Amor Fati
9 Teoria da Solubilidade
Notas iniciais
Aconteceu.
Apenas pisquei, durante um longo tempo. Meus olhos langorosos encaravam o teto, com a tinta de um tom azul claro perolado descascando em alguns pontos. Um lustre antigo discreto, redondo e cor de cobre, me fitava de volta, com suas luzes apagadas.
Bento tinha saído de seu quarto. Assim que separamos nossos corpos daquele enlace, meu professor sentou em sua cama, esfregando as mãos no rosto. Demorei a ver sua expressão, seu semblante escondido por entre os dedos. Depois, me deu um olhar breve. Na penumbra de seus aposentos, não distingui emoção específica em seus traços faciais, mas podia imaginar o que se passava em sua cabeça.
Completo caos.
Meu professor particular deu-me um beijo quase casto, para depois pôs suas roupas ligeiro. Fechei os olhos ao sentir seus lábios nos meus, mais uma vez. Quando os abri de novo, notei que ele nem se dava ao trabalho de abotoar a camisa social, saindo porta afora e caminhando até o banheiro. Parecia apressado.
Escutei alguns sons esparsos. O pedal da lixeira abrindo, passos nos azulejos brancos, e a porta do banheiro abrindo e fechando com um rangido de dobradiças velhas. Em seguida, os passos dele continuaram a ecoar, seguindo na direção de sua sala de estar. Julguei escutar o som das janelas abertas por um empurrão suave.
Foi minha vez de levantar minhas mãos, ainda deitada. Não tinha feito movimento algum além de abrir e fechar minhas pálpebras e retribuir mais um beijo de Bento. Lânguida, fitei meus dedos, uma espécie de calma quase sobrenatural pairando dentro de mim, e sobre mim. Parecia que eu tinha acabado de concretizar algum objetivo antigo. Tal sensação de relaxamento me tomava sem impedimentos, como se eu fosse uma viajante peregrina, trilhando longos percalços até enfim voltar para casa.
Movi meus dedos acima de mim, distraída. Depois os passei pelo meu rosto, pescoço, descendo pelo meu torso, ao passo que respirava devagar. Por fim, deixei minhas mãos repousarem em cima de meu abdome. Senti um pouco de frio. Bento havia deixado meu corpo há alguns minutos, e, nua no quarto vazio, começava a sentir a queda de minha temperatura. Ainda podia sentir o toque dele, cada uma das trilhas pela minha pele sedada pelo regozijo carnal.
Não sou mais virgem, foi o primeiro pensamento que tive. Um meio sorriso se desenhou em meu rosto, sem que eu o controlasse. Senti um misto de sensações estranhas. Quando imaginava como seria quando perdesse minha virgindade, tinha pensado em diversas hipóteses. Nenhuma delas remotamente parecida com os acontecimentos derradeiros.
Lembrei-me de como Daniel dizia que eu seria a “tia dos gatos”. Quando lhe contava minhas desventuras com o sexo oposto, ele gostava de me zombar, afirmando que boa parte da culpa pelas dificuldades que enfrentava era minha. Eu era exigente demais, chata demais, reservada demais, desconfiada demais.
Meu sorriso aumentou pela ironia gritante de tais constatações com a realidade prática.
Queria poder contar para meu melhor amigo, mas isso estava fora de questão, ao menos por enquanto. Daniel achava que eu estava dormindo em casa.
Aspirando fundo, retomei a consciência de que estava na casa de Bento, sem que ninguém além de nós dois soubéssemos disso. Por um segundo, a imagem de meu tio passou pela minha cabeça, acrescida de uma ansiosa sensação de receio, mas logo preteri ambas para longe. Eu não podia estragar tudo. Já tinha chegado ali, não havia como voltar atrás. O que fora feito, fora feito.
Controlando os pensamentos portadores de emoções que começavam a surgir acelerados em minha mente, todos contraditórios entre si — medo, expectativa, vergonha, curiosidade — deixei o último ganhar, e resolvi tomar uma atitude. Vesti-me, colocando minha peça de roupa íntima e uma camiseta sem estampa de Bento, deixada em uma pilha de roupas dobradas em uma cadeira, perto de seu armário de madeira.
