorar alguém como meu carismático amigo sem ficar com medo de ser trocada, já que ele era um verdadeiro ímã de pessoas.

Uma das vantagens de ter o posto de melhor amiga — ainda mais na adolescência — é que eu sabia que não teria jamais de concorrer com ninguém por aquela posição.

Agora tente apenas imaginar o seguinte cenário: as estradas da região dos Lagos foram cortadas naquela tarde por diversos veículos, dentre eles alguns carros levando jovens adultos e adolescentes mimados. Os tripulantes se dividiam entre aqueles que conversavam entre si, miravam a paisagem e nós quatro. Três adolescentes nauseados, cada qual usando seu próprio óculos de sol, munindo-se de coragem para aguentar o próximo solavanco contra buracos no asfalto e quebra-molas ocasionais.

As pessoas costumam dizer que a jornada de volta é sempre mais rápida do que a ida, não é? As pessoas dizem uma porção de bobagens.

Depois de quase cinco horas de trajeto chegamos ao Rio de Janeiro, e a visão dos municípios periféricos da cidade tiveram o efeito de uma aparição divina para mim. Demoramos o dobro de tempo para retornar, o que era previsível: decidir voltar ao Rio no domingo à tarde era o mesmo que implorar por um engarrafamento de extensão quilométrica.

Mas a mudança de ares me fizera bem. Senti-me menos sozinha. Poder me colocar no lugar de Roberto, um amigo tão próximo que escondia consigo a vivência de outro tabu, foi uma espécie de consolo para meu espírito adolescente inquieto. Porém, me trouxe também uma perigosa disposição.

Se Roberto aparentava lidar tão bem com seu romance proibido com Henrique, por que comigo haveria de ser diferente? Nesse mesmo raciocínio que se pretendia destemido, eu surgia com diversas razões para justificar a continuidade do jogo que eu embarcara junto ao meu professor particular.

Ainda não havia identificado que todos esses tolos esforços eram apenas vãs e insistentes tentativas de distorcer o que havia por trás dessa racionalização forçada.

Eu gostara de beijar Bento. Eu me sentia atraída por ele. E queria mais.

Era simples assim.

No final da noite de terça-feira, quando eu voltava de um dos treinos de minha escolinha de futebol, minhas atribulações emocionais foram despertas outra vez. Sandra, já de bem com meu melhor amigo, fora assistir ao treino dele, no que os pombinhos saíram juntos ao fim enquanto eu iria sozinha para casa. Com os cotovelos apoiados na janela do ônibus trajeto Saens Peña — Gávea, que passava pelo Jardim Botânico, meu bairro, meu celular apitou. Abri o visor e constatei uma notificação na conversa com meu professor de exatas. Mordi meu polegar ao lê-la.

“Ciça, confirma a aula de amanhã?”

Confesso ter me sentido um pouco contrariada ao lê-la. Aquele velho pervertido me beijara daquele jeito e agora escrevia para mim mandando um recado profissional seco daqueles? De imediato, me repreendi mentalmente. Eu não deveria complicar tudo.

Simplicidade com simplicidade era a melhor das escolhas.

“Confirmo.”

Depois de alguns minutos ele continuou:

“Qual é sua próxima prova?”

Bancava um zeloso professor interessado em meu desempenho. Rangi o maxilar, um pouco irritada.

“Tenho um simulado na quinta-feira à tarde. De todas as matérias, acho melhor focar em física”, redigi o mais seca e ao mesmo tempo educada que pude.

“Certo. Qual foi a última matéria dada?”

Franzi o nariz.

“Eletromagnetismo. Revisão sobre eletrostática”, recordei-me, entediada por antecipação. Detestava aquela parte minuciosa das exatas. Eu já me sentia microscópica diante da vastidão infinita do universo. Não tinha o menor interesse em estudar sobre cargas, compostos e demais objetos que conseguiam o feito de ser ainda menores e irrelevantes do que eu.

“Ok. Nos vemos amanhã então, boa noite”, meu professor me saudou em despedida naquelas palavras quase indiferentes.

Então era hora de mudar de tática.

“Beijos” remeti a mensagem, sonsa. Filho da puta falso, pensei.

Bento visualizou o que eu havia escrito. O aplicativo de trocas de mensagens indicou que ele escrevia uma resposta. Subitamente, parou. Ficou online por segundos, e depois o aplicativo denunciou a última vez que vira a conversa. Sinal de que o fechara.

Sorri, julgando que me vingara ao menos um tanto. O sem-vergonha não se sentiu à vontade para responder a despedida que — ele sabia e eu sabia — era mais do que uma simples saudação.

Era um convite.

*****

A noite daquela quarta-feira de outubro não seria reservada apenas a minha aula particular. Fiz tal descoberto enquanto distraía-me no último tempo de aula, pensando no jogo que assistiria depois de minhas lições de reforço com Bento.

Dando um tapa na testa e sussurrando um palavrão baixo para não atrapalhar a aula, Daniel, que se sentava ao meu lado, voltou-se para mim. Convidou-me de última hora para o lançamento de um livro de crônicas escritas por seu avô materno, Laerte Moraes, um jornalista esportivo conceituado.

