Amor Cigano

17 Reunião Familiar


Notas iniciais
*CAPÍTULO NÃO REVISADO! *PENÚLTIMO CAPÍTULO

Felicity conseguia admitir com facilidade que durante momentos de pressão extrema, não conseguia racionalizar direito e sempre acabava saindo com algum plano mirabolante que lhe metia em situações pra lá de delicadas. Sempre foi assim. Desde criança, quando era pega em flagrante fazendo algo que não deveria, ao tentar contornar a situação, apenas piorava tudo. Barry era testemunha ocular de tudo isso.

Mas ela nunca imaginou que essa sua tendência acabaria a levando para os braços de sequestradores. Tudo bem, era a primeira admitir também: Quando se tratava de Oliver, ela acabava tendo ideias estelares. Contudo, ser sequestrada?! Só podia culpar seus hormônios!

Em completo silêncio, Thea contemplava Felicity Smoak, a mulher que a cada segundo dava um nó surpreendente na sua mente. Embora amasse o seu irmão de todo coração, a jovem Queen tinha certeza que teria tentado ser bem mais discreta que Felicity ao tentar salvar a vida de Oliver. Quem em sã sanidade pularia nas costas de um bandido para impedi-lo de cometer algum crime?

Não era por nada que agora todos — sem exceção -, estavam presos num balcão abandonado, amarrados e encarando um ao outro, enquanto tinham como companhia os bandidos que pareciam dois cães de guarda.

Só Curtis teve a coragem (ou audácia) de quebrar o silêncio:

— Sabe, eu gosto de pinto... — Começou, totalmente sério e concentrando seu olhar diretamente em Felicity —...mas eu seria incapaz de arriscar o meu corpinho precioso por conta de um. Você é mais dada que eu, parabéns.

Foi Oliver quem soltou um som exasperado, enquanto Felicity começava a ficar roxa de vergonha.

— Curtis, silêncio. — Comandou Oliver, apreensivo com um suposto futuro homicídio.

Não sabia o que passou pela mente de Felicity ao pular nas costas de um bandido, mas tinha certeza que o seu plano era bem melhor do que o dela. Isso se ela tivesse pensado em algum plano, afinal de contas.

Tomar a decisão de se entregar de bom grado, foi bastante fácil para ele. Supôs que o seu sequestro relâmpago, seria igual ao anterior que já havia sofrido. Os Queens eram ricos, logo se tornavam alvos fáceis para bandidos e tanto Thea quanto Tommy sabiam disso...Pena que Felicity sequer fazia ideia da sua experiência com sequestros.

Se o fizesse, jamais teria se arriscado tanto. Ou era nisso que Oliver gostaria de acreditar. A verdade é que Felicity era uma louca caixinha de surpresas.

— Hein? Você tá me mandando calar a boca, bonitão? — Curtis o fitou profundamente ofendido — Olha só, pra você me mandar calar a boca, antes você tem que enfi-

— Curtis! — Thea o interrompeu, alarmada. Por mais que apreciasse Curtis, no momento sentia muito medo de como aquela frase terminaria.

— Vocês realmente gostam de conversar. — Observou um dos bandidos, que estava sentado no canto do balcão e brincando com um dente-de-leão na mão.

Oliver franziu o cenho para o homem. Não conseguia identificar quem era, uma vez que o estúpido não havia retirado suas vestes que o camuflavam, mas seu instinto dizia que o cara não era tão perigoso quanto tentava aparentar.

— É que só resta isso pra fazer quando você é sequestrado e amarrado. — Tommy comentou docemente, e Barry resfolegou com a coragem ou falta de noção do amigo.

Achava um milagre Laurel não ter se tornado uma jovem viúva assim que disse o famoso "Sim" para o ex-playboy.

— Aliás, que acomodações pobres vocês nos deram! — Curtis chutou os pés amarrados — Que absurdo é esse? Tá achando que tá lidando com gente sem pedigree?! Pois eu ten-

— Você, — O bandido número 2, apontou para o número 1. — cuida desses idiotas enquanto eu vou cuidar das negociações com a matriarca Queen.

Seu tom de voz era frio e cortante, tanto que Oliver deduziu que com aquele cara em particular eles teriam problemas de verdade.

Sem esperar que o seu companheiro de crime concordasse com aquele novo giro de acontecimentos, bandido 2 saiu de cena, pisando tão duro que ele parecia conseguir fazer o chão estremecer.

— Merda. — Tommy resmungou baixinho, contemplando o caminho que o homem pegou — Acho que estamos com problemas.

Rene fez uma careta. — Ah, você acha? Chegou a essa conclusão como? No momento que apontaram uma arma na nossa testa ou quando nos colocaram dentro da caminhonete?

Tommy crispou os lábios e Barry soube imediatamente que a situação iria ficar um pouquinho mais pior com um ex-playboy querendo atacar um bocudo capataz. Oh grande merda.

— Que tal vocês fecharem a matraca e não complicarem ainda mais a nossa situação? — Sara decidiu intervir, já imaginando os possíveis cenários que os levariam caso seguisse deixando correr frouxa a discussão entre ambos.

Indiferente, Tommy deu de ombros e não pela primeira vez, Felicity começou a questionar a inteligência do ex-playboy. Ele agia de maneira completamente atípica em situações perigosas...não podia ser normal!

— Escutem a loirinha. — Bandido 1 disse, num tom um tanto quanto...divertido? Felicity apostava que ele estava vendo muita graça naquele sequestro. — Ela ao menos parece inteligente o suficiente.

Felicity's Pov

Como é que é? Era impressão minha ou aquele cara tinha acabado de me chamar de loira burra?!

Intrigada, indignada e todos os i's possíveis, pisquei na direção daquele ser humano desprezível. Já estava prestes a abrir minha boca e chutar o pau do cativeiro, quando fui atingida por um leve chute no meu tornozelo.

Era Oliver me enviando um olhar de morte. Achei ofensivo. Eu só estava tentando defender minha inteligência!

— Seria mais inteligente você manter a boca fechada, Felicity. — Thea assobiou, e a reação do meu rosto foi instantânea.

Droga, havia pensado alto demais!

— Pedir isso de Felicity, é pedir o impossível. — Bandido 1 falou, soltando uma risadinha. Ai que abusado....

ESPERA! POR QUE ELE ESTAVA FALANDO DUM JEITO TÃO ÍNTIMO? COMO SE NÓS NOS CONHECESSEMOS?

Apertei os olhos, tentando olhar através daqueles malditos panos que ele usava para se camuflar.

— Quem é você afinal de contas?! Tá agindo como se me conhecesse...

O palhaço teve a audácia de soltar mais outra risadinha.

— É porque eu conheço. — Declarou, me fazendo arregalar os olhos e um silêncio terrível cair sobre o ambiente.

Aproveitando que tinha uma plateia totalmente concentrada nele, Bandido 1 finalmente retirou toda a patifaria que usava para se cobrir (duma maneira bem dramática, aliás) e...puta merda!

— Ah, não! — Barry lamentou, quando identificou a figura.

— Ah, não mesmo! — Me emputeci, vendo Ra's Al Ghul — nosso sequestrador e de bônus pai de Nyssa -, parado bem na nossa frente com um sorriso tosco no rosto.

— EI, EU TE CONHEÇO! — Sara gritou, apontando para Ra's.

Hein???

— VOCÊ O CONHECE?!

Isso sim era um plot twist.

Nyssa estava tão ou mais impressionada que todos com o giro dos últimos acontecimentos.

— COMO ASSIM VOCÊ O CONHECE?! — Tommy também quis saber.

Xiii, esse sequestro estava se tornando um casos de família.

Sem graça, Sara soltou uma risadinha ao explicar diretamente para Nyssa, ignorando totalmente a cara de lesado que Tommy estava fazendo:

— Uma vez estive na cadeia e dividi cela com uma britânica de sotaque engraçado...Mais tarde descobri que ela na verdade era ele.

Meu. Deus.

Ra's confirmou com a cabeça, exibindo um semblante orgulhoso.

— Eu gostei dela, a aprovo como nora.

Jesus. Maria. E José. Que hospício é esse????

— Atirem em mim. — Oliver resmungou sob o fôlego, jogando dardos com os olhos em toda direção.

— Já que tá tudo em família, solta a gente! — Curtis exigiu, piscando os cílios para Feijão-com-angu. Fiz uma careta.

O aloprado realmente pensava que sua expressão sedutora (ou que ele julgava ser sedutora, porque para mim, não passava da expressão "ai mãe, acabou o papel higiênico!"), convenceria Ra's?

— Olha, se fosse por mim, eu até os soltaria... — Começou a lorota —...mas como Damien é o chefe e provavelmente não vai estar de acordo com tudo isso...

— Damien? — Repeti, esperando que estivesse ficando surda.

No meu vocabulário, aquele nome era problema.

— Damien Darhk? — Barry completou meu raciocínio. Seu olhar era aterrorizado, enquanto o de Ra's era orgulhoso, ao assentir com a cabeça.

— Sim, ele mesmo! Ele me ajudou a fugir da cadeia e veio com esse plano de sequestro quando ficou sabendo que o Sr. Queen estava em Lian Yu.

