Amor Fati

10 Teorema do Impulso


Notas iniciais
Boa noite, meus lindos e minhas lindas! Eu falei e cumpri! Olha capítulo novo chegando em Amor Fati! Vou tentar meus melhores esforços para escrever e postar o capítulo onze também essa semana, mas acho que ao invés de antes de sexta, será no sábado. É bom que muitos de vocês não se atualizaram ainda, então ficam cheios de material pra desfrutar. Dedico o "Teorema do Impulso" para as leitoras Shalashaska, Maria Vicente Carvalho e SR, que já devoraram o nono capítulo. Muito obrigada por terem aparecido tão rápido, suas maravilhosas! Preparem-se para mais um capítulo dúbio, e dessa vez com um tom mais entristecido e amargurado do que o nono. Eu achei bacana por muitos lados, tanto por trabalhar mais as controvérsias "Bença" (esse nome de shipp genial que a Arrriba criou é fantástico AUHSHU), como por mostrar mais do tio Fred e do núcleo familiar da Ciça. Como eu sempre digo pra vocês, Amor Fati é sobre pessoas, não só sobre personagens. Pessoas fictícias o mais próximo do real possíveis. Lembrem-se de que história sempre tem vários lados, muitas perspectivas... Ninguém aqui, nem na vida real, é mocinho nem vilão. Beijos e boa leitura!

Eu puxava a minha franja lateral com alguns dedos da mão esquerda, examinando o reflexo do meu cabelo castanho iluminado pela luz da tarde. Os raios vespertinos avançavam sobre as porções descerradas das cortinas da sala de aula em formato de auditório. Minha mente vagava para longe daquelas quatro paredes, tentando antever um futuro indistinto.

— Caramba, garota, ‘tá dormindo acordada...

Ergui o rosto da mão que o sustentava ante aquela sentença que me despertou de meus devaneios próprios. Duas cadeiras defronte a mim, a professora de filosofia discursava sobre o estoicismo e seus principais períodos. Seus óculos retangulares brilhavam com a luz do teto ligada, seus cabelos loiros curtos mal se moviam enquanto caminhava de um lado ao outro na frente da turma.

Ao meu lado esquerdo, estava sentado Marcos, tomando anotações nervosas, a ponta da caneta preta penetrando fundo no papel de seu caderno. Do lado direito, Daniel me fitava com seus olhos cor de mel denotando censura.

Eu até gostava da matéria, embora eu sempre fizesse o estilo autodidata para adquirir qualquer tipo de conhecimento. Ao longo de toda minha vida estudantil, tive dificuldades para manter o foco em sala de aula. Ficar estática mantendo a atenção em um mesmo tópico dado em forma de monólogo — como costumavam ser aplicadas as aulas do ensino médio —, por mais de vinte minutos era um ato além de minha capacidade.

Depois da notícia transmitida por meu tio na noite anterior àquela sexta-feira fatídica, eu estava menos propensa ainda a ser uma aluna dedicada.

— Dormi mal. Não enche o saco, Daniel — murmurei. A professora em questão, Gabriela, era muito temperamental. Não aceitava conversas paralelas.

— Sei — duvidou ele, mas parou de me cobrar responsabilidade. Voltou o rosto para baixo, seus cachos espiralados cobrindo seu perfil enquanto se punha a copiar com sua caneta azul o que a professora escrevia no quadro branco.

— Você que ‘tá muito bem disposto pra alguém que dormiu com a namorada em casa ontem — sussurrei em provocação. — Parece que mais dormiu do que fez outras coisas — completei, e meu melhor amigo me deu um olhar de esguelha blasé, soltando um estalo de desdém com os lábios.

— Se enxerga, anã. Quem não faz porra nenhuma é você — troçou baixo, com um sorriso zombeteiro. Ah, se você soubesse... Pensei, e a reflexão morreu em minha cabeça.

Meus dedos, que nada anotavam no papel do meu caderno, tiveram um estremecimento espontâneo. Ajeitei a coluna, girando os ombros para trás e coçando a nuca.

— Não precisa ficar constrangida, hoje em dia tem aplicativos pra quem tá na seca — continuou a zombar, e eu revirei os olhos. Daniel não poderia fazer ideia do quanto aquela fala era inconveniente em relação ao meu momento atual. E eu não poderia contar. Respirei fundo, tentando conter pensamentos galopantes sobre minha confusão acerca de Bento.