Passei a mão pelos meus cabelos, em um tique nervoso, os ajeitando em um nó no alto da cabeça. Minha franja deslizou pela minha testa enquanto eu ia até o banheiro, fechava a porta e conferia se a perda de minha virgindade deixara algum vestígio. Poucas gotas de sangue escorreram pela parte interna de minha coxa. Não fariam sequer a circunferência de uma moeda singela.
Não tinha apertado o interruptor da luz do banheiro. Ao mirar meu reflexo no espelho acima da pia, uma luz fraca formada pelas fontes dos apartamentos vizinhos e postes da rua refletia meu rosto pensativo.
Avaliei a Cecília desvirginada. Não parecia muito diferente da Cecília de meia hora atrás, que comemorava mais uma vitória do Corinthians. Por alguma razão infantil, tal ideia me deixou um pouco entristecida.
Torci os lábios e franzi as sobrancelhas, fitando o papel que limpara o sangue deflorado. Em minha mente virginal, imaginava que teria vertido mais. Limpei-me lesta, e percebi que ainda conseguia sentir Bento pulsando dentro de mim. Dei um sorriso lascivo para mim mesma, e logo me dirigi para a sala daquele apartamento.
Bento saíra-se como seu gato Lévi, querendo me evitar após nossa afluência corpórea. Mas eu não permitiria que fosse assim tão fácil.
Ao caminhar pelo assoalho limpo de madeira, meus olhos estudaram novamente a sala de estar daquele apartamento. O mesmo sofá estava ali, a mesa de centro, a mesa de jantar, o rack com a televisão e as estantes nos cantos. Tudo igual. Mas por que o ambiente parecia tão diferente?
Mirei os detalhes decorativos, até reunir coragem para fitar a figura de meu professor. Estava parado de costas para mim, defronte as janelas abertas. A chuva ainda caía pelo bairro da Urca àquela hora noturna. Reparei que uma fonte de luz diversa dos interruptores apagados iluminava de forma parcial a sala de estar. As brasas de um cigarro aceso, que Bento tragava.
Ergui de leve as sobrancelhas, pois não sabia que ele fumava. Notei que na mão esquerda ele tinha um copo quadrado com alguns cubos de gelo e um líquido amarelado. Uísque, provavelmente.
Sem que eu dissesse palavra, Bento bateu a ponta do cigarro e deu um olhar por sobre os ombros na minha direção. Achei que não tinha notado minha presença. Estava enganada.
— A chuva continua forte, já está tarde. Espero que não se incomode, Cecília, mas é mais seguro que durma aqui. Afinal, você tem um simulado amanhã — aconselhou. O tom paternal sutil tinha voltado ao seu timbre manso.
Fitei sem piscar os olhos castanhos azulados que mergulhavam nos meus, e depois desciam pelo meu corpo, estudando a camiseta dele que cobria-me até a metade das minhas coxas.
Com o raciocínio um pouco lento, reparei que apesar do timbre fleumático, seu olhar denotava algum tipo de emoção acentuada, que eu não sabia discernir com certeza. Como se travasse algum tipo de diálogo — e duelo — internos.
— Não me incomodo — respondi, com simplicidade. Minha voz saiu um pouco rouca.
— Quer tomar um banho? Posso te arrumar toalhas e o que precisar — falou, afável, direcionando os olhos escuros para fitar os meus. Meneei o rosto, negando.
— Tomei banho em casa, antes de sair. Não gosto de dormir com os cabelos molhados — afirmei. Era uma desculpa, eu sabia. Podia imaginar Daniel me chamando de “porca”.
Não queria tirar o cheiro de Bento do meu corpo.
Ele me deu um olhar doce, quase condescendente, enquanto pareceu soltar a expiração, expelindo a fumaça do cigarro para fora da janela.
Fui até meu professor, andejando devagar, quase em passos calculados. Parei de seu lado direito e toquei no copo que ele carregava com a mão esquerda, tentando puxá-lo com delicadeza. Bento consentiu, enquanto eu experimentava a bebida.
Ele tinha feito sexo com uma colegial menor de idade, seria no mínimo hipócrita me recusar um gole.