Oh, Deus.

— Puta que pariu! — Rene xingou — A gente vai morrer!

Foi o suficiente pra fazer Curtis choramingar. Alto. Feito um bebê com cólica. Quase ri, mas estava ocupada demais também choramingando.

A GENTE IRIA MORRER!!!!!!

— Não, sério, atirem em mim. — Ouvi Garanhão falar.

(...)

Problemas no paraíso de Ra's chegaram rapidamente, assim que Damien cruzou o cativeiro e notou que a sua identidade e a de seu parceiro de crime, haviam sido reveladas.

— Qual parte você não entendeu sobre as nossas identidades permanecerem ocultas durante esse sequestro? — Damien grunhia irado, quase metendo uns tapas no Angu.

Eu, que em alguma outra ocasião com certeza estaria alegre em assistir Angu levando uns tabefes bem no meio das fuças, estava mais focada na parte onde eu iria morrer. Morrer ao lado de Curtis. E morrer virgem!

—...minha filha já deveria saber quem éramos. — Angu soltou, despreocupado.

Imediatamente recordei o que Nyssa me disse semanas atrás: "Acredite quando digo: você vai descobrir logo o que infernos está me incomodando."

Ela provavelmente já sabia que o pai meteria as caras em Lian Yu e faria merda! Alarmada, olhei em sua direção e obviamente, ela já estava me encarando. Em silêncio, ela confirmou minhas suspeitas com apenas um balançar positivo de cabeça.

Merda, merda, merda, merdaaaaaaa!! Por que ela não me havia preparado pra isso antes se sabia que aconteceria? Ao menos eu teria reservado uma fralda pra vestir.

— Certas coisas na vida são inevitáveis. — Ela se manifestou, dando de ombros.

E pela primeira vez na vida eu quis dar NA CARA DELA. Cagar nas calças nunca é inevitável! A menos que você tenha uma caganeira relâmpago (quase o meu caso) ou passou por algum processo cirúrgico envolvendo seu intestino, E ESSE NÃO ERA O CASO!

— Do que você tá falando Corneia Playboy??? — Curtis olhou Nyssa sem entender nada. — Se você tá falando que é inevitável a nossa morte, pois fique você sabendo que essa gata aqui não vai rodar sem uma grande briga antes!

— Odeio admitir, mas Curtis está certo. — Sr. Delícia aka meu Garanhão falou, num tom baixo mas alto suficiente para nós ouvirmos. Seus olhos pareciam de águias enquanto escrutinava os dois bandidões que queriam acabar com a nossa raça. — Precisaremos lutar para sair dessa. Agora que sabemos suas identidades, não acredito que esse tal Damien vá nos deixar sair vivos.

Ouvir isso da boca de Oliver só tornava as coisas piores, percebi, ao sentir um suor frio nas minhas têmporas.

— E como faremos isso com as mãos e pés amarrados? — Rene perguntou num tom amargo.

Oliver suspirou.

— Alguém vai precisar torcer o pulso.

Ah, não! Ele realmente queria alguém torcendo o pulso pra se libertar e assim libertar todos os outros??? O plano podia ser bom (para as circunstâncias) e talvez o único possível (de novo, pelas circunstâncias), mas faltaria coragem para qualquer presente nesse "cativeiro" meia tigela, para cumprir a proposta.

— Eu não vou torcer o meu pulso! — Rene foi rápido em retrucar, se encolhendo.

— Oliver quem deu a ideia, ele que torça o próprio pulso! — Tommy disparou, sem pestanejar nem por um segundo.

Lançando um olhar atravessado, Oliver questionou seco:

— Você é realmente meu amigo ou se faz?

— Sou seu amigo e por isso quero que você sobreviva, portanto, torça o seu pulso e nos liberte!

A lógica era meio despirocada, mas fazia um certo sentido.

Quer dizer, alguém deveria se sacrificar pelo bem maior e quem melhor que o próprio autor da ideia?

— Concordo com Tommy. — Reforcei a ideia do maluco em sacrificar o pulso do meu garanhão.

Oliver virou pra mim, incrédulo.

— Sério Felicity? Até você???

Choraminguei — Olha, não temos muitas opções aqui, ok? E eu quero muito viver!

— Tivesse pensado isso antes né minha filha?! — Curtis zombou — Na hora de se jogar no bandidão pensando no pin-

— Tá, cala a boca, já entendi.

Era mortificante saber que Curtis tinha razão.

— Precisamos deles distraídos por tempo o suficiente para Oliver nos soltar. — Barry pontuou, sabiamente.

Todos nós concordamos, exceto Oliver que soltou um som entre um grunhido e uma tosse.

— Vocês realmente me escolheram pra torcer o pulso??

— E depois da distração? — Tommy ignorou totalmente Oliver, o que o fez receber um olhar mortal do meu Garanhão.

Já estava quase começando a sentir pena, quase. Ainda precisávamos de um pulso.

— Eu entro! — Disse Curtis, empolgado. Apostava que se ele estivesse com as mãos livres, já estaria batendo elas, super animado pra patifaria. Conseguia visualizar a cena toda nitidamente na minha mente.

— Ah, você entra?! Só se for pela culatra. — Rene soltou uma risadinha depreciativa — Vai me dizer que agora você sabe lutar?

— Eu não sei lutar, seu sarnento mal agradecido. — Respondeu irado, mais um pouco e fumaça sairia de seus ouvidos — Mas eu não sou apenas um rostinho bonito não, tá!

Oliver suspirou. Alto.

— Okay, talvez eu realmente deva torcer o meu pulso...

— O que exatamente você quer dizer com isso Curtis? — Foi a vez de Thea se manifestar — Qual é o seu plano?

— Nunca saio de casa despreparado! — Apontou para as botinhas rosas — Dentro dessas belezinhas, tem um pó de mico cheinho pra alguém jogar na cara desses bandidos salafraios!

Rene piscou boquiaberto.

— Espera aí um pouco! Esse pó tem alguma relação com o meu cabelo arruinado???? — Tommy.

— ...Ou eu poderia simplesmente pedir pra alguém me dar um tiro. — Oliver.

— Ai agora não é tempo de discutir isso não...— O sonso colocou os olhos em fendas — Vamos focar na fuga do cativeiro.

Como eu tinha dedo naquela picuinha que quase matou Tommy e deixou Rene com fama de sarnento, concordei imediatamente com Curtis, balançando minha cabeça efusivamente.

— Ok, então é o seguinte: Esperamos os idiotas se distraírem, Oliver torce o pulso — Sara começou a repassar o plano —, ajuda a nos soltar, esperamos a oportunidade perfeita e fugimos, se algo der errado, Curtis os atinge nos olhos.

— É claro que algo vai dar errado, os caras tem armas e a gente só Curtis e um pó de pirimpimpim! — Exclamou Roy, nos fitando como se fossemos loucos.

Sério que ele só havia percebido isso agora?

— De novo, por que eu tenho que torcer o meu pulso?!

— O que tanto vocês conversam aí?

— AI EU SOU GAY!

Num segundo Damien estava do outro lado do cativeiro e no outro, estava parado bem do nosso lado, nos esquadrinhando com aquele seu olhar diabólico. Então é claro que achei a reação de Curtis bem apropriada para a natureza da nossa situação.

Damien era um monstro.

— Não sei o que vocês estão tentando tramar, mas esqueçam imediatamente, não irá funcionar. — Desdenhou, levando friamente uma das mãos até a arma em sua cintura.

Engoli em seco, sentindo minhas últimas esperanças de liberdade se esvaírem. Talvez fosse o meu destino morrer virgem, afinal.

— Não estamos tramando nada. — Sara deu sua resposta, num tom pra lá de cínico. — Só estávamos nos perguntando se a Sra. Queen irá pagar o resgate ou não.

— Espero que você tenha pedido um valor bem alto. — Oliver comentou, seco.

Damien fez um som de apreciação.

— Ah garoto, cobrei o valor que dois Queens valem no mercado, nada mais, nada menos.

— Aposto que mamãe está em êxtase por isso. — Thea resmungou, sem esconder o desprezo que sentia pelo o homem.

Ele riu com desdém.

— Muito. Exigi o pagamento em ouro.

Um vinco se formou entre as sobrancelhas de Oliver.

— Mas em o-Ah, bem. — Parou, piscando. — Foi ambicioso da sua parte pedir o resgate em barras de ouro.

Damien levantou uma sobrancelha. — Ambicioso é o meu nome do meio, garoto.

Um leve levantar nos lábios de Oliver, chamou a minha atenção. O movimento poderia ser imperceptível para qualquer um – com exceção de Thea, quem o conhecia a vida toda –, mas não pra mim, quem ficou o estudando atentamente durante todos esses meses.

Oliver estava achando algo divertido nessa situação. O que, em nome de Deus, eu não fazia a remota ideia!

Satisfeito com o curto bate papo e com os seus aparentemente acovardados prisioneiros, Damien e Bosta-com-Angu averiguaram pela última vez nossas amarras e saíram de nossas vistas, provavelmente indo negociar (ou aterrorizar) a Sra. Queen via telefone.

