Amor Fati

6 Teorema da Incompletude


Notas iniciais
Bom dia (já é quase dia) meus amados leitores e minhas amadas leitoras! Meus queridos, eu sei que eu demorei demais. Eu sei que não tem desculpas que contemplam esse tempo todo de espera, mas ainda assim peço que me perdoem, os que ainda tiverem interesse em prosseguir na leitura de Amor Fati. A minha humilde original conta com uma vasta gama de leitores contabilizados, e ficaria muito feliz de descobrir que vocês não desistiram, mesmo com todo esse tempo de sumiço de minha parte. O lado bom é que... Estou formada! Não tenho mais a faculdade para atrapalhar meus escritos eheheheh, então fica bem mais fácil de me organizar para escrever. Ultimamente a ficção vem sendo uma tábua de salvação para mim. Estou passando por dias particularmente difíceis, lidando com o luto de uma perda recente e com diversos problemas familiares para resolver. Mas a vida continua e seguimos em frente, porque o que não nos mata nos fortalece! Gostaria de dedicar esse capítulo ao meu namorado, que responde no nyah pelo nick de Lúpulo Lupin, meu companheiro, quem é simultaneamente meu Bento e meu Daniel. Meu crítico mais honesto. Ele ainda tem de ler o capítulo cinco para chegar nesse aqui, mas sei que logo irá fazê-lo. Quero também agradecer a todos os meus maravilhosos leitores e minhas fantásticas leitoras que comentaram no capítulo passado: Gigi V, Lena, Arrriba, Bocardi Beane, Peregrina Flor, João Gabriel, Ethereal Serenade, Tassi Turna, Filho de Kivi, Shalashaska, juliabertelli, Agatha Goldert, Pequena Imortal, Maria Vicente Carvalho, Kanon e Yogoto! Fiquei simplesmente extasiada de receber tantos comentários em apenas um capítulo, seus lindos! o/ Espero que sigam comentando, os responderei com todo o carinho devido! Esse capítulo é bastante focado no desenvolvimento de personagens. Conheceremos mais sobre a família da Ciça e como pode ser contraditória, distante e alienada essa bolha que vive a elite carioca, com revelações sobre o passado da Cecília e sua irmã mais velha. Depois, temos outra revelação ao final do capítulo, dando destaque aos amigos dela. Todos temos nossos segredos, nossas contradições, nossas hipocrisias e nossas idiossincrasias... Ao pessoal que ama Bento e Cecília, peço que AGUARDEM O SÉTIMO CAPÍTULO, porque nesse sim vocês terão todos os seus sonhos realizados heheehehe! O próximo capítulo já começa a ser escrito amanhã! Se duvidar já consigo postá-lo na quarta-feira, para compensar a espera demasiada! Beijos e boa leitura!

— Porra, Ciça, anda logo com isso! — O som da voz áspera e agastada de Frederico soou no mesmo volume exagerado que suas mãos esbordoando a superfície de madeira da porta.

Refreei um suspiro de irritação ao passo que rangia os dentes. Já tinha perdido aquele sábado em atividades que eu não teria escolhido de bom grado, e para completar seria obrigada a fechá-lo de forma magistral: comparecendo em uma das detestáveis festas de família que meu tio me levava de vez em quando, algo que conseguia me desagradar mais do que ver o Corinthians sendo vice no Paulistão.

— Calma! ‘Tô tentando achar uma bolsa, ‘peraí’! — Revirei o armário que um dia fora da minha irmã Flávia. Já havia se passado mais de um ano desde quando ela partira para estudar filosofia em Paris, e seu quarto se tornara uma espécie de memorial abandonado, erguido em homenagem a garota que um dia dividira aquele amplo apartamento comigo e com nosso tio Fred.

Eu não gostava de entrar no quarto dela. Era um cômodo inutilizado, como se não tivesse mais razão de ser há certo tempo. Passava uma ideia de vazio, de ausência que me trazia certa angústia ao peito.

Eu e minha irmã já tínhamos sido próximas. Como eu, Flávia era uma pessoa observadora, que mais ouvia do que falava. Gostávamos de conversar sobre nossas impressões dos outros e da vida. Aprendi muito com minha irmã mais velha, uma garota esperta e consciente do mundo ao seu redor.

Cansada do convívio complicado que tinha com meu tio, Flávia decidira começar uma vida nova com o dinheiro herdado de nossos pais. Nunca a condenei por isso. Porém, isso não significava que não sentisse sua falta. Especialmente em momentos como aquele, na qual sua companhia sem dúvidas abrandaria o desafio que eu teria de lidar.

Sentindo saudades inevitáveis de minha irmã, continuei a remexer em seus pertences antigos até enfim achar uma bolsa preta e lisa, não muito espalhafatosa. Nessas festas, eu preferia passar desapercebida e chamar o mínimo de atenção possível. Não que eu não fosse discreta no cotidiano; muitas vezes passava invisível por ser um estrondoso desastre quanto a minha falta de traquejo social. Como já sabe, tenho poucos amigos, e jamais fiz o menor esforço para ser estimada pelos outros.