Todavia, ele ganhou uma retribuição estoica do destino.

— Daniel, eu tenho certeza de que, assim como eu, você deve estar falando com a Cecília sobre o Pórtico das Pinturas — a professora ralhou em tom de deboche, uma mão na cintura, a outra segurando a apostila. — Então que tal compartilhar com a turma?

Algumas cabeças de alunos preparados para rir da cena constrangedora se viraram. Outras, provavelmente, só queriam ter uma desculpa para admirar meu melhor amigo.

— Era o lugar lá em... Atenas, onde o Zezão de Cício ensinava seus discípulos — falou com a voz cheia de pretensa animação. Percebi que conferira suas anotações antes de se pronunciar.

— Zenão — corrigiu a professora Gabriela, torcendo os lábios. Deveria ter suposto que meu melhor amigo estava perdido na matéria.

— Zezão é pros íntimos — meu melhor amigo soltou o gracejo, e até a professora deu um sorrisinho. Alguns alunos soltaram risadinhas baixas, e, na mesma medida, algumas meninas da classe lhe conferiram olhares encantados.

— Cício, terra das Ciças — brincou ele, bobo. Dei uma risada curta pelo trocadilho forçado.

— Cala a boca, idiota — retruquei com um sorriso de lábios fechados, enfim fingindo anotar algo no meu caderno. Não queria ser a próxima a ser chamada a atenção.

Era a última aula daquele dia. Depois de alguns minutos, a sineta tocou. Arrumamos nosso material com a ligeireza de costume, e também lépidos deixamos a classe. Daniel esperaria Sandra no portão de saída para passarem a sexta-feira juntos e Marcos se despediu dizendo que iria passar em uma loja de quadrinhos. Roberto não disse o que faria, apenas que tinha planos e estava atrasado.

Eu poderia supor que envolviam Henrique e seu romance secreto, o que me fez me sentir inquieta, por não estar em uma situação tão diferente da dele. Afonso já tinha corrido na nossa frente, apressurado para pegar o metrô e ir ao centro da cidade trabalhar. Por fim, eu iria cuidar de algumas inscrições para vestibulares que haviam acabado de abrir. Em casa.

Sozinha.

Preparando-me psicologicamente para a noite que estava por vir.

— Mas sério aí. — Daniel bocejou de boca aberta e depois me deu um peteleco na testa. Xinguei-o. — Você ‘tá bem dispersa. Considerando que você já é lerda normalmente, isso é preocupante.

— Se preocupa com a sua namorada, tá? Eu posso ser pequena de tamanho, mas da minha vida cuido eu — declarei, levantando a mão em despedida e passando os portões do colégio. Dei um último sorriso frouxo e debochado para ele, sabendo que tinha sido rude de propósito. Meu melhor amigo deu de ombros, sem me levar a sério, e estacou perto de uma das grades, no aguardo de Sandra.

Tentei inventar desculpas para não retornar tão rápido para casa. Talvez compraria algo que faltasse, como meiões novos porque um dos meus favoritos tinham rasgado no último treino da escolinha. Todavia, nada disso modificava o rumo das minhas elucubrações mentais. Eu estava carregada de ansiedade por conta daquele jantar. Ficar ou não em casa não mudaria isso.

Ao perceber tal verdade, desisti de tentar fugir do que, invariavelmente, aconteceria. Segui até o ponto de ônibus perto do metrô de Ipanema, portando uma sacola com dois pares de meias que eu, no fundo, não precisava, me sentindo estúpida e frágil.

Eu havia pensado que perder a virgindade me deixaria mais fortalecida. Como se fosse um degrau de maturidade subido. Mas o ato em si, pelo visto, não trazia resultados como uma fórmula mágica.

Cabia a mim aprender a lidar com isso de uma maneira esclarecida. Porém, tratando-se de uma adolescente de dezesseis anos descobrindo um questionável fascínio por um homem de quarenta, não era de se admirar que parecesse uma meta inconcebível.

