Amor E Guerra.
1 Minha criadora tem um filho nada idêntico a ela.
Quando eu acordei de manhã, eu até poderia dizer que esta manhã de domingo seria igual a todas as outras. Eu acordei novamente com aquela cara de espantalho, fui ate o banheiro e me olhei através dele. Eu amava fazer isso, e olhar cada defeito e perfeição minha. Eu achava que meus olhos eram finos demais, mesmo eu sabendo que não era tanto assim, meu cabelo preto caia sobra o meu olha esquerdo tapando-o. Meus olhos eram incrivelmente estranhos, ele parecia mudar conforme minhas emoções. Variava de verde, verde claro e preto. Como de costume escovei meus dentes. Penteei milhões de vezes meu cabelo ate ficar razoável e troquei meu pijama preto, todo manchado e amassado por uma camiseta amarela do porco-aranha, e por uma jeans preta comum. O dia La fora parecia estar lindo. As nuvens estavam distribuídas de um jeito que fazia o sol parecer muito mais brilhante. Porem ao fundo se via nuvens de tempestade e eu não gostava nada disso.
Sobre o fato de ser um dia como todos os outros eu estava muito, muito enganada. O ruim foi eu ter percebido isso tarde demais. Enquanto eu descia pela velha e desgastada escada do meu orfanato, algo me fez parar e pensar. Eu sentia o cheiro de metais enferrujados e um arrepio no espaço ao meu redor. Virei imediatamente as minhas costas pensando em me trancar no quarto e ficar lá para o resto da vida, porem neste exato momento um grito abafado veio diretamente do quintal onde minha criadora ficava o dia inteiro.
- Me solta, garoto imundo. – Berrava minha criadora como se estivesse falando com um conhecido seu.
Eu desisti de subir e ao contrario do que queria desci correndo as escadas e fui direto para a cozinha. Eu não sabia aonde me esconder e o único local disponível foi debaixo da mesa. Ergui a toalha de mesa florida e me enfiei lá embaixo. A única descrição para aquele local era imundo, totalmente imundo. Restos de comida jogada pelas outras crianças do orfanato estavam ali por muito tempo e já estavam quase entrando em decomposição. Teias de aranha estavam dispostas em espécies de quarteirões na parte de cima da mesa. Eu ainda poderia descrever por muito tempo o local já que eu possuía um problema que me fazia fixar o olhar as coisas e ver tudo nelas.
- Por favor, mãe me ajude. Aonde esta a garota?- Pedia uma voz rouca com pouca vida para minha criadora que pouco havia mencionado um filho em sua historia de vida.
- Filho. Por quê? Você não precisa fazer isso. ELA NÃO É A CULPADA E SIM AQUELES SEUS TIOS IDIOTAS. – Rebateu minha criadora. Ela era alta, media quase um metro e noventa centímetros. Usava como sempre um avental rosa choque que ia ate seus pés. Seu cabelo era preto e estava quase sempre preso, porem alguma coisa estava diferente neste momento. Ele estava grisalho nas raízes sendo que ela dizia e aparentava ter apenas uns 27 anos de idade.
Ela nunca havia nos dito seu nome, nem nada sobre ela, preferia ser chamada de Tia Cleo. Isso fazia as crianças desconfiarem que seu nome realmente fosse Cleo, porem eu e minha esperteza havíamos pego as correspondências dela a algumas semanas e vimos algo muito suspeito mesmo.
REMETENTE: ROFARD CLEOREN.
DESTINATARIO: ... CLEOREN.
DO MONTE TAÍGETO.
PARA O ORFANATO TIA CLEO.
O fato de não conter o nome dela no destinatário me deixara com duvidas de quem ela realmente era. A carta também era muito estranha, era uma linguagem antiga que conheci como o grego, e ate entendi algumas palavras. Eu não acreditava muito nela mesmo ela sempre disse que seu marido e seu filho morreram em um acidente numa fabrica. “Não! Não mesmo!” Eu dizia para mim mesmo.
O hálito ruim daquele que seria seu filho vinha até mim. Era dele também o cheiro de metal enferrujado. Eu não sentia mais medo de sua aura, mas sim ódio dele todo. Eu dei uma olhada por debaixo da mesa e o que vi fez meu coração saltar, voltar ao chão e saltar novamente. O rosto dele era cheio de cicatrizes, hematomas e ferimentos que ainda sangravam. Tinha um olhar bruto, mas lindo já que herdara os olhos azuis da mãe. Seu cabelo era preto e liso e curto, entretanto uma franja caia por cima de seu olho direito.
- Aonde esta a garota? Diga-me agora! Você já me deixou na mão uma vez e aconteceu isso. – Disse ele apontando para seu rosto. – Se você não me disser aonde ela esta eu mesmo a encontrarei e ela não continuara viva.
-Filho... Eu vou te ajudar desde que não a machuque. Leve ela aos deuses e comprove este erro incomparável.
- Mãe, obrigado. Agora me diga. Cadê?
- Lá em cima, provavelmente já acordou. Pobre Xeiga sempre foi tão “gentil”. — Disse ela de modo inseguro.
Meu coração explodiu. Eu sou Xeiga. Eu sou o erro. Eu sou o que ele procura. “Eles conhecem meus pais”, foi meu primeiro pensamento. Eles falaram sobre deuses mais isso não existia, a não ser em historias antigas, historias gregas. Pensei na carta e tentei ligar as coisas, mas eu estava desconcertada. Eu empurrei a mesa para cima com uma força descomunal. Ela atingiu o teto a uns 2 metros ao alto e se estraçalhou toda. O espanto na cara dos dois me deixou mais confortável. Eles me temiam.
— Sou eu que vocês querem? – Perguntei gritando, mesmo tendo medo também. – Aqui estou. Mas não vai ser fácil. Conte-me tudo sua mentirosa. – Apontei para minha criadora eu estava brava, mas ainda gostava dela.
- Xeiga você...
-Xeiga você. – Eu falei imitando a voz dela. – E você em! Vai fazer o que?
- O que eu vou fazer é! – Disse ele tentando me intimidar. – Eu vou te levar comigo, e depois... Nossa paizinho ISSO foi muito fácil pra ser verdade.
- E quem disse que vai ser fácil. – Disparei para ele. Corri em sua direção e lhe dei um soco na cara. Senti toda a minha força no meu punho, porem ele apenas deixou eu o socar. Ele não havia sentindo nada. Parecia ferro, meu punho doeu, mas pouco o que era estranho se aquilo realmente fosse ferro.
- Nossa você ate é fortinha em. Faz muito tempo não sinto uma cócega como essa. E agora vai fazer o que, me diga o que você vai fazer? – Ele me pegou pelo pescoço e me ergueu no ar. – Sua fraca.
Eu estava quase desmaiando quando senti mais força em meu corpo. Senti a cor de meus olhos mudarem, escutei os vidros do orfanato explodindo. Uma aura rosa tinha se formado ao meu redor. O homem me soltou e me olhou com medo.
- Mãe isso é... – Eu o ouvia dizer. – Como ela?(...) É impossível.
- Sim meu filho é isso mesmo e não é impossivel. Vamos logo ou morremos.
Vi eles saindo às pressas pela janela e desmaiei. Sonhei com um bosque escuro com flores com a cor do sangue. Ao longe um menino estranho, com muletas nas mãos estava sentado em uma pedra me chamando e eu estava o obedecendo.
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