O livro seria lançado na livraria Cultura, no centro da cidade. Ficava em uma localidade arriscada para se andar sozinha à noite, dado que o movimento naquele entorno se reservava quase todo as horas diurnas de dias úteis.

É claro que eu compareceria.

Não só porque seria divertido, mas também pelas oportunidades que aquela celebração me traria. Poderia convencer meu professor particular a me dar uma carona até o evento, e assim teria uma ótima desculpa para fazê-lo sofrer durante o percurso.

— Aproveita e dorme lá em casa depois. O Afonso vai também, falei com ele mais cedo. Tinha esquecido de te chamar — disse meu melhor amigo. Em outros tempos, talvez o xingasse por não ter me avisado antes, enciumada.

— A Sandra vai? — perguntei, erguendo uma sobrancelha. Não queria ser pivô de outra dramática contenda de paixão adolescente. Era fácil deduzir que sua namorada não se agradaria em me imaginar dormindo em seu território.

— ...Não — assumiu e esquivou o olhar, defensivo. — Ela não gosta de futebol — acresceu, elevando os ombros. Percebi que fingia não se importar com o que estava em jogo ali: a coleira curta que Sandra tentara colocar nele. Eu não teria sido chamada, tampouco Afonso, se a garota fosse ao evento.

— Sei... Não dói o seu pescoço não? Deve estar apertada — Não resisti e dei uma risadinha debochada, ao passo que gesticulava fingindo que alguém puxava uma coleira imaginária. O professor de geografia nos interrompeu, exigindo silêncio. Paramos de conversar, mas eu ainda fitava meu amigo com um olhar zombeteiro.

— Cala a boca, gnoma — murmurou Daniel. Pobrezinho. O talentoso zagueiro do terceiro ano do Colégio São Patrício fora domesticado pela princesinha do Leblon.

Ao final da aula, seguimos cada um para nossos afazeres. Afonso foi trabalhar, Marcos e Roberto, supostamente estudariam para o simulado, assim como Daniel, que ajudaria Sandra a revisar a matéria.

Dediquei minha tarde a tentar me distrair e passar as horas até minha aula particular. Selecionei a roupa que iria vestir para o evento literário: um conjunto de blusa justa cropped com mangas flarecompridas e saia de cintura alta que terminava brevemente acima dos joelhos. Fazia um pouco de calor, e a roupa simultaneamente elegante e charmosa condizia com a informalidade permitida a garotas da minha idade.

Aquela porção de pele à mostra em minha cintura fazia eco simbólico ao convite sonso deixado na despedida das últimas mensagens trocadas. Certamente surtiria efeito no imaginário imoral de meu professor.

Li pelo meu notebook algumas das crônicas de Laerte, mas minha mente fervilhava com ideias que passavam longe dos textos do avô de Daniel. Tinha de parar e reler frases e parágrafos, tamanha minha distração.

Nem percebi que começou a chover do lado de fora.

Assim decorreu o tempo de espera. Sozinha em casa, escutei o som da campainha à hora combinada. Abri a porta da sala de estar para Bento, pontual como sempre, portando seu típico polido sorriso no rosto. A mesma — e agora ultrajante — fisionomia composta, suas feições com o tom paternal que há muito já não me ludibriava.

Cumprimentei-o com cortesia, e seguimos o protocolo rotineiro. Guiei-o até a sala de jantar, os livros e cadernos já preparados. Sentei-me ao seu lado, tentando meu melhor para manter a farsa.

Meu professor apoiava a pasta que usava na mesa, enquanto eu fingia folhear o livro de física em busca dos tópicos de eletrostática. Soltei uma exclamação de tartufa lembrança e falei:

— Será que eu poderia te pedir um favor? — Mirei insolente o semblante de meu professor particular.

Presenciei Bento pestanejar rápido. Contive um sorriso vitorioso. Ele não estava tão circunspecto quanto pretendia aparentar.

— Claro. Se eu puder te ajudar. — Ele já me fitava com sua expressão de fingida afabilidade. Eu podia reparar quando meu professor sorria forçado. Seus olhos não acompanhavam o movimento dos lábios.

— Eu vou no lançamento de um livro no centro. Meu tio vai chegar tarde hoje de novo. Será que poderia me dar uma carona, se não ficar ruim pra você? — pedi como se falasse com um amigo confiável. A dissimulação não era uma arma que eu usasse com tanta facilidade quanto Bento, mas eu tinha meus momentos.

Notei uma suave mudança: estreitara de leve seus olhos escuros, naquelas nuanças de um castanho azulado.

— Posso te levar sim. — Brindou-me com mais um sorriso simpático. Movi meus olhos para o livro, ao passo que esperava a próxima pergunta.

— Mas como vai voltar pra casa? — indagou. Dei um sorriso enviesado por tê-la previsto.