Saturada, peguei o transporte para casa, e ao chegar, busquei meu computador pessoal e fiz as inscrições nas universidades que deram abertura aos seus processos seletivos. Depois de me banhar e almoçar, concluindo que ainda faltavam diversas horas até a refeição marcada, decidi ocupar meu tempo da maneira mais proveitosa possível. Arrumando algumas pilhas de itens bagunçados no meu quarto.

Abri minha cômoda na qual eu simplesmente jogava objetos esparsos ou caixas cheias de utensílios desorganizados. Separei papéis velhos da escola para jogar fora, revistas que já tinha lido, documentos sem valia, e, embaixo de muitas pilhas de itens em desalinho, discerni uma caixa conhecida. Verde, feita de pinho, com um aroma amadeirado marcante. Algumas flores desenhadas em tinta guache decoravam as bordas do receptáculo.

Recuei as mãos, mirando a caixa com atenção. Aspirei devagar, estalando os dedos, titubeando um passo para trás.

Eu encarava a pequena caixa verde e ela continuava ali, à mostra, escavada como um baú de tesouro debaixo do acúmulo gradual de bugigangas.

A caixa que eu guardava as fotografias, desenhos e trabalhos artísticos que minha mãe fizera para mim e minha irmã. Alguns, inclusive, herdados de Flavia.

Eu sabia o que havia lá dentro, o que fazia meu coração acelerar descompensado, e as palmas das minhas mãos suarem. O que me fazia lidar, excessivamente, com o insustentável fardo dos últimos acontecimentos a despencar sobre mim.

Não escondera aqueles pertences naquele sepulcro de recordações por nada. Não deveria mexer com esses ecos do passado. As vozes ali gravadas estavam mortas. O que poderiam me trazer de bom?

Fechei a gaveta em um empurrão resoluto. Tomada de outra presteza imediata, vesti roupas de ginástica e um tênis, fiz um rabo de cavalo alto e saí do apartamento. Precisava gastar toda aquela energia acumulada.

Fui ao próprio parque Jardim Botânico fazer um circuito brando de corrida. Apenas uns cinco quilômetros, e me daria por satisfeita. Acabei correndo muito mais.

Acionei a música no celular no último volume, disparando o mais veloz que podia por entre as palmeiras imperiais da aleia principal do parque. Mal lhes dava um olhar enquanto as ultrapassava, tampouco atentava para as pessoas que caminhavam naquela tarde. Alguns turistas tiravam fotos, alguns idosos praticavam exercícios ao ar livre, e outros apenas flanavam pelo local. Eu corria até não mais aguentar, empenhada em fugir do que crescia dentro de mim.

Quando o exaurimento físico tomou conta de meu corpo, eu andejei arfante para fora do parque. Segui pela avenida central do bairro, de nome homônimo, e cheguei em casa pingando suor, já anoitecendo.

Depois de me limpar pela segunda vez, a endorfina liberada pelo exercício intenso conseguiu o efeito de me acalmar um pouco. Recorrer às drogas não seria uma solução, levando em conta que eu deveria fazer companhia ao meu tio naquela noite.

E ao meu professor particular.

Para minha surpresa, Fred não demorou a chegar. Era inacreditável, há muito não me recordava de recebe-lo em casa em um horário razoável. E, para coroar meu espanto: estava risonho.

— O que você acha uma boa ideia pedir? Comida italiana? Acho que não, aqui no Rio mal tem restaurante italiano que preste, nem aquele da Ataulfo de Paiva faz massa melhor do que a tia Ida... — comentou, e eu apenas o fitava atarantada, fingindo fazer lição de casa na sala de jantar.

— O que você está fazendo? Estudando? — Meu tio ergueu sobrancelhas estarrecidas. — Meu Deus, é um milagre, ou um milagre grego?

Estava de volta. Não poderia passar sem debochar.

— Tão grego quanto o seu milagre de chegar aqui antes das nove da noite — respondi à altura, baixando a cabeça para o livro de biologia.

Meu tio se aproximou. Ergui os olhos para ele, franzindo o cenho. Fred se abaixou e, imprevisto, me deu um beijo carinhoso na testa.

Um contato de fato paternal, tão diferente dos toques dúbios de Bento.