De imediato, ouvimos um “craque” vindo de Oliver.

— Puta merda! — Roy reagiu com assombro, refletindo o que certamente todos nós estávamos sentindo.

OLIVER HAVIA REALMENTE TORCIDO O PRÓPRIO PULSO!

Mil vezes puta merda.

Com uma careta de dor, ele justificou a atitude repentina.

— Temos que dar um jeito de sair daqui o mais rápido possível e já que não tivemos nenhuma outra ideia brilhante...

— Cara, você não precisava fazer isso justamente agora! — Falou Tommy, com a voz esganiçada. Acho que a ideia de Oliver estar com o pulso torcido o deixava meio...doente? — A gente poderia ter bolado mais algum plano, sei lá!

Oliver estreitou os olhos.

— Curioso você dizer isso só agora, né? — Murmurou, se livrando de suas amarras, para logo em seguida usar a mão não afetada pela empreitada, para desamarrar a corda que prendiam os seus pés. —Subestimei a burrice desse tal Damien. O cara é tão burro que é capaz de nos assassinar antes de receber o tal pagamento. — Acrescentou, mais como se estivesse refletindo consigo mesmo, do que nos passando alguma informação sobre o que estava em sua mente.

Pisquei, confusa.

— Hein? O que você quer dizer com isso?

— Felicity, barras de ouro não são facilmente adquiridas assim. Debi e Lóide devem ter assistido muitos filmes de ficção pra saírem com uma dessas.

Thea começou a rir. — Ou eles devem achar que moramos dentro de um banco. Não temos barras de ouro a nossa disposição.

— Hahahaha — Curtis fingiu rir — Rico tem um humor podre né? Fica rindo de cada coisa... — Bufou, revirando os olhos — Anda bofe, vem aqui me soltar! Irei te proteger das ratazanas xoxadas!

Com uma expressão irônica, Oliver foi fazer exatamente isso. E pela segunda vez, em menos de vinte e quatro horas, um pandemônio começou ao nosso redor. Confirmando nossa falta de sorte, um feixe de luz rompeu o ar, junto ao barulho inconfundível de balas.

— AAAAAAA, SALVEM-SE QUEM PUDERRRR!!! — O grito estridente de Curtis nos colocou em ação.

Na falta das minhas mãos e pés (que estavam amarrados), sem alternativas, comecei a rolar e dei de encontrão com Rene (quem também teve a mesma genial ideia), que levou um empurrão de Roy que foi atingido por um pisão de Curtis que estava correndo adoidado e tropeçou em cima de Barry que estava sendo espremido entre Nyssa e Sara; Thea, aparentemente, era a única ilesa.

Mais e mais tiros soaram e eu, por puro instinto, esquadrinhei o ambiente à procura de Oliver e o encontrei deitado no chão, tentando se proteger.

Antes que eu pudesse alcançar ele (para fazer só Deus sabe o quê!), nosso cativeiro foi iluminado por um feixe GIGANTESCO de luz e os tiros cessaram. Devagar, levantei o pescoço, tentando ver que diabos estava acontecendo.

Parado majestosamente, como se fosse um guerreiro de romances históricos (pelo menos os que eu geralmente lia), estava John Diggle, segurando uma arma. Ao seu lado, estava um homem ligeiramente franzino e de idade, também segurando uma arma. Mas o que mais me surpreendeu foi identificar a mulher que saía correndo por trás dos dois homens.

— Dinah?! — Rene exclamou, chocado.

Ela ainda conseguiu esboçar um pequeno sorriso em sua direção, antes de se agachar perto de Oliver e verificá-lo. Eu ainda continuava estática no lugar, vendo a cena transcorrer.

Diggle e o homem franzino, não perderam tempo e logo estávamos sendo libertados por eles dois também. Curtis como uma pessoa que adorava atenção, já estava caindo no chororô, contando inúmeras lorotas sobre o quão aterrorizado havia sido por Ra's Al Ghul e Damien.

Ele fazia parecer até que os caras estavam todo esse tempo só atrás dele e não da família Queen.

— Felicity? Você está bem? — Diggle estalava os dedos diante os meus olhos, tentando chamar a minha atenção.

Atordoada, pisquei e finalmente o encarei.

— Desculpe, só me perdi aqui por um momento...

Ele me lançou um sorriso gentil.

— É entendível, você acabou de sair duma situação atípica e traumática, é normal se sentir meio desorientada.

Morrer ouvindo Curtis se esgoelando? Bota traumático nisso!

— Sr. Lance! — Ouvi Tommy gritando — O que está fazendo aqui?

Interessada, virei na direção da onde sua voz vinha. Sr. Lance não era suposto ser o pai de Laurel e...Sara?

— Aparentemente salvando minha filha de se tornar viúva antes do tempo. — O homem franzino de mais cedo, que agora reconheceria como o tal Sr. Lance, falou. Sua expressão não era muito amistosa.

Sem graça, observei quando Tommy colocou as mãos na nuca e soltou uma risadinha. — Pense pelo lado bom, você salvou seu genro e sua filha mais nova, tudo num mesmo pacote!

— E o outro ex-playboy que você tanto odeia! — Oliver acrescentou, levantado-se do chão com a ajuda de Dinah e acenando para Lance com a sua mão boa. Um sorriso idiota enfeitava o seu rosto.

O Sr. Lance o olhou como se sentisse alguma dor.

Diggle soltou uma risadinha e me explicou:

— Quentin Lance não é muito fã de Oliver após o mesmo namorar suas duas filhas. Ao mesmo tempo.

Eu também não seria fã dele.

— E Tommy?

Diggle inclinou a cabeça, e eu conseguia ler um "Sério que você me perguntou isso?!" escrito na sua testa.

— Você conhece Tommy? Dez minuto ao redor dele e você já sabe que algum desastre vai surgir.

Ele tinha razão, mas o mesmo acontecia quando as pessoas estavam ao meu redor, portanto, guardei silêncio. Milagrosamente. Minha língua não era lá muito cooperativa em assuntos delicados.

— Não que eu esteja reclamando da ajuda de vocês — Agora livre de suas amarras, Thea colocou as mãos na cintura, olhando de Diggle para Lance. —, mas como sabiam que estávamos em apuros?

Boa pergunta!

— Ah, essa eu posso explicar! — Dinah se ofereceu, esboçando um largo sorriso. — Faço parte da força tarefa de Central City e pelos últimos meses estive investigando os passos de Damien Darhk, minha aparição aqui em Lian Yu durante o último festival, foi apenas um disfarce. Precisava conhecer o terreno. — Ela lançou um rápido olhar apologético para Rene, que com certeza começava a se sentir traído ao saber que somente foi usado; Curtis já estava soltando suas típicas risadinhas de deboche. — Quando fiquei sabendo que todos vocês haviam sido sequestrados, pedi reforços e por isso o Sr. Lance e toda uma força conjunta entre nossas equipes estão aqui.

— Sim — Lance assentiu, com um ar consternado —, nossos policias estão lá fora cuidando da prisão de Damien e Ra's. Mas eu queria saber de verdade é como todos vocês pararam nessa situação, se o alvo deles sempre foi Oliver ou Thea.

Oliver começou a tossir loucamente tentando esconder uma risada. Já os outros não tiveram tanto trabalho assim em disfarçar. Com o rosto em chamas, eu senti vontade de cavar um buraco e me enterrar viva.

— Felicity tem um pouco a ver com isso. — Barry, sempre muito solícito (até demais da conta) respondeu ao Sr. Lance, apontando pra mim.

— Um pouco a ver? — Curtis bufou — Essa daí tem TUDO a ver com a nossa parada no cativeiro ralé.

Infelizmente, para o meu grande azar, bastou meia palavra para o Sr. Lance sacar as implicações por trás das palavras de Curtis. Em silêncio, ele me avaliou de cima a baixo, aquecendo mais ainda o meu rosto que a este ponto já deveria estar roxo. Fantástico.

— Parece que mais uma garota caiu no feitiço do Queen, hein? — Debochou, e apesar da voz soar divertida, seu olhar não era.

Uh-hm, entendia porque Tommy temia o próprio sogro.

Thea sorriu.

— Ah, não detetive Lance! Dessa vez quem caiu no feitiço foi o meu irmão!

Me. Matem.

Com a mão boa, Oliver começou a acenar novamente.

— Sabe, ainda estamos aqui. E não é educado falarem da vida dos outros assim.

— Você incomodado com a educação, Queen? — Sr. Lance deu uma risada seca — Essa é boa. Se eu bem me lembro, uma vez você e Tommy não ligaram pra educação ao andarem em um parque púb-

— Okay, bom ponto. — Oliver o interrompeu, apressado. Um sorriso ensaiado enfeitava os seus lábios.

Sr. Lance estalou a língua nos dentes. — Sim, foi o que eu pensei. De qualquer forma, é bom que alguém finalmente conseguiu te pegar pelas bolas, garoto.

Bem, pegar pelas bolas não consegui ainda não, mas isso seria questão de tempo...