Refreei a tosse, devolvendo o copo para sua mão. Ele sorriu discreto, ao passo que eu pigarrei baixo.
— Uísque é uma bebida que leva tempo para se conhecer e apreciar. Não é um paladar simples — considerou, o mesmo sorriso modesto em sua face.
— Eu acho que não é meu estilo — devolvi, franzindo as sobrancelhas. Ele deu uma risada comprazente, sem som, e senti meu peito aquecer alguns graus.
Eu o achava especialmente bonito quando ria.
— Imaginei — disse meu professor, apagando o cigarro no cinzeiro que deixara no batente da janela. Segui com os olhos o movimento, e depois o mirei.
— Por quê? Acha que sou previsível?
Dirigia-lhe meu melhor olhar sonso, treinado depois de tantas confabulações com ele.
O riso murchou em seu rosto, mas não o sorriso. De lábios fechados em curvas amenas, Bento olhava para baixo, na direção de meu rosto, e deixou sua cabeça pender um pouco para o lado esquerdo. Com delicadeza prenunciada, levantou sua mão direita e passou a acariciar meus cabelos.
Aceitei o toque, deitando minha face contra a mão dele que me acarinhava. De olhos cerrados, sorvi a emoção do momento. Um doce regalo controverso.
— Longe disso — murmurou meu professor e amante, subindo e descendo os dedos afeiçoados pelos meus fios.
Um curto arrepio de deleite eriçou minha nuca, e entreabri meus lábios. Fiquei sedenta por um beijo.
Mas ao invés disso, despertei para a realidade com o toque agudo do meu celular, na marchinha do hino de meu time.
Bento afastou os dedos de minhas madeixas, enquanto eu via Lévi correr assustado nas quatro patas, cruzando o umbral que levava para a cozinha e se escondendo pelo corredor.
— Seria melhor conferir — sugeriu meu professor, e aquiesci com o rosto, um tanto letarga. Segui até minha bolsa deixada em cima de uma das cadeiras junto a mesa de jantar. Abri o zíper da mochila e remexi dentro de seu conteúdo até achar o aparelho telefônico.
A ligação era de meu tio. Franzi os lábios, nervosa. De esguelha, notei que meu professor me olhava, esperando que eu atendesse.
— Oi — soei fria, como de costume, aceitando a chamada.
— Já tá em casa? Tá caindo o mundo nessa porra de cidade — Ouvia aos fundos o som de burburinho de diversas pessoas em vozes animadas e uma música ambiente. Meu tio deveria estar bebendo até cair em algum lugar.
— Não vou dormir em casa hoje, eu tinha te avisado de manhã — recordei-o, e torci ainda mais os lábios. Aquela interferência de meu tio não foi nada conveniente.
— Porra, verdade. Tá na casa daquele moleque, né? — mencionava Daniel. Menti que sim, curta. — Beleza então. Até amanhã, Ciça. Vê se dorme logo, você tem prova amanhã, cacete — repreendeu-me.
— Simulado — respondi, sibilante. Fred retorquiu dizendo “tudo igual”, e eu me despedi e desliguei.
— Seu tio? — inquiriu-me meu professor. Acendera outro cigarro.
Assenti com o rosto, me controlando para não soltar a expiração, petulante.
— Ele se esqueceu de que eu iria dormir fora hoje. 'Tá em algum bar, pelo que eu reparei. — Tentei usar um tom de voz indiferente.
Bento evitou me olhar. Deixou-se fitar a janela, tragar o cigarro, e só então me encarou.
— É quase meia-noite. — Sua voz detinha um tom quase imperceptível de reprimenda, e eu levantei os ombros, como se não pudesse fazer nada a respeito.
— Ele faz esse tipo de coisa. Quase nunca encontro ele em casa, durante a semana.
Na verdade, eu raramente o encontrava em casa, independente do dia.
Meu professor desviou os olhos de mim outra vez. Não esboçou reação ante aquelas palavras, mas deu uma tragada funda no cigarro.
Pude notar que algo controvertido o motivava a se esquivar.