Arregalei os olhos, o mirando como se tivesse enlouquecido. Fred já tinha girado nos calcanhares e me dado as costas, estudando as opções de restaurantes no celular que tinha em mãos.

— Você ‘tá doente? — tive de inquirir. Meu tio voltou o rosto em minha direção e sorriu outra vez. Que medo, pensei, consternada.

— Pelo contrário. Eu ‘tava com um humor de merda nos últimos dias, as coisas no escritório estavam um caos — bufou, movimentando as mãos para gesticular. — Perdemos um cliente importante, mas hoje consegui fechar um contrato enorme, para compensar. E pra completar você está fazendo algo com a sua vidinha, sem ser fumar maconha escondida e tomar porrada nos seus jogos de futebol — zombou em um tom de elogio crítico, como lhe era costumeiro. O afeto em seu semblante, porém, era de uma raridade ínclita.

— Eu sempre fiz mais do que...

— Eu quis dizer que estou feliz com você, Ciça. — Impressionada, entreabri os lábios. — Estou feliz com a vida. E feliz comigo mesmo, porque de vez em quando eu mando bem — gabou-se, e eu entortei os lábios. Fred sempre seria Fred.

Ao encarar seu sorriso empolgado, porém, desviei meu olhar dos castanhos orbes de meu tio, um tanto culpada. Ele era outro que não fazia ideia de tudo o que eu tinha feito.

E talvez o que pior fosse reagir se um dia descobrisse.

Ao pensar nesta possibilidade, arqueei ainda mais as costas na direção do livro didático aberto sobre a mesa. Juntei os cotovelos em cima da superfície dela, e cocei a testa, desconfortável.

— Que bom, então — respondi, retraída. Mirando de canto de olho, notei que meu tio não me fitava mais, estava absorto no aplicativo de entregas de refeições.

— O que vai ser? — indagou.

— Por mim, pode ser comida japonesa. Tem tempo que não como — sugeri, e ele acatou a ideia de pronto.

— Ótimo, tenho uns saquês esperando na geladeira. Não por você, é claro. — Dei-lhe um olhar feio em retribuição a censura.

— Acho que vou assistir seu jogo no domingo. De tarde eu tenho um evento lá no Jockey Clube, mas acho que dá tempo de ver essa partida. Eu me arranjo. Afinal, é a semifinal do torneio, não é? — perguntou, transparecendo interesse legítimo. Balbuciei antes de proferir alguma frase. A ironia de Fred ter vestido sua insólita faceta carinhosa era explícita.

— É...

Meu tio me encarou por algum tempo, até parecer desistir com um suspiro cansado.

— Fala alguma coisa, Ciça. Não deve ser tão difícil me contar uma novidade que seja. Não quero me sentir a porra de um intrometido, só ‘tô tentando conversar contigo. — Deixou o celular em cima da mesa e passou a mão pelos cabelos loiros. Aquilo, aparentemente, não era esquisito só para mim.

— Não tenho nada pra falar. É sério — acresci, quando vi ele negar com o rosto.

— Porra, ‘cê não foi em um evento do avô do moleque que jogava no infantil do Vasco, quando mais novo? O de cabelo ruim? — referiu-se a Daniel do modo preconceituoso que eu detestava.

— Daniel. O avô dele se chama Laerte. Você já falou com os dois uma porção de vezes, ele já dormiu aqui e eu na casa dele umas outras mil vezes, e você até já leu umas crônicas do avô dele — recriminei-o com um olhar indócil.

— É verdade. — Esfregou uma mão na testa, se espreguiçando em seguida. — Cadê o livro?

Por coincidência, tinha deixado o livro de crônicas de Laerte Moraes na mochila posta no assento ao lado. Sequer o tinha aberto durante essa tarde, tamanha minha atribulação emocional.

— Que moral, hein — brincou, lendo a dedicatória. Vira que Laerte me elogiara como centroavante. — Espero que ainda esteja com essa banca toda no domingo — falou com bom humor, e eu fiz uma careta presunçosa.

— Vou te deixar estudar mais, e dar uma lida nisso aqui. — Ergueu-se da cadeira que sentara, movendo o livro com a mão que o segurava. — Quando for umas nove, peço a comida.

— Beleza — concordei, e simulei que retornava aos meus supostos estudos.