— Foda-se, pega qualquer uma! — Com toda a sua polidez característica, Fred gritou do outro lado da porta fechada, esmurrando-a. O trinco tremeu tamanha a hostilidade de meu tio boçal.

Abri a porta, minha expressão fechada, condenando a truculência de Frederico.

— Cecília, é uma festa, não um funeral! — reclamou meu tio, soltando uma exclamação amofinada.

De propósito, me vesti toda de preto. Fiz uma maquiagem leve — até porque não saberia me arrumar de outro jeito —, usei um vestido preto tomara-que-caia cinturado e de saias justas com caimento até um pouco acima dos joelhos. Se estivesse frio, algo improvável no Rio de Janeiro, levava uma echarpe de transparência negra em meus ombros.

— Vai ser tão animado quanto um — debochei, e Frederico me deu um olhar fuzilante. Como se me alertasse para que eu não testasse sua paciência.

— Que se dane, não tem mais tempo de trocar de roupa. — Tio Fred pegou o próprio celular e se pôs a abrir o aplicativo Uber. Apaguei as luzes do quarto de Flávia e caminhamos juntos até a sala de estar, onde sentei em uma cadeira perto da mesa de centro disposta próxima a porta de entrada.

— O Válter não vai levar a gente? — indaguei, estranhando. Meu tio tinha um motorista de confiança que costumava contratar para eventos do tipo, podendo andar em seus carros sofisticados sem se preocupar em beber e dirigir.

— Não, lá é um terror para estacionar — retrucou, impaciente. Reparei na roupa que ele usava. Um blazer marrom escuro, junto a calças de tonalidade terrosa mais pardacentas e uma camisa social de mangas compridas alva, de corte refinado. A um olhar superficial, meu tio pareceria um sujeito muito requintado, um ícone de sobriedade. Quem diria que todos esses adereços alegóricos eram apenas uma vã tentativa de esconder o brutamontes atroz e ébrio disfarçado por tais vestimentas.

— Vamos descer, vai chegar em um minuto — avisou, e pegou as chaves de casa no bolso do blazer. Ergui-me e fomos até o hall, Fred chamando o elevador.

Enquanto esperávamos, meu tio fitou meu rosto como se estivesse tentando se lembrar de algo. Franzi as sobrancelhas.

— Que é? — perguntei na defensiva. Nunca gostava quando ele demorava o olhar daquele jeito. Em geral meu tio acabava lembrando de algum motivo, inventado ou não, para me repreender.

O elevador chegou ao nosso andar e ele abriu a porta. Entrei e Frederico logo me respondeu com outra indagação, com uma expressão de quem finalmente se recordava de algo difícil de se lembrar.

— Como foi na prova da UERJ? — me perguntou como se cobrasse algo. Seus olhos castanhos escuros como os de minha mãe faiscaram à luz amarelada do elevador antigo.

— Bem — disse evasiva, olhando para o espelho e ajeitando a echarpe em meus ombros e braços.

— Como é mesmo esse troço? Tem uma nota diferente, por letra... — foi a vez de Fred encrespar o cenho, mirando meus olhos da mesma maneira severa. Aquilo me irritou. Frederico quase nunca ficava em casa, passava os dias e os finais de semana fora. Vivia para o escritório, para seus eventos profissionais e para fazer dinheiro para si mesmo. Nem mesmo seu lazer envolvia a família, não a de sangue, ao menos. Provavelmente as prostitutas que usualmente contratava conheciam meu tio muito melhor do que eu.

Se um dia decidisse sumir no mundo e desaparecer provavelmente ele seria um dos últimos a descobrir.

— Por conceito. A, B, por aí vai — corrigi-o, sem paciência também. Minha voz soou claramente desinteressada, repleta de enfado.

— Isso, isso — falou ele, anuindo com a cabeça. Já tínhamos chegado ao térreo e caminhávamos até a portaria. Cumprimentamos o Seu Edu, porteiro da noite nos finais de semana, enquanto postergávamos aquele diálogo maçante.

Fred abrira a grade da portaria para mim, depois de transpormos as portas de vidro da entrada. Manteve o interrogatório, provavelmente querendo tirar um pouco da culpa dos ombros por ser um guardião irresponsável, quase ausente.

— E então? Tirou que conceito? — insistiu, enquanto eu me controlei para não revirar os olhos. Meu tio seria capaz de me constranger na frente do motorista do Uber, que nos abria as portas traseiras de um Mitsubish Lancer prateado.

Respondi entrando no carro, me cobrindo instintivamente com minha echarpe como se me protegesse das súbitas exigências de Frederico.

— B. Quarenta no total — relatei, aborrecida. Fred se ajeitava no banco ao meu lado, respondendo alguma mensagem que acabara de receber no celular. O motorista se apresentou, nos saudou e confirmou o trajeto que apareceu no GPS.

— E B significa...? — ele continuou com seu falso interesse. Minha cólera contida aumentava de forma paulatina. Significa que você poderia enfiar essas perguntas em outro lugar, pensei, segurando este rompante a contragosto.