— O escritor é o avô de um amigo. No fim do evento vou dormir na casa dele. Na casa do amigo, não do avô — respondi fazendo a piada ambígua de propósito, com um sorrisinho debochado. Fitei-o outra vez. Piscava os olhos e mantinha minha expressão costumeira. Ele já não sorria com tanta gentileza.

Era divertido vencer Bento em seus próprios ardis.

— Que bom. O centro é bem perigoso nesse horário — advertiu, e fez menção de pegar o livro que eu tinha em mãos.

Mais perigoso do que passar todas essas horas sozinha com você? Quase perguntei. Em vez disso, sorri com delicadeza. Eu tinha consciência de que transmitia uma imagem de desprendimento inocente irretocável.

Nisso, reparei em um olhar de esguelha vindo de meu professor, quando eu já retornara a ler o material didático. Sorria enviesado: o patife estava gostando.

Eu também estava, não podia negar.

Naquele instante, o vento na janela próxima nos surpreendeu. Fez as estruturas e o vidro já fechado balançarem por um momento. Sinal de que chuva apertava.

Bento passou a narrar os conceitos de eletrostática com sua voz mansa e cadenciada. Eu tinha de admitir que soavam mais interessantes quando explicados naquele timbre.

Esclarecia os preceitos da Lei de Coulomb. Em síntese, era a Lei de eletrostática acerca das forças de interação entre duas cargas elétricas puntiformes. Para dilucidar seu funcionamento, tinha de reiterar o princípio de que cargas com sinais opostos se atraem, enquanto as de sinais equivalentes se repelem, ressaltando que estas forças de interação são dotadas de igual intensidade.

O conhecido princípio da atração e repulsão.

Empregamos aquela aula de reforço estudando tais processos de eletrização. Por contato, por atrito, por indução eletrostática, compreendendo as linhas de força e os campos elétricos de atuação. Fiz todos os exercícios do capítulo, e, como era de costume, tive mais acertos do que erros.

Ao fim da aula, ofereci café e água para meu professor, que os recusou com garbo. Peguei-me pensando se ele ansiava pela carona para termina-la de uma vez, ou, quem sabe... Por ter se decidido abandonar sua falsidade.

Descemos de elevador até seu carro parado na garagem. Entramos no Citröen daquele modelo que eu não conhecia, e lembrei-me da última carona que ele me dera, enquanto fechava a porta e colocava o cinto no banco ao lado do motorista. Meu professor ligou o rádio enquanto manobrava. Reparei que o CD de música italiana que escutei naquela ocasião não estava mais ali.

A voz de Elisa Toffoli dera espaço para um álbum de Chico Buarque. A segunda faixa começou a tocar. Comprimi um sorriso curto. Suas composições introspectivas e repletas de inúmeras interpretações condiziam com o que eu conhecia do meu professor particular. Seu gosto musical fazia jus à sua personalidade.

A melodia de “Cotidiano” saía dos pequenos amplificadores do carro. Fingi as mesmas feições despojadas e depois deixei meu olhar vagar para o painel frontal. O limpador de para-brisas se esforçava para evitar que os densos pingo d’água atrapalhassem a visão do motorista da Rua Jardim Botânico, pela qual avançávamos.

Bento parecia mais tenso do que de costume. Ele não deixava de sorrir nem de agir com gentileza, mas eu já podia ver por trás disso. As mudanças em sua postura eram sutis, contudo, eu estudara meu professor particular de perto por alguns meses. Era preciso atenção para discerni-las, mas eu era uma estudante dedicada.

Fora do colégio, é claro.

— Seis da tarde como era de se esperar, ela pega e me espera no portão. Diz que está muito louca pra beijar, e me beija com a boca de paixão — cantarolei baixinho em coro com Chico, munida de minha sonsa inocência. Passava os dedos por mechas de meus cabelos, meus olhos voltados para a direita. Vi passar prédios, casas e estabelecimentos. O tráfego estava livre.

A voz calma de Bento se fez ouvir junto a música, esta mais agitada.

— Gosta de Chico Buarque, Cecília? — Reparei que não fez uso de meu apelido. Mirei seu rosto. Ele tinha os olhos na rua a nossa frente.

— Quem não gosta? — respondi em um gracejo cordial. Bento sorriu.

— É verdade. Mas não é como se você fosse tão comum assim — disse, enaltecendo-me. Continuei a fazer graça.

— Quer dizer que me acha estranha? — provoquei com um sorriso sardônico. Bento enfim deu uma risada discreta. Suas pálpebras afilaram enquanto o carro ultrapassava o último sinal da Rua Jardim Botânico e adentrava a Rua Humaitá. Acabávamos de trespassar o viaduto do Túnel Rebouças.

— Longe disso. Singular, apenas.

A chuva fustigava o painel dianteiro, ao passo que o carro subia a rua principal daquele bairro de passagem.

— É um eufemismo? — insisti em zombar. Ele voltou os olhos ligeiramente para mim e depois fitou a via novamente, meneando o rosto em negativa. Sorria incitado.

— Não me surpreenderia. Já ouvi outros dizerem que sou esquisita — afirmei e levantei um dos ombros.