Thea começou a fazer sons de vômito.

— Ugh Felicity, pare de falar essas coisas do meu irmão perto de mim!

Oh merda!

— Por mais que eu aprecie tirar sarro de Felicity ou de Oliver — Começou Tommy lentamente, desviando a atenção do povo, para a minha imensa felicidade — , é melhor pararmos com esse freak show. Tenho um depoimento para fazer e uma esposa para apaziguar.

Sr. Lance fez um som engraçado, fitando divertidamente Tommy.

— Apaziguar? Você quis dizer correr, certo?

Bem diante aos meus olhos, vi o meu amigo murchar e encolher.

— Numa escala de um a dez, o quão irritada ela está comigo? — Ele quis saber e solidário, Lance começou a dar tapinhas leves em suas costas.

Ok, na realidade, os tapas não se pareciam nenhum pouco leves. Estavam mais para socos destruidores de ossos.

— Onze, garoto. Ela está te esperando em casa segurando um taco de baseball.

— Foi o que eu imaginei...— Ele suspirou fracamente, com um olhar perdido — Maldito taco de baseball!

— Sim, maldito taco de baseball. — Oliver começou a rir da cara de Tommy, até que parou bruscamente — Espera aí um pouco! Depois de tudo que passamos, eu torci o meu pulso pra nada?!

Foi a vez de Tommy rir. E de todo o resto, com exceção da minha pessoa, é claro. Mas isso se devia somente ao fato de que talvez eu tenha conseguido disfarçar minhas risadinhas com tosses.

(...)

Aparentemente quase ser morto não te dava passe livre na casa Merlyn-Lance. Nos esperando com um ar aborrecido e com um taco de baseball na mão, estava Laurel sentadinha ao lado de minha mãe, na varanda da fazenda. Diferente dela, mamãe nos inspecionava com um sorriso gentil (isso é altamente suspeito!) e uma xícara de café no colo.

Devo confessar: A visão me deu medo.

— Meu Deus. — Tommy soltou de repente, parando no meio do caminho. Ele também olhava apavorado para a cena que o aguardava — Teria sido melhor se eu tivesse torcido o pulso. Ao menos Laurel teria um pouco de misericórdia por mim.

— Ou terminaria de quebrar o seu pulso. — Oliver cantarolou feliz, passando na nossa frente.

Tommy estremeceu.

— O pior é que ele tá certo.

Compadecida, passei um braço por cima do ombro de Tommy.

— Não se preocupe Tommy, ela jamais te mataria na presença da lei.

Ele riu incrédulo. — Felicity, a Laurel também é a lei.

Ok, ele tinha um ponto. Sem mais argumentos válidos, me separei de meu amigo e saí andando pra enfrentar logo de uma vez um segundo interrogatório — e bem mais sofrido, já que seria com a minha mãe.

Mas, estranhamente, a sorte decidiu me saudar e foi Curtis quem abriu o bocão para contar em detalhes toda a nossa aventura (obviamente de um modo bastante exagerado, mas cavalo dado não se olha os dentes né?!), enquanto Tommy ficava entre Thea e Oliver, tentando fugir dos olhares assassinos que sua mulher lhe enviava.

— Espera aí um pouco! — Laurel pediu de repente uma pausa do conto de Curtis — Tudo isso aconteceu por que Felicity pulou nas costas de um bandido para impedir que Oliver fosse sequestrado sozinho?

— Sim! — Todos responderam em uníssono.

— Não! — Soltei ao mesmo tempo.

Mamãe me fitou compadecida. — Bem querida, você não é a primeira e nem será a última mulher a cometer uma loucura por amor.

Deus, me mate. Esse dia não tinha como ficar pior e mais constrangedor!

— O que ela cometeu não foi loucura de amor, foi um assassinato em massa! — Curtis gritou, batendo a botinha.

Grunhi, em parte irritada e em parte ainda muito constrangida por estar tendo essa conversa com uma plateia.

— Não foi assassinato se ninguém morreu. — Pontuei, desejando internamente que alguém tivesse ME atingido. Doeria menos que ter essa conversa com mamãe, Sr. Lance, Dinah-A-Policial-Disfarçada-de-Civil e os curiosos que espreitavam ao redor, tentando saber com mais detalhes sobre o nosso sequestro que com certeza, já estava virando manchete em algum local.

Certamente em Star City, lar de Oliver e Thea.

— Felicity está certa. — Barry entrou na conversa — Ninguém morreu e o que aconteceu, aconteceu. Agora basta nós seguirmos em frente e esquecer isso, deixe que a polícia cuide de Ra's e Damien.

Era tão bom sempre poder contar com Barry como a voz da razão nessas situações onde eu era a louca desvairada que estava sendo exposta.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Falando em loucura.

Um grito interrompeu meus devaneios. Em alerta, Sr. Lance, Diggle e Dinah olharam na direção que vinha o som grotesco e nada impressionada, vi Akio correndo no horizonte. Sacudindo os braços e com a matraca bem abertona, ele corria em nossa direção como se o próprio satanás estivesse em seu encalço.

— Eu vou querer saber quem é esse moleque e por que ele está gritando? — Sr. Lance murmurou com um ar cheio de pesar.

Ele poderia não conhecer Akio, mas deveria já ter detectado que o pirralho era um problema ambulante. Não que eu fosse algum exemplo.

— Provavelmente não, mas certamente algo deve estar errado para fazer Akio gritar. — Disse Barry preocupado — Geralmente é ele quem faz alguém gritar, não o contrário.

— Por que tenho a sensação de que eu não vou querer descobrir o motivo da gritaria dele? — Oliver assoviou, beliscando a ponte de seu nariz e fechando os olhos. Antes mesmo de saber da nova aventura de Akio, ele parecia com dor.

Tudo bem, eu o entendia. Também estava. Akio era uma pedra gigantesca e dolorosa na minha bota de cowgirl.

— O garoto é tão ruim assim? — Dinah quis saber, nos fitando com olhos curiosos.

Rene gemeu. — É pior.

Sem poder ter mais chances para alguma explicação da parte de Rene, Akio nos alcançou. Seus olhos estavam arregalados, sua respiração ofegante (pela corrida, eu supunha) e feito um boneco de posto, ele agitava seus braços sem parar.

— Vocês não vão acreditar no que aconteceu no galinheiro!!

Barry olhou para o céu. — Deus misericordioso me dê sabedoria para conseguir fazer essa pergunta. — Ele voltou a encarar Akio — O que aconteceu no galinheiro?

Akio abriu a boca para responder, até que parou e seus olhos piscaram loucamente na minha direção.

— É verdade que vocês foram sequestrados?

— Sim. — Oliver respondeu por mim e só para confirmar, mostrou o punho enfaixado — Tenho como prova o meu pulso levemente torcido.

Akio cerrou os olhos, estudando por um tempo Garanhão e o seu pulso.

— Hm, legal. — Soltou finalmente, dando de ombros. Quase ri da sua atitude.

Acho que ele começara a admirar Oliver mas jamais admitiria isso em voz alta.

— Akio! — Rene exalou exasperado o nome do pestinha — O que diabos aconteceu no galinheiro pra fazer você sair gritando daquela forma?

Voltando a fazer com o que os seus olhos ficassem um pouco loucos mexendo-se de um lado para o outro, Akio exclamou:

— A pata fez algo sobrenatural!

Barry gemeu, subindo os olhos novamente para o céu.

— Oh Deus todo poderoso, me ajude a seguir em frente com esse questionário. — Soltando uma última respiração profunda, Barry voltou a prestar atenção em Akio. — Que coisa sobrenatural?

— Espera aí um pouco! — Sr. Lance interrompeu, fazendo Akio fechar a boca mais uma vez. Com um olhar confuso, nos encarou. — Por que um pato estaria num galinheiro?

Laurel soltou uma risadinha marota, o que pareceu encher Tommy de esperanças, já que ele se afastou ligeiramente de Oliver para observar sua esposa.

— Papai, isso não é o que você está pensando. A pata na realidade é uma galinha.

Uma galinha demoníaca, acrescentei em pensamento, sentindo arrepios só de pensar naquele ser maligno que finalmente conseguira assustar Akio — outro ser igualmente maligno, que vivia em pé de guerra com o animal pra ver quem tocava mais terror em Lian Yu.

— Fui eu quem a nomeou! — Mamãe compartilhou alegremente, com um sorriso que eu conhecia muito bem...Olhei Sr. Lance de soslaio e poderia jurar que vi o canto de sua boca levantar em um sorriso discreto.

Oh merda.

— Akio, continue com a sua história, por favor. — Pedi (mais para implorei) com a voz esganiçada.

Novamente, com os olhos loucos e agora também se movendo de um pé a outro, Akio finalmente abriu a matraca:

— A PATA CHOCOU OVOS!

Pisquei.

— Sim, claro, nada estranho. Ela vive chocando ovos podres. — Dei ênfase na última palavra, fazendo careta.

— Essa criança só pode ter tido algum ataque de açúcar no sangue pra agir dessa forma por conta de ovos podres. — Sr. Lance resmungou, olhando de forma desaprovadora para Akio, que retribuiu o olhar com desdém velado.