— Significa que eu tenho quinze pontos para serem usados a mais no exame discursivo. Se eu tirasse A seriam vinte — esclareci sucinta, mirando a paisagem da esquina de nossa rua. O motorista seguia para a Rua Jardim Botânico, avenida central do bairro, e nos levava para a Rua Timóteo da Costa, uma ladeira no Alto Leblon.

— Nossa, ‘tá ótimo então — comentou Fred, e por um segundo fiquei surpresa pelo tom elogioso. Até mesmo virei meu rosto para encará-lo. Frederico olhava para a frente, guardando o celular no bolso do blazer. — Para quem estava quase reprovando no colégio... — adicionou, e quase bufei. Se não completasse a frase daquele jeito, não seria meu tio.

— Eu só vou mal nas matérias de exatas — redargui, sibilante. Fred já nem prestava atenção, outra vez mexendo em seu iphone.

— Pelo visto, o Bento anda te ajudando nelas. É bom saber que não estou desperdiçando dinheiro — rebateu Frederico, e eu senti meu estômago revirar em algumas voltas incontroláveis. Lembrei-me por uma incalculável vez do que acontecera no dia anterior. Os beijos tórridos na cozinha de casa. Restringi o instinto de levar os dedos aos lábios. Ainda sentia o toque dele.

Tentando me distrair daquelas memórias que faziam minhas bochechas enrubescerem, passei o resto do trajeto em silêncio, meu tio digitando ininterruptamente ao meu lado em seu celular. O motorista nos ofereceu água e balas e as recusei. Fred nem se dignou a responde-lo.

Demoramos cerca de meia hora, pois a casa não ficava tão longe do nosso apartamento. A zona sul do Rio de Janeiro é uma área nobre da cidade, pequena, com bairros colados uns aos outros, separados por fronteiras quase imperceptíveis. Logo, é bastante fácil circular por esta região, o difícil é não gastar a mais com suas tabelas de preços dispendiosas, em qualquer estabelecimento comercial ou meio de transporte.

Agradeci ao motorista enquanto tio Fred continuava em um silêncio deselegante. Saímos do carro e logo o segurança particular da casa nos viu pela câmera de entrada e abriu o portão eletrônico para nós.

Seguimos pelo gramado, nos guiando pela música ambiente, suave. Minha tia-avó, dona da casa, havia contratado uma banda ao vivo para tocar músicas suaves da mpb e clássicos internacionais dos anos sessenta, pelo repertório escutado. Andamos pelos jardins, que estavam decorados com algumas tendas e mesas dispostas pela sua extensão. Pelo visto, a festa seria ao ar livre.

Não tardou muito, e reconheci uma silhueta alguns bons centímetros mais baixa do que eu e mais rechonchuda. Pertencia a minha tia-avó Idalina, irmã alguns anos mais nova da minha falecida avó Eugênia. Não cheguei a conhecê-la, nem a meu avô, Benjamim. Tive contato apenas com meus avós paternos, que se distanciaram de nós depois da morte de meu pai. Foram morar fora, na França, depois dos escândalos envolvendo seu filho Gustavo. Flávia de vez em quando os encontra, quando pode sair de Paris e descer para Nice, onde residem.

— Fred! — minha tia-avó falou alto, sorrindo com uma taça de vinho tinto em mãos. Andou até nós, e meu tio já se punha a abraçá-la com seu falso carinho interesseiro. Para aquele núcleo milionário da família ele era cheio de atenções.

Fitei o rosto abarrotado de cirurgias estéticas de Idalina, ao passo que forçava meu melhor sorriso amarelo. Depois de apertar uma das bochechas de meu tio ela veio até mim, e me deu um abraço não tão caloroso.

— Cecília, minha querida, como está? — perguntou polida, um sorriso falso se desenhando em seus lábios finos pintados com um batom escuro.

— Ótima — menti — E a senhora? — indaguei da mesma maneira educada. Ela abanou o ar com as mãos em um gesto teatral, como se eu não precisasse ser tão cortês.

Precisava. Eu sabia muito bem o quanto minha família materna prezava esse gênero de formalidades idiotas. Já era mal falada por ser a esquisita, a “menina macho” que gostava de jogar futebol, que nunca apresentou um namorado rico para a família, que não ia nos eventos e viagens para Angra dos Reis, onde tínhamos casa de praia, ou para a fazenda em Lumiar.

— Você está uma boneca. Idêntica a Bia na sua idade. — Estudou-me com afinco, fitando meus cabelos e minhas feições. — O sorriso, o rosto, só os olhos são do Gustavo. Não é igualzinha, Fred? — Idalina perguntou ao meu tio. Por um segundo, vi um traço de tristeza nas feições agora luzidias de meu tio.

— Sim, ela é a cara da mãe — confirmou Frederico, dirigindo-me um olhar fugidio, com uma surpreendente nota de afeto. Como se ver minha mãe em mim fosse algo que o alegrasse e entristecesse ao mesmo tempo.