— Isso sim me surpreende — falou. Algo diferente em sua inflexão me fez fita-lo imediatamente. Um realce inesperado nas últimas palavras.

Meu professor particular me dirigia um profundo olhar arguto. Suas íris escuras por natureza foram perpassadas por um expressivo lampejo.

Flertava comigo de novo.

Dei um sorriso ameno e por instinto esquivei o olhar. Sentira meu rosto ficar quente, enquanto suprimi uma vontade súbita de morder os lábios. Era impressionante. Eu podia me preparar o quanto quisesse para desafiar meu professor, todavia, jamais estava composta em plenitude para lidar com a intensidade com que me respondia.

Eu sabia que aquilo era errado. Muito errado. Mas não deixava de me divertir. Afinal, depois de anos presa na gaiola cara e solitária que meu tio me criara, a adrenalina de saber testar os tediosos limites morais que a sociedade me impunha era estimulante demais para rejeitar.

Depois de alguns minutos em silêncio, volta e meia direcionava um olhar sutil ao meu professor. O tom da conversa modificado pelas recentes insinuações deixara o silêncio entre nós ainda mais significativo.

Todavia, Bento fora provavelmente acometido por algum senso de culpa cristã ocidental. Sua expressão sugestiva pouco a pouco ficava mais sisuda. Passou a segurar o volante com mais firmeza, e desviou o olhar com mais ligeireza do que de costume quando eu o fitava.

Já estávamos no final do bairro de Botafogo, perto da enseada de mesmo nome. Em poucos segundos, teríamos o que se poderia chamar de um tênue acidente de percurso.

Não literal.

A chuva fustigava as ruas que transpúnhamos, tamborilando no carro com cada vez mais potência. O Citröen de Bento não resistiria incólume.

O carro começou a engasgar. Chegou a morrer por um momento. Bento, surpreso, ergueu as sobrancelhas enquanto tentava ligar o motor outra vez. Teve de repetir algumas tentativas até conseguir.

Mais à frente, vi alguns veículos largados na rua. Carros e até mesmo um ônibus sem passageiros.

Um guarda de trânsito parecia resolver a situação do ônibus que impedia a passagem de muitos carros, formando um longo corredor engarrafado. Bento abaixou a janela perto do guarda, exibindo um semblante preocupado. Ele dirigiu a palavra a meu professor antes.

— Vai pra onde?

— Centro — respondeu Bento.

O guarda de trânsito franziu os lábios, balançando a cabeça de um lado ao outro.

— Amigo, ‘tá tudo parado. Melhor ir pra casa, tá cheio de carro quebrado mais adiante. Por dentro e pelo Aterro — aconselhou o oficial de tráfego. Meu professor particular agradeceu e fechou o vidro. Estávamos ao lado de um retorno.

Fitei Bento e senti minha pulsação acelerar no ritmo dos limpadores de para-brisas.

Eu não tinha me preparado para aquilo.

— Se incomoda, Cecília? Estou preocupado com o carro. Quando a chuva der uma trégua posso te levar para casa de novo. Ou para a do seu amigo. — Atestei que hesitou antes de dizer a última frase.

Meu coração saltou dentro de meu peito.

— Sem problemas — aceitei com um sorriso brando. Sentia-me dividida. Metade de mim sabia que eu não teria uma chance melhor do que aquela para atormentá-lo. A metade remanescente não sabia até onde estava disposta a ir por aquela brincadeira temerária.

Subitamente ansiosa, tive a consciência breve de que o CD de Chico já começava a repetir as faixas tocadas.

— Aonde você mora? — tentei perguntar com o máximo de naturalidade.

— Urca — disse, fazendo coro ao meu tom forçado. A tensão entre nós era palpável; flutuava densa no ar ao nosso redor.

— Lá é lindo. O bairro mais bonito do Rio — reconheci.

A Urca é uma das localidades mais charmosas da já encantadora Zona Sul do Rio de Janeiro. Cheia de cartões-postais, é o lar do famoso bondinho carioca, do Pão de Açúcar e do Morro da Urca, no alto do qual shows de artistas renomados e outras celebrações suntuosas se realizam. Cercada pela Baía de Guanabara, quem ali mora não quer sair. Habitada pelos cariocas mais endinheirados, dentre os quais alguns herdeiros da ditadura militar, é também um dos bairros mais seguros da cidade, por conter um forte militar. Era o bairro eleito pelo Exército, afinal de contas.

Sem favelas, sem pivetes, quase um condomínio particular da nata da elite.

O que não parecia ser o caso de Bento, professor universitário. Sua profissão não lhe daria respaldo econômico suficiente para comprar um imóvel ali. Provavelmente deveria ser uma herança de família.

Estávamos próximos do bairro. Bastava seguir a direita no sentido Copacabana e avançar pela Avenida Pasteur, única entrada e saída da Urca. Contornamos as ruas próximas da Praia Vermelha ao passo que eu respondia algumas mensagens no meu celular. Ganhava tempo para quebrar a tensão cada vez mais evidente.

— Você mora em qual rua? — tentei perguntar com despretensão, as mãos e olhos ainda no celular. Podia ouvir o som dos pneus cortando as ruas inundadas.