— Afinal de contas quem é esse velhaco? — Questionou, prestes a fazer um gesto rude para o policial, mas felizmente, Barry correu em sua direção e segurou suas mãos.

— Akio, controle-se! — Mandou — Ou farei você limpar tanta merda de vaca que você sairá daqui com merda até o pescoço.

Uau, ele definitivamente era filho de Henry.

— Nossa tio Barry, pra que toda essa agressão? — O pirralho ainda teve a audácia de se sentir ofendido — Venho aqui na maior boa intenção dar uma notícia incrível e sou recebido assim...Se me odeia, me fala tá?!

Meu. Deus.

A gargalhada alta de Oliver resumiu bem o estado de espírito que qualquer um se encontrava após o teatrinho dramático de Akio. Nem o próprio Barry conseguiu disfarçar os lábios trêmulos.

Pacientemente, Akio esperou que todos nós terminássemos de rir (na verdade, não. Ele batia o pé incessantemente no chão e sua boca estava na forma de um bico enorme), para retornar o assunto:

— Então, como eu ia falando...PATA CHOCOU OVOS! — Gritou agitado, balançando os braços e quase atingindo Barry no processo. Acho que foi de propósito. — OVOS DE OURO!

— Oh meu Deus. — Murmurei espantada, me agachando para ficar na altura de Akio. — Você andou bebendo água da privada? Garoto, eu disse pra você parar com isso!

Seus olhos cresceram igual dois pires e o seu rosto ficou vermelho tinto. — Felicity, isso só foi UMA vez! E eu tinha quatro anos!

Obviamente, Curtis não resistiu a nova informação sobre o pirralho e soltou uma gargalhada altíssima, enquanto apontava para Akio:

— A criaturinha das trevas já bebeu água da privada? — Riu mais ainda — Isso explica bastante coisa! — Exclamou. A essa altura lágrimas escorriam pelo o seu rosto.

Com uma expressão venenosa, Akio se aproximou de Curtis.

— E você Animal Silvestre, qual é a sua desculpa pra ser assim?

Curtis abriu a boca incrédulo, parando imediatamente de alegria.

— Seu polícia, eu vou bater nesse garoto. — Ameaçou e Sr. Lance deu de ombros.

— Faça o que quiser, já percebi que esse lugar é bastante...Diferente.

Tenho certeza que ele quis dizer louco.

Voltando a ignorar a existência de Curtis, Akio virou para Barry. — Eu tô falando sério tio, a pata chocou dois ovos de ouro!

— Ou ela simplesmente cagou em cima deles. — Rene pontuou, cético.

Akio bufou.

— Eu sei muito bem a diferença entre titica de galinha e ouro!

Ata, isso era uma enorme mentira.

— Akio, você nunca viu ouro na sua vida. — Eu disse, cruzando os braços.

Mentir era feio, a menos que fosse eu mentindo, aí era relevante e talvez até bonitinho.

Exasperado, Akio jogou as mãos para o céu para logo em seguida descê-las em direção ao bolso de sua bermuda.

— Eu não tô mentindo! Se quiser, posso provar pra vocês! Venham comigo até o galinheiro e verão os ovos.

Conhecendo Akio do jeito que eu conhecia, ele poderia muito bem estar apenas nos atraindo para uma armadilha. Ele adorava pregar peças. E geralmente elas eram bastante épicas.

— Bem, acho que não temos nada a perder né? — Tommy se manifestou, ficando ao lado do pirralho.

Apostava todos os meus livros que ele só se sentia disposto a correr o risco em dar corda pra Akio, porque não queria ficar muito tempo perto de Laurel segurando um taco de baseball. Não sabia ele que sofrer pelas mãos de Akio, seria mil vezes pior.

Com malícia, Oliver olhou para Tommy, certamente chegando a minha mesma conclusão.

Barry esfregou a testa.

— Okay, tudo bem Akio, vamos até o galinheiro mas se eu descobrir que essa é mais uma das suas...

— Você vai me enterrar em merda. — Akio completou, num tom azedo e Barry assentiu com a cabeça.

— Sim, garoto, eu vou.

(...)

Estava inclinada a acreditar que se houve um momento na minha vida em que eu pudesse me sentir, pelo menos, um pouquinho semelhante aos astronautas que pousaram na Lua pela primeira vez, seria esse.

— PUTA MERDAAAAAAAAAA!!!!!

O berro de Curtis explicava bastante a situação.

— O pentelho estava falando a verdade! — Rene exclamou incrédulo, admirando os ouros em forma de ovos, na sua mão.

Desde o momento em que pisamos no galinheiro e nos deparamos com os supostos ovos, cada pessoa no recinto teve o seu momento para analisar o que poderíamos chamar de pequeno milagre ou alucinação coletiva.

Thea piscava, ainda embabascada com o giro de 360° dos acontecimentos. Não a culpava, também começava a sentir uma leve vertigem — mas talvez fosse porque não comia nada desde que fui liberta do cativeiro...Vai saber né?!

— Isso não faz o menor sentido! Não pode ser verdade que a Pata chocou dois ovos de ouro.

— Alguém certamente colocou o ouro aqui. — Sr. Lance deu sua opinião, olhando criticamente todos os cantos do galinheiro.

Como o esperado, tivemos que evacuar Pata para fora, só assim poderíamos garantir a nossa segurança e integridade. Não fazia ideia como Akio aguentou ficar aqui dentro a sós com a maldita por mais de cinco minutos para descobrir o ouro. No entanto, não queria parar e perguntar. Tinha medo da sua explicação.

— Com certeza, essa é a resposta mais lógica. — Garanhão concordou, com as mãos na cintura. Ele tinha um vinco profundo na testa.

Arqueei uma sobrancelha.

— Essa resposta seria a mais lógica caso aqui em Lian Yu tivesse alguém rico o suficiente para doar dois ouros em formato de ovos grandes e gordos, como se não fosse nada.

Roy suspirou, tomando um dos "ovos" da mão de Rene.

— Felicity tá certa, as chances de alguém por aqui ter dinheiro ou ouro à disposição, são quase as mesmas da Laurel esquecer que precisa dar uma surra em Tommy.

Meu. Deus. Agora Roy conseguiu assassinar Tommy de vez.

Tommy se engasgou e como se Oliver fosse uma sólida armadura — dependendo do ângulo e da ocasião, ele bem que poderia ser -, se escondeu atrás dele, desviando-se mais uma vez das olhadelas assassinas que recomeçava a receber de Laurel.

Oh sim, ela não esqueceria de lhe dar um sacode com o taco.

Os olhos de Barry pousaram no meu Garanhão.

— Oliver, você tem algo a ver com isso?

Arregalei os olhos. Como não pensei nisso antes?! Em expectativa, fitei meu homem.

— Eu? — Ele parecia surpreso — É claro que não! Estava tão ocupado quanto você tentando sobreviver a um sequestro.

— Ah....

— Mas quem garante que o ouro foi colocado aqui durante a ausência de vocês? — Sr. Lance levantou a questão impertinente, me deixando impressionada com suas habilidades de investigação.

Finalmente conhecia um policial de verdade!

Rene estreitou os olhos. — Impossível, checamos esse galinheiro praticamente todos os dias. E se eu ou Barry não estamos aqui pra fazer isso, tem os outros empregados. Eles nos contariam se tivessem visto alguém estranho pisando na fazenda.

— Então a galinha realmente chocou ouro? — Thea perguntou num tom ansioso. A qualquer momento podia visualizá-la sacando o celular de seu bolso e filmando a coisa toda.

Oliver soltou um grunhido. — Estamos em algum filme da Disney agora e alguém esqueceu de me avisar?

Era ruim pensar que mesmo zangado ele parecia maravilhoso?

— Sim, você é o dragão que tenta roubar a donzela. — Akio respondeu cheio de atitude, parando bem na frente do meu Garanhão.

A cena era ridícula, já que Oliver era um gigante perto de Akio, então logo, poderia comparar sua reação com a mesma de um chihuahua vendo um pitbull na sua frente pela primeira vez. Como disse: Ridículo.

Contrariando as expectativas do pirralho de levar um cascudo, Oliver apenas piscou e depois riu de leve, como se também visse em Akio um chihuahua raivoso.

Tomando cada ovo da mão de Roy e Rene, Barry parou para analisá-los.

— Esses dois ovos devem custar caro no mercado. — Ele meditou baixinho, sem desviar os olhos dos objetos em mãos.

Sem entender, observei quando o olhar de Oliver disparou na direção de Diggle.

— E supondo que eles de fato tenham sido chocados por Pata e não pertençam a ninguém, logo... — Laurel começou, solícita. Mas ela não precisou nem terminar a frase pra minha ficha cair.

Chocada, gritei:

— ELES SÃO SEUS, BARRY!

— EU FALEI! EU SEMPRE SOUBE QUE ESSA GALINHA CHOCARIA OVOS DE OURO! — Mamãe chorava copiosamente, sem sombra de dúvidas recordando todas as histórias que ouviu de suas ancestrais sobre galinhas que chocavam ouro.