— As meninas já chegaram. Estão nas mesas perto da mangueira. — Minha tia-avó indicou uma árvore frondosa à distância. — Devem ter muito o que conversar! — Ela me deu uma piscadela, me despachando alegremente e tive de lhe oferecer mais um sorriso ensaiado. A noite vai ser longa...

Meu tio deu o braço para sua tia Ida, e seguiu com ela dando uma risada retumbante sobre alguma gracinha que Idalina contou. Soltei um muxoxo de desdém, já longe dos dois. O educado seria cumprimentar todos os convidados que eu conhecia, mas, por minha sorte, a maior parte dos presentes eram amigos da minha tia-avó, e não meus familiares. Tive de saudar apenas poucos primos, incluindo as duas meninas que Ida apontara.

— Ciça! Ainda bem que você chegou — Tatiana, uma garota simpática, porém exaustivamente fútil me viu. De imediato, me senti frustrada pela minha escolha de vestuário. Eu parecia muito malvestida em comparação a ela e a sua irmã, que se sentava na mesma mesa. Sua meia-irmã era uma das parentes que eu mais execrava, o que significava que ela conseguia um feito e tanto: sair em disparada na frente de uma competição deveras acirrada.

Antonella Fasano era neta de minha tia-avó Idalina, uma de minhas primas. Tatiana era filha do segundo casamento de sua mãe, meia-irmã de Antonella e tinha apenas catorze anos, cabelos crespos escuros como seus olhos e uma pele cheia de sardas, a imagem do padrasto de sua irmã mais velha. Antonella, como eu, puxara sua mãe. Só que diferente de mim, era uma moça de dezoito anos, com cabelos dourados, um loiro natural chamativo, além de uma bela pele bronzeada pelos contínuos banhos de sol na praia do Leblon. Seu rosto de feições leves e bem delineadas continha também graciosos olhos amendoados de um tom castanho escuro.

Ela levantou os olhos de seu smartphone e cravou-os em mim, estudando-me de cima a baixo. Seu olhar era evidentemente julgador. Vou ser motivo de piada pelas costas de novo.

Logo depois, a garota mais velha me brindou com um enorme sorriso, seus dentes brancos quase ameaçadores na meia luz da festa de tia Ida.

— Ciça! Que bom te ver — ela me disse em uma voz de falsidade indubitável. Demos os dois beijinhos de saudação típicos, os mesmos que tinha acabado de trocar com sua irmã mais nova. Sem escolha, sentei ao lado delas. Antonella bebia um espumante, enquanto Tatiana se servia de uma coca-cola zero recém trazida pelo garçom. Peguei outra e agradeci.

A mesa estava repleta de petiscos e alguns pratos para que nos servíssemos dos canapés que nos fossem oferecidos pelos garçons a circular pelos jardins. Mirei as outras mesas, atestando a cultura do desperdício sempre incentivada neste tipo de festa: a maior parte da comida servida naquela noite iria para o lixo, fosse porque teriam encomendado a mais, fosse porque os próprios convidados deixariam inúmeros restos em seus pratos.

— Ai, estou tãão chateada... — a mais velha da mesa falou, jogando uma mecha de seus compridos e lindos cabelos loiros para as costas. Eles contrastavam elegantes com o vestido azul claro que usava. — ...O Rodrigo não vai poder vir hoje. Vai fazer uma cirurgia amanhã — suspirou de maneira audível, afetada como a avó.

— A Ton está namorando um cirurgião do hospital São Vicente da Gávea, sabia? — Tatiana comentou, admirada. Eu conhecia há muito sua reverência por sua estúpida irmã mais velha.

— Jura? — respondi em uma pergunta, buscando forçar uma expressão de assombro. Não estava nem aí para quem ela namorava ou deixava de namorar. Um garçom passou com uns canapés de alho-poró. Servi-me de um, enquanto as duas negaram a comida. Para a elite carioca, é chique passar fome.

— Aham. Ele tem trinta anos! — Seus olhos cintilaram ao falar de seu namorado como se o considerasse uma espécie de troféu valioso. — Mamãe pirou quando soube, papai ainda não sabe, só o pai da Tati, o Bê. Imagina só como meu pai vai reagir! — Riu. Antes, se referira ao seu padrasto, Bernardo.

Comprimi uma risada sardônica. Antonella contava vantagem por namorar um sujeito doze anos mais velho do que ela. Ainda ontem eu tinha acabado de trocar os beijos mais quentes da minha vida com um que quase poderia ter sido meu padrasto e que tinha mais do que o dobro da minha idade. Se o critério para se gabar era diferença etária de homens com quem trocávamos carícias, eu teria ganhado.

— Não é? — Ton continuou a rir, achando que o motivo de meu sorriso era imaginar a surpresa de seu pai. Sorri ainda mais de sua ingenuidade. — A especialidade dele é oftalmologia! — Gabou-se, cheia de si, como se as virtudes de seu namorado fossem suas próprias.

Se fosse cirurgião plástico, poderia aproveitar e casar. Não vai precisar pagar para se recauchutar toda. Pensei, mordaz, imaginando o rosto de Antonella futuramente idêntico ao da avó, parcialmente deformado por tantas cirurgias plásticas.