Esperei Bento terminar mais este cigarro e avisei:
— Acho que vou dormir. — Avaliei a reação dele, enquanto eu cruzava os braços, afagando meus próprios cotovelos. Será que viria comigo?
Será que eu queria que viesse comigo?
— Boa noite — disse meu professor, em tom de despedida gentil. Deu-me um sorriso cordial e ensaiado.
Senti um nó na altura do peito. Não sabia se eu apreciava aquela resposta mais distante.
— Boa noite... — respondi, e girei nos calcanhares, sabendo que aquele movimento ondulante faria a blusa que eu usava esvoaçar na altura de meu quadril.
Ele merecia aquela provocação.
Ao retornar para seu quarto, levando o celular comigo, deixei-o do lado da mesa de cabeceira de Bento. Aprumei-me do lado que ele havia me deitado, agora dentro das cobertas. Fitei as cortinas fechadas, o armário de madeira, mais uma estante do lado direito do quarto, e o lustre antigo acima de mim. Virei de bruços.
Com os olhos selados, aspirei o aroma do travesseiro. O perfume natural dele estava impregnado ali. Era como se abraçasse meus sentidos.
Um estranho sorriso satisfeito se desenhou em meu rosto. Achei que demoraria a dormir, dadas as batidas retumbantes de meu coração. Mas, talvez por algum instinto de autopreservação, não me permiti passar a madrugada em reflexões preocupantes. Adormeci em poucos minutos, embalada na cama de Bento.
Acordei na manhã seguinte com o celular tocando o despertador. Por alguns segundos alarmantes, não me lembrava de onde estava. Dirigi olhares aflitivos para o armário, o lustre e os outros móveis do quarto, e soltando um suspiro baixo vieram todas as memórias da noite anterior.
O desvio em Botafogo. A chegada na Urca. O apartamento. O jogo Corinthians x Inter. As conversas. A música de Chico destinada a uma Cecília tocando no aparelho de som do escritório de meu professor particular.
Minhas provocações. Os beijos.
A perda da minha virgindade.
Joguei as cobertas para o lado, desligando o despertador, o coração batendo apressurado. Arrumei os lençóis, que mal tinham sido movidos durante a noite. Bento não dormira lá.
Contive um sorriso debochado e um pouco ofendido. Ele se sentia na liberdade de fazer sexo comigo, mas não à vontade o suficiente para dormir em minha companhia. O que deveria estar passando na mente complicada e pervertida daquele homem?
Saí de seus aposentos e rumei até a sala, buscando minha mochila. Não havia ninguém ali, além do gato de Bento, que dormia no sofá. Mal abriu os olhos para me fitar, e voltou ao seu sono pesado. Pelo visto, se acostumara comigo.
Fui até o banheiro, cuja porta estava aberta, e também vazio. Entrei, me vesti com o uniforme e escovei os dentes com os artigos de higiene que trouxera na minha nécessaire.
Dei mais uma olhada para o reflexo da Cecília deflorada, depois de gargarejar. Limpando meu rosto com a toalha de mão, meus olhos azuis me fitavam no espelho, curiosos, enquanto eu movia o pescoço me vendo de alguns ângulos diversos. A mesma garota com o rosto de traços juvenis. Nada mudara, ao menos não na superfície.
Decidi procurar por Bento, mas não foi preciso. Ele estava arrumando a mesa para o café da manhã, deixando algumas frutas, pão, manteiga, leite, uma garrafa de café e dois pratos com talheres em cima da mesa posta.
— Bom dia, dormiu bem? — perguntei, desinibida. Eu esperaria o tom dele antes de assumir uma posição. Quase forcei um sorriso, deixando a mochila na cadeira ao meu lado. Ele se sentou de frente para mim.
— Sim, muito bem — respondeu em sua voz tranquila, e com um olhar discreto, notei que o cinzeiro estava cheio. Ele deveria ter fumado mais de um maço na noite anterior. Era evidente que afirmava uma mentira, até pelas olheiras em sua face.
Então meu professor fingiria que nada de incomum ocorrera. Previsível.
Até porque eu mesma não saberia como abordar alguns detalhes. Acho que não tem um jeito natural de dizer “então, foi muito bom e muito estranho aquilo tudo de ontem”, considerei.