— Avenida São Sebastião.

— Aquela ladeira perto do morro? — inquiri novamente. Bento respondeu com um sim. — Em que altura? — questionei, em uma tentativa atrapalhada de conversa desinibida.

Ele deu um sorriso leve. Não fazia muito sentido continuar a perguntar. Eu logo saberia.

— Não muito alto. — Sua expressão se modificou. Parecia ter se lembrado de algo. — Você tem alergia à pelo de gato? — perguntou-me. Fiquei surpresa pela interpelação aleatória.

— Não, e gosto de gatos — adiantei-me. Pelo visto Bento tinha um companheiro de quatro patas.

— Sabe como é, a gente se esforça para deixar a casa limpa, mas esses bichos são fogo... — comentou, e eu concordei com o rosto, um sorriso educado em meus lábios. Meu professor já seguia pela Avenida Portugal, depois de ter passado a menor praia do bairro e o IED, ou Istituto Europeo di Design. Funcionava no prédio tombado que antes era reservado ao Cassino da Urca.

Mesmo com a chuva que fazia o tráfego andar mais lento, Bento não demorou mais do que alguns poucos minutos para subir a ladeira da Avenida São Sebastião. Estávamos perto. Pensei em uma pergunta tola para fazer sobre seu gato, quando meu celular tocou e minhas mãos que o segurava tremeram. Estava inquieta, afinal aquela situação não se enquadrava exatamente no conjunto do que eu costumava lidar.

— Seu tio? — interpelou-me em um tom afável. Por que, vai ficar com medo se for? Reprimi-me para não responder.

— Até parece — debochei. No dia que eu recebesse uma ligação de Fred que não fosse para me dar bronca seria certamente por conta de alguma desgraça.

Mas eu sabia que não era meu querido e preocupado tio me procurando. O nome “Daniel” estava estampado no visor.

— Oi — falei ao aceitar a chamada.

— ‘Tá aonde, anã? Já começou aqui. — Meu amigo quis saber, munido de sua implicância de costume.

— Não sei se vou conseguir ir. ‘Tá chovendo muito e ‘tá tudo parado no sentido Flamengo — avisei. Reparei de esguelha em Bento. Sua postura ficara mais alerta.

— Puta, que merda. Mas você ‘tá bem? É melhor voltar pra casa — sugeriu meu melhor amigo.

— É o que eu vou fazer. Relaxa, ‘tô tranquila — garanti, incerta.

— Beleza. Avisa quando chegar em casa — pediu Daniel.

— ‘Tá. Aproveita aí com o Afonsinho! Beijos. — Pude ver pela visão lateral que Bento me deu um breve olhar.

— Falou. — Meu melhor amigo desligou a chamada e abaixei a mão que segurava o telefone.

Bento conduzia o carro para entrar na garagem de um prédio. Tinha apenas uns cinco andares se muito e uma fachada simples, rósea.

Eu ainda estudava a fachada do edifício que o Citröen preto adentrava quando ele quebrou o silêncio.

— Seu amigo? — Seu tom de voz gentil não dava chance de inferir qualquer nota de ciúmes. Todavia, fitei seus olhos, não seu sorriso comedido. Não tinham a mesma expressão plácida.

Refreei mais um riso frouxo.

— Sim. Avisei que não vou dormir na casa dele. — Voltei meus olhos para os de Bento com todo o descaramento que consegui reunir. Ele moveu imperceptivelmente o rosto ao me fitar em retribuição.

Não sorria.

— Vou ter que voltar pra casa por causa da chuva, né — acrescentei com feições de atrevida ingenuidade. — Quando ela baixar.

Reparei que seus lábios se moveram em uma curva suave para a esquerda. Fora a vez dele de conter seus sorrisos.

Bento parou o carro em uma vaga aos fundos. Saímos enquanto ele fechava as portas e meu professor me guiou até o corredor do térreo onde havia um elevador apenas.

— Qual andar? — indaguei cortês. Estava mais próxima do painel dos botões.

— Quarto. Obrigado — agradeceu pela gentileza. Apertei o botão indicado e logo subimos até um hall com duas portas.

Ele pegou as chaves nos bolsos da calça preta e lisa que usava e se pôs a abrir a porta do 401. Respirei fundo, sentindo meus batimentos cardíacos aumentarem de ritmo novamente. Ali não era mais meu domínio: era a casa de Bento, terreno conhecido apenas por ele.

Não sei que ideia ameaçadora surgiu em meu inconsciente sobre o que seria o território de meu professor, mas ela logo foi por terra quando adentrei o apartamento. Era aconchegante mesmo as escuras.

Andei por uma sala pequena enquanto Bento fechava a porta. Tinha uma janela grande na parede oposta, com uma diminuta mesa retangular perto dela, junto a quatro cadeiras. Em um umbral a esquerda eu podia antever bancadas e uma geladeira. Ali ficava a cozinha e a área de serviço, pelo visto. Ainda mais a esquerda, pude aferir um corredor com três portas fechadas. Uma ao final, e outras duas ao lado esquerdo de quem caminhasse pelo corredor.