— Por falar em médicos... — Tatiana indicou com os olhos e a cabeça em um movimento discreto para o nosso lado direito. Tive de me voltar para enxergar quem ela mencionara.

Senti um gosto amargo subir pela garganta, e me forcei a engolir em seco.

Diogo Galvão, filho da esposa de um primo de meu tio, nascido em seu primeiro casamento, acabara de chegar a festa. Desacompanhado de seu inseparável irmão cinco anos mais novo, Paulo.

Eu detestava aquele sujeito. Maior do que a repulsa que eu tinha por Antonella — pela garota representar tudo o que eu mais detestava no que era ensinado como devido ao convívio feminino —, era o asco que eu nutria por ele.

Tinha boas razões para tanto. Na época que ainda frequentava as viagens de família, eu e minha irmã conhecemos Diogo e seu irmão Paulo. Eles tinham acabado de ser incluídos nos ramos dos Liberatti, graças ao casamento do primo de meu tio e sua nova esposa, mãe dos dois. Diogo tinha vinte anos, e seu irmão, quinze.

Minha irmã tinha treze anos e eu apenas dez. Lembro que passamos um feriado em Angra dos Reis com o restante da família, passeando de barco, nadando, pescando, aproveitando os dias de sol como uma família endinheirada e feliz de novela. É lógico, nesses tempos eu não tinha noção de quantos dos meus parentes eram alcóolatras, viciados em drogas ou cultivadores de vidas secundárias fora de seus supostamente tão prezados nichos familiares. Todavia, aprenderia uma lição dura ainda assim.

Estávamos brincando na piscina, e eu percebia que Flávia e Diogo ficavam cada vez mais próximos. Ele era ótimo conosco, brincando animado, sempre paciente com todos nós. Até mesmo com os caprichos dramáticos de Antonella.

Em determinado momento, eu e Ton competíamos para ver quem conseguia ficar mais tempo segurando a respiração debaixo d’água. Paulo se uniu a nós; estava particularmente mais inclinado a se aproximar de mim, pois eu era a menina mais esportiva naquele ambiente. Tínhamos até brincado de chute a gol no mesmo dia.

Sei que depois de um tempo, o irmão mais novo dos Galvão se afastou, e continuamos apenas eu e Antonella na brincadeira. Demorei alguns minutos para perceber que Flávia também tinha saído. Lembrava-me apenas de ver ela e Diogo conversando, ele falando algo aos ouvidos de minha irmã que a fez rir.

Falei para minha prima que voltaria logo, e decidi procurar por Flávia. Fiquei chateada, achei que ela teria me deixado para trás de propósito porque também não apreciava a companhia de Antonella.

Depois de explorar a casa de praia inteira, subi até os quartos do andar de cima. Vi que a porta de um deles estava trancada, e eu não consegui discernir nada do que ouvi lá dentro. Tive a impressão de escutar murmúrios apressados de minha irmã. Fiquei com medo de bater. Algum instinto de preservação me disse para não tentar adentrar aqueles aposentos sozinha.

Decidi chamar meu tio, que bebia uma caipirinha na beira da piscina e conversava com os primos. Ele demorou um bom tempo até decidir que poderia me dar atenção, e, meio bêbado, só me levou a sério quando lhe avisei que julguei ouvir sussurros de Flávia dentro do quarto.

Fred marchou escadas acima, tomado de uma decisão austera que me assustou. Tive de correr para acompanhar seu passo. Não entendi no momento porque ele estava tão nervoso.

Frederico bateu com estrondo na porta do quarto inúmeras vezes. Não teve resposta, e, jogando seu corpo alto e, na época, ainda forte contra a maçaneta, não foi preciso muito esforço para arromba-la.

Eu não vi nada. A silhueta do meu tio cobrira a cena hedionda.

Só escutei Frederico gritando, sua voz irascível em um timbre de fúria que eu jamais havia escutado antes. Vi-o esmurrar Paulo, que acabava de fechar o zíper das calças. Em seguida, vislumbrei meu tio pular como um animal selvagem em uma direção do quarto que eu não enxergava. Afastei-me, chorando aterrorizada, e logo Flávia saiu correndo dos aposentos, em um pranto muito mais aflitivo do que o meu. Estava com o laço do biquíni desfeito e a saída de praia amassada.

Minha irmã me deu as mãos e me puxou para longe do quarto. Descemos as escadas, saímos da casa e corremos juntas até a praia, onde nos abraçamos chorando. Eu não tinha entendido nada e tinha compreendido tudo, por instinto. No mesmo dia, nosso tio nos levou para o Rio, apenas depois de ter brigado com a família inteira presente naquela viagem.

Anos após o ocorrido, Flávia se sentiu a vontade de me contar o que tinha acontecido. Diogo tinha prometido que ia lhe mostrar algo no quarto dos pais, e, em alguma perversão doentia, levou seu irmão junto consigo. Ela jamais desconfiaria de um ataque da parte dele, um rapaz tão gentil, simpático, benquisto pela família.