Sorri-lhe sem graça enquanto me servia de café puro. Ele apontou para o açucareiro enquanto bebia sua própria xícara. Balancei o rosto em negativa.
— Tomo puro. Não fosse o café concentrado, eu não ficava em pé nos dias que tenho aula em período integral e treino de futebol depois — ratifiquei, enquanto bebia um gole d’água antes do café. Peguei alguns pedaços de manga cortados e comecei a comê-los.
Ele sorriu em resposta, pingando poucas gotas de adoçante na segunda xícara dele. Bebia rápido.
— Parece que teve um acidente por conta da chuva. Caíram umas duas árvores na Visconde de Pirajá — se referia a avenida que fazia esquina com a rua da minha escola. Arregalei um pouco os olhos, terminando o café.
— Ipanema sempre alaga quando chove assim. Que bom que abriu o tempo — comentei, movendo o queixo na direção das janelas abertas, que mostravam o céu acima do bairro da Urca emoldurado por poucas nuvens.
— O trânsito vai estar bem complicado — ele continuou com a conversa furada, cortando uma laranja para si.
— É, melhor sairmos logo — recomendei, e ele aquiesceu com a cabeça. — Não vai ficar muito fora de mão pra você? — questionei por gentileza, e ele negou, franzindo o cenho.
— Vou dar uma palestra as dez, na UERJ. Posso ir de Ipanema direto pra lá — contou, e eu ergui as sobrancelhas. Bento nem mencionara aquilo na noite passada.
— Vai ser filmada? — Fitei-o com um sorriso interessado.
— Acho que sim — disse, dando de ombros, e ajeitando o relógio no pulso. Notei o gesto. Estava inquieto, por mais que fingisse desprendimento.
— Depois me passa o arquivo ou o link para eu assistir — pedi com um sorriso de falsa inocência. Bento ergueu os olhos das horas mostradas no relógio e me fitou com polidez.
— Claro. — Reparando que eu tinha terminado de comer, ele fez um gesto para recolher meu prato. Não permiti. Levantei da cadeira e o ajudei a lavar a louça e guardar o restante do café da manhã, por mais que ele insistisse para que eu não o fizesse.
Depois disso, fiz um carinho de despedida na cabeça de Lévi, que, após cheirar meus dedos, permitiu o agrado. Bento coçou as orelhas de seu gato e depois saímos juntos para o elevador. Enquanto meu professor fechava a porta de seu apartamento, flagrei Lévi nos dando do sofá um olhar de estranheza, como se ele mesmo não aprovasse aquele tom falsamente despojado que assumíamos, ambos.
O restante do tempo de viagem até o colégio São Patrício se resumiu a vinte e cinco minutos de conversa desimportante. Sobre as últimas notícias que eu via no jornal online, acessado quando paramos no sinal, sobre o trânsito, sobre a palestra vindoura de Bento e meu treino na escolinha de futebol. Chegamos na entrada da escola quando eu lhe contava detalhes sobre meu último jogo do campeonato de escolinhas femininas, e ele parecia genuinamente interessado.
Cortei o assunto, calando-me ao atentar pelo visor do relógio do carro que faltavam cinco minutos para a hora de entrada. Deixei meu rosto virado para a direita, vendo alguns alunos andando apressados para os portões abertos do pátio frontal.
— Tenha um bom dia, Ciça — atentei ao uso de meu apelido, e voltei meu rosto, surpresa, para fita-lo. Bento tocou em meu rosto com uma mão e se aproximou. Por um segundo, gelei. Pensei que iria me beijar.
Ele me concedeu um beijo abstêmio nos cabelos, como quando se despedira depois de me beijar no balcão da cozinha de minha casa. Demorou alguns segundos no gesto, o suficiente para que eu atinasse batidas descompassadas de meu coração.
Tinha um quê de despedida naquele ato que parecia maior do que um mero até logo.
Ao nos separarmos, constatei que todo seu rosto exprimia um ar culpado. Seus ombros caídos, os olhos tristonhos e as olheiras marcadas.
Parecia um homem que tinha acabado de cometer um crime e o confessava.