Tive um leve sobressalto ao flagrar uma sombra se movendo rápido perto das minhas pernas. A silhueta pequena correu por baixo de uma mesa de centro, à frente de um sofá de dois lugares encostado em uma parede. Defronte, havia um rack de madeira escura, comprido, com uma televisão LED acima deste. Ao lado do rack e tapando o restante da parede, duas grandes estantes de madeira iam do chão ao teto, o que não era pouco; o apartamento tinha um pé direito alto.

— Seu gato? — Voltei-me para Bento enquanto passava uma mensagem mentirosa para Daniel. Disse que havia chegado em casa.

— Ele é meio tímido — gracejou. Sorri pela ironia. O reservado animal tinha um dono descarado. Acompanhei com o olhar o arisco felino, de manchas alaranjadas em um pelo esbranquiçado.

— Qual o nome dele?

— Lévi.

Franzi as sobrancelhas. Não esperava que Bento desse um nome bíblico ao felino.

— De Lévi-Strauss — esclareceu. Fiz uma expressão de reconhecimento.

— O antropólogo?

Bento deu uma risadinha cortês ao passo que apertava o interruptor da luz do corredor. Seguiu por ele até um quarto. Continuei parada onde estava. Meu professor logo voltou.

— Não vai me dizer que já leu algo dele — duvidou Bento com um olhar divertido. Fez um gesto para que eu deixasse minha bolsa larga — contendo meu uniforme para o dia seguinte e outros pertences — em cima de uma das cadeiras. Caminhei até a mesa e assim o fiz. Ele andou até a janela e a abriu um pouco. Seu gato oculto pelo sofá deu um miado desconfiado.

— Só alguns textos em que confronta estruturalismo e existencialismo. Mas eu gosto do existencialismo. Especialmente a ideia do Absurdo da existência — frisei. Bento indicou o sofá em outro gesto educado para que eu me sentasse se quisesse.

Aceitei a sugestão. Lévi saiu em disparada detrás do móvel para se esconder por trás do rack. Tive vontade de rir daquilo. Certamente eu era o indivíduo menos ameaçador daquele ambiente.

— Não existem pessoas boas ou pessoas más, apenas contingências variáveis, e o acaso pode sorrir ou maldizer qualquer um — falou Bento, terminando de abrir as janelas. Mal ventava, então a chuva não invadia o apartamento.

— Sim. Acho que essa é a única lei universal. Todo o resto é relativo — ratifiquei. Encostei a coluna no sofá macio. Era tão confortável quanto o de minha casa.

— Você é jovem e já tem interesse nessas áreas do conhecimento humano... — Bento comentou distraidamente.

— Acho que minha história de vida me levou a querer procurar algumas respostas — lembrei. Meu professor particular pareceu contrito, sentando em uma cadeira perto do sofá.

— Sem dúvidas — concordou, mais sério. — Acha que já as encontrou?

Considerando que estou no apartamento de um homem de quarenta anos numa noite chuvosa, acho que só tenho mais perguntas.

Em vez de externalizar meus pensamentos, disse:

— Não. Mas a busca continua — Forcei um sorriso.

— Pode ter certeza disso. Tendo dezesseis ou quarenta anos — riu simpático. Mais uma risada sincera. Acabei por acompanha-lo.

Bento era agradável. Simpático, cortês, inteligente. Quando não estava flertando — ao menos não impudente — eu sentia que poderia me esquecer de toda a estranheza que permeava nossa relação de tutor e aprendiz. Eu gostava de conversar com ele. Sentia que me entendia.

— Está com fome, Ciça? Posso esquentar algo para jantarmos. A chuva continua pesada. — Apontou para trás na direção das janelas. Olhei os grossos pingos caindo e a visão longínqua da Baía de Guanabara. Talvez demorasse até que pudéssemos sair.

— Pode ser — assenti e notei que retornou a usar meu apelido. Bento foi até a cozinha e eu o segui.

Depois de esquentar o jantar — risoto de funghi — no micro-ondas levamos os pratos para a sala. Continuamos a conversar durante a refeição sobre teses sociológicas e Bento contou sobre “Tristes Trópicos”, uma das mais famosas obras de Strauss. Por alguns bons minutos tudo soou tão natural e cativante que me esqueci dos pormenores esdrúxulos por trás daquilo tudo.

Nunca tive a chance de ter uma conversa envolvente daquelas com meu tio. Não só pela estupidez de Fred, mas porque ele jamais demonstrou interesse em meus gostos pessoais. Só conseguíamos trocar poucas palavras sobre futebol, se muito.

Depois de saciados, constatamos que a chuva só pareceu piorar. Bento teve de fechar as janelas, pois uma ventania começou a soprar.

Pedi para assistirmos ao jogo do Corinthians, e ele consentiu. Sentamos os dois no sofá, e a contiguidade física trouxe as mesmas sensações ambíguas que foram deixadas de lado durante o jantar. Eu me sentia ameaçada e também tentada a me aproximar mais.