Minha irmã teria sido estuprada por Diogo, enquanto seu irmão se masturbava assistindo a cena.

Flávia me contou que Frederico brigou com todos os familiares que ousaram ficar do lado do padrasto e mãe dos irmãos Galvão, que prontamente tomaram o partido dos dois e acharam que minha irmã inventara a história, ou que meu tio estava bêbado e delirando. Fred foi chamado de louco por tê-los agredido. Ele causou lesões tão graves em Diogo que o rapaz teve de ser levado ao hospital. Paulo escapou por pouco, pois correra da cena do crime a tempo de não apanhar mais.

Entretanto, tia Idalina confiou em Frederico e parou de convidá-los para todos os eventos que presidia. A situação foi abafada, pois todos os lados da família conseguiram convencer meu tio de que aqueles rapazes jamais apareceriam outra vez e que seria melhor que algo tão terrível assim não saísse a público, até para preservar Flávia. E, como tantas ocorrências de abuso, essa foi escondida, mas jamais esquecida. Nem por minha irmã, nem por meu tio, nem por mim.

Apenas em tempos recentes, quase sete anos depois do ocorrido, tia Idalina havia se sentido na obrigação de resgatar o contato com Diogo, pois ele acabara de se formar na faculdade de medicina e seria um membro respeitável da alta sociedade carioca com um currículo e nome tão privilegiados. Paulo, por algum tipo de recompensa do destino, era um jovem viciado em drogas pesadas, como crack. Estava internado em uma clínica de reabilitação, e a família fingia que ele não existia.

Fiquei enjoada. Perdi todo o apetite que tinha, enquanto o repúdio por minha família aumentou. Pela primeira vez na noite, senti alguma breve empatia por meu tio. Fred fazia diversas escolhas erradas, mas eu tinha certeza de que meu tio não acolheria um estuprador de um parente por quem nutrisse um mínimo de afeição em sua casa, mesmo que ele tivesse acabado de se tornar o presidente do Brasil.

Fiz o meu melhor para ignorar a presença daquele sujeito por quem eu sustentava ódio amargurado. Sabia que ele não se aproximaria da nossa mesa. Antonella poderia ser palerma, convencida e frívola, contudo Flávia contara o que lhe acontecera a nossa prima quando esta cresceu um pouco, até para possivelmente preservá-la de dar confiança ao rapaz sem saber. Ela sabia que Diogo era um sociopata maníaco, disfarçado de bom moço.

— Isso daqui ‘tá muito chato... Vamos aproveitar e fazer uns snaps — sugeriu Ton, se levantando e ajeitando seus fulgurantes cabelos na câmera do celular. Minha última vontade no momento era de tirar fotos, mas Tatiana se animou, adorando a atenção que recebia da irmã que idolatrava.

— Ciça, você precisa aprender a se vestir melhor — Antonella falou em tom de conselho, me dando um olhar como se sentisse pena de mim. Tive de controlar um impulso de xingá-la. E você tem de aprender a raciocinar, pensei, porém me mantive em silêncio. — Você é bonita, mas fica se escondendo nessas roupas assim, sem graça... O que é esse preto todo, virou gótica agora? — brincou, fazendo Tatiana dar uma risadinha puxa-saco.

— Eu tenho o estranho hábito de me importar com coisas mais relevantes do que roupas — retruquei com o melhor sorriso sonso que pude lhe agraciar. Ton fez um biquinho, como se estivesse se contendo para não repisar.

Contrariada, tirei uma foto junto com elas a pedido de minha prima mais velha, enquanto a postava em suas redes sociais. Em seguida, senti algo vibrar em minha bolsa emprestada de Flávia. Era o meu próprio celular. Finalmente. Agradeci em pensamento, aliviada por imaginar que algum amigo meu enfim fizera contato naquele sábado infeliz.

Contudo, não fora Daniel, nem Afonso, nem Marcos, tampouco Beto quem me mandara mensagem. Abri o aplicativo do Whatsapp e flagrei uma notificação da conversa que eu tinha com Bento.

Meu coração saltou em meu peito, meu pulso acelerando. Ajeitei minha franja em um tique nervoso para o lado, pestanejando sem parar. Meu rosto parecia queimar, ao me recordar das memórias abrasadoras da última sexta-feira.

Toquei na conversa. Uma única mensagem singela se revelou.

“Boa noite, Ciça. Foi bem na UERJ?”

Perguntava afável meu professor particular. Podia imaginar seu jeito ensaiado dizendo tal frase, tentando dar uma inflexão paternal aquela indagação.

Aquilo me zangou e me interessou ao mesmo tempo. Não me surpreenderia se Bento sumisse depois da última aula, após ambos comprovarmos na pele a lei da inércia. Seria bem o esperado, na verdade, tendo em vista seus modos escorregadios e furtivos. Contudo, também não era de todo espantoso que se decidisse por fingir que nada tinha acontecido. As duas possibilidades se encaixavam muito bem no que eu viera a conhecer daquele homem misterioso.