Sem reação, abri a porta ao lado do banco do carona, saindo com a mochila em um dos ombros. Fitei-o acelerar o carro e não olhar para trás, seu perfil ainda mais marcado por uma expressão atormentada.
Coloquei o braço remanescente na mochila, vendo o carro de Bento cruzar a esquina e sair do alcance de meus olhos. Uma espécie de tristeza pungente se abateu sobre mim, enquanto eu arrastava os pés para dentro do colégio.
Ouvia o som dos colegas ao redor conversando, alguns rindo, outros praguejando de brincadeira entre si, alguns poucos correndo. Os inspetores na frente da entrada tentavam colocar ordem na massa que avançava para dentro da escola, e eu não prestava atenção em mais nada.
O que foi que eu fiz?
Ter visto o rosto de meu professor tão modificado, tão abalado, machucado até... Deixara-me perturbada.
Depois de seguir caminho até as escadas de madeira antiga do colégio, minha mão ia deslizando corredor acima, degrau galgado atrás de degrau pelas minhas pernas. Não conseguia tirar aquela imagem da minha cabeça.
No segundo andar, defronte ao laboratório de química, Afonso e Marcos estavam parados conversando. Não tinha reparado neles, até que me saudaram falando meu apelido.
Um arrepio desconfortável subiu pelo meu corpo e dei um sorriso amarelo para eles. Comecei a conversar sobre o jogo do Corinthians com Afonso, que estava animado por ter feito pontos nas apostas do Cartola que participava com seus amigos do trabalho.
Beto chegou depois, e Daniel se aproximou de nós depois de se despedir de Sandra, com quem se agarrava contra uma das pilastras.
— Perdeu ontem. Meu avô perguntou de você — meu melhor amigo fingiu lamentar, e eu forcei outro sorriso.
— Diferente de você, ele é um amor de pessoa — debochei, e Daniel mexeu em sua mochila, me dando em mãos um exemplar do novo livro de crônicas de Laerte Moraes.
— Ele autografou — disse, e eu abri o livro para ler na primeira página a dedicatória:
“para a única carioca corinthiana que eu conheço, e a melhor centroavante também”
Aquele gesto carinhoso do avô de Daniel me deixou um tanto mais alegre. Ele me conhecia desde criança, e tinha um carinho paternal legítimo por mim.
Diferente de outros homens que eu conhecia.
Nisso, outro arrepio contraditório subiu pela minha pele. Ignorei essa reação confusa, e guardei o livro, entrando na sala de aula.
O dia transcorreu no mesmo fluxo comum esperado. Por volta de uma hora da tarde, ao invés de termos aulas extras como em todas as terças e quintas-feiras, fomos almoçar e voltamos para o simulado. Tentei me concentrar o melhor que podia nas questões, mas minha mente vagava volta e meia para as lembranças da noite anterior, e as mudanças de humor de Bento.
Uma das perguntas de química fora sobre a teoria da solubilidade, e falava sobre a transformação de compostos materiais em outros estados, formando após a mudança algo completamente diferente. Era parecido com a forma com que eu me sentia, depois da noite passada, e o que eu sentia a respeito das transformações dissolvidas de Bento.
Com todas as metáforas escolares, ainda assim o resultado do simulado me surpreendeu. Fui muito bem, tirei 64 pontos. Conferi a cartela marcada com o resultado disponível no portal online do colégio, junto de meus amigos. Só tirei menos do que Afonso, que fez 65 pontos, e Daniel, que acertou 68 em um total de 80 questões.
Sorri embasbacada, rindo com meus amigos que debocharam, jurando que eu tinha colado. Garanti que não, e as zombarias continuaram do mesmo jeito. Não me importei. Dobrei o papel, pensando em contar sobre o resultado fortuito para Bento, se tivesse a chance.
Lembrei-me do último olhar que ele me dera, e a vontade arrefeceu de imediato.
Daniel foi com Sandra para o treino na escolinha do Fluminense, e eu segui para a minha, no final da tarde. Confiante com meu resultado escolar, estava cheia de energia. A técnica me elogiou, satisfeita com minha disposição durante o jogo de treinamento. Fiz um total de quatro gols.