— PUTA MERDA! — Rene assoviou — Você vai poder pagar todas as dívidas!

Oliver soltou uma risada alta, indo abraçar Barry.

— Espere só o quanto de publicidade Lian Yu ganhará quando essa história dos ovos vazar! — Comentou, separando-se do meu amigo e com um sorriso enorme enfeitado no rosto. Jamais havia visto Oliver sorrir desse jeito.

Acho que meu coração perdeu uma batida. Só para conferir, eu discretamente levei minha mão até o peito e sim, tava tudo certo, o danadinho continuava batendo.

Em clima de comemoração, todos foram abraçar Barry, quem ainda parecia desnorteado com a nova realidade que enfrentava. Pacientemente, esperei a minha vez e quando ela finalmente chegou, pulei na sua direção, lhe dando um abraço sufocante.

— Barry, nós não vamos perder a fazenda! — Berrava feito louca, ainda sufocando meu melhor amigo barra quase irmão. — Estamos salvos!! Pata nos salvou!!! Um milagr-

— Sai daí sirigaita que chegou a minha vez! — Curtis me empurrou de lado, caindo em cima de Barry, pronto para se aproveitar da situação alegre.

Eu poderia até ter quebrado o pau com o malandro após esse ato de alta traição, mas decidi que o melhor era ir pro lado do meu Garanhão e imitar sua safadeza, aproveitando-me da ocasião feliz para tirar mais uma casquinha de Oliver. Porém antes...

Caminhei até o seu lado e num tom malicioso, recordei:

— Ei, Oliver, se lembra quando me disse que só acreditaria nas visões de Nyssa quando Pata chocasse ovos de ouro?

Porque eu me lembrava como se fosse ontem.

"— Francamente! — Exclamou, exasperado. — Como vocês acreditam piamente no que essa mulher diz?! — Passou as mãos no cabelo, nervoso. — É frustrante, delir-

— Você não entende! — O cortei, igualmente irada por estarem colocando os dons de Nyssa em cheque. E também porque...Bem, ele não entendia!

— É claro que eu não entendo! — Grunhiu — Não sou louco o bastante como todos vocês. — Ele precisou de alguns segundinhos para respirar, até estreitar os olhos na minha direção. — Quer saber? Só vou acreditar nessa mulher, quando Pata chocar ovos de ouro."

Fan-foda-tástico!

Lentamente, ele girou sua cabeça para me olhar. Sua postura era rígida, mas pude identificar um brilho atrevido em seus olhos.

— Eu disse isso? Não consigo me recordar...

Que cara de pau!

Levei minhas mãos até a cintura e pude notar, de soslaio, Diggle começar a rir.

— Ah mas você não lembra? Quer que eu refresque a sua memória, Sr. Queen? Porque me lembro palavra por palavra.

Ele simplesmente me olhou por um longo minuto, até curvar os lábios no seu característico sorriso sacana. Senti minhas bochechas esquentarem automaticamente e um alerta soou na minha mente.

Nunca era um bom sinal (PARA A MINHA PESSOA) quando Oliver ficava assim.

— Pensando melhor, eu posso ter me lembrado sim de algumas coisas, mas não são bem de palavras não...

Puta que pariu, eu falei!

Sua insinuação, até mesmo para Diggle que não estava presente no exato dia, ficou clara. A cena do nosso primeiro beijo começou a dar replay de forma incessante na minha mente. Se anteriormente minhas bochechas estavam em brasas, agora minha cabeça havia se tornado a primeira cabeça-tocha-humana do planeta.

"Meu estômago se comprimiu e tive que me concentrar para os meus joelhos não dobrarem.

Ele puxou minha nuca e antes que eu soubesse, nossos lábios estavam colidindo no beijo mais esplendoroso que receberia em toda a minha vida."

Naquela época, pensava que o beijo havia sido o mais esplendoroso de toda a minha vida...E eu estava certa. Todos os beijos de Oliver eram marcantes, mas o nosso primeiro...Fiz um som com a garganta, tentando tirar minha mente da sarjeta.

— Acho melhor mudarmos de assunto, há uma criança ao redor. — Pedi mas era claro feito o dia que eu não estava falando isso por Akio.

E o pequeno sorriso que vi enfeitar o rosto de Oliver, comprovou que ele também sabia disso.

Me salvando de mais um momento constrangedor, Thea parou ao lado de Oliver, o cutucando.

— Espera só até mamãe ouvir essa história, ela ficará louca!

E foi só aí que a realidade me atingiu: Barry já não precisava mais de Oliver...O que queria dizer que ele estava indo embora. Logo.

MEEEEEEERDA!

Engoli em seco, sentindo o meu estômago dar um solavanco preocupante.

— Acho que eu vou vomitar. — Anunciei para ninguém em particular. Mas num minuto, Oliver já estava na minha frente, me segurando pelo braço.

— Oh meu Deus. — Ouvi o Sr. Lance gemer — E lá vem Oliver engravidando mais uma garota...

Suas palavras serviram como um solavanco maior e os meus olhos dispararam.

Acho que me recuperei! Milagres existem!

— VOCÊ É PAI?!

— NÃO! — Oliver gritou de volta, frenético, intensificando o aperto no meu braço — só não sei se era pra me sustentar, ou para ELE se sustentar em pé. Ele encarou o policial. — E aquilo foi só uma vez, Sr. Lance! — Tornou a virar pra mim — Não se preocupe, o bebê não era meu.

Não me preocupar? Não me preocupar...NÃO ME PREOCUPAR?!

— Você tem certeza absoluta que não é pai de nenhuma criança? — Quis saber, mas minha mente já não estava mais nessa questão. Ou aqui.

Parecia que eu tinha ido dar um passeio na zona twilight, onde eu apenas mexia minha boca por mexer e deixava o som escapulir, só para manter Oliver falando. Aqui. Comigo. Agora.

Deus, ele iria embora.

— Por que vocês estão falando de bebês? — Era a voz de mamãe.

— OHMEUDEUSOLIVEVAISERPAI! — Tommy.

— É o que????? Felicity tá grávida???? — Barry.

— CARACA, A FELICITY TÁ DANDO PRO GOSTOSÃO FAZ QUANTO TEMPO??? — Curtis.

— FELICITY TÁ DANDO O QUE E PRA QUEM? — Akio.

— EU VOU SER TIA? — Thea.

— Acho que Felicity está em choque... — Diggle.

— SUA MÃE VAI TE MATAR! — Roy.

— Esse lugar é definitivamente um hospício camuflado em fazenda. — Sr. Lance.

— NÃO EXISTE NENHUM BEBÊ! — Oliver berrou, finalmente perdendo as estribeiras, e fazendo-me pular e recuperar meu senso de realidade. Notando minha reação, ele soltou o meu braço, mas não sem antes fazer uma rápida inspeção de cima a baixo em mim. — Você está bem?

— Isso é discutível. — Respondi, soltando uma risada forçada.

Assisti Oliver me observar atentamente, até um olhar de compreensão marcar todo o seu rosto.

MIL VEZES MERDA!

Quanto mais cedo tocássemos no assunto que estava aterrorizando minha mente, mais cedo ele terminaria, portanto...Fiz a coisa mais sensata do dia:

— Nossa, lembrei que tenho que fazer uma coisa! — Exclamei, de modo teatral — Vejo vocês mais tarde!

Saí varada.

(...)

— Toc, toc.

Isso só podia ser sacanagem, pensei ao ouvir o som da voz de Oliver na minha porta. Fazia horas em que busquei refúgio no meu quarto, tentando avaliar o novo cenário que a suposta partida de Oliver me deixaria.

Normalmente, adoraria saber que ele estava a uma porta distante da minha cama, mas atualmente decidi me fingir de morta. Ainda precisava de tempo para pensar num plano mirabolante digno de oscar. Passar sete horas trancada no quarto, olhando pro teto, não havia sido suficiente para me fazer pensar em algo bom.

Talvez eu devesse apelar pra uma artilharia mais pesada e chamar Curtis para me ajudar, refleti, girando meu cabelo ao redor do dedo.

— Felicity, eu sei que você está aí dentro, então é melhor você me falar logo que está pelada, senão eu vou entrar. — Pausa — Pensando bem, acho que não tem problema se eu entrar com você pelada aí.

Uau, eu e Oliver havíamos de fato percorrido um longo caminho para ele conseguir admitir em voz alta que gostaria de me ver nua.

Mais animada do que gostaria de estar (pelo menos no momento né? sosseguem hormônios!), pulei pra fora da cama, bati nos amassados da minha blusa e aproveitei a chance para ajeitar meus peitos. Quando vi que Mariah e Carey estavam no lugar (meus peitos, estou falando dos meus peitos), abri a porta para Oliver.

É óbvio que o homem não havia ficado menos bonito com o passar das horas e mais óbvio ainda que um suspiro escapou da minha boca ao analisá-lo de perto.

— Definitivamente continua bonito. — Falei como saudação e Oliver riu.

— Obrigado, você também.