“Tirei B”, decidi-me por responder direta, como sempre. Se ele queria continuar naquelas mesmas regras, eu já sabia como cumprir meu papel.

Meu professor particular logo apareceu online. Não tardou a responder.

“É um bom resultado. Teria tirado A com um pé nas costas, se tivéssemos começado as aulas antes”, afirmou. Pisquei os olhos algumas vezes, minha pulsação ainda fora do compasso habitual. Teria aquela frase algum tipo de sugestão? Era sempre difícil dizer, quando se tratava dele.

Bento continuou a escrever, e eu finquei meus dedos firmes em meu celular.

“Queria te avisar que vamos ter de suspender nossas aulas por duas semanas. Ainda ligarei para o Fred. Tenho de viajar para alguns seminários no Nordeste, na UFPE e UFRN.”

Senti uma mescla curiosa de frustração e triunfo. Ele estava mesmo fugindo. Tentei dar atenção apenas a sensação de júbilo que senti por ter conseguido atormentar meu professor particular pervertido. Porém, não seria fácil esquecer o arroubo de desapontamento que me veio ao peito ao ler aquelas palavras.

“Ok”, enviei, da mesma maneira displicente. Demorou alguns segundos até Bento escrever mais.

“Está tudo bem? Estou te atrapalhando?”

Tive uma ideia divertida ao ler a última mensagem.

— Ton! Pode tirar uma foto minha? — pedi para Antonella, que pareceu se divertir com a ideia. Não era uma solicitação costumeira de minha parte. — Tira uma bonita, daquelas poses que você faz no seu instagram — requisitei. Minha prima me ajudou a tirar uma foto espontaneamente forjada em segundos, inclusive segurando a taça de espumante dela. Apoiei-me no balcão branco perto da nossa mesa, que dividia uma área do jardim de outra parte mais baixa do terreno. Estava sem a echarpe em meus ombros, meu rosto munido de um sorriso sutil, de perfil para a câmera do meu celular.

Conferi a foto, fiz um sinal de positivo para Antonella e mandei a fotografia para Bento. Ele demorou ainda mais para responder, e eu deixei um sorriso enorme emoldurar meu rosto. Era muito divertido mexer com meu professor, mais do que eu desejaria aceitar.

— Mandou essa foto pra quem, safadinha? — brincou minha prima, e eu fingi que não era comigo. Você não faz nem ideia.

Depois de alguns minutos, meu professor particular enfim formulou uma resposta.

“Divirta-se! Juízo, Cecília.”

Não soube dizer o nível de dubiedade daquilo. Mordi o lábio inferior, o mesmo sorriso bobo e largo gravado em meu rosto. Poderia esperar tanto ciúmes quanto uma piada da parte dele. Ou o mais provável: o conjunto de ambos.

Quem diria que eu viria a sorrir e enfim me divertir naquela festa.

*****

As duas últimas semanas de setembro passaram em um ritmo mais apressado do que eu havia previsto. Com os resultados da UERJ, a escola acelerou o ritmo das aulas, o que dificultou minhas típicas sonecas e faltas. Não que eu realmente me importasse, mas sabia que teria de ouvir sermões da parte de meus amigos se cabulasse aquelas aulas relevantes.

Daniel e Afonso se dedicavam com afinco aos estudos para o simulado que seria feito na quinta-feira da primeira semana de outubro. Marcos se desesperava, julgando-se despreparado, e Roberto, um tanto mais procrastinador, como eu, fingia que não havia nada de diferente na rotina estudantil e apenas frequentava as classes como sempre fizera, sem maiores ou menores esforços.

Além dos estudos, o campeonato entre as escolinhas de futebol feminino que eu e meu time estávamos inscritas começara. Tivemos uma partida no penúltimo final de semana do mês, em que ganhamos de três a dois. Um dos gols foi de minha autoria, o de desempate, motivo que me deixou revigorada pela semana inteira. Vangloriei-me pelo ocorrido para Daniel por dias seguidos. Meu melhor amigo fora me assistir, junto de Afonsinho. Marcos e Beto tiveram outros compromissos.

O lado bom daquela nova rotina estafante em termos de pressão psicológica é que teríamos um descanso por vir. Um feriado católico cairia naquela sexta-feira, e aproveitaríamos para viajar e abrandar nosso estresse vestibulando.

A irmã mais velha de Marcos, Raquel, estudante de comunicação social da PUC, iria levar alguns amigos para uma espaçosa casa de praia em Búzios, cidade litorânea na Região dos Lagos, ao norte do Rio de Janeiro. A cidade é uma linda península, hoje em dia muito badalada, dispondo de lojas de grife ostensivas.

Eu gostava do lugar desde pequena, pois uma vez meu tio tivera de passar um final de semana hospedado na cidade praiana depois de uma audiência e acabou nos levando junto. Foi o mais próximo de um final de semena em família viajando, junto a um nicho familiar normal, que eu me lembro de ter tido. Na época, a Armação dos Búzios não era tão conhecida, sendo uma cidade litorânea atrativa por sua simplicidade aconchegante.