Ao fim dos treinos, meu melhor amigo me ligou, convidando-me para voltar com ele e com Sandra de ônibus. Não consegui pensar em uma boa desculpa para evitar o casal grudento, então cedi e os acompanhei. Sentei em um banco defronte ao casal, enquanto eles ocupavam o banco de trás, e Sandra tagarelou animada sobre a empolgação do técnico de Daniel. Achava que poderia ser um novo “Marcelo”, jogador brasileiro lateral esquerdo do Real Madrid, que já era maior de idade quando foi contratado profissionalmente pelo Fluminense. Meu melhor amigo, fingindo modéstia, negava e implicava com a namorada, dizendo que ela se empolgava demais e exagerava.
Eu sabia que quanto mais tempo passava, mais difíceis as peneiras ficavam. A chance de Daniel conseguir algum contrato era menor a cada dia, mas eu também conhecia seu talento. Não achava que todas as portas tinham se fechado para ele.
Disse para meu melhor amigo não ser tão cético assim, quando meu celular vibrou. Tinha recebido uma mensagem de texto. Abri o aplicativo, sem prestar muita atenção, me divertindo com a conversa e interessada no sucesso de Daniel.
Era uma notificação de meu professor particular.
Quase estática, minha atenção para meu grande amigo e sua namorada foi instantaneamente destroçada. Respirei fundo e abri a mensagem nova.
“Cecília, avisei seu tio que terei que parar com as nossas aulas. Espero que tenha ido muito bem no simulado. Abraços”
Foi como se alguém derramasse um balde de gelo na minha cabeça. Li a mensagem inúmeras vezes até acreditar que ele tinha sido tão impassível. Indiferente, até, com essa despedida hipócrita, falsa, cruel.
A sensação de torção na altura de meu peito que eu sentira há pouco voltou com intensidade implacável. Sentia que engolia uma pedra ao passo que fechava o celular e não respondia as palavras gélidas de Bento.
Aquele velho devasso ouvia músicas românticas as escondidas com o meu nome e iria querer terminar todo o joguinho — que ele mesmo começara a armar — daquela maneira distante? Eu simplesmente não acreditava.
— Cara, ‘cê tá bem?
Pisquei repetidas vezes até fitar Daniel, que me olhava sem entender, e Sandra, que me fitava com uma sobrancelha erguida. A realidade ao meu redor invadiu-me sem dó, e eu percebi que ficara alguns minutos desligada do mundo, me importando apenas com o ultraje de Bento.
— Tô. Foi mal. Meu tio falou uma babaquice aqui. — Apontei para o celular, usando a desculpa de Fred. Sempre funcionava. Meu melhor amigo sabia que nossa relação era bem difícil.
— Ah... Que merda — disse, franzindo os lábios. Concordei com o rosto, disfarçando as pontadas que eu sentia em meu peito.
Estávamos perto da casa de Daniel, que logo desceu com a namorada e me convidou para jantar com eles e a família. Recusei o convite, e segui viagem até o Jardim Botânico. Desci na minha parada de ônibus e subi algumas ruas até chegar diante da fachada do prédio em que eu morava.
Era por volta das dezenove horas da noite quando entrei e saudei o porteiro. Subi o elevador até o último andar, abrindo a porta de casa de qualquer jeito. Joguei a mochila em cima de uma poltrona que havia perto da porta, tranquei-a e acendi apenas um interruptor, o que ficava na frente da parte reservada a sala de televisão.
Atirei-me no sofá, escondendo o rosto na almofada. Deveria tomar banho, esquentar o que a Eliete fizera pro jantar e me distrair até cair no sono.
Eu queria xingar alguém e chorar, simultaneamente. Mas também não queria fazer nenhum dos dois atos. Seria infantil da minha parte, e, ademais, eu não poderia dar o braço a torcer. Não aceitaria admitir que toda essa bizarra aproximação de Bento mexera tanto comigo.
Ele não poderia fazer aquilo. Tirar minha virgindade e fugir como um covarde. Não era uma grande surpresa, mas eu... Eu tinha esperado mais. Eu tinha me deixado iludir. E, pior: eu mesma cavara esse mesmo buraco para me jogar dentro.