As poucas horas que restavam passaram com uma lentidão asfixiante. Quando o interfone tocou na cozinha, me levantei de um salto. Quase corri até lá, e logo vi tio Fred permitindo a entrada do visitante no bocal do aparelho.

Meu olhar inquisidor deve tê-lo feito anunciar.

— Seu professor está subindo.

Uma descarga de ansiedade percorreu instantânea meu corpo inteiro.

Disfarcei minha aflição ajudando meu tio a arrumar uma mesa circular do andar de cima. Jantaríamos na área perto da piscina da cobertura, posto que a noite estava fresca e agradável, um céu desanuviado pairando acima da zona sul da cidade.

Antes mesmo do convidado adentrar o hall do andar, o interfone tocou mais uma vez. Estuguei o passo para atender e autorizei a subida do entregador do restaurante.

Não tardou e eu estava parada atrás do meu tio, que abria a porta da sala tanto para receber a entrega de comida quanto para saudar seu visitante. Atenta, procurei notar algum indício de estranheza no comportamento sempre calmo e gentil de Bento, mas o entregador era um bom álibi para protege-lo de alguma tensão mascarada.

Meu professor particular me cumprimentou com discrição, encostando bochecha com bochecha, na simulação de dois beijos em mesura que era típica do Rio de Janeiro. Mal me encarou.

Tão logo me saudou, ofertou um aperto de mão animado para Fred, que lhe deu alguns tapas afetuosos nas costas. Os dois sorriram um para o outro e meu tio o guiou para a cobertura, na medida que eu seguia ambos, mais atrás.

Nisso, juntos a mesa, Fred serviu saquê para o convidado. Bento tentou recusar, mas seu anfitrião insistiu.

— Para de frescura, não vou ser o alcóolatra da noite tomando isso sozinho — escarneceu, e meu professor apenas coçou o maxilar com o dedo indicador, sem dizer mais nada.

Ainda não tinha me fitado outra vez.

Bebi um gole de mate, dividindo meu olhar entre meu tio e meu professor particular.

— Obrigado por isso tudo, Fred, mas não precisava — reiterou, e meu tio fez um estalo com os lábios, opondo-se.

— Não é uma questão de precisar, você sabe — refutou, e Bento deu um sorriso singelo. Separei meus palitinhos de madeira e comecei a comer, molhando um pedaço de peixe no molho shoyu.

Estava com fome e nauseada ao mesmo tempo.

— Eu fico lisonjeado, mas não fiz nada demais — afirmou meu professor, e eu dei um sorriso enviesado. Babaca falso, insultei-o mentalmente.

— Ciça, ele fez ou não fez?

Fred perguntou e eu quase deixei cair os palitos no piso. Reparei que meu professor particular, atônito, também se empertigou com o questionamento. Seus olhos de um tom escuro azulado se estreitaram, enquanto mirava meu tio.

— Oi?

— Acorda, menina. — Tio Fred estalou os dedos perto do meu rosto, falando em um tom jocoso. — Presta atenção na conversa.

— Ah, fez muito sim. Me ensinou muita coisa — não resisti e falei com um timbre de falsa gratidão. Fuzilei Bento com um encarar sonso, e ele enfim me dirigiu o olhar de novo. Rápido, sutil, mas ali estava. Uma penumbra de nervosismo em suas íris escuras.

— E tem um tempão que eu não te vejo. Lembra da época que você tocava os processos administrativos lá no escritório? — meu tio riu, pigarreando depois. — E eu era o coitado que carregava o contencioso cível nas costas. Trabalhava que nem um condenado, mais do que hoje em dia — assumiu, e levantou o copo quadrado com ideogramas japoneses, em sinal de brinde. Ergui meu copo de vidro transparente e brindamos um “saúde”, meu professor prosseguindo resiliente na tentativa de me ignorar de forma velada.

— A gente sofria, mas se divertia — disse Bento, com um sorriso afável no rosto, valorizando seus traços finos. Verifiquei que suas olheiras estavam mais destacadas do que de manhã.

Ao passo que os observava, silente e discreta, percebi que meu professor conseguira a brecha que precisava. Um gatilho para enveredar em uma conversa da qual eu não poderia participar. Escutei, reservada, rememorarem os antigos casos do tempo que advogavam juntos, entre risadas, exclamações e menções que variavam do saudosismo ao alívio.