Neste feriado do colégio São Patrício, ficaríamos na casa que a família Salles tinha em Manguinhos, uma das praias da península. A residência de verão era construída acima da vegetação próxima da areia. Bastava atravessar os muros e estaríamos na praia.

Viajamos na quinta-feira à noite, em dois carros. Raquel levou alguns amigos e amigas, e um deles se ofereceu para dirigir outro veículo para acomodar a todos nós. Afonso não foi, pois teria expediente na loja, já que o feriado servia apenas para instituições católicas.

Ao todo, viajamos eu, Daniel, Sandra, duas amigas dela, chamadas Jéssica e Lívia, além de Beto e Marcos. Daniel, a namorada e as amigas foram num Fiat Doblô dirigido pelo amigo de Raquel, Antônio, junto a dois amigos da universitária, enquanto eu e meus amigos do colegial seguimos viagem junto a irmã de Marcos. Um terceiro carro nos seguia, este apenas com estudantes de comunicação social.

Chegamos em Búzios depois de duas horas e meia de percurso, com algumas paradas na estrada para comer e reabastecer os tanques. Já era quase meia-noite quando paramos os carros, e pela quantidade de pessoas acabamos tendo de dividir alguns quartos. Compartilhei o meu com as amigas de Sandra, o que me deixou em uma situação difícil. Eu sabia que a namorada do meu melhor amigo nutria certo desafeto por mim por conta dos ciúmes que sentia de Daniel, mesmo que desmotivados de razão. Sabia que suas amigas deviam tomar suas dores, então eu seria obrigada a passar o feriado dormindo em aposentos divididos com duas meninas que já não gostavam de mim gratuitamente.

Não que eu ligasse para tal julgamento. Todavia, não era agradável lidar com tão pouca distância entre leitos preenchidos por gente que não te vê com bons olhos. Não dá a uma pessoa normal a segurança necessária para dormir tranquila.

Assim, sofri para adormecer naquela noite. Já passava das duas da madrugada quando decidi descer e aspirar o ar noturno junto da maresia, aroma que eu tanto apreciava, cultuava, até. A fragrância úmida e salgada me entorpecia, me acalmava.

Coloquei uma calça de ginástica e um moletom verde e desci, depois de calçar os chinelos. As meninas já dormiam. Os amigos de Raquel e a irmã de Marcos tinham saído, provavelmente só retornariam ao amanhecer. Lembrei-me de que um deles, Henrique, decidira ficar na casa, pois alegara não estar se sentindo muito bem.

Sem aferir sinal de viva alma na casa de praia, abri a porta dos fundos e fui caminhando pelas árvores próximas. Julguei ouvir um farfalhar em alguns arbustos da restinga, e temi que fosse algum bicho desconhecido. Logo ouvi vozes humanas e passos pesados, e reparei na voz de Beto conversando com alguém que não distingui apenas pelo timbre.

Contente que não era a única insone, os segui, me afastando da praia. Dirigiam-se para algum local próximo, uma clareira rodeada de árvores, já nos limites do condomínio vizinho da casa de Marcos.

Reconheci a silhueta de Roberto vindo atrás de alguém que não distingui. Já me preparei para chamar pelo nome do meu amigo, abrindo um sorriso.

Foi então que vi uma mão puxá-lo até uma árvore. E ali, escondido por trás daqueles troncos, testemunhei chocada meu amigo trocar beijos com Henrique, um dos melhores amigos de Raquel, sempre presente em suas festas, reuniões e sociais na casa de Marcos.

Aturdida, dei meia-volta sem que nem percebesse que já me movia para deixá-los a sós. Corri até a casa de praia, pulando o portão sem nem abri-lo. Entrei pela mesma porta que saíra, e me sentei no sofá da sala, sem coragem nem para acender a luz.

Como eu sempre desconfiei, meu amigo era gay. E não tinha coragem de assumir sua sexualidade. Preferia se esconder, à noite, em encontros furtivos, para saciar seus desejos. Há quanto tempo aquilo já não poderia estar acontecendo?

Ouvi um palavrão soar alto e me voltei surpresa, de olhos arregalados em meio a escuridão. O interruptor da luz principal da sala foi aceso.

— Puta que pariu, Ciça, tomei um susto fodido — resmungou Daniel, coçando os olhos. Senti um conforto imediato com a presença dele. Tive vontade de me lançar até meu melhor amigo e lhe dar um abraço, contudo o risco de Sandra descer e inventar algo malicioso a partir disso era grande demais.

— Tá acordada por quê? — ele perguntou, indo até a cozinha. Da porta desimpedida, o vi abrir a geladeira para pegar uma garrafa d’água. Levantei-me e resolvi acompanhá-lo, ainda em silêncio.

Eu nem sabia como responder.

Tanto havia acontecido nos últimos dias. Tantas mudanças, descobertas, novas experiências. Surpresas. Minhas e dos meus amigos.

Só sei que seria ainda mais difícil dormir.

Notas finais
Se possível, aguardo comentários! Ajuda a escrever mais rápido eheheheh (sim, sou tão cara de pau quanto a Ciça).