Em dezessete minutos de jogo, o Timão fez um gol contra o Internacional. Estava jogando fora de casa, no Estádio Beira-Rio. Comemorei alto, alegre, enquanto Bento sorria ao meu lado. A alegria de ver meu time pontuar no campeonato brasileiro amainava a tormenta gerada por minhas contradições emocionais.

Passamos os dois tempos do jogo conversando sobre técnicas e melhores escalações do Corinthians, do Inter e do Fluminense — time de meu professor — um dos líderes do Brasileirão naquele ano, até voltarmos a filosofia e sociologia. Eu já estava relaxada, e nos minutos finais do jogo, com uma vitória praticamente garantida de meu time por dois a zero contra o rival, me levantei e fui ao banheiro. Já eram quase dez horas da noite.

Caminhei até o único corredor da casa e minha atenção foi atraída pela primeira porta entreaberta.

Na penumbra, parecia ser um escritório. Olhei por cima dos ombros na direção da sala para me certificar de que não me via, e entrei. Era uma sala de trabalho simples, com mais estantes acumulando livros e uma escrivaninha de madeira modesta com um laptop fechado em cima.

Em uma das estantes baixas, havia um aparelho de som do tipo que eu não via há tempos. Daqueles com armazenamento de quatro cds, e graúdas caixas de som conectadas. Coloquei o volume baixo, e, curiosa, liguei o aparato musical.

A primeira música iniciou seus acordes singelos em um arranjo familiar. O vocalista logo se manifestou e estimei a coincidência. Sorri.

Chico de novo.

“Quantos artistas entoam baladas para suas amadas com grandes orquestras? Como os invejo. Como os admiro. Eu, que te vejo e nem quase respiro...”

O Chico Buarque romântico, que tanto combinava com a afável melancolia de Bento, disfarçando sua sordidez. Mordi o lábio inferior, escutando um pouco da música que eu desconhecia. Já me punha a desligar o aparelho quando dois versos fizeram meu coração retumbar.

“Me escutas, Cecília? Mas eu te chamava em silêncio...” cantou Chico enquanto eu pestanejava, aturdida. Um arrepio percorreu minha espinha dorsal.

“Na tua presença palavras são brutas...” continuou o cantor. Boquiaberta, eu apertei em um impulso o botão para desligar o som. Queria e não queria continuar a escutar.

Saí dos aposentos mesmerizada. Meu coração palpitava, mas eu hesitava. Não sabia o que fazer. Aquilo apenas intensificou a curiosidade que eu tinha de me aproximar de Bento, ao mesmo tempo que meu lado racional avisava que era melhor me afastar.

Tão súbito. Tão intenso. Tão contraditório.

Talvez ele também tivesse pensado tanto em mim quanto eu nele.

Possivelmente até mais.

Retornei para a sala, esquecida do que pretendia antes da surpresa musical. Parei e olhei Bento sentado ao sofá. Lévi sentara ao lado do dono enquanto estive ausente. Dava-lhe empurrões com a cabeça na altura das coxas, suplicando-lhe afagos.

— Tudo bem? — interpelou em seu decoro particular. As feições bondosas, quase paternais. O sorriso discreto e amável.

Senti uma onda súbita de raiva. Como ele podia ser tão fingido? Enganara-me novamente. Eu já me sentia tão sossegada perto dele. Comecei aquela noite atuando em uma falsa inocência, mas, no fim das contas, tinha sido ingênua de verdade.

— Tudo. — Sentei-me perto de meu professor. Lévi saiu do sofá, evitando-me. Fingi assistir ao final da partida, mas nem mesmo meu Corinthians seria capaz de me distrair.

Depois de alguns minutos, olhei a mão esquerda de Bento, a que antes acariciava seu gato. Mirei seu rosto que continuava olhando para a tela. Encolerizada, assustada e controversamente desejosa... Coloquei minha mão acima da dele.

Senti seus dedos se movimentarem em um breve espasmo. Encarou-me.

— Sentiu minha falta no seminário, Bentinho?

Minha fala fora propositalmente debochada e insinuante. Como se fizesse-me Capitu e perguntasse a Bentinho sobre seu curso de seminarista para tornar-se padre. Mas era sua musa Cecília a inquiri-lo de suas saudades durante o seminário de sociologia.

Bastava de melindres.

Meu professor particular pestanejou algumas vezes antes de se recompor. Afastou a mão.

— Cecília...

— Mas eu te chamava em silêncio — ironizei, declamando a letra flagrada. Ergui as pernas acima do sofá, o acercando. Queria sacudi-lo pelos ombros, obriga-lo ao menos uma vez na vida a não se esconder em seus modos capciosos. Queria estapeá-lo.

Queria enchê-lo de beijos até perder os sentidos.

Algo brilhou em seus orbes escuros. Um átimo de compreensão. A expressão surpresa deu lugar a contrição. Baixou seus olhos no que pareceram feições culpadas.

Quando os levantou, modificara seu semblante em um milagre blasfemo.