Quando terminávamos de jantar e meu tio se embebedava com a segunda garrafa de saquê — Bento bebera pouco, estava na terceira dose — o telefone de Fred tocou. Avisou que era da firma e afastou-se da mesa, esbravejando enquanto adentrava o corredor perto da escada.

Meu professor deixou os olhos estudarem o ambiente ao redor. Acompanhei-o encarar as paredes em uma palheta de cores acinzentadas, os quadros, os vasos de plantas. Os sofás embaixo do breve telhado em uma sala aberta para se passar tempo enquanto chovia. Do nosso lado direito, a piscina em seus azulejos azuis turquesa. Estávamos enfim a sós, e ele insistia em fugir dos meus olhares.

— Vai ser assim? Achei que já tínhamos passado da fase da falsidade — interpelei-o sem dó. Muni-me da minha melhor expressão de desprezo. Como resultado, o olhar de Bento vacilou assim que cruzou com o meu.

— Cecília...

— O quê? — exigi uma resposta. Não abrandei o encarar julgador que eu sabia delinear em meu rosto.

Bento fitou a água da piscina por um momento, tomou fôlego e alçou os olhos aos meus.

— Entendo sua mágoa. O que aconteceu anteontem foi impensado... — asseverou em um timbre baixo, porém claro. A tranquilidade em sua expressão fenecia aos poucos.

Senti uma fisgada na altura do peito, mas crispei os lábios para sustá-la.

— Eu não queria... — O impedi assim que começou a tentativa de lamúria.

— Ah, você queria sim. Eu posso ser nova, mas não sou uma otária completa — sibilei em uma voz de mágoa acumulada.

— Eu não disse isso — Bento redarguiu, balançando o rosto, mas eu não tinha terminado. Ainda ouvíamos os ecos de Fred falando alto, longe de nós, corredores à distância.

— Das duas uma: ou você me julga idiota para achar que eu vou acreditar que você não estava louco pra fazer o que fez na quarta-feira. Ou você não me acha idiota e, mesmo assim, é um babaca a ponto de tentar me enganar para que eu acredite em você. Qual das suposições é a afirmativa verdadeira? — Não hesitei em pressioná-lo.

— Eu não quero te enganar, muito menos te acho idiota — desmentiu, com um timbre mais encorpado, porém no mesmo volume. — Eu quero o seu bem. Eu me importo com você. Até demais — garantiu, vergando a postura para ficar alguns centímetros mais próximo de mim.

Percebi que queria se preservar de externalizar emoções controvertidas, contudo meu desgosto consigo deveria atingi-lo. Nos menores gestos, me permitia premeditar sua aflição. Eu era uma boa aluna para Bento, o estudara de perto, por meses.

— Eu sei bem que se importa. Demonstra muito isso — trocei com um sorriso sardônico, meus olhos perdidos na direção da copa das árvores visíveis da bancada da cobertura. Eu sentia o maldito choro subindo aos meus lacrimais.

Era uma questão de tempo até ficar com os olhos marejados.

Bento, parecendo agir em um impulso, colocou uma mão em cima da minha mão esquerda, disposta em cima da mesa. Eu fitei seus dedos compridos e depois seu rosto, indignada, mas não movi meu braço.

Após um momento significativo, meu professor apartou sua mão da minha.

— É complicado... — Como se estivesse confuso, franziu as sobrancelhas. Aparentava ter muito a dizer, mas não discernir como articular. Tal dificuldade era no mínimo problemática, constatada sua eloquência contumaz.

— Eu não deveria ter te colocado nessa situação — responsabilizou-se. Seu semblante demarcava entorpecimento, mas não o gênero procedente da bebida. Era como se suas defesas tivessem arrefecido.

— Você não me pôs em lugar nenhum — zombei, irritadiça. Comecei a ficar furiosa tanto pelo seu comportamento hipócrita, quanto pelas minhas emoções turbulentas que eu não conseguia segurar.

— Cecília, entenda... — O timbre aveludado de sua fala poderia balouçar de desalento, contudo não me comovia.