Rendida a inércia por um tempo, acabei reunindo forças para empurrar meu corpo para meu banheiro. Tomei banho e vesti um pijama qualquer, sem fome para jantar. Fechei-me em meu quarto, entrando nas cobertas, tentando me distrair vendo a ESPN e conversando com algumas colegas do time da minha escolinha, discutindo sobre as nossas rivais do domingo que viria.
Era por volta das onze quando meu tio chegou em casa, e eu continuava insone, assistindo o Sportscenter. Meu humor tinha melhorado um átimo mínimo, pois Afonso me mandara um vídeo de sua mãe costurando cortinas com o símbolo do Flamengo, feitas por ela, para dar de presente ao seu pai, que faria cinquenta anos nesse sábado. Tinha até me esquecido da festa.
Fred nem sequer bateu antes de entrar em meus aposentos.
— E aí, como foi no simulado? — perguntou, e eu senti que seu terno estava fedendo a cigarro. Fiz um esgar irritado, recordando-me de como Bento fumara sem parar depois de me desvirginar.
— Tirei sessenta e quatro — respondi, monocórdia, sem nem lhe dar um olhar. Mantive-me mirando a televisão.
— E isso é... — cortei-o antes de inquirir mais.
— É como se eu tivesse tirado oito em dez. É uma média muito boa — esclareci, sem me importar.
— Porra, que maravilha! Bento é um santo milagreiro mesmo — vociferou meu tio, e eu tive vontade de atirar meu celular em seu rosto.
— O mérito é meu — falei, ainda mais irrequieta e hostil. Finalmente o mirei. Fred me olhava duvidoso, sem compreender.
— Que bicho te mordeu? ‘Tá mais abusada do que de costume — debochou uma repreensão, e eu continuei a lhe fitar com o semblante sisudo.
— O mérito é seu sim, mas que bom que o tempo que o Bento gastou contigo não foi à toa — insistiu meu tio, e eu quis gritar de ódio. Ele deve ter percebido que eu não estava para aturar suas zombarias, porque pareceu querer concluir o motivo de ter me importunado.
— É bom que o resto do investimento valha a pena. Você tem muito potencial, Ciça, sempre te disse isso — aquilo era o máximo de elogio que meu tio conseguia fazer. Surpreendida, pestanejei e encrespei o cenho.
— Que investimento?
— Ele me ligou hoje de tarde, falando que não poderia mais te dar aulas porque está com a agenda toda corrida, etc, etc. Papinho. Essa vida de professor é moleza, ele ralava quando trabalhava no nosso escritório — Fred se gabou de maneira implícita, e eu me controlei para não revirar os olhos.
— Ele me contou. — Fingia a mesma indiferença de Bento comigo.
— Pois é, mas você não vai se livrar tão fácil de estudar. Sua vida de vagabundagem acabou. Gastei quase uma hora no telefone com aquele professorzinho metidinho da porra, mas consegui convencê-lo. Sou advogado, afinal de contas — manteve o tom esnobe, e eu quase suspirei de impaciência.
— O que quer dizer com isso? — cobrei, largando o aparelho telefônico de lado, inquieta.
— Que ele vai continuar te dando aulas até o fim desse ano. Ele me deve essa — declarou, esquivando o olhar do meu rosto. Fiquei curiosa ante aquela afirmação, mas não o questionei a respeito.
— Amanhã? — perguntei, um tanto atordoada.
— Não, amanhã eu vou pagar um jantar pra esse filho da puta, porque ele tem uma série de palestras na UNIRIO até tarde da noite. Convidei ele pra vir aqui em casa, fiz todo um drama pra convencer o cara, às vezes faz parte — falou Fred, movendo a mão na frente do rosto em um gesto displicente.
— Então esteja em casa antes das dez. Se tiver planejado algo com essa pirralhada que você anda, cancela. Não aceito não como resposta — avisou, e saiu fechando a porta.
Meu tio não tinha ideia do que fizera. De olhos esbugalhados, levei uma das mãos ao rosto, cobrindo os lábios.
Como uma mistura de soluto e solvente desconhecidos, aquela noite de sexta-feira prometia apenas um aspecto: ser incerta.
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