Sem cerimônias o Sr. Molho Calcinhas, entrou no meu quarto, escolhendo minha cama para se sentar, dando-me uma visão bastante interessante. Em todas essas semanas de relacionamento-não-relacionamento, ele jamais entrou no meu quarto. Foi como se o lugar ou fosse sagrado ou tivesse a peste bubônica, o impedindo de chegar perto.

— Um elogio e você visitando o meu quarto...É o apocalipse? — Brinquei, tentando camuflar minha satisfação.

Oliver elevou uma sobrancelha. — Pode-se dizer que sim, afinal, temos uma galinha que chocou ovos de ouro.

Foi a minha vez de rir.

— Conte com a Fazenda Allen se você está em busca de milagres.

— Ou de surpresas. — Retrucou num tom que era difícil identificar alguma emoção. Sua expressão facial também não me dizia nada.

Oh merda, parecia que minha animação com a sua visita ao meu quarto, iria sair numa viagem para Marte.

Forcei mais uma risada. — Isso é bom ou ruim?

Ele encolheu os ombros.

— Depende.

Fantástico, meu alarme de "Coisas ruins irão acontecer" apenas disparou com a sua resposta. Animação, será que você poderia me levar junto para Marte?

Caminhando em direção a minha cama, comecei a tentar invocar Curtis e Akio mentalmente (que foi? ouvi dizer que demônios são invocados assim), aceitando qualquer desculpa para evitar tomar a direção que esta coversa estava indo.

— Depende? Agora eu estou ofendida.

— Não se preocupe, você é a parte boa da fazenda Allen. — Pausa — Quero dizer, na maioria das vezes.

Ofeguei, detectando a ofensa disfarçada. Ao que parecia, Oliver jamais superaria minha fase perseguidora...Tudo bem que teve ALGUMAS VEZES em que eu exagerei, mas no final tudo se resolveu né?!

— Nem tudo se resolveu, Felicity. — Droga, de novo minha língua havia acompanhado o meu cérebro! — Precisamos conversar.

AKIO, AKIO, AKIO, CURTIS, CURTIS, CURTIS.

Lentamente, me sentei na ponta da cama. Sei lá, de repente uma fuga estratégia acabasse rolando, isso é claro, se o meu cérebro resolvesse funcionar propriamente.

— Sobre o que? — Banquei a idiota — Aliás, o que aconteceu depois que eu saí do galinheiro?

Acho que o melhor método agora era tentar ganhar tempo para conseguir me aproximar da janela e me jogar pra fora dela.

Uma sombra desagradável passou pelo rosto de Oliver, fazendo-me estremecer.

Definitivamente a merda iria voar pelo ventilador.

— Você quis dizer quando você fugiu do galinheiro, certo? — Retrucou calmamente. Abri a boca prestes a tentar me defender, no entanto, ele não deixou. — Sr. Lance foi para casa de Laurel junto a família; Thea, Roy, Diggle e Dinah foram até a cidade espalhar as boas novas. — Suspirou, encolhendo os ombros e continuou — Quanto ao resto de nós...Respondo por mim quando falo que ajudei Barry a organizar todos os documentos financeiros necessários da fazenda, enquanto apreciava a culinária de Donna.

As notícias eram ótimas, exceto por uma. Respirei fundo, decidindo finalmente encarar essa situação de frente.

Quer dizer, eu preferiria enfrentar ela de costas e a dez passos do inferno, mas como não iria rolar...

— Agora que Barry não precisa mais de ajuda financeira e muito provavelmente vai poder contratar um administrador, você vai embora? — Joguei logo na lata, cruzando os dedos para ele responder que não e realizar todas as minhas fantasias não-tão-secretas assim.

Suas lazúlis me estudaram por um longo tempo (e eu juro, senti o suor escorrer pelas minhas costas!), até ele explodir a bomba bem na minha cara:

— Sim, minhas malas já estão prontas. Vou embora amanhã pela manhã.

E esta é a história de como Oliver Queen conseguiu arrancar meu coração e minha língua, tudo numa tacada só. Sim, esse homem é porreta mesmo. Merece um prêmio em forma de marretada na cara.

Inerte, fiquei o encarando por alguns bons minutos, com a minha mente num turbilhão.

Não saberia o que falar nem se minha língua estivesse em pleno funcionamento. Esse homem sentado diante de mim, me olhando intensamente, era supostamente o homem da minha vida. Nyssa havia previsto, me jurado.

E mesmo assim, de alguma forma...

— Você só pode tá de sacanagem! — Disparei, incrédula.

"Surpreendentemente, após vinte quatro anos naquele vilarejo, algo por fim sussurrou no ouvido de Nyssa, deixando-me admiravelmente atordoada:

― Felicity Smoak, os espíritos mandam te avisar que o homem da sua vida acaba de se aproximar."

Ele piscou — Eu esperava outra reação da sua parte, talvez algumas lágrimas.

Bufei, cruzando os braços para me impedir de enforcar aquele homem.

— Chorar? Eu não vou chorar! Não sou nenhuma chorona.

Eu com certeza vou chorar mais tarde quando estiver sozinha, mas Oliver não precisava saber disso.

Ele balançou a cabeça, aparentando estar desnorteado — o que era uma grande piada. EU quem estava levando o fora aqui!

— Por que você sempre consegue me surpreender?

Porque eu fui feita para balançar o seu mundo. Não falei, apenas joguei outras palavras na sua direção.

— Por que você vai embora? — Para minha grande desgraça, a resolução de não chorar na frente do Sr. Molho Calcinhas, começava a ruir. Eu já conseguia sentir o nó incomodo se alojar bem na minha garganta. — Pensei que nós dois tivéssemos algo especial.

Não usaria a palavra que começava com A nem se o próprio Satanás parasse na minha frente e demandasse.

A sua expressão desanuviou-se um pouco, dando-me o vislumbre de alguma emoção (além de cinismo e incredulidade) por detrás daquela fachada compenetrada pela primeira vez desde o início desse calvário disfarçado de conversa.

— Felicity, eu sequer tive uma chance, você me teve com um Oi.

Cacete multiplicado por merda.

Constrangedor, mas meus olhos se encheram de lágrimas rapidamente e minha promessa sobre não chorar, SEM DÚVIDAS, estava saindo pela culatra.

— Se isso fosse verdade você sequer estaria pensando em ir embora!

Meu Deus, acho que daqui alguns anos eu iria me envergonhar disso. Já tinha lido romances o suficiente para saber que a atitude mais sensata nessa situação era desprezar o sujeito e fingir que não estava ficando abalada com a sua suposta despedida.

O que Jane Austen faria no meu lugar?

— Provavelmente me chutaria onde mais dói, empinaria o nariz e sairia me deixando sozinho com a minha miséria. — Respondeu Oliver, se afundando na cama como se a perspectiva de levar um chute nas bolas, fosse possível no momento.

O avaliei aborrecida. Talvez fosse.

Sem saída, Oliver fez uma careta e optou por continuar a se justificar. — Não posso ficar em Lian Yu, tenho responsabilidades em Star City. A empr-

— Tommy me contou que sua mãe o enxotou para fora da empresa. — O interrompi ferozmente, pronta para lutar.

Só não sabia se lutar COM ele ou CONTRA ele.

Deixa pra lá as lágrimas que estavam se formando antes!

— Ela não me enxotou! — Exclamou defensivo, fazendo uma ótima exibição das suas orelhas vermelhas. — Apenas me rebaixou de cargo.

Soltei uma risadinha cínica.

— Não foi isso que eu ouvi de Tommy.

Oliver estreitou os olhos.

— Tommy é um exagerado. De qualquer forma, é inegável que eu tenho uma vida em Star City e jamais disse que ficaria para sempre aqui.

Umedeci os lábios, sentindo uma enorme ânsia de levantar-me da cama e começar a caminhar pelo quarto, feito uma doida atrás de uma agulha no palheiro. Contudo, consegui me conter e permanecer sentadinha.

— Você é rico, pode fazer uma vida em qualquer lugar. — Argumentei e notei quando ele olhou pro teto, resmungando algo. Certamente um palavrão.

— Por que vocês tem essa impressão errônea de que eu sou rico? — Perguntou exasperado — Minha mãe quem é rica! Só ficarei rico quando ela morrer.

Quantos anos a velha tinha, ein? Brincadeirinha!

— Oliver, você pode obter metade dos lucros da boate que abriu com Tommy, já que tecnicamente ela também é sua.

Assisti quando ele beliscou a ponta do nariz e fechou os olhos por alguns segundos.

— Felicity, tecnicamente, eu posso ter dado a boate inteira para Tommy.

Arregalei os olhos, chocada.

— QUANDO ISSO ACONTECEU? — Berrei, finalmente pulando para fora da cama e desencadeando a mesma reação em Oliver, que quase atravessou a parede.

A cena teria sido até engraçada, se não fosse trágica.

— Caraca Felicity, vamos com mais calma aí! — Ele pediu, aparentemente tentando fazer o próprio coração parar de bater tão forte após o susto. — Entreguei todos os documentos dando totais direitos ao Tommy sobre a boate, hoje de tarde enquanto você estava aqui escondida no seu quarto.