— Eu entendi. — Forcei um sorriso sarcástico, fechando os olhos. — Entendi.

Ao abrir as pálpebras, Bento mergulhava os olhos nos meus, sua expressão buliçosa um retrato de desorientação.

— Eu entendi que você se arrependeu de se aproximar de mim — enunciei, devagar, e ele já aparentava estar pronto para denegar, curvando o rosto. — Mas, olha só que estranho, você só se mostrou arrependido depois de enfim ter conseguido me comer — expressei-me com vulgaridade apenas para atacá-lo.

— Conveniente se arrepender agora. Já é tarde demais.

O semblante de meu professor particular parecia arrasado. Tinha a expressão atordoada de quem levara um bofetão no rosto, sem aviso. Abriu os lábios para formular alguma resposta, mas uma terceira voz o impediu.

— O que foi tarde demais?

Fred indagava, saindo da porta que levava às escadas da cobertura. Por pouco não saltitei, sobressaltada, em cima da cadeira. Meu tio guardava o celular no bolso da camisa social, sentando do nosso lado e desfazendo o nó da gravata.

Sorvi mais um gole do meu copo de mate. Bento que se virasse para aguentar mais essa.

— A demissão do Willians, do Corinthians — meu brilhante professor surgiu com a solução pertinente. Fitei-lhe com desdém refreado.

— O tal volante? Pretinho burro da porra, não sabe se comportar. Quem mandou discutir com torcedor — tio Fred deliberou repleto de certeza e racismo.

A conversa perdurou para mais alguns comentários irrisórios sobre o Fluminense, o Palmeiras e meu Corinthians. Cada vez mais frustrada e revoltada com os caminhos daquele entrevero particular, decidi deixa-los, depreendendo que ali só receberia mais dissabores.

Portanto, avisei a ambos que pretendia dormir logo. Teria aula no sábado. Desci e rumei para meu quarto, sem cumprimentar meu tio, nem meu controverso professor particular.

A janela dos meus aposentos estava aberta. Mantive-a assim ao passo que, em um ímpeto tolo, puxei a gaveta da minha cômoda contendo a caixa verde, munida de amargura. Tirei-a de lá, e teria retirado a tampa, se não escutasse a voz de meu tio ecoar do andar de cima, poucos metros acima de mim, alguns cômodos a minha esquerda. Conseguia discernir o que dizia, o timbre arrojado, alterado pelo álcool consumido. Deveriam estar parados perto da bancada da cobertura.

Abeirei-me junto da janela, compenetrada em suas palavras que desciam intermitentes até mim.

— É sério. Eu fico muito feliz por ter sua ajuda. Eu confio em você, você sabe, depois de tudo... Eu não sou nenhum exemplo de tio. Quanto mais de projeto de pai — riu com escárnio.

— Fred, preciso mesmo ir. Você está bem? Quer que eu te ajude a levar as coisas lá pra baixo? — A voz de Bento tinha retornado à sua entoação de cortesia forçada.

— ...Eu ‘tava muito preocupado com ela. Notas baixas, dormindo em aula, o dia todo em casa sozinha. Caramba, o que essas meninas passaram. Dinheiro nunca vai faltar, mas elas não tiveram o básico, sabe? Elas não tiveram os pais... — Fred falava de mim e da minha irmã, e eu uni as mãos perto do peito, as apertando, nervosa.

— Eu sei. Tanta tragédia...

— E você e a Bia. Você sofreu demais também. Porra, como aquilo foi duro. Pra todos nós. Acabar daquele jeito... Minha irmã era tão nova... Não merecia passar por isso. Ela nem conheceu as filhas direito — Fred abaixou o tom de voz, que continuava elevado. O aperto que eu sentira dentro de minha garganta quase me sufocou. Segurei no parapeito da janela para firmar meu equilíbrio.

Bento não disse palavra.

— As meninas... Flavia é a cara do Gustavo. Já a Ciça... Você deve perceber, melhor do que ninguém.

Transcorreu um segundo antes que meu professor parecesse implorar.

— Fred, eu tenho mesmo que ir...

— Só os olhos são do Gustavo. Ela é a imagem da mãe, Bento. Às vezes eu me espanto com a semelhança. E ver ela tão igual a Bia... Sempre me faz lembrar de que ela não está mais aqui.