— Senti. E fiquei maluco quando me mandou aquela foto — admitiu, sua voz rouca, distinta do timbre manso de costume.

Meu ambivalente, cínico, procaz e problemático professor particular enfim agiu como nós dois desejávamos. Transpôs os poucos centímetros de distância que nos separavam e me arrastou para seus braços.

Beijei-o com o mesmo ímpeto despudorado daquela noite na cozinha. Um abalo renovado tomava conta de meu corpo. Frêmitos de prazer subiam por todos os meus músculos, tensionados e relaxados sucessivamente em ardentes estremecimentos. Cada um deles inspirados por Bento.

Ansiara por aquilo como um vagante sedento no deserto imploraria por água. Minha miragem acolheu-me com tal encanto obcecante que eu já não compreendia mais nada. Apenas sentia, pulsava de deleite. Agarrei-o com minhas mãos, meus braços ao redor de seu pescoço e ombros, minhas pernas serpenteando na altura de suas costas em um abraço letal. Seus dedos longos se prensavam em minha cintura desnuda. Ávida, raspava minhas coxas nuas por debaixo da saia em suas pernas, impulsionando-me para ainda mais perto dele.

Beijamo-nos até que perdi o ar, suas mãos largando rastros de labaredas por minhas costas, percorrendo minha pele por dentro de minha blusa. Encostei minha testa na dele, recuperando-me, mas aquilo estava longe de terminar. Bento me levantou pelas pernas que ainda o cingiam contra mim, e eu deitei meu rosto em seus ombros, aspirando seu cheiro, resignada em nosso desejo mútuo.

Algum desavisado que visse apenas aquela cena poderia interpretá-la erroneamente. Aos olhos inocentes até passaríamos como um pai diligente carregando sua filha adormecida em seus braços. Levando-a com carinho rumo ao seu efebo leito.

Meus olhos embevecidos pela luxúria mal registraram que entrávamos em seu quarto. Pouco depois, minhas costas tocaram um colchão macio e ele já estava sobre mim, entorpecendo meus sentidos com regalo insólito. O toque de seus lábios e sua língua nos meus, em meu pescoço, meu rosto... Embriagava-me, impedindo-me de qualquer reflexão. Eu sentia, apenas sentia, mais do que sabia poder sentir. E gemia, suspirava, mal tendo consciência de que qualquer som saía de meus lábios desejosos.

Senti suas mãos em meus seios, por baixo da blusa e do sutiã, vagando em seguida para minhas costas, descendo para minha cintura, queimando-me em um vai e vem de minhas coxas até meus glúteos. Fincou-as ali em garras, arrancando meu gemido mais lascivo.

Tomado de igual ânsia, desnudou-me, retirando minha blusa, minha saia e minhas roupas íntimas. Tentaria ajudá-lo a se despir se fosse capaz de agir de outra maneira além de impelir meu corpo contra o dele. Beijava-o, mordia-o, arranhava-o nos braços, no pescoço, no queixo, nos lábios.

Incapaz de pensar, sequer cheguei a me sentir constrangida pela minha nudez. Aquilo era menos embaraçoso do que a maior parte de nossas interações anteriores. Fisicamente despidos, estávamos também livres de nossas outras amarras.

Ao menos enquanto aquilo durasse.

Finalmente consegui mergulhar meus olhos nos dele. Mantivera minhas pálpebras fechadas a maior parte do tempo, completamente entregue. Cada centímetro do meu corpo ardia de expectativa enquanto ele, tomadas as devidas precauções, propeliu-se para dentro de mim.

— Você é linda, Cecília — disse Bento aos meus ouvidos. Crispei os lábios, fervente até meu âmago em calafrios febris. Senti-o morder meu pescoço, os dedos envolvendo madeixas de meus cabelos em um puxão delicado, descendo para beijar meus seios e depois meu rosto outra vez. Experimentei-o dentro de mim, galgando caminho com terna firmeza, irrefletido em relação ao que aquilo significava.

Saboreando pungentes fisgadas, simultâneas em dor e prazer, despedi-me de minha virgindade. Arqueei meu corpo, abrindo-me em flor para meu professor tão dedicado a me ensinar as volúpias da carne. Bento não arrefeceu até alcançar o êxtase, ruindo em um gemido gutural aos meus ouvidos. Como um prenúncio da nossa danação. Estremeci junto dos pés à cabeça, cativada por seu regozijo.

Não fazia ideia do quanto tal escolha concupiscente me transformaria. Meus últimos vestígios de inocência ali se despediam, levados por Bento enquanto eu nem lhes saudava um mísero adeus.

Notas finais
Acho que essa cena foi a cena de sexo mais melancolicamente sensual que eu já escrevi. Acabei gostando bastante do resultado. E vocês? Cotidiano, de Chico: https://www.youtube.com/watch?v=8LeIg-TtHQw Cecília, também de nosso Chico: https://www.youtube.com/watch?v=1eGWCgDCAkk MUITO curiosa para a opinião de todos. Espero que meu ânimo de bombardeá-los com três capítulos em seis dias tenha empolgado a todos os leitores também!