Ah, merda. Parecia que muitas coisas poderiam acontecer em apenas uma tarde.

— Tudo bem — Disse lentamente, tentando por em ordem meu cabeção e quem sabe, soltar algo lógico pra essa GRANDE PROBLEMÁTICA —, se você não tem outro escolha além de voltar para Star City...Me leve com você!

Claramente meu cérebro não conseguiu sair com nada lógico. Na realidade, logo após as palavras deixarem minha boca, senti meu coração acelerar e os meus olhos saltarem.

PUTA MERDA!

Oliver se engasgou, totalmente chocado também.

— Felicity? Você tem uma vida aqui em Lian Yu, não pode estar falando sério!

— Foi só a emoção do momento — Gritei de volta, desesperada. Queria apagar essa parte da conversa. —, não falei sério! — Joguei as mãos no ar — Foram muitas emoções num período curto de horas. Não me culpe por estar meio despirocada da cabeça!

Ele soltou uma risadinha esganiçada.

— Meio despirocada é pouco.

Me ofendi.

— O que foi? Agora sou caipira demais para Star City?

Porra, eu percebi que foi a coisa errada a dizer quando seu olhar glacial me atingiu. Seu queixo ficou duro e seus olhos agora pareciam duas adagas feitas de gelo me fitando intensamente.

— Não, você é boa demais para Star City.

Agora ele tava tirando onda com a minha cara? Cretino!

— Boa demais? — Zombei — Oliver, eu sou apenas uma garota que fica tirando leite de vacas, colhendo ovos de galinhas, catando merda por aí e ocasionalmente batendo em Rene.

Se antes recebi o olhar glacial, agora recebi o olhar perfurante. Quase cedi e me dirigi até o meu espelho para conferir se não tinha nenhum buraco entre as minhas sobrancelhas.

— Não fale como se isso não fosse algo válido. Trabalho é trabalho. — Ele esfregou o seu queixo, tentando de alguma forma, aplacar sua frustração. — E você não é apenas a garota que tira leite de vacas ou cata merdas por aí, você é muito mais. — Suspirou — Durante todos esses meses, enquanto eu estive na sua presença, pude visualizar uma mulher forte, engraçada, decidida e inteligente. — Esqueceu do louca — Felicity, você tem o suficiente para conquistar o mundo.

Bem, quebrando as crenças populares, só consegui sentir um frio na barriga com as palavras dele. Esqueça a mocinha emocionada. Suas palavras me deixaram mesmo em pânico.

Como alguém poderia enxergar tantas qualidades numa pessoa só?! Pior, como ele conseguia enxergar tudo isso em mim?!

— Me diga Felicity — Continuou ele —, se você pudesse fazer qualquer outra coisa além de trabalhar aqui na fazenda, o que você faria?

BLACKOUT! BLACKOUT! MINHA MENTE DEU PANE! O SISTEMA ENTRARÁ EM COMBUSTÃO! EVACUAR!

Houve uma longa pausa, onde apenas nos encarávamos. Mas eu podia dizer positivamente que eu era a única ali parecendo um cordeiro prestes a cair na armadilha do lobo.

Oh céus, qual era o maior sonho da minha vida? A percepção de ter plena ciência de que jamais havia parado para pensar seriamente no que eu gostaria de fazer fora da fazenda, me atingiu duma maneira tão forte que tive que me sentar.

Infelizmente esqueci que não teria nenhuma cama ou cadeira esperando por mim e feito uma idiota, caí com tudo de bunda no chão.

— AI, PUTAMERDAMINHABUNDA!

É claro que Oliver ainda teve tempo de rir da minha desgraça, antes de ter coragem de chegar perto o suficiente para me levantar. Ele provavelmente desconfiava que suas bolas na minha mira corriam sérios perigo.

Com a bunda dolorida, mas agora acomodada no meu colchão, por fim, mirei Oliver com a minha melhor expressão de adulta (uma mistura de constipação e vontade de ter um ataque de pelanca) prestes a resolver um problemão:

— Nunca parei pra pensar no assunto seriamente. — Admiti, segurando o seu olhar com firmeza. Vambora Felicity, força no chapéu de cowgirl! — Quer dizer, quando se é criança você quer ser tudo, então a adolescência chega e você jura que já tem a sua vida resolvida, mas...

Ele assentiu. — Mas a vida acontece.

Meus ombros caíram, em derrota. Sim, a vida acontecia...Todo o tempo. E ela estava acontecendo justo agora.

— Felicity? — Ele perguntou baixinho, num tom gentil.

Mais triste do que jamais me senti, o respondi:

— Sim, Oliver.

— Eu espero que você acredite quando digo a mulher incrível que você é. — Ele tocou minha mão, com cuidado. Parecia ainda receoso sobre como se comportar quando sabia que eu era um barril de emoções conflitantes. — E que também acredito no seu total potencial. Sei que você quer ser feliz e ficar comigo, mas antes...Você precisa usar suas próprias asas para voar.

Suas palavras me fizeram recordar imediatamente um sonho que tive com ele, há muito tempo atrás...

"Oliver me olhava fixamente, em silêncio. E como o esperado, aquele olhar conseguiu causar o efeito desconcertante de esquentar o meu rosto e ativar cada célula do meu corpo, enviando choques até a ponta dos meus dedos. Interessante como um olhar — na realidade, o olhar -, da pessoa certa, causava um rebuliço de emoções. Esperava um dia causar o mesmo efeito sobre alguém. Especificamente sobre ele. Oliver Queen.

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— Que foi? — Perguntei, ao perceber que ele continuava quieto ao me encarar.

— Felicity, não se pode voar com as asas quebradas.

Ele disse finalmente e senti uma dor de cabeça chegando. Que diabos ele queria dizer com isso?!

Abri a boca, prestes a questioná-lo, quando o clima mudou drasticamente e uma tormenta começou a nos assolar. Com pressa em me proteger, levantei num pulo e quando olhei para baixo, especificamente o ponto onde Oliver estava, ele já não mais se encontrava."

O sonho tornara-se real. O problema, eu notei, é que ele nunca foi bem um sonho...

Sem mais alternativas, deixei que suas palavras se afundassem até o meu núcleo e sem precisar de mais nenhum argumento para tornar seu discurso válido, Oliver simplesmente me abraçou e eu o abracei de volta, sabendo que esse possivelmente seria o nosso primeiro e último adeus.

(...)

A última noite dos Queens na fazenda Allen, foi regada de comidas e risadas. Todos se reuniram, até mesmo Slade, o que acabou dando a impressão de que aquela não era uma despedida.

Durante toda a noite, Oliver não saiu do meu lado, tanto que me perguntei uma e outra vez, se ele tinha uma bexiga de aço. Diggle estava mais acessível que nunca, até mesmo bebeu alguns drinks que Tommy fez questão de preparar e participou ativamente das brincadeirinhas de Rene e Roy.

Thea por outro lado, se engajou numa longa e divertida conversa com mamãe, Sara, Nyssa e Laurel. Sei lá, parecia que elas estavam planejando um assassinato, de tão animadas.

Já Curtis se conformou em ficar hora no pé de Slade e hora no pé de Barry, o mais novo cara com dinheiro do pedaço. Ele literalmente estava dividindo seu tempo para encurralar os dois homens, com a diferença de que Slade parecia achar engraçada todas as suas tentativas...Já Barry parecia ao ponto de chorar.

No entanto, o martírio do meu amigo barra irmão postiço, terminou às duas da manhã, quando todos resolveram se retirar. Sabendo a implicação do fim dessa noite em especial, Oliver fez questão de me acompanhar até ao meu quarto e eu não precisei abrir a boca para pedir que ele ficasse pelo o resto da noite comigo.

Ele ficou, sem nenhuma palavra jamais sair da sua boca ou da minha.

E pela manhã, quando acordei, ele já tinha ido embora.

Notas finais
Antes de mais nada: CALMA. Esse NÃO é o final da história do nosso Sr. Molho Calcinhas e nem da nossa Barbie de Lian Yu. C-A-L-M-A. Tudo nessa fanfic acontece por um motivo. Como prometido, o capítulo novo tá aqui e o próximo provavelmente sai sexta ou sábado que vem. E como também havia perguntado (e recebi um bom feedback sobre a minha proposta): Vou começar a votação para quem o Barry deve ficar no final da fanfic. Basta acessarem esse link https://twitter.com/daisyantera/status/1217926716745797633?s=19 (Não precisam me seguir, nem se identificar, podem votar anonimamente sem problemas! Estabeleci cinco dias para durar a votação e a opção "Outra/ Outro final" quer dizer que ficará ao meu critério se Barry terminará com alguém e se sim, com quem (alguma personagem original ou alguém que não seja nem a Iris e nem a Caitlin). É isso gente, próximo capítulo será o último :/ espero que continuem me acompanhando até lá. Por enquanto, deixo beijos e abraços pra vocês! [E o link da votação, NÃO ESQUEÇAM. Estamos falando do futuro do nosso Santo MAculado KKKKKKKKK] PS: Quem assistiu o crossover? Tô triste demais com o final do Oliver....):