Meu coração saltou dentro de meu peito, curiosa e temerosa pela resposta de meu professor.

Porém auferi apenas silêncio, e nada além. Nada até meu tio continuar suas lamentações ébrias.

— Essa conversa tá foda. Desculpa tocar nesse assunto. Mas é complicado... Ciça daqui a pouco faz dezoito anos, e pra ela foi ainda mais difícil do que pra irmã, que é um pouco mais velha. Ela é mais madura do que a Flavia. Mais desconfiada do mundo. Pudera. O que ela recebeu? Um tio retardado, uma vida de órfã com dinheiro pra tudo, menos para comprar a criação de que ela precisava. Só conhece os pais por fotografias — Nunca havia escutado meu tio Fred falar tanto sobre mim para alguém, ou sobre a nossa vida familiar. Eu estava anestesiada pela surpresa, pela abertura que ele demonstrou a Bento, pela veracidade revelada em sua voz padecida.

— Eu nunca soube criar essas meninas, mas eu queria que elas tivessem o mais perto da infância que eu e a Bia tivemos. Conhecer o lado bom da vida. Acreditar nessas bobagens de criança, ter mais alegria de viver.

— Eu sei que você se dedica... — tentou meu professor, adelgaçando seu timbre manso.

— Se tivesse sido só um pouco diferente... Se não tivesse sido essa chuva de merda no passado, você teria sido o padrasto delas. Você teria feito melhor do que eu — admitiu meu tio, em um riso abatido.

— Mas não sou. Nem nunca fui — Bento retorquiu quase de imediato. Pela primeira vez naquela noite, sua voz alteou alguns tons a mais, em uma solidez repentina.

— Você precisa sentar e tomar um café. Vamos descer.

Deduzi que meu professor particular guiava meu tio para longe da bancada metros acima. Usou de seu tom docente com Fred, e eu ainda estava zonza por tudo o que entreouvira.

Só então percebi que eu mal respirava direito. Soltei o ar que eu engolira e inspirei firme, cerrando a janela.

Minhas pernas bambolearam antes de me sentar na cama e abrir a caixa com os pertences feitos por minha mãe. Arranquei a tampa e a joguei de qualquer jeito em cima da colcha, experimentando raiva e tristeza em idêntica medida.

Remexi nas pulseirinhas, fotografias e demais itens, quase querendo rasga-los. Eu não deveria me importar tanto com aquilo. Eu mal convivi com a minha mãe. Meu pai era um homem abominável que só trouxe desgraças para a minha família.

Por que, então, eu me sentia tão abandonada, tão sozinha? Como se me injuriasse por me deixarem, por terem me feito, por sua falta, ser quem eu era: a menina cética consigo mesma, que não acreditava em seu próprio futuro. Por terem me deixado um legado de segredos, mentiras e solidão.

Avistei um pequeno quadro que minha mãe havia pintado em seu último ano de vida. Reparei em sua assinatura e na data escrita no canto inferior direito, reflexo de que a peça fora feita quando eu ainda tinha dois anos de idade.

Era uma especulação de como seríamos nós três, mais velhas. Minha mãe desenhou Flavia e eu já crianças crescidas, abraçadas consigo.

A verossimilhança da gravura era extraordinária, prodigiosa. Uma projeção do futuro no passado, de algo que nunca fora, e jamais seria.

Dotada de uma beleza arquejante de tão perversa.

Atirei o quadro dela pelo colchão, e por pouco não caiu no assoalho do quarto. Empenhei-me para prender o choro ao pensar na mãe que eu nunca conheci, e cuja ausência corrente me assombraria pelo resto da vida. A mãe que se refletia em mim, que entristecia meu tio e que atraía Bento.

A mãe que ocultava quem eu era, embaixo de sua memória revivescida.

Não resisti mais. Andei até meu banheiro, abri a porta e me tranquei.

Girei a torneira da pia e me encolhi em um canto, contra os azulejos frios. Abracei meus joelhos e ali chorei, até dissipar minhas lágrimas. Estas iguais em orfandade ao meu desamparo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Alguém abraça a Ciça, pelo amor de Deus. Aguardo comentários! Se possível, nos dois capítulos. Pleeeease!